Os dados foram analisados por meio da análise de conteúdo do tipo temática ajustada. A análise de conteúdo é uma técnica de pesquisa que busca, por meios científicos, a frequência com que os núcleos de sentido são apresentados pelos dados, além de conferir validade à inferência mediante dados obtidos em determinado contexto e permitir a replicação desses dados.
Já a análise de conteúdo do tipo temática ajustada busca “descobrir os núcleos de sentido que compõem uma comunicação, cuja [simples] presença (...)
[signifique] alguma coisa para o objeto analítico visado” (MINAYO, 2014, p.
316). Isto é, o ajuste se faz necessário porque importa para a pesquisa não a frequência de unidades de registro, mas a sua significância, independentemente do número de vezes em que se manifesta.
Seis etapas classificatórias compuseram o meu processo de análise (MINAYO, 2014):
• Exploração do material: objetivei, nesta primeira etapa, me certificar de que o conteúdo bruto era pertinente para responder aos objetivos geral e específicos e se tinha representatividade – em face da certificação favorável, não houve necessidade de realizar nova coleta;
• Contaminação pelo material: realizei várias leituras intensas e extensas, de modo livre, desprovidas de qualquer forma de análise ou interpretação;
• Seleção das unidades: nesta etapa, selecionei as unidades de registro (unidades com significância: palavras, expressões ou frases) e de contexto (estratos mais amplos, nos quais estão as unidades de registro) – considerando que todas as perguntas dos instrumentos foram elaboradas com um propósito relacionado aos objetivos, a seleção de unidades de registro iniciou o processo de respostas aos meus objetivos;
• Codificação e agrupamento de códigos: nesse momento da análise, atribuí códigos às unidades de registro, com base em critério semântico, e fiz o agrupamento dos códigos por analogia;
• Exploração transversal do material: nessa última etapa, me afastei da codificação e retomei as transcrições para fins de leitura transversal, com o objetivo de verificar se, porventura, alguma pergunta havia sido elucidada em conjunto com outra(a) resposta(s);
Categorização: em um esforço de síntese, procedi à categorização.
A seguir, apresento dois quadros elucidativos (Quadro 1 e Quadro 2) sobre o modo como sistematizei as unidades e o modo como procedi à codificação das unidades de registro, em interlocução com as de contexto.
Quadro 1 – Sistematização da Análise de Conteúdo do tipo Temática Adaptada OBJETIVO ESPECÍFICO:
PERGUNTA DO INSTRUMENTO:
UNIDADE DE REGISTRO
UNIDADE DE CONTEXTO
CODIFICAÇÃO CATEGORIZAÇÃO Fonte: Liston; Henicka; Lima (2019).
Com base nas entrevistas com as 12 mães participantes da pesquisa, elaborei seis planilhas, cada uma contemplando um objetivo específico e a pergunta do instrumento relacionada a esse objetivo. Em cada planilha, retirei, a partir das falas das mães, as unidades de registro e unidades de contexto.
Após várias leituras e imersão nessas falas destacadas, realizei a codificação dos dados, na tentativa de encontrar uma palavra ou uma expressão que conseguisse resumir a fala. As seis planilhas podem ser resumidas no Quadro 2:
Quadro 2– Codificação dos dados
TEMA DA PLANILHA CODIFICAÇÃO Mãe de primeira viagem Solidão / Insegurança
Acompanhamento de rotina Facilidade / Dificuldade de acesso
Solução de dúvidas Insegurança na informação on-line / Comunicação on-line favorece vínculo Acesso ao prontuário Vínculo
WhatsApp / internet no dia a dia Comunicação on-line como ferramenta de vínculo e informação segura
Comunicação on-line com a UBS Facilitar acesso e vínculo / Desconfiança na informação on-line
Fonte: A autora.
Uma vez realizada a codificação dos dados das mães, passei à análise da entrevista coletiva grupo focal. Assumi, nesta análise, que não estaria elaborando uma planilha para fins de sistematização e codificação, mas procedendo a diversas leituras hermenêuticas (porque compreensivas), no sentido de buscar encontros e desencontros entre as falas das mães e as falas dos profissionais de saúde sobre o mesmo tema. Essa escolha se deveu ao fato de que o meu objetivo geral – analisar a possibilidade de comunicação on- line no cuidado pediátrico de bebês no primeiro ano de vida, na visão de mães e profissionais de saúde de uma Unidade Básica de Saúde da Atenção Básica (UBS/AB) de um município catarinense – seria respondido por meio de
objetivos específicos com os quais discutiria as potencialidades e fragilidades da comunicação on-line.
Ao dar continuidade ao processo de análise de dados, tendo como centro e objeto desta pesquisa a comunicação on-line, busquei diversos significados para potencialidades e fragilidades. Para fragilidade, o significado mais coerente com a pesquisa foi: incapaz de resistir (COBUILD, 2020). Já para potencialidade, o escolhido foi: possibilidade que algo tem de transformar a realidade (MOREIRA, 2020).
Dividindo, então, em dois grandes temas, potencialidades e fragilidades da comunicação on-line, desenhei as seguintes subcategorias da codificação:
1. Solidão e insegurança das mães são potencialidades para a comunicação on-line.
2. Dificuldade no acesso à UBS é uma potencialidade para comunicação on-line.
3. Diminuir a carga de trabalho para os profissionais de saúde e a fila de espera por uma consulta são potencialidades para a comunicação on-line.
4. Permitir que mães e profissionais de saúde tenham acesso ao prontuário do paciente é uma potencialidade para a comunicação on-line.
5. Fornecer informação sobre saúde do bebê e facilitar o acesso à UBS são potencialidades da comunicação on-line.
6. O atendimento realizado pelos profissionais de saúde da UBS por meio de acolhimento, consulta ou telefone, durante o horário de funcionamento da UBS, é uma fragilidade para a comunicação on-line.
7. Insegurança na informação on-line é uma fragilidade para a comunicação on-line.
8. Insegurança em relação a questões legais/deontológicas é uma fragilidade para a comunicação on-line.
9. Possibilidade de aumentar a carga de trabalho para os profissionais de saúde é uma fragilidade para a comunicação on- line.
10. Possibilidade de as mães deixarem de ir às consultas de puericultura por tirarem suas dúvidas por meio da ferramenta é uma fragilidade da comunicação on-line.
Com base em diversas leituras e releituras das falas das mães e do grupo focal, seguidas do esforço de agrupamento das 10 (dez) subcategorias, cheguei a uma categoria para, por meio dela, discutir e analisar os dados: DA INSEGURANÇA AO ACESSO DIGITAL À SAÚDE: COMUNICAÇÃO ON- LINE NA ATENÇÃO BÁSICA COMO FERRAMENTA PROMOTORA DE SAÚDE.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO