• Nenhum resultado encontrado

NOSSO VOTORANTIM

No documento Marcela Prates Braz.pdf - Univali (páginas 61-71)

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

O bairro dos Cordeiros é o mais populoso de Itajaí, com cerca de 37.000 habitantes (IBGE, 2019), e é considerado “distante”, apesar de estar apenas a cerca de 6 km do centro da cidade. Sua população é heterogênea, apresentando grande diversidade de perfil socioeconômico dentro do mesmo território. O bairro é formado por três grandes loteamentos: Jardim Esperança, Costa Cavalcanti e Votorantim (Figura 3). Este último encontra-se situado entre os limites do Rio Itajaí Mirim, os outros dois loteamentos do bairro e a Rodovia BR-101 (Figura 4). Provavelmente por ter essa localização tão próxima à principal via de entrada e saída do município, segundo o relato dos ACS e a nossa observação de campo, o Votorantim conta hoje com mais de vinte empresas de médio e grande portes que participam das mais diversificadas áreas de produção – entre elas, metalúrgica, logística, pescado, celulose e confecção de cordas (Figura 5).

Figura 3 – Imagem do loteamento do Votorantim

Fonte: <https://earth.app.goo.gl/uyGhJV>. Acesso em: 05/10/2019.

Figura 4 – Principal rótula de comunicação do Votorantim com a Rodovia BR-101

Fonte: A autora.

Figura 5 – Pátio da empresa WEG no loteamento do Votorantim

Fonte: A autora.

Apesar dessa presença marcante de diversas empresas, o Votorantim é essencialmente residencial, com grande parte da população vivendo em casas.

Nos últimos cinco anos, porém, os ACS da UBS notaram um aumento evidente da construção de prédios e condomínios fechados, elevando de forma expressiva a população residente e cadastrada do bairro.

Ao levar em consideração essa observação, decidi acessar os dados da população cadastrada pelos ACS do território da UBS do Votorantim com base no relatório consolidado de cadastro, disponível na plataforma G-MUS. O total de usuários cadastrados no território dessa UBS é de 8.825, distribuídos em 3.583 domicílios que são atendidos por três equipes da ESF. Todos os domicílios estão localizados em área urbana, sendo que 97% têm disponibilidade de energia elétrica, ao passo que 87% não têm tratamento de água.

A UBS do Votorantim está localizada entre uma escola e uma creche municipais (Figura 6). Segundo informações das ACS da UBS, existem ainda, nas redondezas, três creches particulares, uma escola estadual, cinco mercados e sete igrejas, sendo seis evangélicas e uma católica, onde são realizadas atividades de integração entre a UBS e a população (Figura 7).

Nesse mesmo território, há também dois postos de gasolina, diversos restaurantes e bares, duas academias e um laboratório, além de um comércio local que conta com lojas e serviços.

Figura 6 – UBS do Votorantim localizada entre uma creche e uma escola municipais

Fonte: A autora.

Figura 7– Igreja onde são realizadas atividades de integração da UBS com a população

Fonte: A autora.

No campo da saúde, o bairro dos Cordeiros conta com uma UPA (Figura 8), inaugurada em outubro de 2012. Até o momento desta pesquisa, existiam em Itajaí apenas duas UPAs, demonstrando a importância do bairro na dinâmica populacional do município. Com atendimento 24 horas por dia, sessenta profissionais, sala de exames, radiografia e farmácia, são realizados cerca de cinco mil atendimentos a indivíduos maiores de 15 anos por mês. Não é realizado atendimento pediátrico nessa UPA (ITAJAÍ, 2018).

Figura 8 – UPA do Cordeiros

Fonte: A autora.

Até outubro de 2019, segundo o Coordenador, a UBS do Votorantim contava com 38 funcionários, entre eles o Coordenador, Agentes Comunitários de Saúde, agentes de serviços gerais, atendentes de UBS, dentistas, auxiliares de dentista, técnicas de enfermagem, enfermeiras, ginecologista, pediatra e médicas da Estratégia Saúde da Família (Figura 9). O horário de funcionamento da UBS é de segunda a sexta-feira, das 7h às 18h, e as consultas são realizadas em prontuário virtual, por meio da plataforma digital G- MUS. Fiz a observação do campo da pesquisa e chequei que na UBS estão disponíveis para os profissionais 17 computadores, conectados à internet, além de um tablet para cada ACS.

Figura 9 – Vista panorâmica da UBS do Votorantim em 18 de outubro de 2019

Fonte: A autora.

Ao analisar especificamente a população de interesse para esta pesquisa, constatei que a população pediátrica de zero a 12 meses de vida atendida na UBS do Votorantim era, no momento da coleta de informações, de 110 usuários. Com o objetivo de mapear o atendimento a essa população específica dentro da UBS, realizei um levantamento de dados estatísticos de produção na plataforma G-MUS no período de 01 de janeiro de 2019 a 30 de setembro de 2019. Os resultados encontram-se na Tabela 2.

Tabela 2 – Atendimento pediátrico na faixa etária de 0 a 12 meses da UBS do Votorantim no período de 01/01/2019 a 30/09/2019

PROFISSIONAL (Nº) NÚMERO DE

ATENDIMENTOS

CARACTERÍSTICA DO ATENDIMENTO

PEDIATRA (1) 371 89% Eletiva

11% Urgência

MÉDICAS ESF (3) 313 100% Puericultura

ENFERMEIRAS ESF (3) 1.008 76% Puericultura

22% Acolhimento 2% Visita domiciliar

TÉCNICAS DE

ENFERMAGEM (6)

881 100% Avaliação

antropométrica AGENTES

COMUNITÁRIAS DE

SAÚDE (16)

512 100% Visita domiciliar

VACINADORAS (2) 1.339 Número de doses

aplicadas Fonte: A autora.

Os dados destacados na Tabela 2 mostram o número de atendimentos realizados pelas enfermeiras da ESF e Agentes Comunitárias de Saúde. Em média, no período analisado de nove meses, os 110 bebês menores de um ano foram atendidos dez vezes na UBS pelas enfermeiras e receberam cinco visitas domiciliares pelas ACS.

É importante ressaltar que não há um registro oficial de todos os atendimentos realizados no balcão da unidade pelas atendentes. Por meio de observações empíricas e segundo informações das atendentes do balcão que distribuem as senhas, pude inferir que são atendidas, em média, 180 pessoas por dia no balcão da UBS. Especificamente para a população pediátrica, as mães são atendidas na recepção para o agendamento de uma consulta, para informações sobre encaminhamentos/vacinas e para se apresentarem em dias de consulta, gerando um fluxo expressivo de atendimento. Outro ponto importante é que nesse relatório de produção os dados relacionados aos dentistas da UBS estão defasados, provavelmente, por conta de alguma forma de atendimento fora do G-MUS – talvez, por exemplo, prontuário físico de papel.

Durante o primeiro ano de vida, além das consultas mensais de puericultura, outro grande motivo que leva as mães até a UBS são as vacinas, aplicadas nesse período de vida dos bebês. Segundo o relatório de produção de vacinação que geramos na plataforma G-MUS, no período de 01/01/2019 até 30/09/2019, foram aplicadas 1.339 doses de vacinas em bebês de zero a doze meses de vida.

Ao analisar esses dados, torna-se ainda mais evidente a importância de facilitar o acesso à UBS por mães de bebês no primeiro ano de vida. Isso porque, em um curto período de doze meses, esses bebês deverão passar, no mínimo, por doze consultas de puericultura e oito idas à sala de vacinação. Se ainda pensarmos no número de idas para o agendamento e para acolhimentos/consultas de urgência, esses dados tornam-se ainda mais relevantes. É importante ressaltar que a frequência das consultas e das vacinas é a mesma depois dos seis meses de vida do bebê, período em que uma grande parcela das mães já voltou ao mercado de trabalho, o que dificulta ainda mais o acesso à UBS.

A média de idade das mães entrevistadas foi de 27,6 anos, enquanto a média de idade dos bebês foi de 4,8 meses de vida. No momento da entrevista, 50% das mães tinham atividades profissionais dentro ou fora de seus domicílios. As mães eram as principais cuidadoras, porém foram relatados também a presença da figura da avó como cuidadora e o apoio da creche para as mães que trabalhavam (Tabela 3).

Tabela 3 – Entrevistas com as mães – Bloco 1 – Identificação Entrevista Idade mãe

(anos)

Idade bebê (meses)

Trabalho Cuidador

1 31 7 Sim (8-17h) Creche integral

2 28 3 Não (licença) Somente mãe

3 34 2 Não Somente mãe

4 29 2 Sim (domicílio) Mãe + avó

5 25 3 Sim (7h30min-18h) Avó

6 23 5 Não Somente mãe

7 21 3 Sim (13h-21h) Mãe + avó

8 27 10 Sim (12h-22h) Mãe + pai

9 28 8 Não Somente mãe

10 27 2 Não Mãe + pai

11 29 7 Não Mãe + avó

12 30 6 Sim (domicílio) Creche integral

Fonte: A autora.

Já em relação ao perfil tecnológico das entrevistadas, 100% das mães tinham acesso à internet pelo celular e 08 (oito) também dispunham de computador com internet em casa. Todas as mães entrevistadas utilizavam o WhatsApp como ferramenta de comunicação on-line e participavam de pelo menos uma rede social (Facebook e/ou Instagram).

Em relação à realização do grupo focal com os profissionais de saúde, segundo as observadoras, os participantes foram pontuais e chegaram em um clima de muita descontração. Eles se mostraram receptivos e cooperantes a participar daquele momento com os outros colegas. Eu estava segura nas perguntas, e os participantes também demonstraram segurança em suas falas.

Em relação à participação durante o grupo, a profissional nº 7 teve vinte falas, enquanto a nº 4 teve apenas duas. Todos os profissionais possuíam smartphones com acesso à internet e utilizavam o aplicativo WhatsApp como forma de comunicação on-line. A média de tempo de trabalho dentro da UBS do Votorantim entre os sete participantes foi de 9,6 anos, sendo o mínimo de dois anos e o máximo de vinte.

Após ter realizado o mapeamento do atendimento pediátrico no primeiro ano de vida da UBS do Votorantim, como já faço parte desta UBS há quase dez anos, sinto-me no dever de descrever esta UBS de uma forma que nenhum dado estatístico é capaz de expressar.

Uma das grandes marcas da UBS do Votorantim é que população e profissionais de saúde sabem muito bem dos seus deveres e direitos. Muito disso se deve ao fato de os mesmos profissionais estarem na UBS há mais de dez anos, criando vínculos duradouros que sedimentam uma relação de confiança com a população. Outra marca importante é a coesão dos profissionais na questão relacionada ao fluxo dentro da UBS. Todos os profissionais sabem como se dá o fluxo de atendimento, passando pelo

acolhimento com escuta qualificada, agendamento de consultas e encaminhamento para especialistas. O paciente ouve, de todos os envolvidos no seu cuidado, as mesmas orientações, e isso o deixa seguro e confiante quanto à resolução de seu problema.

Os profissionais de saúde da UBS do Votorantim têm capacidade de conciliar as obrigações do trabalho com outras ações que vão muito além das horas a serem cumpridas no relógio de ponto. Arrisco-me a afirmar que é esta a principal característica que torna essa UBS especial: todos fazem sempre mais do que sua obrigação. E isso vai muito além de atender mais pacientes ou fazer hora extra. Refiro-me aqui à arrecadação anual de brinquedos e roupas para doação, oficina de arte com desenhos obstétricos, confecção de espaçadores artesanais, árvores de Natal de chupeta, entre tantas outras ações em que todos os profissionais estão envolvidos.

Nessa UBS, é muito comum ver ACS atendendo no balcão, médico fazendo acolhimento, coordenador ajudando na limpeza e na organização das salas, atendente fornecendo dados relevantes do contexto social do paciente durante consulta médica. Enfim, o Votorantim é uma UBS que trabalha realmente como uma UNIDADE, onde cada um sabe do seu papel, mas que também reconhece no outro sua importância a fim de conseguir um cuidado integral do paciente e um convívio em harmonia no ambiente de trabalho.

No campo da pediatria, o atendimento é feito por meio de consultas agendadas de puericultura com enfermeiras, médicas da ESF e eu, pediatra, além dos acolhimentos e consultas de urgência para os pacientes com queixas agudas. Logo que iniciei o meu trabalho como pediatra na UBS do Votorantim, em 2010, havia uma grande demanda pelas consultas, com um tempo de espera muito grande e certo distanciamento da pediatria com a ESF. Na realidade, ainda hoje há muita discussão em relação ao lugar ocupado pelo pediatra na Atenção Básica: especialista? Generalista? Matriciamento da ESF?

Não há consenso, mas foi a partir do momento em que compreendi a importância do trabalho em conjunto com a ESF que mudanças ocorreram no fluxo de atendimento à população pediátrica da UBS do Votorantim.

Realizei uma oficina com as médicas e as enfermeiras da ESF e, juntas, organizamos um guia de puericultura para que todos os pacientes fossem atendidos da mesma forma em consultas de rotina com a ESF ou comigo na

pediatria. Dessa forma, a equipe tornou-se confiante e as mães também perceberam que seus filhos estavam sendo atendidos por profissionais capacitados. A partir dessa mudança, a minha agenda ficou destinada àquelas crianças que apresentavam queixas clínicas agudas ou com alguma alteração durante a rotina com a ESF, sempre com vaga disponível para os atendimentos. O tempo de espera foi reduzido, e a comunicação entre mim e a ESF tornou-se parte fundamental do processo de trabalho na UBS.

3.2 DA INSEGURANÇA AO ACESSO DIGITAL À SAÚDE: COMUNICAÇÃO

No documento Marcela Prates Braz.pdf - Univali (páginas 61-71)

Documentos relacionados