2.3 De onde e de quem se fala?
2.3.3 E quem é que fala?
2.3.3.1 Apresentando uma galera (d)escolada
Um dia me disseram Que as nuvens
Não eram de algodão (...) E tudo ficou tão claro Um intervalo na escuridão Uma estrela de brilho raro Um disparo para um coração (...) Somos quem podemos ser...
Sonhos que podemos ter(...) Um dia me disseram
Quem eram os donos
Da situação
Sem querer eles me deram As chaves que abrem Essa prisão
E tudo ficou tão claro O que era raro ficou comum Como um dia depois do outro Como um dia, um dia comum...
A vida imita o vídeo Garotos inventam Um novo inglês
Vivendo num país sedento Um momento de embriaguez...
Eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada...
Nessa terra de gigantes,
Que trocam vidas por diamantes...
A juventude é uma banda numa propaganda de refrigerantes... (...)
Mas, hey, mãe!
Por mais que a gente cresça
Há sempre alguma coisa que a gente não consegue entender...
Você me faz correr demais, Os riscos dessa Highway (...)
Mas não precisamos saber pra onde vamos Nós só precisamos ir...
Não queremos ter o que não temos Nós só queremos viver
Sem motivos, nem objetivos Estamos vivos e isto é tudo (...) Quando eu vivia e morria na cidade Eu tinha de tudo, tudo ao meu redor
Mas tudo que eu sentia era que algo me faltava(...)
Não queremos lembrar o que esquecemos Nós só queremos viver
Não queremos aprender o que sabemos Não queremos nem saber (...)
"Será a estrada uma prisão?"
Eu acho que sim...
Mas nem por isso ficaremos parados Com a cabeça nas nuvens e os pés no chão Não adianta mesmo ser livre
Se tanta gente vive sem ter como viver (...) Eu vejo um horizonte trêmulo
Eu tenho os olhos úmidos
Eu posso estar completamente enganado, posso estar correndo pro lado errado
Mas a dúvida é o preço da pureza, e é inútil ter certeza
Eu vejo as placas dizendo
‘Não corra’, ‘Não morra’, ‘Não fume’
Eu vejo as placas cortando o horizonte, elas parecem facas de dois gumes (...)12
12 Trechos de letras de várias músicas da banda gaúcha Engenheiros do Hawaii; na ordem: Somos quem podemos ser; Toda forma de poder; Terra de Gigantes e Infinita Highway.
Apesar dos poucos encontros e relativamente pouco tempo de convivência com os jovens participantes da pesquisa, ao parar para pensar neles, nos grupos e em cada um, em todo caminho que foi percorrido e vivido e o que ainda está porvir, ter que escrever algumas palavras os ‘apresentando’, agora, e dizer ‘como foi conhecê-los’, realmente me fizeram perceber o quanto estar com esses jovens me ‘tocou’ e ‘tocaram’ várias músicas na minha cabeça, colocadas em partes no início dessa seção. Aproveitando as palavras de Jorge Larrosa, em suas ‘Notas sobre a experiência e o saber da experiência’: “A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece ou o que toca. A cada dia se passam tantas coisas, mas a experiência é cada vez mais rara”. Foi para mim uma grande experiência! Senti-me em vários momentos com eles exatamente como eles! Sem medo de ser jovem a vida inteira, procurando descobrir o mundo, sendo quem posso ser e tendo os sonhos que posso ter, mas sem perder a esperança de clareza na escuridão; ao mesmo tempo em que somos eternos questionadores porque não vemos sentido nem compreendemos muitas das coisas que escutamos, lemos, vemos e vivemos em nosso mundo dito adulto; numa sociedade capitalista com inversão de valores e que trata tudo e todos e principalmente o próprio jovem como uma mercadoria também; numa estrada que é a vida, cheia de riscos e cujas placas que deveriam proteger e ajudar a encontrar o caminho ‘certo’, segundo normas pré- determinadas, são mais paradoxais que os próprios riscos em si, deixando-nos à mercê de controles sociais e prerrogativas altamente instáveis que, apesar de atrapalhar nossos sonhos, tentando nos fazer perder a esperança, a intenção de aprender, de querer saber, de ser livre e buscar percorrer novos caminhos ou de sentir pelo outro, que vive sem ter como viver, derrapa por nos deixar uma certeza que é exatamente o que nos move: a de que é inútil ter certezas! Então, sem nenhuma certeza de nada, devemos e vamos seguindo em frente.
Diante do que falei acima, os jovens que compuseram os grupos do estudo são assim, sonhadores, questionadores, tem muito a falar e a se fazer ouvir, apesar dos problemas e riscos tem esperanças e desejos de futuro e vão correr atrás disso, buscando sentidos para a vida, com saúde e muita música também.
Durante as estadas nas escolas e as oficinas, além das gravações e anotações do Diário de Campo também escrevi algumas notas sobre cada um dos jovens participantes do estudo. A cada encontro acrescentava algum dado sobre eles, compondo quadros resumos de seus perfis, divididos em suas respectivas turmas e grupos de trabalho. Nos quadros, que serão colocados como um Apêndice, constam as idades, sexo e perfil cultural relativo às práticas vinculadas ao som e outros dados gerais considerados mais relevantes nas análises que se seguirão. A fim de manter o sigilo ético do termo de consentimento, bem como preservar a identidade dos sujeitos dessa pesquisa, adotamos o uso de siglas (J1 a J39) como forma de nomeá-los. Da mesma maneira, durante a escrita dessa dissertação, utilizarei o termo genérico
‘educador’ ao fazer referência aos professores que trabalham nas escolas participantes, com seus respectivos codinomes/siglas também, a saber: E1 (sexo masculino) e E2 (sexo feminino) da escola A e E3 (sexo masculino) e E4 (sexo feminino) da escola B (Apêndice A).
Após a devida apresentação do estudo, com explicações mais detalhadas acerca dos processos que levaram as escolhas das metodologias, abordagens e técnicas executadas nessa pesquisa, além da descrição de suas etapas, do campo empírico, dos jovens que participaram do estudo e das definições dos conceitos analíticos, seguiremos nossa trilha, agora, analisando os dados obtidos de modo a alcançar os objetivos propostos, sem saber direito aonde vamos parar, nessa ‘infinita highway’.