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INSUFICIÊNCIAS DO MODELO FORMATIVO

Conforme as DCN o currículo deveria formar o CD para a atuação no SUS como CD generalista e conforme as definições obtidas pelos próprios alunos e pelos informantes-chave, a estrutura curricular da UNIVALI demonstra sua insuficiência com o atual desenho.

Esta categoria aponta para algumas subdivisões importantes que merecem destaque, portanto as denominei como subcategorias. São elas: Carga horária; Falta de prática/ Insegurança para fazer clínica; Falta de psicologia.

As falas serão relacionadas sem a distinção de período ou aluno, já que os assuntos foram abordados por ambos os grupos focais de maneira semelhante.

5.1.1 Carga Horária

Os alunos destacaram em diferentes momentos a “falta de tempo” que algumas disciplinas dispõem e assim, a dificuldade de entendimento por parte dos alunos dos conteúdos passados pelos professores.

(...) Eu acho assim, que até, a nossa matriz, de forma geral, eu acho que a carga horária da nossa matriz é pequena, numa leitura minha,

entendeu? Não que ah! A disciplina tem pouco tempo, eu acho que todo o curso ele é uma carga horária muito reduzida entendeu? Ai tipo assim, o aluno pode até tentar correr atrás, mas...

(...) Quem vai nos ensinando aos poucos e por parte, que a gente vai assimilando é o professor na clínica do sexto, agora a do sétimo. Porque não que os professores de prótese sejam ruins, mas é que jogam o conteúdo muito rápido né. Eles mesmo reclamam que é pouco tempo.

(...) Quando a nossa turma aprendeu, nós tivemos primeiro [Prótese]

Total, depois [Prótese] Fixa e Prótese Parcial Removível [PPR]. A gente saiu reclamando horrores que a PPR a gente teve muito pouco, e tinha que ser muito, e eles tentam mudar, na outra clínica começou com PPR. Agora começaram com PPR e saiu com defeito na Total, daí ninguém não sabia nem moldar.

- Eu nem acho que eles passem de qualquer jeito, acho que é muita quantidade de informação pra pouco tempo.

- Eu acho que é muito pouco tempo.

- Tanto que os professores que ficam mais loucos na clínica são os de prótese

- Eles não param.

- Eles tem que sentar e fazer pra gente, a gente não sabe nem por onde começar.”

Foi consenso entre as turmas que a disciplina de prótese tem uma carga horária reduzida, e por isso os alunos tem dificuldades nessa área. Além de sobrecarregar os professores nas clínicas, eles não se sentem seguros para realizar o procedimento porque o estudaram pouco.

Como sugestão para a solução dessas falhas, ocorreu a seguinte discussão:

“(...) Ou dos cursos que tu vai fazer, tu não precisa se especializar, tu pode fazer um curso amplo de Cirurgia, ou um curso amplo de Dentística, tu não vai se especializar, mas tu vai ter mais conhecimento na área.

- Mas daí tu vai tá correndo atrás das falhas da tua graduação.

- A gente não tem como fazer tudo numa graduação, a gente tem que correr atrás dessas falhas depois. São 4 anos e meio pra muita coisa.

- Mas ai que é o problema.”

Segundo Cordioli (2006), “a procura pela educação continuada nos anos subsequentes à graduação nos induz a dois caminhos: o despertar natural desta necessidade profissional em manter-se atualizado, gerado pelo espírito investigativo adquirido durante a formação, dando vida ao processo de aprender a aprender; ou a falta de conhecimento básico para o exercício desta prática generalista da profissão, gerada por uma formação deficitária”.

Nota-se que os alunos entendem que a carga horária do curso não consegue suprir as demandas de conteúdo das disciplinas.

Esse assunto foi abordado na entrevista com o informante-chave 2:

“(...) Então por exemplo o curso tem que passar pra cinco anos... Não tem nada de errado ficam em 4 anos e meio, só que é o seguinte. Depois em

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2010 saíram os parâmetros curriculares que vem assim, fazendo uma proposta diferente. E vem dizer que curso de 4000 horas, o ideal é que fosse desenvolvido em 5 anos.”

As Referências Curriculares Nacionais (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2010) orientam que o Bacharel em Odontologia ou Cirurgião Dentista tenha em seu curso uma carga horária mínima de 4000 horas e a integralização em cinco anos, para atuar nas atividades de diagnóstico, planejamento e execução de tratamentos odontológicos.

É preciso que o curso e sua matriz curricular estejam em constante movimento para que as demandas sejam supridas, tanto aquelas vindas de documentos a nível federal (como as Referências Curriculares Nacionais) quanto às reivindicações dos alunos.

5.1.2 Falta de prática / Insegurança para fazer clínica

As habilidades e competências propostas pelas DCN orientam uma reflexão sobre a formação voltada para a prática clínica tradicional, destacando a visão holística da atenção em saúde, com a produção social da saúde e ênfase na qualidade de vida dos cidadãos. (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2001)

Morita et al. (2007) orientam que “a teoria precede a prática, havendo grande ênfase nas aulas expositivas e alguma prática em laboratórios básicos como em clinicas de ensino.”

Nas falas dos alunos, pude notar que eles estão insatisfeitos com a quantidade de aulas práticas/ clínicas que tiveram no curso:

“(...) Eu acho que a mudança curricular ela é necessária, pra mudança profissional sair no modelo tecnicista e pra ir para um modelo mais abrangente como eu tinha falado. Porém eu acho que tava no extremo e agora foi pra outro, porque o modo em que a grade foi disposta nos deixou melhores em um lado que não existia antes e nos padeceu na parte técnica, que é necessária também na execução de procedimentos clínicos. (...) houve redução da clínica e algumas disciplinas de pré-clínica, por exemplo, pra poder mexer com a saúde pública, e isso eu acho que tá nos tornando generalista em um.. é, generalista não.. mas com pouca prática em algumas áreas

(...) Porque tipo assim, a gente aprende na teoria, se tu for lá pegar a teoria e for lá fazer, tu faz, só que a gente não tem a prática.

(...) Eu acho que na prática a gente faz muito poucos procedimentos.

(...) Eu acho que a grade até falha, tu vê muita gente se formando, e a pessoa fez quinze endodontias, fez uma cirurgia e uma prótese entendeu?

- Na minha opinião sai mais deficiente na prática, por que teoria a gente tem, só que o praticar é que não é muito. Tem muita gente que não vai fazer, ou não fez até agora, ta no sétimo período e não fez uma endo.

- Mas também não corre atrás.

- A gente não tem opção de escolher, tipo vocês tem essa opção de escolher, tipo, eu quero esse paciente por que ele tem isso. Não o paciente chega pra você e ele faz o que ele quer

- A gente fala, de a pessoa correr atrás mas ela pode ir trás, mas é limitante, entendeu?

- Correr atrás é mais a teoria, a prática a gente fica né...”

Quando questionados sobre o que contribui pra isso os alunos responderam:

“(...) Eu acho que eu preferia não sendo integrada, eu preferia separado.

- Eu conheço pessoas que fizeram aqui no tempo em que não era integrada, e elas me disseram que tinham muita produção no que elas faziam, em tudo, tu não sai sem deixar de fazer alguma coisa.

- E tipo, se ela nunca fez uma Endo, por exemplo, vai fazer duas PPR e nenhuma Endodontia, entendeu? Se não fosse Integrado...

(...) Mas se a gente tivesse mais tempo de prótese, a gente aprenderia melhor vendo. Na pré-clínica eu não gostava, porque aprendia tudo correndo, não aprendia nada, e daí quando foi pra clínica aprendi tudo com o professor e comecei a gostar.

- Exatamente por isso que parece que na prática a gente aprende muito mais tendo primeiro a prática, olhando como é que se faz pra depois tu ter uma teoria e poder assimilar com o que tu fez.

- Mas é que se a gente tivesse diluído a gente teria a teoria, prática e depois mais um complemento da teoria.

- Porque na matriz antiga tinha a teoria de prótese, e depois tinha a prática.”

O saber teórico daquilo que está sendo realizado é o que nos torna profissionais completos, mas sem a prática, não é possível exercer uma Odontologia de qualidade. É preciso que os dois caminhem juntos.

Segundo Tiedmann et al. (2005) o objetivo do atendimento a pacientes nas clínicas universitárias deve responder a necessidade de formação e treinamento prático e técnico dos alunos, sem excluir o ideal ético de suprir as necessidades de saúde e demandas dos usuários que procuram este tipo de serviço, bem como a formação humanizada e ética dos profissionais de saúde. A prática clínica, tanto a nível individual como coletiva, é muito importante, já que a Odontologia é uma profissão que exige um trabalho manual intenso. (MORITA et al., 2007)

Nas falas é possível notar que a falta de prática causa insegurança dos alunos em fazer alguns procedimentos:

“(...) Mas na formação que o dentista generalista, com essa mudança que a gente teve de grade, antes se tinha clínica de Prótese, um período era

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a Prótese Total, PPR e outro Fixa. A gente pode sair da faculdade sem nunca ter feito uma delas. Por que não é o, não tem como.

- Mas é que tu não tem como fazer tantos procedimentos de tantas coisas também.

- Eu já fiz algumas cirurgias e algumas Endodontias. Mas nunca fiz Prótese Total.

- É só tu começar, acho que é por isso que a gente sai generalista, a gente faz um pouco de cada, nem que seja uma vez, pra poder...

- Tá mas se tu fizer uma vez, durante toda a tua graduação, tu vai se sentir apto pra fazer?

- Uma vez é muito pouco, eu acho.

- É, eu acho muito pouco.

- Se tu fizesse cirurgia uma vez, se sentiria apta pra fazer no consultório sozinha?”

É evidente a necessidade de se rever a prática da disciplina de clínica integrada, que se concretiza a partir do atendimento à usuários, sob o aspecto técnico e científico, sem perder de vista o papel social da prestação desse serviço.

(TIEDMANN et al., 2005)

O fato de o atendimento na clínica integrada ser realizada a partir da demanda do paciente pode resultar na falta de contato por arte dos alunos com alguns tipos de procedimentos. A pouca prática durante o curso acaba influenciando no trabalho do egresso ao se deparar, por exemplo, no seu consultório ou em uma rede de atenção básica com procedimentos que pouco praticaram ou só viram na teoria.

É importante que os professores tenham um cuidado com a quantidade e os tipos de procedimentos realizados para que todos possam sair do curso tendo vivenciado na prática aquilo que viram na teoria, ou que pelo menos tivessem contato com os casos mais comuns de cada área.

5.1.3 Falta de psicologia

De maneira geral, predominam nos currículos dos cursos de graduação, objetivos dos domínios cognitivo (teoria) e psicomotor (prática). Objetivos relacionados ao domínio afetivo sequer constam dos planejamentos.

Comportamentos que visem o bem estar do paciente, relacionamento profissional/paciente são importantes, na medida em que trazem um tratamento mais seguro e de melhor qualidade, e devem ser desenvolvidos paralelamente ao processo de ensino/aprendizagem. (LOMBARDO, 2000) Via de regra, o cirurgião- dentista apresenta-se despreparado para manejar ou controlar o comportamento do

paciente, e até mesmo sua própria conduta profissional. (CAMPARIS; CARDOSO JÚNIOR, 2008)

O curso de Odontologia da UNIVALI contempla a psicologia como uma disciplina, porém os alunos questionam a presença desta na matriz curricular, a forma que ela é ensinada e assinalam que o conteúdo deveria ser melhor abordado, já que é extremamente importante na formação:

“(...) Uma coisa que eu acho ridículo mesmo é a nossa psicologia, falo mesmo, porque poxa. Devia ser mais trabalhada, tipo assim poxa, eu acho que uma aula presencial, não, são duas aulas teóricas, um agendamento, e uma apresentação no final do semestre. (...) é ruim por que é indiferente entendeu? Eu sei que é uma norma, que tem que ter essa disciplina dentro da matriz né, mas eu acho assim, o que eles trabalham aqui uma ida num psicólogo particular, cada um, indo e pedindo pra ele fazer uma carta, já seria o suficiente, pra o que eles usam aqui entendeu? Porque é uma conversa que eu tenho com você e deu. Tipo as únicas coisas que eu aprendi com o professor de psicologia foi o seguinte: “Diferença de medo e ansiedade”.

- Eu tenho amigas que fazem nutrição, que fazem outras coisas, outros cursos na área de saúde e tem psicologia na grade curricular delas, e é outro professor que dá e tipo, minha amiga tá fazendo o TCC na área de Psicologia, de tanto que ela gostou da aula, entendeu?

- É muito interessante a gente saber, só que não é bem trabalhado...

- Meu Deus, tipo Paciente Especiais, muitas vezes o paciente só quer conversar, não quer fazer nada na boca, ele veio ali pra conversar, ele não tá bom pra fazer o tratamento nele, ai tu vai conversar, tu conversa porque é o que tu tem né...”

Conforme se nota nas falas, a deficiência da disciplina é grande e o currículo deveria ser revisto neste conteúdo.

Além da relação profissional/paciente, é importante que a consciência social, humanismo, ética, prevenção, cidadania, sejam abordados e devem estar distribuídas em todas as disciplinas, e ser da responsabilidade de todos os docentes. Quanto mais disciplinas estiverem envolvidas na aprendizagem de um determinado conteúdo, mais interessante e desafiador ele se tornará para o aluno.

(LOMBARDO, 2000)

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