“Já que a educação modela as almas e recria os corações, ela é a alavanca das mudanças sociais.”
Paulo Freire
O curso de Odontologia da UNIVALI iniciou suas atividades no primeiro semestre de 1990, sendo o segundo curso de Odontologia a ser implantado no estado de Santa Catarina. (UNIVALI, 2015)
As informações sobre o curso e sua evolução histórica não foram encontradas em referencial bibliográfico. Utilizamos, portanto o conteúdo da entrevista com o informante chave 2.
Hoje, o regime do curso é seriado semestral, com dois ingressos anuais e matrícula por disciplina organizadas por créditos, que equivalem a 15 horas cada. O curso está estruturado com 4.110 horas, ou 274 créditos, com duração de quatro anos e meio (nove períodos).
A estruturação da primeira matriz curricular previu a disciplina de Odontologia Social e Preventiva do primeiro ao último período, além da necessidade da realização de monografias pelos alunos para a conclusão do curso, diferenciais importantes quando comparado aos cursos da época.
O curso ao longo dos anos teve de rever e adequar sua estrutura de acordo com as evoluções das políticas de saúde pública do país e por isso passou por cinco
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matrizes curriculares até a atual. As DCN foram amplamente discutidas e a mudança no curso foi gradual, para que alunos, professores e funcionários pudessem se adaptar mais facilmente.
Para isso, em 2005, o curso de Odontologia enviou uma proposta em resposta ao Edital do Pró-Saúde. O mérito da proposta era articular a produção do saber e a produção de serviços ao processo educacional. Além disso, também foram feitas propostas para a ampliação da produção e veiculação de conhecimentos voltados à saúde coletiva e ao SUS, bem como a integração universidade, serviços de saúde e comunidade num esforço de colaboração mútua e responsabilidade compartilhada.
(URIARTE NETO, 2005)
Este processo, mesmo antes da implantação da nova matriz curricular, foi importante para que os acadêmicos ingressantes na antiga matriz tivessem a oportunidade de incorporar outras vivências no processo de formação, que não somente as de competências técnicas. (URIARTE NETO, 2005)
Após anos de amadurecimento de discussões e propostas, no segundo semestre do ano de 2009, foi implantada matriz curricular nº6 no curso de Odontologia da Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI (CONSUN/CaEn, 2009), visando atualizar a formação de um profissional generalista, preparado para atuação na saúde individual e coletiva, quer no serviço público ou privado.
Para que a implementação de uma nova matriz realmente alcance os objetivos almejados, segundo Cordioli (2006) é necessária a ampliação de cenários de aprendizagem com aprimoramento na proposta de ensino da clínica integrada, flexibilização curricular com maior integração de conteúdos/disciplinas, implantação de práticas interdisciplinares e investimento no corpo docente do curso.
A implementação da matriz curricular nº 6, teve sua primeira turma formada em dezembro de 2013. Durante esse período, alunos e professores adaptaram-se a nova formatação das disciplinas para a reestruturação educacional.
Novas conversas e discussões estão sendo realizadas para manter a matriz curricular atual, entre elas o acréscimo de um semestre no curso, que ficaria com a duração de cinco anos. As Referências Curriculares Nacionais (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2010) orientam que o Bacharel em Odontologia ou Cirurgião Dentista tenha em seu curso uma carga horária mínima de 4000 horas e a integralização em cinco anos, para atuar nas atividades de diagnóstico, planejamento e execução de tratamentos odontológicos.
Por ser um processo recente e em execução, necessita de uma avaliação.
(FADEL; BALDANI, 2013) As contribuições desta dissertação buscam auxiliar o curso a promover a melhoria da qualidade de oferta educacional e dos processos acadêmicos e administrativos.
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3 METODOLOGIA
A pesquisa foi qualitativa, de caráter analítico. Optou-se por esta metodologia, já que desta maneira o estudo considera uma relação dinâmica entre o mundo objetivo (real) e a subjetividade do sujeito que não pode ser traduzido em números.
Não requer a utilização de métodos e técnicas estatísticas e sim a interpretação dos fenômenos (FERREIRA, 2011). O ciclo de uma pesquisa qualitativa é um processo em “espiral”, pois se inicia com uma pergunta que ao ser respondida cria novos questionamentos e dúvidas (MINAYO, 2010).
A primeira etapa foi a pesquisa documental, para entender as modificações que foram realizadas na matriz curricular do curso a partir do referencial teórico.
Para isso, além de todo o arsenal teórico já descrito, foi realizada uma conversa com informantes-chave (IC): pessoas, que por sua inserção social são conhecedoras da história, de seus processos (RENOSTO; TRINDADE, 2007) e capazes de representar os pontos de vista a fim de contextualizar tanto a Política Nacional de Saúde Bucal como as modificações curriculares ocorridas no Brasil e em especial na UNIVALI.
Foram realizadas três entrevistas com roteiros semiestruturados (APENDICE A) com: um professor de um curso de Odontologia, um coordenador de uma Universidade e um gestor em saúde pública.
Os informantes-chave foram contatados via email e a entrevista agendada no seu local de trabalho. Todas as entrevistas foram realizadas em ambientes calmos e não foram interrompidas em momento nenhum. Além disso, com a permissão do entrevistado, as conversas foram gravadas para posterior transcrição.
A segunda etapa da pesquisa consistiu na formação e realização de um grupo focal com o intuito de identificar a percepção dos alunos sobre sua formação como cirurgião-dentista generalista: com competência clínica e apto para o processo de trabalho na atenção básica.
O grupo focal é uma forma de coletar dados diretamente das falas de um grupo, que relata suas experiências e percepções em torno de um tema de interesse coletivo. É uma técnica que não busca informações individuais, mas em grupo, a fim de produzir dados que seriam dificilmente conseguidos fora do mesmo. Os dados obtidos levam em consideração o processo do grupo, tomados como maior do que a soma de ponto de vistas individuais (BECK et al., 2011).
A amostra foi intencional, formada por alunos regularmente matriculados nos últimos períodos do curso (sétimo e oitavo), já que por estarem concluindo estarão aptos a responder aos propósitos do grupo focal.
Não foi possível realizar o grupo focal com o 9º período, pois muitos alunos eram da grade antiga e isso estabeleceria um fator confusional.
Solicitei junto à coordenação um espaço durante a aula (de cada turma) para que eu pudesse explicar aos alunos o tema e convidá-los a participarem da pesquisa. Aqueles que se interessaram, foram contatados posteriormente via email e celular, e juntos decidimos a data dos grupos.
O grupo focal foi realizado em uma sala cedida pela coordenação no bloco de Odontologia (C5 – Campus UNIVALI Itajaí), após o horário de aula, com o universo dos alunos que compareceram. O grupo do 7º período foi formado por quatro alunos, e o grupo focal do 8º período, por cinco alunos.
Optei por realizar os grupos com poucos integrantes já que quando se pretende alcançar a profundidade de expressão de cada participante, um grupo pequeno é mais indicado. (BECK et al., 2011).
Os grupos tiveram duração de 60 minutos para o 7º período e 68 minutos para o 8º período. Quanto à duração (tempo) dos encontros, a média sugerida na bibliografia utilizada é de 60 a 120 minutos. (ROSO, 1997).
Foi utilizado um guia de temas (Apêndice B), para focar nos pontos principais.
Mas à medida que surgiram as repostas, foi problematizado para alcançar os objetivos do grupo focal.
Todos os participantes incluídos no estudo assinaram em duas vias o termo de consentimento livre e esclarecido (uma cópia para o participante e outra para o pesquisador responsável), com informações a respeito do tema e seu objetivo, procedimentos a serem realizados, benefícios do estudo, garantia de sigilo, retirada do consentimento e outras informações que se fizerem necessárias (Apêndice C).
A pesquisa foi conduzida de acordo com a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa e realizada após aprovação do Comitê de Ética de Pesquisa da UNIVALI (CEP/UNIVALI) com o parecer número 858.2282.
O tratamento dos dados foi feito de acordo com análise de conteúdo onde foram destacadas as categorias de análise e com elas uma possibilidade de revisitação ao marco teórico (metodologia dialética). A partir da leitura flutuante,
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sublinhei as partes mais importantes, as palavras chave foram identificadas e assim, as categorias.
Para atingir mais precisamente os significados trazidos pelos sujeitos foi utilizada a análise de conteúdo temática. Esta é a forma que melhor atende a investigação qualitativa do material referente a saúde, uma vez que a noção de tema refere-se a uma afirmação a respeito de determinado assunto. O percurso analítico e sistemático, tem o sentido de tornar possível a objetivação de um tipo de conhecimento que tem como matéria prima opiniões, crenças, valores, representações, relações e ações humanas e sociais sob a perspectiva dos atores em intersubjetividade. (MINAYO, 2012)
Para Bardin (2009), a análise de conteúdo, enquanto método, torna-se um conjunto de técnicas de análise das comunicações que utiliza procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens. Pode-se considerar a categorização como uma “operação de classificação de elementos constitutivos de um conjunto, por diferenciação e, seguidamente, por reagrupamento segundo o gênero (analogia), com critérios previamente definidos. As categorias são rubricadas ou classes, as quais reúnem um grupo de elementos (unidades de registro) sob um título genérico”.
O processo de análise dos dados é como um funil: as coisas estão abertas de início (ou no topo) e vão se tornando mais fechadas e específicas no extremo.
(FERREIRA, 2011)
A devolução dos resultados deste trabalho para o curso de Odontologia será realizada por meio de uma reunião agendada com o Núcleo Discente Estrutural e com o Colegiado do curso. Além disso, uma cópia da dissertação será disponibilizada na Biblioteca da Universidade para que todos tenham acesso ao trabalho.
4 RESULTADO: O CONCEITO DE CIRURGIÃO DENTISTA GENERALISTA
Antes de realizar os grupos focais, fiz as entrevistas com os informantes- chave. Além de contextualizar a evolução histórica da saúde bucal e as modificações curriculares ocorridas no Brasil e em especial na UNIVALI, foi possível buscar o conceito de CD Generalista.
A partir da leitura flutuante das entrevistas, sublinhei as partes mais importantes, identifiquei as palavras chave e assim, as categorias. Os informantes nos deram tanto subsídio, que o referencial teórico para a dissertação teve que ser ampliado.
As categorias analisadas foram: o desmonte da rede geral, o enfoque preventivista, as políticas odontológicas e o que é o CD generalista.