1.1 Na cultura e na economia
1.1.2 Aspectos econômicos do tabagismo no Brasil
O tabaco constitui uma substancial fonte de receita para os governos. Os tributos incidentes sobre o tabaco são especialmente importantes em países de baixa renda, cujos sistemas de tributação não são muito desenvolvidos. Em países de alta renda, mesmo pequenas percentagens da receita total do governo chegam aos bilhões de dólares. (BRASIL, 2003b).
No Brasil, a importância socioeconômica do tabaco para a região Sul do Brasil é indiscutível. Presente em 656 municípios do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, o tabaco é cultivado em 327 mil hectares, por 165 mil produtores integrados.
Um universo de aproximadamente 626 mil pessoas participa desse ciclo produtivo no meio rural, somando uma receita anual bruta de R$ 4,6 bilhões. (SINDITABACO, 2013b).
Assim, o Brasil se mantém em destaque no cenário mundial, ocupando as posições de 2º maior produtor mundial e, desde 1993, de maior exportador de
tabaco do mundo. Do total produzido, 85% destinam-se ao mercado internacional.
Clientes de todo o mundo – cerca de 100 países – são abastecidos com o tabaco brasileiro. Em 2010, as exportações do setor alcançaram 505 mil toneladas e renderam mais de US$ 2.7 bilhões. (Figuras 1 e 2).
Figura 1- Quantidade das exportações brasileiras de tabaco.
Figura 2- Faturamento com exportação do tabaco no Brasil.
Além disso, o complexo agroindustrial de tabaco do Sul do Brasil é responsável por uma movimentação financeira que supera os R$ 10 bilhões/ano, considerando-se as diversas etapas do processo produtivo e comercial – desde a comercialização e financiamento dos insumos aos agricultores, aquisição da produção dos produtores de tabaco, industrialização do produto, despesas com materiais, energia e fretes, pagamento de salários, até o recolhimento de tributos, comercialização no mercado doméstico e a exportação.
Figura 3 - Faturamento do Setor Fumageiro no Brasil.
Eventualmente o controle do tabaco pode colocar essa receita em risco, mas impostos mais elevados sobre o tabaco aumentarão a receita desses países ainda por muitos anos. O aumento de preços é a medida mais efetiva - especialmente entre jovens e pessoas integrantes das camadas mais pobres - para a redução do consumo. Em função disso, muitas estratégias e medidas na área econômica vêm sendo aplicadas pelos órgãos governamentais e que, associadas, contribuem com as ações voltadas para o controle do uso do tabaco no Brasil. (INCA, 2012b).
O aumento de preços provoca queda no consumo, mas numa proporção menor que a do aumento de preços. Estudos indicam que um aumento de preços na ordem 10% é capaz de reduzir o consumo de produtos derivados do tabaco em cerca de 8% em países de baixa e média renda, como o Brasil, além de gerar aumento na arrecadação de impostos para os governos. Com impostos mais elevados, vende-se uma menor quantidade de cigarros, mas o imposto por maço é maior, gerando uma receita final mais elevada, mesmo em países onde impostos e preços são muito elevados. A comprovação disso pode ser vista na Figura 3. (INCA, 2012b; BRASIL, 2003b).
Foi visto como a produção do tabaco movimenta dinheiro na nossa sociedade. Agora será mostrado como o tabagismo afeta nossos cofres públicos com os gastos em saúde. O Banco Mundial calcula que o tabagismo gera uma perda mundial de 200 bilhões de dólares por ano, sendo que a metade dela ocorre nos países em desenvolvimento. Este valor é o resultado da soma de vários fatores, como o tratamento das doenças relacionadas ao tabaco, mortes de cidadãos em idade produtiva, maior índice de aposentadorias precoces, aumento no índice de faltas ao trabalho e menor rendimento produtivo. (INCA, 2012).
Os custos do tabagismo na saúde são consideráveis. Os custos médicos estimados durante a vida de um fumante excede os de um não-fumante em mais de US$6,000. As complicações decorrentes do tabaco são a maior causa de doenças e mortes evitáveis em todo o mundo. Só no Brasil, o tabaco é responsável por 200 mil óbitos por ano. O fumo está associado a 25% das doenças vasculares e das mortes causadas por angina e infarto do miocárdio, a 90% dos casos de câncer de pulmão e a 30% dos óbitos por câncer de laringe, faringe, boca, esôfago, pâncreas, rim, bexiga e colo do útero. A exposição à fumaça causa ainda câncer de seios e da face, além de colaborar para o desenvolvimento e agravamento de bronquite crônica e enfisema pulmonar. De acordo com uma pesquisa da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, da Fundação Oswaldo Cruz, estima-se que R$ 338,6 milhões sejam gastos pelo SUS anualmente com internações e procedimentos de quimioterapia no tratamento de 32 patologias tabaco-relacionadas. (PAHO, 1992;
CÔRTEZ, 2013).
Além das consequências à saúde, o tabagismo provoca enormes custos sociais, econômicos e ambientais. Em países desenvolvidos, os custos relacionados aos cuidados com as doenças associadas ao tabagismo consomem de 6% a 15%
do gasto total com saúde. Em todas as idades, o custo médio com cuidados à saúde de fumantes supera o de não-fumantes. Quanto aos danos causados ao meio ambiente, destaca-se a poluição por pesticidas e fertilizantes durante o plantio bem como o desflorestamento necessário para a cura da folha de tabaco. Em alguns países em desenvolvimento, o desflorestamento para a cura do tabaco atinge 5% do desflorestamento total. (BRASIL, 2004b).
Todos os custos para a sociedade devem ser considerados quando se avalia os custos relacionados ao tabagismo. Ou seja, além dos custos relacionados ao tratamento de pacientes acometidos por doenças tabaco-relacionadas, devem ser incluídos, por exemplo, os custos incorridos no sistema previdenciário (aposentadoria por invalidez, auxílio-doença e pensões por viuvez), a perda de produção (em termos de força de trabalho), devido à morte e adoecimento, perdas econômicas atribuídas à poluição, degradação ambiental, incêndios e acidentes.
(BRASIL, 2004c).
Dessa forma, os custos do tabagismo podem ser caracterizados como tangíveis e intangíveis.
Custos tangíveis
i) assistência à saúde (serviços médicos, prescrição de medicamentos, serviços hospitalares);
ii) perda de produção devido à morte e adoecimento e à redução da produtividade;
iii) aposentadorias precoces e pensões;
iv) incêndios e outros tipos de acidentes;
v) poluição e degradação ambiental;
vi) pesquisa e educação.
Custos intangíveis
i) a morte de fumantes e não fumantes;
ii) o sofrimento dos fumantes, não fumantes e seus familiares. (INCA, 2012).