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Teoria das Representações Sociais

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 59-67)

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

psicossociológica de origem europeia em que são considerados tanto os elementos individuais quanto os fatos sociais, um influenciando o outro de maneira recíproca.

Em uma psicologia social mais socialmente orientada, é importante considerar tanto os comportamentos individuais quanto os fatos sociais (instituições e práticas, por exemplo) em sua concretude e singularidade histórica e não abstraídos como uma genérica presença de outros. Importam ainda os conteúdos dos fenômenos psicossociais, pouco enfatizados pelos psicólogos sociais tradicionais em sua busca de processos tão básicos ou universais que pudessem abrigar quaisquer conteúdos específicos. Além disso, não importa apenas a influência, unidirecional, dos contextos sociais sobre os comportamentos, estados e processos individuais, mas também a participação destes na construção das próprias realidades sociais. (SÁ, 1993, p. 20).

Moscovici constrói sua teoria tendo como referência básica o conceito de representações coletivas desenvolvido por Durkheim, na sociologia, sendo por isso, classificada como uma forma sociológica da psicologia social. Durkheim, com seu conceito de representação coletiva, “procurava dar conta de fenômenos como a religião, os mitos, a ciência, as categorias de espaço e tempo etc. em termos de conhecimentos inerentes a sociedade”. (SÁ, 1993, p21). Vala (2000) indica que, para Durkheim, a vida social é formada por representações coletivas e representações individuais, sendo, as primeiras, produções sociais que se impõe aos indivíduos como forças exteriores e servem à coesão social. Mas, ao contrário de Durkheim, Moscovici diz:

As representações em que estou interessado não são as de sociedades primitivas, nem as reminiscências, no subsolo de nossa cultura, de épocas remotas. São aquelas da nossa sociedade presente, do nosso solo político, científico e humano, que nem sempre tiveram tempo suficiente para permitir a sedimentação que as tornasse tradições imutáveis. E sua importância continua a crescer, em proporção direta a heterogeneidade e flutuação dos sistemas unificadores – ciências oficiais, religiões, ideologias – e as mudanças pelas quais eles devem passar a fim de penetrar na vida cotidiana e se tornar parte da realidade comum. (MOSCOVICI, 1984, p. 18-19).

Definir representações sociais mostrou-se como uma tarefa complexa, levando Moscovici, na obra em que as propôs, a destacar que se a sua realidade é fácil de captar, o mesmo não ocorre com seu conceito – já que ele se encontra na encruzilhada de conceitos sociológicos e psicológicos. (SÁ, 2002). Além disso, ele nunca propôs uma definição formal ao conceito de representações sociais, sob o argumento de que ele próprio não sabia como o campo recém-inaugurado iria se

desenvolver, não querendo cristalizá-lo prematuramente através de tal definição, e nem reduzir seu alcance conceitual. (SÁ, 2007).

Embora Moscovici não tenha cristalizado um conceito de representações sociais, ele se referiu de diversas maneiras a este termo, utilizando aproximações parciais como “conjunto de conceitos, afirmações e explicações” ou “teorias do senso comum” ou ainda “ciências coletivas” sui generis. (MOSCOVICI 1978).

Uma outra consideração acerca das representações sociais feita por ele foi:

[...] um corpus organizado de conhecimentos e uma das atividades psíquicas graças às quais os homens tornam inteligível a realidade física e social, inserem-se num grupo ou numa ligação cotidiana de trocas, e liberam os poderes de sua imaginação.

(MOSCOVICI, 1978, p.28).

Ainda segundo Moscovici, essas representações são uma forma de adquirir e comunicar conhecimentos, que são socialmente compartilhados. Elas servem para extrair o significado do mundo e torná-lo mais organizado.

Moscovici introduz a teoria das representações sociais, enfatizando a existência de uma sociedade pensante, que absorve e produz conhecimento, através de indivíduos e grupos que pensam de forma autônoma e estão, a todo tempo, produzindo e comunicando representações. Como exposto anteriormente, Moscovici, em sua obra original, interessava-se em responder como um conhecimento científico – a Psicanálise, no caso – se transforma em conhecimento do senso comum – as representações sociais da Psicanálise. Em concordância com este propósito, ele propôs dois sistemas de pensamento: universo consensual e universo reificado.

No universo consensual, diz Moscovici (2003, p.49), “a sociedade é criação visível, contínua, permeada com sentido e finalidade, possuindo uma voz humana, de acordo com a existência humana e agindo tanto como reagindo, como um ser humano”. E diz ainda, “em um universo consensual, a sociedade é vista como um grupo de pessoas que são iguais e livres, cada um com possibilidade de falar em nome do grupo e sob seu auspício”. (MOSCOVICI, 2003, p.50). É nele que as representações sociais se produzem e circulam, com uma “lógica natural”, menos sensível à objetividade.

No universo reificado, se produzem e circulam as ciências e o pensamento erudito, com objetividade e rigor lógico e metodológico. Acerca dele, diz Moscovici (2003, p.50), “a sociedade é transformada em um sistema de entidades sólidas, básicas, invariáveis, que são indiferentes à individualidade e não possuem identidade”. E continua

Num universo reificado, a sociedade é vista como um sistema de diferentes papéis e classes, cujos membros são desiguais. Somente a competência adquirida determina seu grau de participação de acordo com o mérito [...] ou de se abster desde que ‘ eles não tenham competência na matéria’. (MOSCOVICI, 2003, p.51).

Para o estudo em questão, se faz importante notificar as diferenças desses universos de pensamento, já que grande parte das informações acerca do tabagismo advém do universo reificado e são apropriadas pelo universo consensual, formando, assim, as representações sociais.

A representação social é entendida como um processo que torna o conceito e a percepção de algum modo intercambiáveis, na medida em que se engendram reciprocamente. (MOSCOVICI, 1978). Assim, a representação possui uma estrutura de dupla natureza – conceptual e figurativa. A conceituação permite que um objeto não presente seja concebido, simbolizado; ao passo que a atividade perceptiva recuperaria esse objeto, dando-lhe uma concretude icônica, figurando-o. (SÁ, 2002).

Sobre isso, diz Moscovici:

Representar uma coisa, um estado, não consiste simplesmente em desdobrá-lo, repeti-lo ou reproduzi-lo; é reconstruí-lo, retocá-lo, modificar-lhe o texto. A comunicação que se estabelece entre conceito e percepção, um penetrando no outro, transformando a substância concreta comum, cria a impressão de ‘realismo’, de materialidade das abstrações, visto que podemos agir com elas, e de abstração das materialidades, porquanto exprimem uma ordem precisa. Essas constelações intelectuais, uma vez fixadas, fazem-nos esquecer que são obra nossa, que tem um começo e que terão um fim, que a sua existência no exterior ostenta a marca de uma passagem pelo interior do psiquismo individual e social. (MOSCOVICI, 1978, p.

58).

Logo, para o autor (MOSCOVICI, 1978, p.65), “a estrutura de cada representação apresenta-se-nos desdobrada, tem duas faces tão pouco dissociáveis quanto a página da frente e o verso de uma folha de papel: a face figurativa e a face simbólica”. Dessa forma, a representação compreende, por meio do processo de

ancoragem, a toda figura um sentido e, por meio do processo de objetivação, a todo o sentido uma figura. (MOSCOVICI, 1978).

A ancoragem é o processo que consiste na integração de novas informações em um sistema de categorias familiares. É ela que possibilita a absorção de novidades em uma configuração antiga, que integra a representação numa rede de significação fortemente marcada por valores sociais. Isso gera um sistema de interpretação, e fornece um quadro para a determinação de comportamentos que geram expectativas, necessidades e antecipações. 7 (ABRIC, 1996, p.78, tradução nossa).

De acordo com Moscovici (2003, p.61), ancorar significa classificar e denominar, pois “coisas que não são classificadas e que não possuem nome são estranhas, não existentes e ao mesmo tempo ameaçadoras”. Para ele, a classificação é dividida basicamente em três etapas: primeiro escolhemos um protótipo estocado na nossa memória; depois o comparamos com o objeto a ser representado; e por último decidimos sobre a inclusão ou não dele na classe em questão. Vale ressaltar que não se trata de uma operação lógica, mas sim de uma comparação generalizadora ou particularizadora, onde a inclusão (ou não) na categoria é realizada com base na coincidência ou divergência em relação a um único ou poucos aspectos significativos que definem o protótipo. (SÁ, 1993).

Dessa forma, pela própria lógica do processo, não existe neutralidade. Cada objeto possuirá um valor e assumirá um lugar em uma nítida escala hierárquica.

Sobre isso, Moscovici (2003, p.63), diz que “categorizar alguém ou alguma coisa significa escolher um dos paradigmas estocados em nossa memória e estabelecer uma relação positiva ou negativa com ele”.

No entanto, ele diz ser impossível classificar sem, ao mesmo tempo, nomear.

“Ao nomear algo, nós o libertamos de um anonimato perturbador, para dotá-lo de uma genealogia e para incluí-lo em um complexo de palavras específicas, para localizá-lo, de fato, na matriz de identidade de nossa cultura”. (MOSCOVICI, 2003, p.

66). E diz ainda:

7O texto em língua estrangeira é: “ As for the anchoring, it is a process which consists in integrating new

information within a system of familiar categories […]. Anchoring is what makes possible the absorption of novelty into an old setting, […] it integrates the representation in a network of significance heavily marked by social values. It generates a system of interpretation, it offers a framework for the determination of behaviours in creating expectations, needs and anticipations”.

Minhas observações provam que dar nome a uma pessoa ou coisa é precipitá-la (como uma solução química é precipitada) e que as consequências daí resultantes são tríplices: (a) uma vez nomeada, a pessoa ou coisa pode ser descrita e adquire certas características, tendências etc.; (b) a pessoa ou coisa, torna-se distinta de outras pessoas ou objetos, através dessas características e tendências; (c) a pessoa ou coisa torna-se o objeto de uma convenção entre os que adotam e partilham a mesma convenção. (MOSCOVICI, 2003, p.67).

Segundo Sá (1998, p. 69), identificar o processo de ancoragem na formação das representações sociais é uma tarefa complexa “pela dificuldade intrínseca de sua identificação, que obrigaria à realização de uma pesquisa histórica da vida e do pensamento popular, para a qual não se encontram facilmente fontes fidedignas [...]”. Por esse motivo, a análise da ancoragem não será incluída como um objetivo da pesquisa empírica da presente tese. Para a apreciação desse processo, argumentos e resultados de outros autores serão utilizados.

Quanto à objetivação, segundo a caracterização de Moscovici (2003, p.71),

“objetivar é descobrir a qualidade icônica de uma ideia, ou ser impreciso; é reproduzir um conceito em uma imagem”, porque, acrescenta, “desde que suponhamos que as palavras não falam sobre ‘nada’, somos obrigados a ligá-las a algo, a encontrar equivalentes não-verbais para elas”. Abric diz que a objetivação é o processo que permite que uma teoria abstrata se torne concreta. Segundo ele, as informações disponíveis são resolvidas, selecionadas e simplificadas; além disso são descontextualizadas. Tendo essas informações sido selecionadas e descontextualizadas, são, então, organizadas de uma maneira específica: elas constituem o “código imagético”, o modelo figurativo que representa o elemento chave na gênese da representação social, como esse elemento representa para um grupo ou pessoa um status de fato; ele será usado como um quadro de interpretação e categorização de novas informações. 8 (ABRIC, 1996, p.78, tradução nossa).

Segundo Vala (2000), a objetivação é divida em três etapas: construção seletiva, esquematização, naturalização. A construção seletiva diz respeito ao processo de seleção e descontextualização, que as informações e crenças acerca

8O texto em língua estrangeira é: “The objectification is the process allowing an abstract theory […] to become concrete. Available information are sorted out, selected and simplified. They are also ‘de-contextualized’ (that is to say, dissociated from the initial theoretical discourse). These information having been selected, and de-

contextualized, are then organized in a specific way: they constitute the imaging core, the figurative model representing a key element in the genesis of a social representation, as this element represents for a group or a person a status of fact, it will be used as a frame of interpretation and categorization of new information.”

do objeto da representação sofrem inicialmente. Esse processo não é neutro nem aleatório, já que existem normas e valores subjacentes; sendo apenas uma parte da informação utilizada, pois o objetivo é formar um todo relativamente coerente. A esquematização corresponde à organização dos elementos de forma a constituírem um padrão de relações estruturadas. Essas relações revestem uma dimensão imagética, fornecendo uma imagem a cada elemento de sentido, permitido assim, a materialização de um conceito. É então, na etapa de naturalização que os conceitos retidos no esquema figurativo, e suas respectivas relações, se constituem como categorias naturais e adquirem materialidade. O que era abstrato torna-se concreto, e o que era percepção torna-se realidade.

A descrição feita acima faz supor que existiria um ponto de partida e um ponto de chegada. Mas, Vala (2000) diz que um pesquisador, ao estudar a representação social da doença, pode confrontar essa representação com os saberes médicos, mas estes saberes – que são diversificados e contraditórios – não necessariamente constituem o ponto de partida das representações sobre a doença. Cabe ao pesquisador, então, reconstruir a estrutura da representação apenas dispondo do ponto de chegada. Se examinarmos as imagens veiculadas na mídia acerca do tabagismo, podemos supor que sua objetivação se traduza em imagens ligadas à doenças, sofrimento, sujeira e morte. As imagens referentes ao tabagismo tendem a ser negativas, remetendo a pessoas amputadas, com problemas respiratórios e câncer. As advertências sanitárias contidas nos versos dos maços de cigarro, por exemplo, mostram claramente esse tipo de imagem – obviamente, nesse caso, o objetivo é exatamente chocar a população para, assim, evitar o consumo do cigarro.

Tais imagens podem ser observadas no anexo B. (Anexo B).

Esses processos – de objetivação e ancoragem – são subordinados a um princípio básico da representação social que é transformar o não-familiar em familiar.

Na medida em que diversas medidas de controle do tabagismo vem sendo implementadas – legislações restritivas, proibição do fumo em locais públicos, proibição da propaganda, criação das advertências sanitárias, aumento dos impostos - as pessoas tentarão entender melhor essa nova realidade frente um antigo objeto de forma a torná-la familiar. Irão ancorar esse objeto, agora novo, em

categorias prévias, bem como nomeá-lo, e assim torná-lo familiar, construindo assim representações sociais sobre o tabagismo.

Além disso, Moscovici considera que existam três condições de emergência das representações: dispersão da informação, focalização, e pressão à inferência.

Em relação à dispersão da informação, já há muito tempo o tabagismo tem sido difundido pelos meios de comunicação de forma bastante intensa, sendo conhecido não só pelos fumantes, mas também pela população de modo geral. Quanto à focalização, certamente há uma grande mobilização sobre o tema entre as pessoas, devido às atuais intervenções legais de restrições de local de fumo e proibição das propagandas de cigarro. Essas medidas tem colocado o tabagismo sob foco de discussão entre as pessoas – seja de forma favorável ou contrária - levando-as a falarem mais sobre ele, bem como a buscarem mais informações sobre essas novas restrições, elaborando assim, uma representação acerca dele. Já a pressão à inferência, vem da urgência dos problemas associados ao objeto ou por instâncias sociais externas ao grupo que impulsiona a tomada de posição frente ao novo e desconhecido elemento. Dessa forma, pode-se dizer que vale a pena estudar esse objeto – o tabagismo– segundo a perspectiva teórica das representações sociais, pois é altamente provável que as pessoas efetivamente o representem. (SÁ, 2002).

Como vimos, a representação não é um simples reflexo da realidade, ela é uma organização significante. Dessa forma, funciona como um sistema de interpretação da realidade regendo as relações dos indivíduos com o seu meio físico e social, e determinando seus comportamentos e suas práticas. (ABRIC, 2000).

Percebemos, então, que Abric reforça a ideia inicialmente proposta por Moscovici (1978, p.77), de que as representações sociais contribuem “para os processos de formação de condutas e de orientação das comunicações sociais”.

Apresentada a conceituação de Moscovici, descreveremos a seguir os julgamentos de outros teóricos também importantes no campo das representações sociais. Para Wagner, o termo representação social designa um conteúdo mental estruturado – ou seja, cognitivo, avaliativo, afetivo e simbólico – sobre um fenômeno social relevante, que é conscientemente compartilhado com outros membros do grupo social, e que toma a forma de imagens ou metáforas. (WAGNER, 2000).

A conceituação de Abric não difere muito das demais, declarando que a representação é um conjunto organizado de opiniões, de atitudes, de crenças e de informações referentes a um objeto; sendo determinada concomitantemente pelo próprio sujeito, pelo sistema social e ideológico no qual ele está inserido e pela natureza dos vínculos mantidos com esse sistema social. (ABRIC, 2001).

Laplantine propõe a seguinte definição de representação:

[...] é o encontro de uma experiência individual e de modelos sociais num modo de apreensão particular do real: o da imagem-crença, que, contrariamente ao conceito e à teoria que é sua racionalização secundária, sempre tem uma tonalidade afetiva e uma carga irracional. Trata-se de um saber que os indivíduos de uma dada sociedade ou de um grupo social elaboram acerca de um segmento de sua existência ou de toda sua existência. É uma interpretação que se organiza em relação estreita com o social e que se torna, para aqueles que a ela aderem, a própria realidade. (LAPLANTINE, 2001, p.242).

Apesar da dificuldade de conceituação, Jodelet refletindo sobre aquilo que lhe pareceu ser consensual entre os estudiosos deste campo, apresenta a seguinte caracterização do fenômeno:

[...] é uma forma de conhecimento, socialmente elaborada e partilhada, com um objetivo prático, e que contribui para a construção de uma realidade comum a um conjunto social. Igualmente designada como saber de senso comum ou ainda saber ingênuo, natural, esta forma de conhecimento é diferenciada, entre outras, do conhecimento científico. Entretanto, é tida como um objeto de estudo tão legítimo quanto este, devido à sua importância na vida social e à elucidação possibilitadora dos processos cognitivos e das interações sociais. (JODELET, 2001, p.22).

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 59-67)