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Aspectos específicos do leigo em Medellín

No documento ATITUDE E MISSÃO DO LEIGO: (páginas 154-157)

4.2 Medellín: a recepção do Vaticano II na América-Latina

4.2.2 Aspectos específicos do leigo em Medellín

Beozzo apresenta alguns depoimentos de bispos católicos e de outras denominações, tomados em Riobamba, em agosto de 1998, num encontro de homenagem aos dez anos de morte de Mons. Leônidas Proaño, sobre a recepção de Medellín. Dom Samuel Ruiz, bispo de San Cristóbal de las Casas, de Chiapas, declarou:

Fui envolvido por uma igreja mergulhada na história que respondeu ao desafio que América Latina colocava, ante um Concilio Ecumênico Vaticano II que foium acontecimento de dimensão universal, com desafios especificamente europeus, Medellín foi algo mais que uma ‘tradução do Concílio’ para nosso continente: foi a emergência de uma Igreja Latino-americana madura e iluminadora528.

Essa tradução do Concílio foi realizada de modo criativo, com preocupação centrada no ser humano latino-americano, suas necessidades. Kuzma afirma que foi “um recepcionar criativo, um fazer valer de questões graves e essenciais para a fé, que tiveram abertura diante das propostas conciliares e que na América Latina encontraram uma maneira ousada e favorável de agir em que produziu um caminho a ser seguido”529.

Cabestrero afirma que Medellín foi capaz de mudar a Igreja Latino-americana, que antes recebia muito de fora (missionários, recursos, teologia, práticas pastorais), pois a partir dela foi capaz de desenvolver e caminhar com recursos próprios, com nova sensibilidade pastoral, apoiada em nova reflexão teológica a partir de sua experiência, com foco na realidade dos pobres, com nova forma de organização - as CEBs [...].Também ela (a Igreja latino-americana) pagou um preço, através do sangue de mártires mortos por ditaduras e governos autoritários530.

O termo “leigo” aparece 47 vezes em todo o texto das Conclusões, o que, considerando o tamanho do documento, não nos parece muito531, e 20 no documento n. 10. Nesse, chama atenção a incidência da palavra “compromisso”, que aparece 14 vezes. Isso mostra o que se deseja dos leigos e de seus movimentos: compromisso. Mas, compromisso com o que?

As questões que talvez sejam pertinentes ao tema são: como Medellín vê o leigo latino- americano no mundo e na Igreja? Que papel lhe caberia neste continente, à época, e que serviços ao mundo e à Igreja deve desempenhar? Como deveria agir esse novo leigo latino-americano, pós-Vaticano II? Como vê a vocação do leigo naquele momento histórico latino-americano?

O relatório sobre os “Movimentos de leigos” inicia afirmando que, “em outros documentos, e de diferentes ângulos, assinalou-se a presença dos leigos no processo de transformação do continente”. E continua dizendo o objetivo do documento 10: “Neste documento nos propomos rever a dimensão apostólica dessa presença no momento histórico em que todos estamos vivendo na América Latina”532. E passa a descrever que momento é este:

uma ordem social de países subdesenvolvidos, com presença de “marginalidade, alienação, pobreza, e condicionada, em última instância por estruturas de dependência econômica, política e cultural em relação às metrópoles industrializadas, que detém o monopólio da tecnologia e da ciência (neocolonialismo cf. PP, n.3)”.

Entende que a situação levou a algumas revoltas e protestos, e “aspirações à libertação, ao desenvolvimento e à justiça social”. E afirma que “esta complexa realidade, historicamente, coloca os leigos latino-americanos ante o desafio de um compromisso libertador e humanizador”. Aqui, temos a visão geral do compromisso dos leigos e que deveria perpassar a ação dos movimentos laicos na Igreja latino-americana.

Para a concretização desse compromisso maior, por parte dos leigos, conclama que “as novas condições de vida obrigam os movimentos leigos da América Latina a aceitarem o desafio de um compromisso de presença, de adaptação permanente e de criatividade”. Pede-se, assim, atitudes. Flexibilidade adaptativa e criatividade533.

Por outro lado, associa crises de movimentos leigos à falta de capacidade “insuficiente de dar resposta a este desafio (presença, adaptabilidade e criatividade acima descritas). Isso, porque “fecharam-se em si mesmos, ou aferraram-se a estruturas demasiado rígidas”534. Cita, também, a falta de pedagogia apropriada à “presença e compromisso nos ambientes funcionais”,

531 Este documento possui seis páginas e meia (em 151, Documentos do Celam.).

532 CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO, Documentos do Celam, p. 160.

533 CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO, Documentos do Celam, p. 161.

534 Ibid.

que é onde o documento afirma que “fermenta o processo de transformação social”535. Numa linguagem mais acessível, o documento afirma que os movimentos leigos estavam muito distantes do povo, especialmente das parcelas da população onde ocorriam as demandas de transformação.

Critica, ainda, a pouca “integração dos movimentos leigos na Igreja” e que, na prática, desconhece-se a autonomia desses movimentos e a falta de assessores preparados para “as novas exigências do apostolado”. Mas reconhece, apesar das críticas, os serviços prestados pelos movimentos536.

O texto rememora muitas afirmações do Vaticano II: o tríplice múnus do leigo, o compromisso com o mundo, a promoção humana, a autonomia e responsabilidade do leigo; cita a Populorum Progressio e a sua frase final: “Aos leigos, por sua livre iniciativa e sem esperar passivamente ordens e diretrizes, pertence impregnar de espírito cristão a mentalidade, os costumes, as leis, e as estruturas da comunidade em que vivem” (n.81). Esse compromisso temporal é mediado pela “consciência, é a fé, que opera pela caridade”537.

Há, ainda, recomendações pastorais, nas quais o compromisso de testemunho, isto é, de vida,deve acontecer onde se desempenha a profissão, sendo fermento, e no trabalho em equipes ou comunidades de fé, para que cumpram a missão leiga de que a “Igreja ‘aconteça’ no mundo”538. É clara a opção por ação do leigo em grupos, em comunidade. Isso é reforçado noutros documentos, pelo chamado à criação de CEBs539.

Os movimentos leigos são chamados a terem o compromisso de “promover ‘o progresso dos povos mais pobres e favorecer a justiça entre as nações’” (PP, n. 5). Mais uma vez, vemos a influência da Populorum Progressio540. Afirma que a espiritualidade leiga é baseada no

“compromisso com o mundo, ajudando-os a se entregarem a Deus, entregando-se aos homens”541.

Kuzma entende que Medellín “favoreceu de maneira considerável as ações eclesiais promovidas por estes Movimentos, fomentando ainda mais o seu caráter missionário para o benefício de toda a Igreja e sociedade”. E vê a existência de articulação da pastoral e contato com diferentes setores da sociedade, e não apenas nos ambientes de família e vizinhança, e que Medellín chama de espaços onde se articulam as demandas de transformação social, um grande

535 Ibid.

536 Ibid., p. 161-162.

537 Ibid., p. 163.

538 Ibid., p. 164.

539 Ibid., p. 164-165.

540 Ibid., p. 165.

541 CONSELHO EPISCOPAL LATINO-AMERICANO, Documentos do Celam, p. 165.

avanço. Acrescenta que Medellín teve um contexto favorável à sua recepção, com reflexos na ação do leigo e na nova visão de sua vocação no mundo e na Igreja542.

Concluímos que Medellín, no relatório do grupo dedicado ao tema “Movimentos de leigos”, conclama-os a reverem suas práticas, métodos e pedagogia. Entende o leigo latino- americano como um construtor do mundo, de seus países, participante da transformação que leve ao rompimento com o subdesenvolvimento, em prol de um desenvolvimento em prol dos mais pobres. Que sejam movimentos criativos, que a ação leiga se faça em equipes ou comunidades e que rompam com práticas limitadas, associando-se a novos locais onde estão se formando as demandas e ações de transformação social.

No documento ATITUDE E MISSÃO DO LEIGO: (páginas 154-157)