2.2 Os inovadores: a teologia do laicato
2.2.2 Yves Congar: a teologia do laicato se faz presença. Uma obra monumental
2.2.2.3 Cristo: rei, sacerdote e profeta e o cristão leigo
Para recuperar uma eclesiologia integral, Congar parte de Cristo, Deus encarnado, fonte da comunhão com os homens. Na encarnação, Cristo exerce três funções: a real, a sacerdotal e a profética. Na comunhão com o Cristo, também o seu povo realiza, de forma diferente do próprio Cristo, essas funções. Ele confessa que seu intuito foi o de
recuperar para a eclesiologia a inspiração e os recursos de uma Tradição mais antiga e mais profunda que os esquemas jurídicos e puramente hierarcológicos que prevaleceram nas polêmicas anticonciliarista, e depois antiprotestante, enfim na restauração dos tempos de Gregório XVI e de Pio IX, e nos manuais apologéticos modernos”, quando a Igreja é mostrada como ‘societas perfecta’, ‘societas ineaqualis, hierarchica’219.
216 CONGAR, Jalons, p. 78-79.
217 Ibid.
218 Ibid.
219 Ibid., p. 10-11.
Congar tenta mostrar a Igreja como “Corpo de Cristo, inteira e intimamente animada por sua vida”220. É a partir daí que apresenta a sua visão de uma nova eclesiologia integral, na qual o leigo e a comunidade assumem papel relevante.
2.2.2.3.1 A função real
Utilizando passagens bíblicas (Hb 1,1-2; 2,10; 10,14; 12,2; Cl 1,5.15-16.18; 2Sm 7; Zc 6,13; Sl 110; Mt 26,18; Ef 1,20-22), Congar ressalta a realeza do Cristo. É a sua soberania total sobre o universo, Cristo Pantocrator, a fonte da realeza do cristão: “Mas o poder soberano do Cristo passa ao domínio dos fiéis que se submetem a ele pela fé”221. Desse modo, os cristãos possuem uma realeza, quando se inserem no Cristo pela fé.
Congar divide a obra de Cristo, para a realização escatológica, em dois tempos: o do Cristo e o da Igreja222. Sua obra é germe que dará frutos, e tudo o que está em Jesus no princípio, estará no fim223. E explicita:
Quando falamos de ‘tempo da Igreja’ entendemos um certo regime, as condições de existência e da obra cristãs, mas entendemos também uma certa duração: dias, anos e séculos. A questão que se coloca é qual o sentido deste tempo? É, para o cristianismo e para o resultado final, isto é, para a Parousiae para o reino, alguma coisa como acidental ou indiferente ou ele tem um papel, um valor positivo?224.
Ao falar do reinado de Jesus, a natureza da realeza de Jesus, Congar faz uma comparação entre a entrada triunfante de Jesus em Jerusalém e a estadia em Betânia. E mostra a concepção de reinado, para Cristo: o seu reinado se dava em Betânia, no coração dos seus amigos, e não nos ramos de Jerusalém (Mc 11,11; Mt 21,17)225. É na sua pequena Igreja, na comunidade dos fiéis, que ele reina.
Jesus estabeleceu um limite distinto entre a Igreja, reino espiritual da fé, e o mundo natural dos homens e da história (“Dai a César o que é de César...”, Mt 22,21; “Meu reino não é deste mundo”, Jo 18,36, etc.). Mesmo com sua soberania universal, Cristo não desejou exercer essa autoridade entre os dois tempos226.
220 CONGAR, Jalons, p. 10-11.
221 Ibid., p. 90.
222 Ibid., p. 98-99.
223 Esta teologia do alfa e do ômega é muito presente na obra.
224 Ibid., p. 100.
225 Ibid., p. 111.
226 Ibid., p. 112.
Congar introduz base para a eclesiologia de comunhão. Ao analisar o papel da hierarquia na Igreja, ele mostra que uma das riquezas da eclesiologia católica é que a Igreja é, simultaneamente, comunhão com Deus em Cristo e meio de procurar essa mesma comunhão227.
Mas, e a realeza dos leigos? Para Congar, ela está exatamente em seu papel no mundo.
O fiel está em Cristo, Pantocrator, e deste modo exerce sua realeza no domínio do mundo, já descrita em Gn 1,28; 2,20. Ir dominando o mundo é tarefa de cooperador com Deus. Ele se
“apropria dos recursos do mundo, tornando-se o motor (e então seu servidor) de seu movimento, no qual deve realizar o desenvolvimento progressivo do espírito, disposição ineficaz mas desejada, à ascendência soberana do Espírito”228. Hoje, essa afirmação da soberania do homem sobre as coisas, diante dos problemas ecológicos, soa idílica229.
Realeza é, então, para Congar, a inserção humana na “obra do mundo, onde ele cumpre o programa, traçado por Deus, de domínio” 230. Entende ser este o centro da condição cristã. É a relação do cristão com as coisas. Mas esse cristão tem a autoridade do Cristo,
superioridade de potência e autoridade. Não somente a hierarquia é divinamente instituída na Igreja, mas a autoridade é real e boa na ordem temporal; e mais, ela tem fundamento na própria ordem da criação, um fundamento positivo propriamente cristológico231.
Entretanto, poder, para o cristão, é serviço. A tentação, segundo Congar, é a de esquecer a realeza espiritual, a da “Sabedoria da cruz; de ceder à sabedoria do século”232.
O cristão possui dupla lealdade: ao mundo, no amor e serviço, e a Cristo. No mundo, esse engajamento possui um aspecto de sacrifício, lado doloroso do engajamento, que é sinal de liberdade espiritual, na qual o cristão realiza como a sua realeza espiritual. O cristão possui liberdade de servir a Deus na sua própria realeza. Daí que ele pode, nessa liberdade e realeza, aceitar “espiritualmente a soberania do absoluto sobre o relativo”, e com isso recusar a obra do mundo, dedicando-se inteiramente ao Reino233. É na ordem temporal que se dá a autoridade dos leigos234.
Mas há a realeza espiritual do cristão, com a qual ele pode ter a liberdade espiritual diante do mundo. O domínio de Cristo sobre o mundo, no qual se insere, é também domínio
227 CONGAR, Jalons, p. 148.
228 Ibid., p. 320.
229 Ibid.
230 Ibid.
231 Ibid., p. 321.
232 Ibid., p. 322.
233 Ibid., p. 324-325.
234 Ibid., p. 327.
sobre si, domínio moral235. É realeza que acontece na liberdade. Nela, o homem é livre em relação ao que é inferior, porque sua alma está em Deus, e “o homem interior reina sobre o homem exterior”. O fiel a exerce
na submissão e união à vontade de Deus, na adaptação ao seu propósito sobre nós, sobre nossos irmãos e sobre o mundo, que o fiel de Jesus Cristo participa, na submissão, da realeza e da santidade de seu Príncipe. Deste modo que a sua realeza espiritual é propriamente sobrenatural e cristã236.
O cristão vive um paradoxo nessa realeza. É cidadão do mundo, da cidade dos homens, da cidade de baixo, imanência. É também cidadão da cidade do alto, onde há a transcendência do mundo. Nesse paradoxo de imanência e transcendência vive o cristão. Dupla lealdade, ao mundo, no amor e sacrifício, sinal de liberdade espiritual, que o cristão se engaja nele. Isso significa renúncias, sacrifícios, cruz, desengajamentos. Exige resistência à tentação do pecado, disposição de renúncia e de pobreza –a “pobreza real” – que se vislumbra no destino celeste do homem237. Exige independência de consciência e liberdade de servir a Deus, que são sinais de realeza espiritual que nos “coloca espiritualmente serviço do absoluto sobre o relativo”. A segunda é a recusa do mundo. Resulta da transcendência e da resistência e independência de consciência, capacidade de renúncia e de pobreza, uma “pobreza real”, diante do destino celeste do homem. É fruto da fé, da “vitória que venceu o mundo” (1Jo 5,4), é soberania do absoluto sobre o relativo. É exercício de nossa realeza espiritual.
2.2.2.3.2 A função sacerdotal
Depois de longa exposição sobre o sacerdócio na Bíblia e na Tradição, Congar conclui que os leigos são possuidores de um sacerdócio. Ele consiste “num culto e sacrifícios dos fiéis, e o sacerdócio que lhes corresponde é essencialmente a vida santa, religiosa, orante, consagrada, caritativa, misericordiosa, apostólica”238. Portanto, não é um sacerdócio litúrgico-sacramental, mas sacerdócio espiritual. “Sem dúvida alguma o sacerdócio dos fiéis corresponde ao culto espiritual que é a oferta de uma vida santa”239. Essa é uma ideia que vem de Santo Agostinho, afirma Congar, para quem o “sacerdócio e o sacrifício dos fiéis consistem em se ordenar conforme Deus”.
235 CONGAR, Jalons, p. 316.
236 Ibid., p. 317.
237 Ibid., p. 324-325.
238 Ibid., p. 177.
239 CONGAR, Jalons, p. 179.
Para Congar, o “sacerdócio dos fiéis é realidade extremamente rica, que não se esgota num só aspecto, nem em uma só afirmação”240. A consagração dos fiéis se dá no batismo241. Toma emprestado a visão de Agostinho, na qual os fiéis são incorporados a Cristo, no batismo, e nele se tornam reis, sacerdotes e profetas242.
Em Tomás de Aquino também está presente esta noção de sacerdócio, que o entende como sendo a oferta de verdadeiras hóstias espirituais243. É o agir espiritual dos fiéis que faz de suas vidas uma oferta santa, um sacerdócio espiritual. Congar o vê como enraizado na profunda Tradição cristã, a qual só compreende um verdadeiro e único sacerdócio, o de Cristo, o “eterno sacerdote nos céus”244. Nele, os “fiéis são incorporados ao duplo título da consagração sacramental pelo batismo e da fé viva”245. Adiante retoma o pensamento de Tomás. Nele o sacerdócio de vida na graça (o sacerdócio espiritual),
que é a vida no Cristo, vida pelo Espírito Santo: este é o sacerdócio dos justos, o da comunhão com Deus. A oferta de hóstias que se chamarão espirituais” [...]. O outro sacerdócio, sacramental, consiste na participação na função sacerdotal de Cristo. Ele é adquirido pelos sacramentos que conferem um caráter: batismo, confirmação e ordem246.
Vemos a diferença dos dois sacerdócios. Um é espiritual, oferta de vida santa, que advém do batismo. Outro é conferido pelo sacramento da ordem, específico.
O sacerdócio ministerial é diferente do sacerdócio comum dos fiéis. O ministerial é, conforme Congar, diante da “Sagrada Escritura e uma sã teologia, como a qualidade que permite se apresentar diante de Deus para obter a sua graça, e então a comunhão, pela oferta de um sacrifício que lhe seja agradável”247.
O autor faz longa digressão sobre o que significa sacrifício nas Escrituras e na Tradição cristã. Para ele, a “alma do sacrifício é a aceitação livre e amante de nossa referência a Deus, isto é, de nossa dependência absoluta onde nós somos dele e nossa orientação se volta para ele”248. Por isso pode existir o sacrifício interior, ou o sacrifício invisível de santo Agostinho.
240 Ibid., p. 180.
241 Ibid., p. 181.
242 Ibid., p. 181-182.
243 Ibid., p. 184-187.
244 Ibid., p. 195.
245 Ibid.
246 Ibid., p. 218.
247 Ibid., p. 200.
248 CONGAR, Jalons, p. 202.
Para Tomás de Aquino, todo sacrifício é oblação, mas nem toda oblação é sacrifício. Só a sacralização da oferta a torna sacrifício249.
Congar distingue duas formas no sacrifício de Cristo. Uma, interior, de toda a vida; e a exterior, em sua Páscoa. Desde a encarnação de Cristo até a sua morte, a humanidade está incluída no Cristo. “Seu sacrifício e seu sacerdócio tiveram uma condição supratemporal e supra espacial”250. O reinado de Cristo, Pantocrator e criador de todas as coisas, único autor da graça, e único celebrante no céu e na terra, “e todo culto, toda celebração deve passar por ele para ser recebido por Deus”. Ele “é alfa e ômega de tudo que relaciona os homens a Deus”251, que nos insere em alfa como mistério do princípio de tudo, inclusive do homem, e como ômega, mistério parousíaco252.
Congar se insere na Tradição da Igreja. Reafirma o princípio da apostolicidade de Irineu, que é “a peça maior da dependência e continuidade de todo ensinamento e de toda santificação em relação ao fato histórico único da Encarnação”253. Reconhece que o sacerdócio ministerial
“não veio de baixo, mas do alto, do Cristo como Senhor da Igreja, tendo poder sobre ela”254. Afirma que “os sacerdotes hierárquicos são sacerdotes numa comunidade e para uma comunidade”255. O poder exercido não é dele, vem de Cristo, não da comunidade. O poder também não vem do povo. O poder vem do Cristo, e o sacerdote é aquele que ele representa.
E continua a reflexão sobre o sacerdócio dizendo que
é importante esclarecer[...] insistir sobre a união do sacerdócio de forma hierárquica e o sacerdócio dos fiéis num sacerdócio da Igreja. O perigo se apresenta, então, e não é uma quimera, de ver apenas um sacerdócio indistinto, e, no fundo, único, de Igreja, sacerdócio que seria somente exercido organicamente pela comunidade, por uma parte, e ministros órgãos desta comunidade, por outra parte256.
Ele vê a necessidade de articular três afirmações da Escritura Sagrada: “Um só é sacerdote, iereus. Todos são sacerdote (no singular), iereus. Alguns são ‘sacerdotes’
presbiteroi”.
249 Ibid., p. 202-203.
250 Ibid., p. 209.
251 Ibid., p. 211.
252 Ibid.
253 Ibid., p. 221.
254 Ibid.
255 Ibid., p. 222.
256 Ibid.
Para Congar, o sacerdócio ministerial “não se limita estreitamente ao poder de consagrar os dons litúrgicos, de ‘conficere sacramentum’”. O sacramento não é coisa em si, para si. Só na comunidade de comungantes ele “encontra sacramentalmente a sua “realidade”257.
É na história que as “competências hierárquicas aparecem como derivadas do poder sacramental de celebrar os sacramentos, e singularmente a eucaristia, a comunhão eclesiástica é uma extensão e como a realização ou aplicação concreta da comunhão sacramental258. Congar afirma, também, o que chama de uma “verdade muito importante [...] A de que o padre, (bispos, papa), é antes de tudo um leigo”259. Antes de ser padre, é preciso “ser batizado, tornar-se cristão, oferecer sua vida como hóstia espiritual, comungar, fazer penitência, ser abençoado, buscar a salvação”260.
A partir desta afirmação, o autor introduz uma reflexão sobre o apostolado leigo, que para ele não é o que não é próprio do padre, mas deve ser exercido por todo cristão261. Esse apostolado leigo é de inspiração pessoal, “mas de uma certa maneira ex officio, por missão de toda a Igreja”262. No entanto, reconhece que o padre possui algo a mais neste apostolado, que é o ofício, que requer mais especialização, mais formação e preparação e, também, como “padre hierárquico”, de “competência de poderes propriamente hierárquicos, com os carismas que lhe aferem: certa participação na jurisdição espiritual e na autoridade doutrinal dos bispos”263.
De certo modo, Congar referenda a sua experiência coma Ação Católica e o Magistério de papas de sua época, como Pio XI, que incentivaram o apostolado dos leigos, como auxiliares da hierarquia.
Destaca o papel missionário dos leigos, testemunhando a fé, e que eles são sinal da Igreja diante do mundo. Analisa várias designações de sacerdócio e acaba por preferir os termos sacerdócio espiritual, ministerial ou hierárquico e sacerdócio dos fiéis. Ao final, destaca que o sacerdócio espiritual-real é o de santidade da vida ofertada, mas o sacerdócio sacramental ou litúrgico (liturgia=serviço público), sempre eclesial e comunitário, exercido por um sacerdote ministerial, que denomina hierárquico ou ministerial264.
Concluímos que, para Congar, o sacerdócio dos fiéis é espiritual, oferta de vida santa, testemunho de sua vida cristã e de seu apostolado vivido no mundo e na ação dentro da Igreja.
257 CONGAR, Jalons, p. 232-233.
258 Ibid., p. 232.
259 Ibid., p. 234.
260 Ibid.
261 Ibid., p. 235.
262 Ibid., p. 234.
263 Ibid.
264 Ibid., p. 243.
O sacerdócio ministerial é específico e pressupõe o anterior, o espiritual, mas ele é voltado à liturgia (serviço público), às competências hierárquicas (presidência da comunidade, de celebração comunitária, etc.). Ambos constituem o sacerdócio da Igreja.
As ofertas espirituais dos fiéis em seu sacerdócio são a misericórdia (caridade, solidariedade), o louvor e testemunho (ação de graças)265. Esse sacerdócio se dá na própria missão de pais e mães de família266, pois o casamento é da ordem da graça de Deus, o que nas Escrituras se verifica no assemelhar do amor divino com sua Igreja semelhante ao amor do casal. Assim, o pai de família exerce um verdadeiro sacerdócio reconhecido como tal pelos Padres da Igreja267.
Para Congar, o culto é celebrado por toda a Igreja, e o presbítero é o ministro normal.
Ele é celebrante in persona Christi, no seu ministério. Como pessoa ordenada, ele age também in persona ecclesia, pois é ministro instituído pela Igreja268. Isso não impede que o autor defenda, apesar de não ser competência dos fiéis, que os sacramentos e certos sacramentais poderiam ser exercidos pelos fiéis comuns269. Na ausência de presbíteros, eles poderiam exercer funções do ministério público, como assistir casamentos, presidir orações, etc.270. Isso daria, posteriormente, o acesso de fiéis a ministérios leigos. Entre eles, a concessão de ordens menores aos leigos, como o leitorato e o acolitato. Defende a regulamentação da manipulação da eucaristia por leigos, pois antes de Nicéia, os leigos levavam a eucaristia para casa e comungavam com ela durante a semana, e partilhavam-na entre prisioneiros e doentes nas prisões271.
O autor entende que a Igreja é construída a partir do alto, mas também a partir de baixo, com a cooperação dos homens. E, sem dúvida, nessa construção, leigos têm papel relevante.
Congar destaca a importância de colaboração entre leigos e sacerdotes que deve abranger desde o compartilhar informação, não reduzida a momentos de rito, até o estabelecimento de uma confiança mútua e prestação de contas dos sacerdotes aos fiéis “no plano da confiança, da lealdade, de trocas mútuas”, que são traços de toda a Igreja272.
265 CONGAR, Jalons, p. 251.
266 Ibid., p. 259 et seq.
267 Ibid., p. 262-263.
268 Ibid., p. 272.
269 Ibid., p. 273.
270 Ibid.
271 Ibid., p. 306.
272 CONGAR, Jalons, p. 363.
2.2.2.3.3 A função profética
A função profética na Igreja é entendida, por Congar, como toda atividade
suscitada pelo Espírito Santo, na qual ela conhece e faz conhecer Deus e seu propósito de graça, na condição de “itinerância” (Mounier) que é a sua peregrinação a Deus. A função profética, assim entendida, contém o conhecimento místico ou o anúncio futuro e a explicação profética do que acontece no tempo, e ainda as atividades de ensino propriamente ditas273.
Congar assume alguns princípios nessa reflexão sobre a função profética. O primeiro é de que todos são esclarecidos e ativos. Todos devem conhecer as promessas do Antigo e Novo Testamentos. Para isso, a Igreja estabelece os fiéis na luz e, a partir disso, eles mesmos também são luz. Partindo daí, Congar interpreta 1Jo 2,20.27, no qual se afirma que, estabelecida a unção pelo Espírito, não há necessidade de que alguém os ensine, porque a unção ensina todas as coisas. Isso se trata da comunhão com Deus, e habitação de Deus no fiel. Essa unção, que constitui os cristãos, é também a mesma que ungiu os profetas, que se estabelecem em plena comunhão com Deus274.
Sobre o ensino, Congar é grande crítico da teologia católica, que tinha uma
“preocupação quase obcecada em distinguir Igreja docente da Igreja discente, e a total submissão desta àquela”275.
Congar não nega o Magistério. Ao contrário: como Jesus foi enviado, com poder e como revelador, ele também “enviou os apóstolos que são os primeiros discípulos, a primeira comunidade [...] mas os primeiros ministros de Deus, os ecônomos de sua casa, os chefes de sua Igreja”. Os enviados fazem com o mestre “uma só personalidade jurídica de missão e autoridade”276. Mas se todos são esclarecidos e ativos, uns o são “no conhecimento recebido da palavra apostólica e regulados pela autoridade apostólica”277.
O segundo princípio é a explicação, da qual a comunidade foi gerada num primeiro momento, no qual o ministro é o próprio Cristo, meio de graça. Nele, a Igreja é a “realidade de instituição de salvação associada a Deus (ao Cristo) para ser a mãe dos fiéis”. No segundo momento, gerou-se os “ministérios apostólicos que aplicam o tesouro dos meios da graça – depósito da fé, sacramentos da fé – a Igreja como comunidade de fiéis, conjunto de membros
273 Ibid., p. 367.
274 Ibid., p. 370-371.
275 Ibid., p. 368.
276 Ibid., p. 373.
277 Ibid.
de Jesus Cristo, vivendo a plenitude da graça e da verdade”278. Ela se torna sacramento de graça e comunhão de vida. Mas, simultaneamente, é também o conjunto dos meios da graça.
Para Congar, essa distinção entre Igreja docente e discente deveria desaparecer. Para isso, assume a posição agostiniana de desigualdade de funções. No entanto, a vida não o é,
“porque os pastores o são em Cristo para os fiéis, e como fiéis e com eles, sob o cajado de Cristo”279. Isto é, na vida todos estamos sob Cristo.
Nosso autor distingue o carisma da hierarquia, a quem cabe a apostolicidade, garantindo que a doutrina de Cristo, que vem dos apóstolos, seja a ensinada na Igreja.
É no ensino que Congar vê o grande papel profético dos leigos. Os profetas foram aqueles que falavam em nome de Deus. Com isso ensinavam a verdadeira vontade divina, exortando o povo à conversão, à fidelidade. Na função de ensino, a palavra tem a primazia.
Palavra bíblica, através da leitura, do estudo bíblico e teológico. Para ele, no ensino, os leigos estão numa situação singular. A pregação se destina aos fiéis, mas o testemunho se dirige ao mundo. Daí que a palavra e testemunho dos leigos se dirigem “mais especialmente às etapas missionárias da Igreja, ali onde ela deve se implantar, ou onde não há, ainda, atividades institucionais, existindo apenas na fé viva dos fiéis”280.
Congar mostra a caminhada da leitura bíblica na Igreja e as restrições impostas em certos momentos, mas entende que, no conjunto, a Igreja sempre incentivou o conhecimento e acesso à Bíblia, mesmo nos momentos de pouca cultura letrada. Mostra os conflitos que surgem a partir da Idade Média, por equívocos de grupos com espírito de seita, pouco abertos a uma visão universal, mas muitas vezes “com reuniões secretas, anarquia de pregações e resistência a autoridade clerical”, como ocorreu em Metz, com o advento de pregadores valdenses281. Mostra também que, muito antes da Reforma, com o advento da imprensa, as traduções se tornaram comuns e de mais fácil acesso.
Congar entende que os leigos não são os indicados para estudo de teologia bíblica, mas são indispensáveis nas ciências auxiliares do estudo bíblico. Por isso ele admite que foi muito criticado. Em diferentes ciências, como na exegese, a participação leiga é importante. Mas a teologia, em si, é tarefa de clérigos, por uma maior inserção na Tradição que este grupo possui.
No entanto, em artigo posterior, ele afirma o mal-entendido de seu escrito de 1953, e diz ser
“formalmente favorável à prática da teologia pelos leigos”. E que em Jalons, o real sentido do
278 CONGAR, Jalons, p. 374.
279 Ibid., p. 376.
280 Ibid., p. 422.
281 Ibid., p. 436-437.
que afirmou foi o de que os “padres trazem, entretanto, condições ou recursos particulares ao exercício da teologia”282.
Para o ensino dogmático, o leigo não possui a autoridade pública, mas é na base da função profética que ele pode contribuir mais para estudos bíblicos. Nela, a sua palavra tem força de testemunho de vida, pois nele
a interiorização da fé, a cooperação no testemunho que a Igreja dá diante do mundo, ou uma exposição e uma defesa da doutrina que tenham valor apostólico ou apologético. Através deste caminho de sua fé, no contato com as Escrituras, os fiéis cooperam verdadeiramente com o magistério”, seja aproveitando mais o ensinamento recebido, seja como ‘sinal do serviço do magistério da Igreja’, conforme afirmou Pio X283.
É, então, no ensino e no testemunho prático que a função profética do leigo acontece.