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Bruno Forte e a sua visão de Igreja e Laicidade

No documento ATITUDE E MISSÃO DO LEIGO: (páginas 134-139)

3.6 A laicidade da Igreja

3.6.1 Bruno Forte e a sua visão de Igreja e Laicidade

A teologia da laicidade de toda a Igreja é, para Goldie, uma teologia que teve grande influência principalmente na Itália449. O termo laicidade tem, em Aurélio, uma única acepção de “qualidade de laico ou leigo”450. Bruno Forte, em sua eclesiologia, utiliza esse termo, assim como outros autores, para marcar o que entendem como condição central da eclesiologia integral.

Em seu livro451, o autor afirma que o Vaticano II preferiu dar uma definição tipológica de leigo ao invés de definição ontológica. É a partir de relações concretas com o mundo que definiu leigo como

fiéis cristãos, com exceção dos membros que receberam uma ordem sagrada e os que estão em estado religioso reconhecido pela Igreja, isto é, fiéis cristãos que, por estarem

447 Ibid.

448 Ibid.

449 GOLDIE, Il laicato prima e dopo il concilio, p. 143.

450 Novo Aurélio Século XXI: o dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. p. 1180.

451 FORTE, Bruno. Laicato e laicità. Saggi ecclesiologici. Genova: Marietti, 1986. O Livro foi traduzido ao espanhol como "Laicado e Laicidad. Ensaios eclesiológicos", pela Ediciones Sigueme, mas no Brasil ganhou outro título, “A missão dos leigos”, da editora Paulinas, 1987.

incorporados a Cristo mediante o batismo, constituem o povo de Deus e participam do seu modo no múnus da função sacerdotal, profético e régio do Jesus Cristo, segundo o que lhes corresponde, na missão de todo o povo cristão na Igreja e no mundo452.

Na relação com o Cristo, e em virtude do batismo, o leigo “se converte em ungido por Cristo, em Cristo e com Cristo em virtude do Espírito Santo”. Essa é também uma condição dos ordenados e religiosos453. No passado, o que se acentuou “foram as prerrogativas hierárquicas e a concepção negativa dos leigos como ‘não clérigo’”. Para o autor, antepor o

“povo de Deus” antes da hierarquia e laicato na Lumen Gentium foi uma “revolução copernicana”.

Forte entende que o Vaticano II superou o trinômio tradicional de clérigos-religiosos- leigos e distinguiu “estrutura da Igreja (hierarquia-laicato) e estrutura em Igreja (vida religiosa)”454.

Se o primeiro binômio se baseia na diferença “essencial e não somente de grau, entre sacerdócio comum e sacerdócio ministerial ou hierárquico”, apesar de ambos se ordenarem um para o outro, a “unidade precede e fundamenta a distinção: a relação como Cristo serve de fundamento do ser cristão na forma diversa de participar da tríplice função por parte do leigo e do ministério ordenado”. Daí concluir que a apenas o “uso do binário hierarquia-laicato parece insuficiente: não coloca em evidência a unidade e a riqueza da condição cristã comum, distingue sem unir o todo como deveria”455.

O autor prefere outro binômio: comunidade-ministerialidade. Isso porque ele apresenta a unidade (comunidade) e a diversidade funcional (ministerialidade). Nele toda a Igreja é ministerial, “toda serviço”. Ministérios distintos, mas todos com fundamento no Batismo.

Outro binômio, religiosos (clérigos ou leigos) e não-religiosos (clérigos ou leigos), baseado em estado de vida, e não em ontologia, tem como fim a santidade. Ele é sinal,

“antecipação do que há de vir”, “graça concedida para a utilidade comum”456.

Forte entende que o Espírito é a fonte de ambos os componentes do primeiro binômio, comunidade-ministérios, que se voltam um para o outro.

ESPIRITO

452 Id., Laicado e laicidad, p. 43-44.

453 Ibid., p. 45.

454 Ibid., p. 46.

455 FORTE, Laicado e laicidad, p. 47.

456 Ibid., p. 47-48.

COMUNIDADE MINISTÉRIOS

Essa sua visão eclesiológica, a seu ver, já estava presente no Vaticano II, mas misturada com outras visões, como as jurídicas e visibilista (Igreja visível). A sua eclesiologia de comunhão torna desnecessária e superada a visão de laicato. Desse modo, “não se trata tanto de opor leigo ao clérigo ou ao religioso, mas de distinguir na comunidade os carismas e os ministérios, ordenados ou não”457. Nesse binômio está claro a dimensão eclesial da condição cristã “na complementariedade de serviços e das funções”.

Para ele o Vaticano II estabelece para os leigos a sua relação com o mundo: é o “caráter secular próprio dos leigos”. Eles devem buscar o reino nas suas ações temporais e ordená-las para Deus (LG, n. 31). Essa é uma especificidade laical: relação com o mundo.

É na recuperação do binômio comunidade - ministérios e carismas, que entende existir o “caráter comum não só laicais”, pois essa relação com o mundo “é de todos os batizados”, mesmo sendo variada. Todos e todas as comunidades estão em relação com o mundo e são por ele interpelados. Assim, o importante é que todos, leigos, clérigos e religiosos são cristãos, em diferentes carismas e ministérios, que foram suscitados pelo Espírito Santo.

É pelo Espírito Santo que todos os cristãos são “possuídos” pela Palavra, que leva ao testemunho de vida, conforme as funções sacerdotal, profética e real. E a diversidade de carismas e ministérios resulta da ação criativa do Espírito Santo. Essa diversidade é riqueza e os leigos devem “tomar consciência dessa riqueza”, em seu estado de vida e em comunhão, de maneira a “ordenar os carismas para a utilidade comum”458.

Os ministérios seriam de três gêneros: ocasionais, temporais ou espontâneos. Os temporais atendem a necessidades “habituais da Igreja”. São os que se instituem por ato litúrgico.

Ministérios ordenados participam nas “funções de Cristo cabeça, com a tarefa conseguinte de presidir a comunidade, como coordenação da diaconia dos fiéis”. O autor não resume essa tarefa ao comum do ato de consagrar eucaristia, perdoar pecados, e ministrar sacramentos, mas lhe dá uma tarefa comunitária em relação aos carismas dos fiéis.

A partir desses três tipos de ministérios o autor entende que “ninguém na Igreja pode ser passivo” e seja, individualmente ou associados, todos os batizados participam da missão eclesial, na diversidade de carismas suscitados pelo Espírito Santo.

457 Ibid., p. 50.

458 FORTE, Laicado e laicidad, p. 58.

No capítulo três, analisa a laicidade sob aspecto antropológico, com título “Laicidade na perspectiva da antropologia cristã”. No capítulo seguinte, ele reflete sobre uma nova eclesiologia, apresentada no título: “A laicidade como dimensão de toda a Igreja”.

A primeira afirmação se refere à “superação da categoria laicato”, que traz consigo riscos. O primeiro é o de usar de formas “carismáticas e ministeriais despojadas de referência ao saeculum” para diferenciar o laicato da hierarquia, mas sempre numa perspectiva intraeclesial. O segundo é o de explicar o “específico do ministério eclesiástico no âmbito da ministerialidade global da Igreja”. Isso porque, a partir desse âmbito da Igreja, ela poderia levar a “açambarcar de fato a variedade de carismas e dos ministérios que este ministério deveria coordenar”459.

Forte define a sua visão de laicidade como “a afirmação da autonomia e da consistência do mundo profano em relação a esfera religiosa”460. Por isso afirma que usa o sinônimo de

“‘secularidade’, [no sentido do] reconhecimento do valor do saeculum, do conjunto de realidades, de relações e de opções mundanas que vão pontuando a existência cotidiana de cada homem”461.

Entende que, ao longo da história da eclesiologia, esse termo foi entendido de diferentes formas, que refletiam as concepções de Igreja. E enumera essas posições.

A primeira é a do eclesiocentrismo, que levou à visão de Igreja “sociedade perfeita”.

Nela, a Igreja é autossuficiente para as suas necessidades. Dessa autossuficiência eclesial nasce a postura de “ensinar e julgar” o mundo. Os valores mundanos são sempre julgados a partir das

“verdades eternas”. A Igreja julga através de uma lógica integrista e por isso entende “possuir soluções para tudo”462. A atitude de eclesiocentrismo levou a Igreja ao isolamento e favoreceu a ascensão da secularização, diante da emancipação da razão iluminista.

Essa postura na relação com o mundo também se refletia nas relações ad intra. Há acentuação do sagrado e as relações são absolutizadas na hierarquização, pois é esse poder, a hierarquia, “o depositário do sagrado”463. A eclesiologia de Igreja docente e discente é fechada à relação com o mundo, é eclesiocentrista, e o leigo é apenas o “não clérigo”464.

Para Forte, aos poucos se foi recuperando a dimensão da laicidade da Igreja. No Vaticano II se reflete na “teologia das realidades terrenas”, em que a “Igreja está presente nessas

459 Ibid., p. 61.

460 Ibid., p. 62.

461 Ibid.

462 FORTE, Laicado e laicidad, p. 62.

463 Ibid., p. 63.

464 Ibid.

realidades como fermento e levedura”. Nela é reconhecido o que há de positivo e valor nas realidades terrenas. Essa visão introduz algo de fundamental: a Igreja já não olha o mundo para julgar, mas a que dialoga com o mundo e nele ensina e aprende.

Se a atitude com o mundo é dialogal, não pode ser diferente a atitude ad intra. O leigo passa a ser visto de outro modo, com sua dignidade, autonomia e responsabilidade dos batizados. Reconhece o caráter secular que é próprio dos leigos, mas entende que os “religiosos, em virtude de seu estado, proporcionam um preclaro e inestimável testemunho de que o mundo não pode ser transformado nem oferecido a Deus sem o espírito de bem-aventurança”465.Para os leigos, essa laicidade está na sua vocação natural de “obter o reino de Deus administrando os assuntos temporais e ordenando-os segundo Deus” (LG, n. 31).

Apresenta a separação entre leigos e clérigos, após a oficialização constantiniana da liberdade de culto, que aos poucos afastou clérigos e monges de leigos, o que não existia até então. Para o autor, a redescoberta desse fato fez com que se retomasse a eclesiologia total e nela a exigência de se superar essa separação.

Para Forte, a “relação com as realidades temporais é própria de todos os batizados, com variação de tons e formas, em conexão maior com os carismas pessoais do que através de contraposições estáticas entre laicato, hierarquia e estado religioso”466. Para ele, o Vaticano II, em suas premissas, assume a “laicidade na eclesiologia em virtude da qual [...] toda a comunidade tem de confrontar-se com o saeculum, deixando-se marcar por ele no seu próprio ser e em seu agir. A Igreja inteira deve caracterizar-se por uma relação positiva com a laicidade”467.

“O que essa laicidade traz à dimensão própria da comunidade eclesial?”. A resposta começa por identificar nos estudos pós-concílio os riscos dessa laicidade. O primeiro é que ela seja assumida de forma acrítica. Isto leva à “redução da originalidade evangélica às coordenadas deste mundo”468. Aqui, a Igreja se “faz presença entre as presenças da História sem lugar de outra presença, sua autenticidade se mede não tendo por base a fidelidade de origem, mas com base na sua eficácia histórica469”. Isto levaria a um eclesiopraxismo, cuja “relevância secular da comunidade se acentua de tal modo que sacrifica a identidade original da comunidade comprometida com processos histórico-políticos de mudanças”470.

465 Ibid., p. 64.

466 FORTE, Laicado e laicidad, p. 66.

467 Ibid.

468 Ibid., p. 67.

469 Ibid.

470 Ibid.

O integrismo coloca a história como irrelevante, mas o eclesiopraxismo pode levar ao

“risco de perder a relevância cristã em relação ao horizonte mundano”. Por isso adverte que, ao assumir a laicidade, deve-se ter em conta esse risco e que ela deve ser a “dimensão própria da Igreja que se verifique sem reduções secularizantes e confusões amorfas nas quais a identidade eclesial e o específico dos distintos carismas e ministérios sejam subtraídos em nome de uma presença histórica mais incisiva”471.

Para Forte a crítica à laicidade da Igreja é feita em três níveis: ad intra, no plano das relações intereclesiais (laicidade na Igreja); depois, envolve a “responsabilidade comum de batizados na relação com o secular e a mediação entre salvação e história (laicidade da Igreja);

e, em terceiro, relaciona-se com as realidades terrenas, seu valor próprio e autonomia (laicidade do mundo, recebida pela Igreja).

No documento ATITUDE E MISSÃO DO LEIGO: (páginas 134-139)