3.2 SÚMULA VINCULANTE
3.2.1 Aspectos Gerais
o contra-senso jurisprudencial, o desencontro de posições ante o mesmo texto normativo, além da desigualdade entre os envolvidos, leva à insegurança jurídica – por uma latente imprevisibilidade.
Pelo exposto verifica-se que o Autor acima mencionado encara a jurisprudência como uma forma de incremento da segurança jurídica.
Eduardo de Parente entende por jurisprudência como sendo “conjunto de decisões provindas de tribunais sobre determinada matéria em sentido isonômico, reiterado e predominante” 83.
Por fim, destaca-se que a jurisprudência é uma das formas vinculantes das decisões, fundamentadas na assertiva de que a previsibilidade é um dos meios formadores da segurança jurídica.
3.2 SÚMULA VINCULANTE
das quais haja controvérsia atual entre órgãos judiciários ou entre esses e a administração pública que acarrete grave insegurança jurídica e relevante multiplicação de processos sobre questão idêntica.
§ 2º Sem prejuízo do que vier a ser estabelecido em lei, a aprovação, revisão ou cancelamento de súmula poderá ser provocada por aqueles que podem propor a ação direta de inconstitucionalidade.
§ 3º Do ato administrativo ou decisão judicial que contrariar a súmula aplicável ou que indevidamente a aplicar, caberá reclamação ao Supremo Tribunal Federal que, julgando-a procedente, anulará o ato administrativo ou cassará a decisão judicial reclamada, e determinará que outra seja proferida com ou sem a aplicação da súmula, conforme o caso.
Destarte assevera o Doutrinador Alexandre de Morais84, que o citado instituto corresponde à tentativa de adaptação do modelo da common Law (aspecto que será abordado em tópico específico), assim se manifestando:
A instituição da súmula vinculante, pela EC/45, corresponde à tentativa de adaptação do modelo da common Law (stare decisis) para o nosso sistema romano-germânico (civil Law), porém é importante relembrar que essa idéia já fora adotada no Império, quando em 1876 o Supremo Tribunal de Justiça passou a ter a possibilidade de editar assentos com força de lei, em relação à “inteligência das leis civis, comerciais e criminais,quando na execução delas ocorrerem dúvidas manifestadas no julgamento divergentes do mesmo tribunal, das relações e dos juízes, nos termos do art. 2º, do Decreto nº 6.142, de 10-03-1876, sem porém que se tivesse sido utilizado até a proclamação da República.
O discurso que fundamenta o instituto da súmula vinculante é a perspectiva da celeridade, bem como de entendimentos não divergentes na busca por uma maior segurança jurídica.
84 MORAES, Alexandre de. Constituição do Brasil Interpretada, 7 Ed., São Paulo, Editora Atlas, 2007, p.
1511.
Alexandre de Morais85 motiva da seguinte forma o
“ressurgimento” da súmula vinculante:
As súmulas vinculantes surgem a partir da necessidade de reforço à idéia de uma única interpretação jurídica para o mesmo texto constitucional ou legal, de maneira a assegurar- se a segurança jurídica e o princípio da igualdade, pois os órgãos do Poder Judiciário não devem aplicar as leis e os atos normativos aos casos concretos de forma a criar ou aumentar desigualdades arbitrárias, devendo, pois, utilizar-se de todos os mecanismos constitucionais no sentido de conceder às normas jurídicas uma interpretação única e igualitária.
O citado Autor salienta ainda que, a intenção do legislador constituinte ao estabelecer como competência do Supremo Tribunal Federal o julgamento dos recursos extraordinários (uniformização na interpretação da Constitucional Federal) e competência e competência ao Superior Tribunal de Justiça para o julgamento dos recursos especiais (uniformização na interpretação federal).
Adverte ainda que o modelo acima referido não se demonstrou célere e satisfatório para impedir desigualdades cometidas por diferentes interpretações judiciais da mesma norma, buscando o legislador constituinte derivado, no modelo anglo-saxônico, o stare decisis, “da expressão stare dicisis et quieta mon movere (mantenha-se a decisão e não se perturbe o que foi decidido), onde nosso exemplo mais próximo são os Estados Unidos da América, em que as decisões as Corte Suprema são acatadas como regra por todo o sistema judiciário e pela administração pública”.86
Como sublinhado por Carlos Velloso:
No sistema judicial norte-americano, que garante aos indivíduos, de modo amplo, a tutela jurisdicional, todos os Tribunais estão vinculados às decisões da Suprema corte, nos casos em iguais estados de fato em que a decisão da Suprema Corte foi tomada.
85 MORAES, Alexandre de. Constituição do Brasil Interpretada, 7 Ed., São Paulo, Editora Atlas, 2007, p. 1511.
86MORAES, Alexandre de. Constituição do Brasil Interpretada, 7 Ed., São Paulo, Editora Atlas, 2007, p. 1512.
Isso sem dúvida proporciona segurança jurídica.
Quanto à competência para criar súmulas vinculantes, somente competem ao Supremo Tribunal Federal suas edições.
No que tange à legitimidade, as súmulas vinculantes poderão ser editadas de ofício ou por provocação de qualquer dos co- legitimados para o ajuizamento de ação diretas de inconstitucionalidade, que possuem legitimação constitucional para a matéria, ou seja, pela Presidência da República, Mesa da Câmara dos Deputados, Mesa do Senado Federal, Governadores de Estado ou do Distrito Federal, Mesas de Assembléias Legislativas, Procurador Geral da República, partido político com representação no Congresso Nacional, Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil e confederações sindicais ou entidades de classe de âmbito nacional (CF, art. 103,I, a IX).
A lei 11.417/0687 alargou a co-legitimação para propositura de edição, revisão ou cancelamento de enunciado de súmula vinculante, estendendo esta competência ao Defensor Público da União, aos Tribunais Superiores, aos Tribunais de Justiça de Estados ou do Distrito Federal e Territórios, aos Tribunais Regionais Federais, aos Tribunais Regionais do Trabalho, aos Tribunais Regionais Eleitorais e aos Tribunais Militares (legitimação legal).
Acerca da criação das súmulas vinculantes, Sálvio de Figueiredo Teixeira88, assegura que “as súmulas vinculantes serão elaboradas com base na maturidade do trabalho jurisprudencial, fruto de lenta e prolongada atividade técnica dos juízes, de muitas e longas discussões, da observação atenta de casos repetidos”.
87 A Lei 11.417/06 Regulamenta o art. 103-A da Constituição Federal e altera a Lei no 9.784, de 29 de janeiro de 1999, disciplinando a edição, a revisão e o cancelamento de enunciado de súmula vinculante pelo Supremo Tribunal Federal, e dá outras providências.
88 TEIXEIRA, Sávio de Figueiredo. Súmula vinculante e reforma no judiciário, Correio Brasiliense, 9 fev.1998. Caderno Direito e justiça, p. 03.
3.2.2 Doutrina Favorável a Súmula Vinculante
A doutrina favorável a súmula vinculante motiva seu discurso ao fato de que estas assegurarão direitos idênticos a todos.
Como salientado por Reis Freide89:
A reforma constitucional permitirá, sem novos processos, a realização da justiça para os interessados em situação idêntica e reduzirá significativamente a quantidade de processos em tramitação no Judiciário, o que contribuirá para a melhor qualidade da prestação jurisdicional.
Destarte neste entendimento, o modelo servia aos demais, que em posse da certeza jurídica serviria de exemplo aos demais, que não necessitariam ingressar com ações, pois, estariam seguros da resposta do judiciário, acerca de determinada matéria.
Neste mesmo sentido salienta Lenio Streck:
(...) a enorme quantidade de processos versando sobre a mesma matéria idêntica no STF e os Tribunais Superiores, conforme dados estatísticos, gera insatisfação e perda de legitimidade do Poder Judiciário. Diante de tal situação, é bastante razoável a criação da súmula com efeito vinculante, nos moldes do art. 98 da Proposta do Deputado Jairo Carneiro, com a ressalva de que tais efeitos não seriam decorrentes de matéria constitucional, tendo em vista que o controle de constitucionalidade será preventivo, conforme as atribuições do Conselho Constitucional, acima mencionadas.
Alexandre de Moraes90, igualmente comunga com a eficácia das súmulas vinculantes, discordando dos criticas acerca do assunto:
89 FREIDE, Reis. Das reformas constitucionais, Revista dos Tribunais, ano 6, nº 25, p. 74-75, out/dez.1998.
90 MORAES, Alexandre de. Constituição do Brasil Interpretada, e Legislação Constitucional, São Paulo, Atlas, 2007, p. 1515.
Não concordamos com esse posicionamento, nem tampouco nos parece que a edição de súmulas vinculantes poderá acarretar o engessamento e conseqüente paralisia na evolução e interpretação do Direito. A própria história do stare decisis afasta essas alegações, pois entre todos os tribunais nenhum se notabilizou tanto pela defesa intransigente, polemica, construtiva e evolutiva dos direitos fundamentais como a Suprema Corte americana, mesmo adotando mecanismos de vinculação, não podendo, porém, ser acusada de imutabilidade interpretativa.
Vale neste ponto salientar que a EC 45/200491 autorizou ao Supremo Tribunal Federal a não vinculação eterna a seus próprios precedentes, podendo a partir de novas convocações, reflexões e diversas decisões futuras, alterar a interpretação dada a determinada matéria, o que permitirá a evolução do Direito.
3.2.3 Argumentação Desfavorável a Súmula Vinculante
Anteriormente a EC 45/2004, mais especificamente a Lei 11.417/2006, Dalmo de Abreu Dallari92, salientava acerca dos riscos da ameaça do efeito vinculante:
Um juiz que não possa decidir de acordo com seu livre convencimento já não age com juiz, não importando se a coação vem de fora ou se vem do próprio Judiciário. E a concessão de força ao Supremo Tribunal Federal, para tornar obrigatória a imitação de suas decisões, significará apenas que estas estarão sendo imitadas por serem impostas, o que é completamente diferente de estarem sendo acolhidas por terem autoridade. O Supremo Tribunal será órgão de coação e
91 Emenda Constitucional 45/2004. Altera dispositivos dos arts. 5º, 36, 52, 92, 93, 95, 98, 99, 102, 103, 104, 105, 107, 109, 111, 112, 114, 115, 125, 126, 127, 128, 129, 134 e 168 da Constituição Federal, e acrescenta os arts. 103-A, 103B, 111-A e 130-A, e dá outras providências.
92 DALLARI, Dalmo de Abreu. O Poder dos Juízes, São Paulo, Editora Saraiva, 2002, p. 63.
os juízes e tribunais serão órgãos de imitação. E assim todo o sistema judiciário sairá enfraquecido.
O Autor a comento argumenta ainda que o discurso da necessidade de se reduzir o volume de trabalho do STF, como fundamentação para implantação do sistema de súmulas vinculantes, na busca de se impedir a multiplicidade de ações e jurisprudência divergente, iria suprimir a independência dos juízes e tribunais, bem como a busca mais justa para cada caso, em prol de que os Ministros do Supremo Tribunal recebam menor número de casos, seria inconcebível.
Acerca do discurso de que a divergência jurisprudencial ensejaria em insegurança jurídica assim critica o Autor93:
(...) há também o argumento de que a ocorrência de divergência jurisprudencial gera insegurança jurídica, sendo melhor que o povo saiba desde logo, com certeza absoluta, quais são as regras obrigatórias e como elas devem ser interpretadas. Ora, se for acolhido esse argumento melhor será tirar todos os juízes e tribunais a competência de interpretarem qualquer lei ou ato normativo. E será melhor ainda acabar com o próprio Judiciário, como também com o Legislativo, pois se o Executivo ditar normas e for o único autorizado a interpretá-lo não haverá divergências e todos saberão desde logo quais são as regras e ninguém poderá contestar a interpretação dada pela autoridade. Mas nesse caso, para haver coerência, será necessário eliminar a Constituição, o direito, a liberdade. Como fica evidente, esse argumento não PE compatível com uma sociedade democrática e não pode ser levado a sério por quem acredita no direito como instrumento de justiça e paz.
Destarte, a referida corrente doutrinária salienta que o efeito vinculante ensejaria na morte da independência dos juízes e tribunais.
Maria Tereza Sadek, igualmente constata que:
a súmula vinculante (stare dicisis) é vista por seus defensores como indispensável para garantir a segurança jurídica e evitar
93 DALLARI, Dalmo de Abreu. O Poder dos Juízes, São Paulo, Editora Saraiva, 2002, p.66
a multiplicação, considerada desnecessária, de processos nas várias instancias. Tal providencia seria capaz de obrigar os juízes de primeira instancia a cumprir decisões dos tribunais superiores, mesmo que discordassem delas, e impediria que grande parte dos processos tivesse continuidade, desafogando o judiciário de processos repetidos. Seus oponentes, por seu lado, julgam que a adoção da súmula vinculante engessaria o Judiciário, impedindo a inovação e transformando os julgamentos de primeiro grau em meras cópias de decisões já tomadas. Dentre os que contestam tal expediente, há os que aceitam a súmula impeditiva de recurso, um sistema em que o juiz não fica obrigado a seguir o entendimento dos tribunais e do STF, mais permite que a instância superior não examine o recurso que contrarie a sua posição.
Destarte, acerca da doutrina contrária a súmula vinculante esta afirma que haverá engessamento de todo o sistema Judiciário, e assim paralisaria a evolução do Direito, como poderá Alexandre de Morais, comentado o discurso do movimento contrário a súmula:
A doutrina contrária às súmulas vinculantes afirma que haverá verdadeiro engessamento do todo o Poder Judiciário e conseqüente paralisia na evolução do Direito, além da possibilidade de maior totalitarismo do órgão de cúpula judicial, como alegado pelo Professor Eros Grau, atualmente Ministro do Supremo Tribunal Federal, ao se posicionar contra os efeitos vinculantes e afirmar que: “nenhuma razão ou pretexto se presta a justificar essa manifestação de totalitarismo, que também nenhuma lógica pode sustentar, e que, afinal, há de agravar ainda mais a crise do direito oficial, em nada contribuindo à restauração de sua eficácia.
Pelo exposto, averigua-se que as duas correntes, tanto a favorável, como a desfavorável às súmulas vinculantes, possuem fortes argumentos para defenderem suas posições, não sendo pretensão do presente trabalho monográfico, assegurar qual das correntes estão de posse de maior razão, e sim explicitar ambas as ponderações.
3.3 CONSIDERAÇÕES ACERCA DO ARTIGO 285-A
O artigo 285-A foi introduzido no Código de Processo Civil pela Lei 11.277, de 2006, também possui características vinculantes, e igualmente é motivo de discussões esbraseadas dentre os juristas.
Art. 285-A. Quando a matéria controvertida for unicamente de direito e no juízo já houver sido proferida sentença de total improcedência em outros casos idênticos, poderá ser dispensada a citação e proferida sentença, reproduzindo-se o teor da anteriormente prolatada.
§ 1º Se o autor apelar, é facultado ao juiz decidir, no prazo de 5 (cinco) dias, não manter a sentença e determinar o prosseguimento da ação.
§ 2º Caso seja mantida a sentença, será ordenada a citação do réu para responder ao recurso.
Preliminarmente, destaca-se o salientado por Nelson Nery Junior94, acerca da matéria controvertida:
A norma padece de falta de técnica, pois somente a citação válida torna a coisa litigiosa (CPC 219 caput), isto é, implica situação processual de existência de matéria controvertida.
Como a norma prevê decisão do juiz sem citação. A matéria ainda não se tornou controvertida. O rigor da dogmática do código é necessário para determinar-se, por exemplo, a admissibilidade da ADI, que só cabe em se tratando de questão prejudicial de mérito controvertida. Sobre esse ponto, v. comentários CPC 5° e 325. Na norma comentada, po rtanto, onde esta escrito “matéria controvertida” deve-se ler
“pretensão” que já tenha sido controvertida em outro processo e julgada improcedente pelo mesmo juízo.
Assim, pelo textualiza entende-se que o referido artigo 285-A, quando aplicado, não permitiria a efetivação da relação processual, quanto à angularidade, matéria discorrida no inicio do primeiro capítulo.
94 JUNIOR, Nelson Nery. Código de Processo Civil Comentado, São Paulo, Revista dos Tribunais, 2007, p.554.
Com relação à natureza e escopo da citada norma assim apregoa Nelson Nery Junior95:
A norma comentada é medida de celeridade (CF 5° LXX VIII) e de economia processual, que evita a citação e demais atos do processo, porque o juízo já havia decidido questão idêntica anteriormente. Seria perda de tempo dinheiro e atividade jurisprudencial insistir-se na citação e na prática dos demais atos do processo, quando o juízo já tem posição firmada quanto à pretensão deduzida pelo Autor.
Assim esta textualizado no texto Constitucional:
Art. 5º LXXVIII - a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sal tramitação.
Neste artigo visualiza-se a presença do princípio da celeridade processual e razoável duração do processo.
A respeito do referido princípio assim se manifesta Alexandre de Moraes96:
Os processos administrativos e judiciais devem garantir todos os direitos às partes, sem,contudo, esquecer a necessidade de desburocratização de seus procedimentos e na busca de qualidade e máxima eficácia de suas decisões.
Na tentativa de alcançar esses objetivos, a EC 45/04 trouxe diversos mecanismos de celeridade, transparência e controle de qualidade da atividade jurisdicional.
Podem-se citar algumas das implantações realizadas pela EC 45/200497, na busca da efetivação da celeridade processual:
95 JUNIOR, Nelson Nery. Código de Processo Civil Comentado, São Paulo, Revista dos Tribunais, 2007, p.555
96 MORAES, Alexandre de. Constituição do Brasil Interpretada, 7 Ed., São Paulo, Editora Atlas, 2007, p. 402.
A) Vedação de férias coletivas nos juízos e tribunais de segundo grau
B) Proporcionalidade do número de juízes a efetiva demanda judicial e à respectiva população
C) Distribuição imediata dos processos, em todos os graus de jurisdição D) Possibilidade de delegação aos servidores do Judiciário, para a pratica de atos administrativos de repercussão geral das questões constitucionais discutidas no caso para fins de conhecimento do recurso extraordinário
E) A instalação da justiça itinerante
F) E finalmente as súmulas vinculantes do Supremo Tribunal Federal.
Como bem salientou o ministro Nelson Jobim98, em referencia a EC 45/2004:
É só o inicio de um processo, de uma caminhada. Ela avançou muito em termos institucionais e têm alguns pontos, como a súmula vinculante e a repercussão geral, que ajudam, sim, a dar mais celeridade. Mas apenas em alguns casos isolados.
Para reduzir a tão falada morosidade, já estamos trabalhando numa outra reforma, de natureza infraconstitucional e que vai trazer modificações processuais.
Vale neste momento colacionar jurisprudência99 acerca da razoável duração do processo e prisões processuais:
97 Emenda Constitucional 45/2004. Altera dispositivos dos arts. 5º, 36, 52, 92, 93, 95, 98, 99, 102, 103, 104, 105, 107, 109, 111, 112, 114, 115, 125, 126, 127, 128, 129, 134 e 168 da Constituição Federal, e acrescenta os arts. 103-A, 103B, 111-A e 130-A, e dá outras providências.
98 JOBIM, Nelson. Entrevista sobre Reforma do Judiciário no site do Supremo Tribunal Federal (dia 08 de dezembro de 2004). <www.stf.gov.br/noticias/imprensa/>
99 (STF – 2ª T. – HC nº 83.773-5/SP – Rel Min. Celso de Melo, Diário da Justiça, Seção I,, 6 nov.2006, p. 33.
STF – “O direito ao julgamento, sem delações indevidas, qualifica-se como prerrogativa fundamental que decorre da garantia constitucional do “due processo f law”. O réu – especialmente aquele que se acha sujeito a medidas cautelares de privação da sua liberdade – tem o direito público subjetivo de ser julgado, pelo Poder Público, dentro de prazo razoável, sem demora excessiva em dilações indevidas.
Convenção Americana sobre Direitos Humanos ( Art. 7º, ns. 5 e 6). Doutrina. Jurisprudência. – O excesso de prazo exclusivamente imputável ao aparelho judiciário – não derivando, portanto, de qualquer fato procrastinatório causalmente atribuível ao réu – traduz situação anômala que compromete a efetividade do processo, pois, além de tornar evidente o desprezo estatal pela liberdade do cidadão, frustra um direito básico que assiste a qualquer pessoa: o direito à resolução do litígio, sem dilações indevidas e com todas as garantias reconhecidas pelo ordenamento constitucional.
O contexto da Lei nº 11.419, de dezembro de 2006, tem por escopo a busca da supressão da morosidade processual e a informatização do processo judicial, como um dos meios de efetivar a celeridade.
Exaurida a questão do princípio da celeridade processual, e razoável duração do processo, explana-se a questão da aplicação do artigo 285-A do Código de Processo Civil.
Clenio Jair Schulze100, assim se manifesta acerca do artigo em epígrafe:
É verdade que o alcance do art. 285-A é muito mais amplo, porque não possui limitação de matéria, bastando que o tema posto em discussão seja “unicamente de direito” e “no juízo já houver sido proferida sentença de total improcedência em outros casos idênticos”. A expressão “casos idênticos” deve ser interpretada ou substituída por “casos semelhantes”, pois
“identidade” de ações ou de casos leva à litispendência e
100 Schulze, Clenio Jair. Afinal, há inconstitucionalidade no art. 285-A do CPC?Publicado na Edição 20 - 29.10.2007. www.revistadoutrina.trf4.jus.br/artigos/.
implica o julgamento sem análise do mérito (arts. 267, V, e 301,
§§ 1º, 2º e 3º, do CPC).
O art. 285-A foi incluído no CPC com o objetivo de conferir maior celeridade ao andamento das ações, a fim de assegurar a aplicação do princípio da “razoável duração do processo”
previsto no inciso LXXVIII do art. 5º da CF.
Nelson Nery Junior101, acerca da aplicação do artigo a comento assim textualiza:
A norma permite que o juiz julgue improcedente In limine o pedido idêntico àquele que já havia sido anteriormente julgado totalmente improcedente no mesmo juízo. Para tanto é necessário que:
a) O pedido repetido seja idêntico ao anterior;
b) que o pedido repetido anterior tenha sido julgado totalmente improcedente;
c) que o julgamento anterior de improcedência tenha sido proferido no mesmo juízo;
d) que a matéria seja unicamente de direito. Neste caso, não haverá condenação em horários advocatícios.
Um dos pontos que fazem a doutrina jurídica divergirem acerca de possível falta técnica da norma encontra-se quanto à citação, nos casos de aplicação do referido artigo, a questão é elucidada por Nelson Nery Junior102:
Dispensa da citação. A situação expressa na norma comentada é assemelhada àquela do indeferimento da petição inicial (CPC 295). A citação é elemento de existência do processo (CPC 267
101 JUNIOR, Nelson Nery. Código de Processo Civil Comentado, São Paulo, Revista dos Tribunais, 2007, p.555
102JUNIOR, Nelson Nery. Código de Processo Civil Comentado, São Paulo, Revista dos Tribunais, 2007, p.555
IV), caracterizado como relação jurídica trilateral (auto r- réu - juiz). Sem a citação o processo, quanto ao réu, ainda não existe. No entanto, mesmo sem a citação do réu pode haver processo, consubstanciado em relação bilateral (autor-juiz).
Entretanto, sem a integração do réu pela citação não há litígio (CPC 219 caput, de modo que se o juiz julgar o pedido improcedente e não houver recurso, a sentença faz coisa julgada formal, mas não material. Ademais, o CPC 472 determina a vinculação da coisa julgada às partes. Se o réu não tiver sido citado não haverá partes e, e conseqüentemente, não haverá coisa julgada, em para o autor. Neste caso o autor pode repropor a mesma ação.
Igualmente a súmula vinculante, a norma a comento não esta condenada a eternizar certos entendimentos, podendo o posicionamento dos juízes sofrer modificações, conforme pondera Nelson Nery Junior103:
Mudança de entendimento do juiz. A aplicação da norma não é obrigatória, circunstância que decorre do comando (poderá) constante do caput do CPC 285-A e, ainda, da possibilidade de o juiz mudar de opinião, revendo seu posicionamento quanto à sentença anteriormente proferida no mesmo juízo. A independência jurídica do juiz 9LOMN 35I e 40) permite-lhe decidir de acordo com seu livre convencimento motivado(CPC 131), o que implica, também, nova decisão de acordo com a modificação de seu entendimento sobre a matéria.
Quanto à incidência da norma, como aclara Nelson Nery Junior104, “nada obstante o CPC 285-A se localize topicamente dentro do procedimento comum ordinário, do livro do processo de conhecimento, a norma comentada tem natureza jurídica de regra geral de processo e procedimento”.
Caber ainda o juízo de retratação havendo recurso do autor contra o pronunciamento do juiz.
103 JUNIOR, Nelson Nery. Código de Processo Civil Comentado, São Paulo, Revista dos Tribunais, 2007, p.555
104 JUNIOR, Nelson Nery. Código de Processo Civil Comentado, São Paulo, Revista dos Tribunais, 2007, p.556