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Atores sociais e o processo de implementação da lei de cotas

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 132-136)

convencionou chamar teoricamente de “atores sociais”. Por isso, na próxima seção, buscaremos analisar o papel desses atores no processo de implementação da lei de cotas nas universidades aqui analisadas.

Nesta pesquisa, pedimos que os entrevistados identificassem atores que participavam do processo de implementação da lei de cotas. As respostas foram aglutinadas por instituição e estão representadas na tabela a seguir.

Tabela 5 – Resposta dos entrevistados quanto aos atores envolvidos no processo de implementação da lei de cotas

Universidade UFPA UFBA UFSC UNB UFRJ

Respostas dos entrevistados

- Movimento Negro - Movimento estuda ntil - Pró-reitoria de gra dua çã o - NEAB

- Movimento Negro - Ministério Público - Movimento estuda ntil - Estuda ntes cotista s - Usuá rios da política

- Indígena s - Secreta ria de educa çã o do esta do - Frei Da vid - Pró-reitoria de gra dua çã o

- Poucos professores negros - NEAB - Alunos ta nto da pós- gra dua çã o qua nto da gra dua çã o - Professores bra ncos a ntirra cista s

- Pró-reitoria de gra dua çã o - Comissã o de a cesso - Secreta ria de política s estuda ntis (a tua l pró- reitoria ) - Coletivos estuda ntis - NEAB Fonte: A a utora , 2022. (Ela bora do a pa rtir da fa la de nossos entrevista dos).

A tabela acima representa os grupos que nossos entrevistados compreendem como principais atores no processo de implementação. As perguntas foram respondidas de forma espontânea, ou seja, os entrevistados enumeraram os atores e justificaram porque estavam escolhendo estes. Nesse sentido, quando observamos a tabela encontramos alguns grupos mais recorrentes como os Movimentos Negros e os Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB’s).

Tendo em vista que os primeiros NEAB’s foram criados, em sua maioria, através iniciativas de professores que faziam parte de algum Movimento Negro (SISS; BARRETO; DE OLIVEIRA, 2013), podemos assinalar que ambos possuem uma conexão. Além disso, apesar da citação nominal, também podemos incluir Frei David como parte dos movimentos negros.

Este é membro e diretor da associação civil pública Educafro que tem como objetivo

O objetivo gera l da EDUCAFRO é reunir pessoa s voluntá ria s, solidá ria s e beneficiá ria s desta ca usa , que luta m pela inclusã o de negros, em especia l, e pobres em gera l, na s universida des pública s, priorita ria mente, ou em uma universida de particular com bolsa de estudos, com a fina lida de de possibilita r empodera mento e mobilida de socia l pa ra popula çã o pobre e a fro-bra sileira (EDUCAFRO, 2022, sp.)77.

77 Disponível em: http://www.educa fro.org.br/site/quem -somos/ Acesso em: 12 jul. 2022.

Nesse sentido, percebemos que a maioria dos atores identificados podem ser incluídos no grupo dos movimentos negros. Uma das hipóteses para esse cenário é que a ação afirmativa faz parte de uma luta histórica desses movimentos e, por isso, o grupo se torna um dos mais interessados na implementação desta política pública nas universidades.

Outro ponto interessante observado na Tabela 5, é a pouca participação de atores externos. Considerando que os movimentos negros estão dentro e fora das instituições de ensino superior federais, apenas o Frei David e o Ministério Público podem ser localizados como agentes externos. Nesse âmbito, são localizados atores institucionais como pró-reitorias, comissões, secretarias, NEAB’s, coletivos e movimentos estudantis. Contudo, observamos a falta de alguns nomes como “Ministério da Educação” e governo.

Uma das hipóteses para explicar esse fenômeno é a mudança de governo que ocorreu em 2018. Por se tratar de um governo compreendido por alguns teóricos como voltado para o público conservador com uma retórica da extrema direita (ALMEIDA, 2019; PINHEIRO- MACHADO, SCALCO, 2020), não houve interesse em monitorar esta política pública.

Ficando, portanto, a cargo de outros atores. Esse argumento se reforça quando observamos a extinção do Ministério dos Direitos Humanos no segundo ano deste governo.

Do mesmo modo, na leitura dos trabalhos analisados no capítulo 4 e nas nossas entrevistas encontramos os mesmos grupos sendo sinalizados como atores fundamentais.

Assim como nas entrevistas, No âmbito da literatura, se repetem o Frei David e o Ministério Público como atores não institucionais entretanto, também são localizados os Movimentos Organizados de Escolas Públicas como atuantes no processo. Esse cenário, em alguma medida, reforça nosso argumento de que poucos atores externos foram importantes durante o processo de implementação da lei de cotas.

Quanto aos atores, também buscamos observar quais as influências esses sujeitos possuíam no processo de implementação. Nossos entrevistados sublinham, especialmente, a participação no desenvolvimento de políticas de permanência e na criação das comissões de heteroidentificação. Neste aspecto, duas discussões podem ser localizadas. A primeira diz respeito a operacionalização da lei sem nenhum tipo de debate, como assinala o Burocrata da UFRJ.

A PR7, Pró-reitoria de Política s Estuda ntis, consequentemente, tem na sua missã o, tem essa ta refa de a rticula r e implementa r a s política s, ma s eles nã o têm muito diá logo com a discussã o sobre a ções a firma tiva s. É interessa nte, eles, enfim, pla nejam, implementa m, fa zem os processos seletivos da s bolsa s etc., ma s nã o entra m muito nesse deba te. (Burocra ta 2 da UFRJ)

A citação acima ilustra essa questão através de um ator identificado pelo burocrata que, em sua perspectiva, não possuía um caráter de debate sobre a temática das ações afirmativas.

Entretanto, este órgão é percebido como fundamental na implementação da lei de cotas tendo em vista seu caráter de criação e implementação de políticas de permanência estudantil. Nesse sentido, na perspectiva de nosso entrevistado, podemos dizer que apesar de atuante na questão da permanência dos estudantes oriundos das cotas, o órgão não levanta demandas sobre as políticas de ação afirmativa.

A segunda discussão diz respeito ao processo criação das comissões de heteroidentificação nas universidades. Desde 2017, houve um aumento significativo do processo das comissões de heteroidentificação. Em nosso campo, identificamos que esse processo é atribuído aos atores envolvidos na implementação da lei que constataram a necessidade de um novo mecanismo para controlar e evitar fraudes nas subcotas do PPI.

Nesses a nos que eu estou a qui, a questã o da heteroidentifica çã o tem o prota gonismo do movimento negro. Ta mbém do ministério público. Em especia l os jurista s negros que têm uma a tua ção muito forte a qui. O Movimento estuda ntil. Os próprios estuda ntes porque como a s va ga s sã o pouca s, a própria fisca liza çã o a umenta . Por exemplo, eu sou a terceira pessoa na lista pa ra a s va ga s de medicina , cla ro que eu irei olha r a s dua s primeira s pessoa s, porque isso pode decidir minha vida . Entã o, eu vejo o Movimento Negro, o Movimento Estuda ntil e os próprios usuá rios da política , mas ta mbém um a porte muito gra nde do Ministério Público. (Burocra ta da UFBA).

A fala do Burocrata da UFBA exemplifica esse processo. Além de mobilizar os grupos envolvidos na criação de comissões de heteroidentificação, também assinala o poder de fiscalização desses indivíduos. Em especial, o burocrata aciona o monitoramento dos usuários da política quanto à distribuição de vagas para poder verificar uma possível fraude. No trecho também é mencionado o Ministério Público. Podemos identificar a criação da Recomendação n° 41, em 2016, que versa sobre os “parâmetros para a atuação dos membros do Ministério Público brasileiro para a correta implementação da política de cotas étnico-raciais em vestibulares e concursos públicos” (BARROS, 2016) como um marco na mudança do paradigma de acesso pela subcota para pretos, pardos e indígenas.

Tendo em vista estes dois cenários, as próximas seções desse capítulo terão como objetivo a análise da criação de políticas de permanência estudantil e das comissões de heteroidentificação. Compreendendo que são dois processos distintos, a análise desses fenômenos levará em conta dois argumentos. O primeiro é que compreendemos que o sucesso da Lei n°12.711/12 depende de outras políticas que serão instituídas nas próprias universidades federais. E, segundo, porque entendemos a criação das comissões de heteroidentificação como parte de um processo de avaliação da implementação da legislação.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 132-136)