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A crise, então, explodiu. Em nome da eliminação da “subversão” e corrupção, e com o aval dos Estados Unidos, em 1964, o golpe militar suprimiu a democracia. Instalou-se o período da ditadura militar, com caráter ditatorial e repressivo, utilizando-se de forças policiais e de atos de exceção para se impor. O poder executivo aumentou, o legislativo foi quase anulado e os atos institucionais, principalmente o nº. 5 de 1968, limitaram as liberdades individuais e constitucionais (POLIGNANO, 2005).

O longo programa ideológico do movimento foi acionado com a retirada dos estudantes, especialmente os de nível universitário, de qualquer autonomia representativa e mantendo-os afastados de uma participação ativa nas transformações políticas. Posteriormente, o processo prosseguiria pelo afastamento de professores, a partir de 1969, pela repressão brutal às manifestações estudantis, articuladas ou não a organizações políticas clandestinas. O enquadramento ideológico completou-se pelo esvaziamento dos estudos sociais, negando-se reconhecimento à profissão de sociólogo e pela instauração de novas disciplinas como a Educação Moral e Cívica e

OSPB, e, no âmbito superior, Estudo de Problemas Brasileiros, todas de filiação historicamente fascista missionária (POLIGNANO, 2005, p. 13).

Seguindo a linha autoritária do governo militar, os seis IAPs, mais o Serviço de Assistência Médica e Domiciliar de Urgência (SAMDU) e a Superintendência dos Serviços de Reabilitação da Previdência Social foram fundidos em uma Previdência unificada em 1967, o Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), com a justificativa de racionalidade, eficácia e saneamento financeiro.

Todavia, os trabalhadores e empregadores foram novamente excluídos da gestão, aumentando, assim, o papel regulador do Estado (POLIGNANO, 2005). Segundo Malloy (apud OLIVEIRA; TEIXEIRA, 1986, p.70):

[...] desmobilização das forças políticas estimuladas no período populista, para excluir a classe trabalhadora organizada como uma força política, e para diminuir seu papel como mecanismo articulador e de pressão na defesa dos interesses dos trabalhadores.

Além da extinção da gestão tripartite, iniciou uma forte influência de três grandes grupos na direção da previdência: a indústria farmacêutica, a indústria de equipamentos médico-hospitalares e os proprietários de hospitais, ou seja, o complexo médico-industrial assumiu de vez o seu papel de protagonista. Como exemplo claro dessa influência, em 1973, o Brasil ocupava o 8º lugar no mercado internacional de consumo de medicamentos e a importação de produtos da indústria de equipamentos médicos, entre 1961 e 1970, obteve um acréscimo de 599,9%

(OLIVEIRA; TEIXEIRA, 1986).

Aos poucos, a tendência de ampliação da cobertura foi se efetivando. Em 1967 ocorreu a integração ao INPS dos seguros relativos a acidentes de trabalho, em 1972, os benefícios previdenciários se estenderam às empregadas

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domésticas e, em 1973, aos trabalhadores autônomos. Os trabalhadores informais foram os únicos que acabaram excluídos dos benefícios (OLIVEIRA; TEIXEIRA, 1986).

A saúde coletiva, entre as décadas de 60 e 70, foi deixada em segundo plano, tanto que o Ministério da Saúde, órgão responsável na época, sofreu decréscimos progressivos em seu orçamento, de 8% para 0,8% (LIMA; PINTO, 2003).

Junto a esse processo de mudança política e econômica, o perfil nosológico da população também estava em transição, já que os processos de industrialização e urbanização, associados às péssimas condições sanitárias e de trabalho, tornaram as doenças de massa um problema mais importante que as doenças pestilenciais. Conseqüentemente, um novo modelo de atenção à saúde se esboçava, o modelo médico-assistencial privatista (CARVALHO; MARTIN, 2001).

Conforme afirma Mendes (1995a, p. 102, meu grifo):

[...] o sanitarismo campanhista, por não responder às necessidades de uma economia industrializada, deveria ser substituído por um outro, propositadamente concebido e que se foi construindo concomitantemente com o crescimento e a mudança qualitativa da previdência social brasileira.

O novo modelo de atenção que se consolidava e passava a ser hegemônico na década de 70 e segundo Mendes (1995a, p. 109), estava assentado no seguinte tripé:

a) o Estado como financiador do sistema, por meio da Previdência Social; b) o setor privado nacional como maior prestador de serviços de assistência médica; c) o setor privado internacional como o mais significativo produtor de insumos, em especial equipamentos médicos e medicamentos.

O modelo assistencial-privatista tinha como principal característica ser voltado para o atendimento de doentes (demanda espontânea ou induzida pela oferta, ou seja, aos indivíduos que procuram os serviços de saúde), com ênfase na assistência ambulatorial e hospitalar de alto custo, prestada principalmente pela rede contratada e conveniada com o INPS, a qual não estava comprometida com a efetividade e a integralidade do atendimento. Ainda que em casos isolados pudesse prestar uma assistência de qualidade, era claro o seu caráter excludente (PAIM, 1998; TEIXEIRA, 2002). Portanto, era um modelo que privilegiava a prática médica curativa, individual, assistencialista e especializada.

O modelo de seguridade social adotado nesse período tangia a quase universalização dos serviços ao expandir o atendimento médico previdenciário associado à inclusão de novas categorias sociais. E, ao mesmo tempo em que privilegiava o produto privado de serviços em detrimento dos próprios recursos da previdência, somado ainda à falta de controle sobre as contas dos serviços contratados, criava um ambiente propício para a corrupção, o que levou à crise do sistema previdenciário brasileiro (OLIVEIRA; TEIXEIRA, 1986). Além disso, instaurou-se uma crise política e econômica que levou o Estado ao banco dos réus (CARVALHO; MARTIN, 2001).

Sendo assim, com o intuito de contornar esses problemas, em 1974, o Sistema Previdenciário se desvinculou do Ministério do Trabalho e se consolidou em um Ministério próprio, o Ministério da Previdência e Assistência Social (MPAS) e passou com o tempo a ser vinculado às entidades a seguir: o Instituto Nacional de Previdência Social (INPS); o Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS); A Fundação Legião Brasileira de Assistência (LBA); a Empresa de Processamento de Dados da Previdência Social (DATAPREV); e o Instituto de

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Administração Financeira da Previdência e Assistência Social (IAPAS) (OLIVEIRA;

TEIXEIRA, 1986).

Juntamente ao MPAS, criou-se o Fundo de Apoio ao Desenvolvimento Social (FAS), que proporcionou a remodelação e ampliação dos hospitais da rede privada, através de empréstimos com juros subsidiados, favorecendo ainda mais o complexo médico-industrial (OLIVEIRA; TEIXEIRA, 1986).

A partir de 1974, o governo começou a perceber a sua deficiente atenção às questões sociais, principalmente pela deterioração da distribuição de renda, pela elevação dos níveis de mortalidade infantil e a necessidade de reduzir a miséria da população brasileira para permitir que o país se tornasse uma potência.

Era necessário ampliar o poder político, conquistando as classes baixas via políticas sociais (BRAGA; PAULA, 1981).

Vários programas criados a partir de 1974 e implantados pelo INPS e pelo INAMPS, e também pelo Ministério da Saúde, permitiram que uma nova camada da população, que antes não era assistida pela Previdência Social, passasse a ter acesso aos serviços. A atitude do governo federal em relação às políticas sociais foi tomando diferentes formas ao longo do período de governo militar no país (BRAGA; PAULA, 1981).

Em 1974, foi criado o Plano de Pronta Ação (PPA), que tinha o objetivo de universalizar os atendimentos em casos de emergência, sendo importante por iniciar o processo de universalização do atendimento com recursos previdenciários (CUNHA; CUNHA, 1998).

Apesar de todas essas iniciativas do governo para tentar conter a crise do sistema previdenciário, a sucessão de erros demonstrava-se mais forte e a ferida ficou exposta conforme resume Polignano (2005, p. 17):

Por ter priorizado a Medicina curativa, o modelo proposto foi incapaz de solucionar os principais problemas de saúde coletiva, como as endemias, as epidemias, e os indicadores de saúde (mortalidade infantil, por exemplo); aumentos constantes dos custos da Medicina curativa, centrada na atenção médico-hospitalar de complexidade crescente; diminuição do crescimento econômico com a respectiva repercussão na arrecadação do sistema previdenciário reduzindo as suas receitas; incapacidade do sistema em atender a uma população cada vez maior de marginalizados, que sem carteira assinada e contribuição previdenciária, se viam excluídos do sistema; desvios de verba do sistema previdenciário para cobrir despesas de outros setores e para realização de obras por parte do governo federal; o não repasse pela união de recursos do tesouro nacional para o sistema previdenciário.