• Nenhum resultado encontrado

Vamos fazer uso do termo bem-estar lançando mão da definição abaixo:

designar todas as coisas que fazem bem a uma pessoa, que ajudam a tornar a vida melhor. Abrange bem-estar material, como renda e riqueza; bem-estar físico e psicológico, na forma de saúde e felicidade; além da chance de participar da sociedade por meio da democracia e do Estado de direito.

(DEATON, 2017, p. 505).

E podemos medir bem-estar a partir das oportunidades disponíveis. Saúde e riqueza são fatores do bem-estar e as revoluções microbiana e agrícola dos últimos séculos ampliaram estes fatores, ao menos para aqueles que vivem em países desenvolvidos. O que é conhecido e óbvio hoje, a existência de germes e as maneiras de evitá-los, desinfetando e lavando as mãos somado ao descarte correto do lixo, era desconhecido ainda no fim do século XIX (DEATON, 2017).

Entretanto, sabemos que uma parte significativa do mundo ainda vive em condições sanitárias do século XIX.

Deaton (2017) afirma que a pobreza não é a causa de tantas mortes de crianças em países pobres, pois o crescimento econômico não as elimina automaticamente. As mortes são evitadas pelo conhecimento científico. Doenças como tuberculose, malária, diarreia e infecções respiratórias inferiores dependem de saneamento básico e da oferta de água de qualidade. O atendimento médico-paciente também não é suficiente para resolver o problema. O que soluciona o problema da morte precoce é a oferta de orientação antes e após o nascimento dos filhos. São postos de saúde que monitorem a saúde dos bebês garantindo que estão tomando as vacinas e ganhando peso conforme a normalidade. Quando necessário, a oferta de clínicas médicas e enfermeiros que monitorem as crianças. A informação é fundamental para preservar a vida da criança.

Pesquisa mundial realizada regularmente pelo Instituto Gallup pergunta aos entrevistados qual deve ser a prioridade de um governo, e aponta que as pessoas têm como prioridade a oferta de emprego, e mesmo a redução da pobreza, ao invés de uma preocupação com a saúde. É mais fácil para a pessoa perceber que há gente mais rica do que ela do que a percepção de que há pessoas com mais saúde, ou que suas crianças têm maior probabilidade de morrer.

Pessoas com deficiências físicas ou mentais, ou que sofrem de dor crônica ou depressão, têm menos capacidades para uma vida melhor, uma liberdade substantiva. Os últimos anos trouxeram progressos, desde cirurgias de substituição de articulações de quadril,2 assim como cirurgias de cataratas que recuperam a visão.3 Ainda podemos lembrar os muitos medicamentos para a dor que aliviam o sofrimento e trazem qualidade de vida às pessoas. Também lembremos de drogas para o tratamento da depressão que melhoram a vida, e do coquetel para pacientes HIV soropositivos que proporciona vida normal devido à eficácia dos remédios. O EUA gastam 18% do PIB com saúde (DEATON, 2017), enquanto o Brasil menos que 10%, segundo o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a organização não governamental Contas Abertas. A atenção do Estado na prevenção das doenças e na saúde do cidadão é política pública de desenvolvimento.

Alguns hábitos maléficos à saúde foram considerados ações de lutas contra a opressão.

O fumar era considerada uma atividade tipicamente masculina e mulheres que fumavam eram malvistas. O direito de fumar foi associado à luta feminista por igualdade de direitos e nos EUA, Grã-Bretanha, Irlanda e Austrália a porcentagem de mulheres fumantes passou a ser igual a de

2 Cirurgia feita pelo meu pai em 2019 e que lhe proporcionou uma mobilidade há muito tempo perdida.

3 Minhas avós materna e paterna a realizaram e tiveram a vista restaurada.

homens em 1950 (DEATON, 2017). Em 1960 e 1970, a indústria do tabaco passou a investir em campanhas publicitárias associando o hábito de fumar à luta feminista.

A melhora da saúde não advém apenas do uso de medicamentos e cirurgias, a educação e a informação são tão ou mais importantes. O combate ao fumo e o incentivo a uma alimentação saudável e balanceada somada à atividade física regular são imprescindíveis para uma vida de qualidade.

É preciso lembrar que o orçamento é sempre um empecilho para se fazer tudo e escolhas são necessárias. Investir mais em saúde ou em outros aspectos do bem-estar é uma decisão de política pública social a ser tomada. O brasileiro não sabe quanto gasta em saúde, o quanto é investido dos impostos que ele paga no SUS, e que ele renuncia ao bem-estar de uma área específica quando o dinheiro público é direcionado a uma determinada política pública. Assim, ele não pode avaliar o custo/benefício dos serviços. Em linhas gerais, todos estes elementos são bem diferentes da decisão que a pessoa toma ao comprar um item eletrônico ou fazer uma viagem com seu dinheiro. Os gastos públicos são pouco transparentes e o cidadão raramente sabe do que ele abre mão para ter ‘grátis’ um direito ofertado pelo Estado.

Sempre que uma empresa oferta um pacote de benefícios aos seus empregados, é preciso deixar claro o que não acontece, ou seja, que quem paga por eles são os empregados por meio de um salário menor. É preciso deixar mais claro ao cidadão que o custo médico compartilhado, e não importa se pelo Estado por meio do SUS ou se pela empresa que oferta um plano de saúde privado, é sempre pago pelo cidadão. A oferta ampla abarca mais pessoas, mas também pode aumentar os gastos. Pesquisas mostram que amigos em um restaurante tendem a beber mais quando sabem que a conta será dividida igualmente a todos, independente do consumo de cada um, e menos quando a conta será paga proporcionalmente ao consumido (SANDEL, 2020).

Planos de saúde privados possuem pacotes chamados de coparticipação, em que parte da consulta ou procedimento é pago pela pessoa, o que reduz a busca desnecessária do serviço.

Desse modo, “essas trocas e compensações precisam ser negociadas no âmbito da política por meio de algum debate democrático (DEATON, 2017, p. 2343)”, mas esse é um debate difícil e conduzido por pessoas leigas ou mal-intencionadas muitas vezes.

Esta visão de que se recebe de graça é facilmente percebida com alunos e pais de escolas públicas, em cujas situações pouco se observa que o ‘grátis’ é custeado por impostos, e que ao se receber material escolar se fez uma escolha política de não gasto em outra área de bem-estar social.

O Programa Farmácia Popular subsidia medicamentos para o controle de colesterol e hipertensão, mas nunca foi debatido a viabilidade de ofertar academias de ginástica e uma

campanha para a atividade esportiva diária como combate a estas mesmas doenças. Estes são valores da transparência, uma liberdade instrumental, como destaca Sen (2010).

A distribuição de renda hoje é uma corrida entre progresso tecnológico e expansão da educação, afirmam os economistas Katz e Claudia Goldin (2009). A tecnologia empregada no trabalho exige uma adaptação que advém de uma boa educação geral. Se esta educação do trabalhador é deficiente em relação à demanda do mercado de trabalho, o valor da educação subirá e os ganhos dos trabalhadores mais qualificados crescerão. É preciso que a educação se antecipe à demanda. A mudança tecnológica na produção sempre favorece aqueles com mais habilidades: antes, do trabalho agrícola para uma linha de produção; e hoje, da linha de produção para habilidades eletrônicas. Qualquer trabalho no mundo contemporâneo exige habilidades para se trabalhar com tecnologias da informação. A pandemia da Covid-19, por exemplo, exigiu de professores habilidades para gravar, editar e subir vídeos/aulas em plataformas digitais. Os carros de hoje são completamente eletrônicos e interligados, e operá- los exigem habilidades que vão além do saber dirigir.

Sendo as técnicas e o conhecimento que sustentam o alto padrão de vida dos países ricos conhecidos, era de se esperar que os países pobres alcançassem padrão semelhante. Contudo, não é bem assim, pois a capacidade de fazer uso dos métodos conhecidos requer infraestrutura (estradas, ferrovias, telecomunicações, fábricas e máquinas) e níveis educacionais semelhantes aos dos países ricos, o que leva tempo e custa dinheiro para se conseguir. A melhor resposta a não conversão ao longo do tempo pode estar na carência de instituições desses países, na capacidade do Estado, em um sistema legal e tributário eficaz, garantia do direito à propriedade privada e confiabilidade. Estas são as bases fundamentais para que haja crescimento econômico sustentável (DEATON, 2017, p. 3713). Democracia e instituições fortes são fatores-chave para o crescimento e o desenvolvimento econômico.

“A verdadeira fonte de prosperidade são as pessoas, não a terra e os recursos naturais”, dizia Julian Simon em seu livro The Ultimate Resource (SIMON, 1981), e “qualquer ideia que puder ser aplicada fora do seu lugar de origem beneficia a todos.” Porém, existe muito a ‘ilusão de ajuda’, a crença de que a pobreza no mundo pode ser resolvida com pessoas e países ricos doando às pessoas ou países pobres. É uma crença equivocada (DEATON, 2017), já que a “a pobreza não é resultado da falta de recursos ou oportunidades, mas de instituições e governos precários e de política corrupta, doar dinheiro para países pobres provavelmente irá perpetuar e prolongar a pobreza e não eliminá-la.” (DEATON, 2017, p. 4320).

Muitos entendem erroneamente a pobreza como um problema hidráulico, como se a água ao ser bombeada aqui saísse acolá. Eliminar a pobreza no mundo requer estrutura e

conhecimento e não a transferência de dinheiro simplesmente. É preciso criar as condições do desenvolvimento. Sem os investimentos que criem as condições para o desenvolvimento, todo fluxo de dinheiro é improdutivo e ineficaz.

É preciso um projeto de desenvolvimento. E projetos são construídos considerando-se as particularidades de cada país. Não há garantia que um projeto bem-sucedido em um dado local seja igualmente bem-sucedido em outro. Com farinha se faz bolo, mas não somente farinha, na medida em que é preciso condicionantes coadjuvantes como fermento e ovos, por exemplo.

É comum protótipos apresentarem resultados positivos, mas o produto falhar miseravelmente. A fase experimental difere muito da execução efetiva. Políticas no laboratório realizadas pelo pesquisador diferem grandemente da política executada pelo agente público.

Um experimento controlado é incapaz de espelhar todas as nuances do mundo real. Quando o plano ganha escala, problemas impensáveis e imensuráveis surgem. Diferenças regionais mostram-se muitas vezes importantes impeditivos. Por exemplo, a teoria hidráulica ignora a política local ou não tem paciência para ela. É um erro acreditar que recursos retirados de A e passados a B terão o mesmo efeito.

É preciso o desenvolvimento de capacidades locais e não apenas o combate de doenças famosas. O investimento em assistência básica de saúde é o mais indicado, pois, ao invés de gastar milhares de reais para curar uma doença, é mais sábio investir alguns reais em práticas de higiene que evitam a doença.

Os programas precisam ser horizontais, tratando todas as causas da doença, desenvolvendo capacidades locais e não programas verticais que tratam apenas a doença e se esquecem dos seus aspectos causadores. Programas verticais não são eficazes para levar saúde para todos.

Acreditamos ter uma compreensão ampla do que o pobre quer ou necessita e somos tão arrogantes neste entendimento que nem mesmo perguntamos a eles o que desejam. Às vezes, o melhor a se fazer é simplesmente deixar de atrapalhar, sair do caminho. Também existe o propósito da ajuda, pessoas que aplacam a consciência com doações. Doações e ajuda funcionam bem em catástrofes, mas não resolvem o problema crônico, só o desenvolvimento com a oferta de capacitações é solução.

As pessoas não se tornam mais ou menos pobres a partir da revisão de dados sobre a pobreza, mas políticos são movidos por dados estatísticos, e estes têm efeitos reais na política pública e na retórica e, por essa razão, medições são importantes. Aferir dados sobre a pobreza mundial é difícil, a amostragem é aleatória e feita por domicílio, e estes dados são cruzados

com os dados oficiais das contas nacionais que geram estimativas. É comum a desconfiança de estatísticos, que apontam que os números deveriam ser bem maiores.

O problema é que uma família classificada como pobre tem atenção do Estado por meio de programas de assistência social, já outra que perfaz um ganho apenas levemente acima é esquecida, o que faz o ser classificado como pobre muitas vezes uma vantagem.

No documento RENDA BÁSICA COMO INSTRUMENTO DE LIBERDADE (páginas 152-157)