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Liberdades econômicas

No documento RENDA BÁSICA COMO INSTRUMENTO DE LIBERDADE (páginas 146-150)

As evidências empíricas mostram que a liberdade de transação econômica é favorável ao crescimento econômico. Os países mais ricos são majoritariamente aqueles com maiores

liberdades econômicas. Apesar de todos os dados mostrarem com clareza essa verdade, ainda existem críticas expressivas contra a liberdade de transação econômica. Adam Smith (1996) já dizia que a liberdade de troca é parte essencial das liberdades básicas. Transações econômicas seriam então, segundo o autor, formas naturais ao modo de vida e interação social dos seres humanos.

Um entendimento correto do conceito de desenvolvimento faz-se perceber como algo que vai muito além da riqueza econômica, mas é inegável a importância da condição financeira para o desenvolvimento. A riqueza é meio, e não fim. A riqueza amplia a liberdade. O processo de desenvolvimento está relacionado à melhoria das condições de vida das pessoas, a uma ampliação das possibilidades de escolha. Ampliar liberdade envolve remover tudo aquilo que impede a melhor escolha dentro do valor marginal do indivíduo. Há maior desenvolvimento quando as pessoas desfrutam de maiores possibilidades de escolhas livres, quando suas escolhas não se limitam às condições que lhe são impostas, mas sim, há a ampliação das bases informacionais que permitem a escolha.

A fome é o principal limitador da liberdade. As liberdades civis e políticas são princípios constitutivos da liberdade. Governos democráticos ampliam liberdades enquanto governos autoritários impedem às pessoas de serem livres. A visão de liberdade apresentada por Sen (2010) é a de um processo que permite a liberdade de ação e decisão assim como a oferta de oportunidades reais às pessoas. A liberdade não é vista meramente como uma formalidade, mas como a pavimentação das condições verdadeiras que possibilitam que as escolhas sejam livres de amarras. Expandir capacidades é ampliar liberdades.

A liberdade meramente formal sem a expansão das capacidades que permitem às pessoas uma melhor avaliação e escolha não é suficiente. Quando a oferta de condições capacitadoras é desigual, os resultados das decisões não são igualmente livres. Aquele que não teve a mesma oportunidade de acesso à capacitação tem sua liberdade reduzida, e ela é simplesmente formal, pois a pessoa pode fazer escolhas, mas essas estão limitadas às ferramentas de acesso de aprendizagem. A liberdade plena advém da oferta dos aspectos condicionantes para a melhor escolha e a ampliação de capacidades possibilita que a liberdade de escolha realmente seja livre. Não podemos falar em luta justa se colocarmos dois lutadores de igual peso e idade no ringue, quando fornecermos a apenas um deles acesso à alimentação balanceada, sono tranquilo, equipamentos e treinadores de alto nível para orientá-lo. Ao olhar as condições da luta, podemos afirmar que ela se faz em condições de justiça, mas em uma análise mais aprofundada, observa-se claramente que um dos lutadores teve as condições necessárias para a expansão de suas capacidades, enquanto o outro não.

Decisões só são realmente livres quando as condições possibilitadoras para a tomada da decisão foram ofertadas. O processo de liberdade é a busca constante da ampliação das liberdades capacitadoras, da ampliação das ferramentas que subsidiam a decisão. Toda decisão livre, ex-ante, é maximizadora. Todavia, nem toda decisão que aparentemente se mostra livre é realmente livre. Há fatores primários ausentes, como saneamento básico, segurança, alimentação, proteção e acesso à saúde, assim como pressões e discriminações estruturais, institucionais e culturais como a posição da mulher em algumas culturas, a criminalização da homossexualidade, o racismo, a misoginia e outros agravantes que impossibilitam o indivíduo de tomar uma decisão livre.

Essa ausência de liberdade muitas vezes não é nem percebida, pois a estrutura social e cultural a qualificou como normal, o que faz a pessoa ser vista por ela mesma e pela sociedade como um ser improdutivo para os parâmetros mercadológicos.

Crianças que nasceram e cresceram em favelas sem saneamento básico, sem segurança alguma, sem a garantia de ter comida diariamente à mesa normalizam sua condição. Para elas, é o normal, pois nunca lhes foram apresentadas outras possibilidades, outra condição.

A liberdade de mercado é tema de debate constante, mas a negação de transações econômicas livres por meio de controles arbitrários é privação da liberdade, como já enfatizamos. Não podemos falar em liberdade e impedir às pessoas de negociarem livremente.

E não estamos falando que os mercados são eficientes, apenas defendendo que o direito de negociar livremente é uma liberdade básica. Mercados podem ser contraproducentes e precisarem de controle, mas o seu impedimento pela possibilidade de ele não ser eficaz não faz sentido. Mercados livres expandem as oportunidades econômicas e ampliam a riqueza, e as evidências empíricas de séculos mostram com total clareza as vantagens de um mercado livre.

Negociações livres têm produzido maior crescimento e desenvolvimento econômico aos países (SEN, 2010).

Um sistema econômico livre reúne as informações e expertises de milhares ou milhões de agentes tornando o mercado mais eficiente do que um sistema centralizado é capaz, pois ainda que o sistema centralizado fosse capaz de gerar resultados tão eficientes quanto o sistema de livre mercado, lhe faltaria a liberdade das pessoas agirem livremente. Não é só o resultado que importa, o processo que leva ao resultado é tão importante quanto o resultado obtido. A liberdade está presente no processo. O mérito do sistema de mercado não está somente na eficácia do seu resultado, mas também no caminho livre das decisões dos agentes.

Mesmo Karl Marx (1980) considera que a liberdade formal do trabalhador no sistema capitalista é uma evolução em relação aos sistemas pré-capitalistas. No sistema capitalista o

trabalhador pode trocar de empregador. O trabalho assalariado que permite ao trabalhador vender sua força de trabalho aumenta sua liberdade positiva.

Não são poucas as vezes que a liberdade entra em conflito com a tradição e se faz necessário pesar as vantagens da preservação cultural contrapostas às vantagens da modernidade, mas a resolução precisa ser participativa e não simplesmente imposta por uma autoridade política ou religiosa. A decisão de adotar ou não uma tradição estabelecida há séculos deve feita com quem vive hoje. Em uma democracia representativa, é importante que a demanda social seja refletida em seus centros de decisões. Ao olharmos o Brasil, observa-se a diversidade de raças e culturas, mas se olharmos para o Congresso e o Senado federal, o centro das decisões técnicas e políticas do país, não se vê ali uma representatividade da sociedade brasileira.

Porém, alguns bens que contribuem para a capacidade humana não podem ser simplesmente comercializados no mercado. Esses são os bens públicos, bens que as pessoas consomem na coletividade, e não individualmente. Podemos dar como exemplo o controle epidemiológico e serviços de saúde pública e o interesse na preservação ambiental. A racionalidade dos mercados dá-se pelos bens privados.

Alguns bens ainda podem ser vistos como mistos, pois apresentam benefícios pessoais e sociais. A educação é exemplo. A oferta de educação beneficia diretamente o cidadão e indiretamente toda uma sociedade que se beneficia de um maior repertório de conhecimento que traz mudanças sociais importantes. Gastos públicos para o desenvolvimento são vitais em algumas áreas.

Contudo, aqui existe um problema a ser considerado, que diz respeito à oferta de serviços públicos para pessoas com condições econômicas de pagar por eles. O debate é se a oferta deve ser universal ou direcionada. O argumento em favor dos serviços universais é semelhante aos usados na seção 2 na defesa da Renda Básica. Existe um alto custo na focalização do cidadão pobre somado ao constrangimento em taxá-lo como pobre. As fraudes são recorrentes e seu combate também é custoso. Também se incorre em deixar de fora alguém que faz jus, por não poder ser encontrado ou por falha na classificação. E ainda existe um gap entre a inclusão do cidadão e o recebimento do benefício. A universalização é o melhor caminho desde que a taxação da renda e riqueza seja inteligente de forma a cobrar proporcionalmente mais de quem é capaz de contribuir mais. É uma questão meramente técnica e política.

Para encerrar, podemos afirmar que o sistema de mercados é o mecanismo no qual pessoas interagem ao ofertar atividades mutuamente vantajosas. Os problemas que surgem são de outra natureza, e não dos mercados em si. Surgem da não regulamentação, situação na qual

agentes inescrupulosos operam com vantagens não simétricas. A eficácia dos mercados é dependente de uma regulação eficiente do Estado.

No documento RENDA BÁSICA COMO INSTRUMENTO DE LIBERDADE (páginas 146-150)