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Desigualdades raciais

No documento RENDA BÁSICA COMO INSTRUMENTO DE LIBERDADE (páginas 134-139)

O que os Censos mostram entre 1960 e 2010 é um crescimento dos anos de estudo dos brasileiros com momentos de maior e menor aceleração que refletiam os desenvolvimentos econômicos e as instituições brasileiras (ARRETCHE, 2015). Contudo, a razão entre o número de pessoas com Ensino Médio completo e Ensino Superior permaneceu estável ao longo dos anos.

A partir da década de 1990, quando os anos de estudo aumentam, o que se verifica é que o diferencial salarial cai. Estratos superiores que recebiam maiores salários, por terem uma qualificação distinta, ficam cada vez mais achatados. O único grau com distinção considerável é o de trabalhadores com Ensino Superior completo, possivelmente devido ao uso de tecnologias necessárias ao trabalho. É uma questão de oferta e demanda; com o aumento da oferta de trabalhadores com mais anos de estudos, o prêmio que eles recebiam pela qualificação diferenciada se arrefece ou até deixa de existir (CARLOS ANTONIO COSTA; SCHLEGEL, 2015; VAZ, 2020).

Quando fazemos o recorte por gênero, observamos que os salários de homens e mulheres por educação têm caminhado de forma parecida ao longo das últimas três décadas: a razão em 2010 entre os salários de homens e mulheres com curso superior completo ainda era alta, a desigualdade é considerável, já que os homens recebem cerca de 80% a mais do que as mulheres. A distinção por raça também explicita a desigualdade, o que reflete a discriminação racial somada à pior qualidade de ensino recebida pelos pretos e pardos que, em sua maioria, estão em escolas públicas. A chance de um negro chegar à universidade é três vezes menor em relação a um branco (SOARES; FONTOURA; PINHEIRO, 2007), e a razão dos salários de negros com nível superior comparado com os salários de pessoas brancas mostra um percentual de, aproximadamente, 67% superior aos brancos.

É evidente a correlação entre a oferta e demanda por habilidades e salários. A oferta relativa de educação ao longo dos últimos 50 anos de análise resultou em redução dos diferenciais de salários associados à educação. Porém, a Educação Superior ainda é um distintivo significativo para se aferir maior renda do salário. Mas, como sabemos, a desigualdade não pode ser aferida simplesmente pela renda dos salários, pois os ricos, e principalmente os super ricos, obtêm a maior parte de suas rendas de outras fontes (ganhos de capital, juros recebidos, lucros e dividendos) e não do salário advindo do trabalho.

sempre estiveram em desigualdade no Brasil, porém, a situação da mulher melhorou significativamente nas últimas décadas, mas, infelizmente, não podemos fazer a mesma afirmação em relação aos negros.

Lima e Prates (2015, p. 164) destacam três linhas principais sobre a situação social do negro e as relações raciais no Brasil:

(i) os negros ocupam as piores condições sociais devido ao fato de terem emergido recentemente da escravidão, período em que não havia preconceito racial, e sim de classe; (ii) o preconceito racial é um resquício da escravidão e é incompatível com o desenvolvimento de uma sociedade de classes; e (iii) a discriminação racial é um mecanismo que gera desigualdades por meio da desqualificação competitiva dos negros, preservando, assim, os privilégios e os ganhos materiais e simbólicos para os brancos.

O debate questiona se as desigualdades atuais são de classe ou de raça (RIBEIRO, 2006).

Em 1979, com o trabalho de Hasenbalg, a expressão “preconceito de cor” cede espaço para a expressão mais enfática e correta: discriminação racial, e o termo passa a ser frequentemente usado. Como já enfatizado, os dados do Censo explicitam a desigualdade de oportunidades entre brancos e negros com consideráveis desvantagens para os segundos. O intitulado Projeto Unesco, uma série de pesquisas realizadas entre 1952 e 1953 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), no Brasil sob o tema “raça e classe”, apontou que a raça tem efeito na mobilidade social e na estrutura de classes. Isso devido à discriminação racial e às condições do negro após a abolição (MAIO, 1999).

Nesse contexto, o famoso estudo de 1955 de Florestan Fernandes e Roger Bastide é referência. Fernandes encarregou-se de um estudo histórico-sociológico da sociedade paulista e Bastide realizou um trabalho descrevendo a diversidade de atitudes nas relações raciais (BASTIDE; FERNANDES, 1955; MÁRCIA; PRATES, 2015).

Irapuã Santana (2021), pesquisador e doutor em Direito, afirma que racismo e classe social estão separados. E o pesquisador e doutor em Direito Sílvio de Almeida joga luz em como o racismo é estrutural no Brasil (ALMEIDA; RIBEIRO, 2019). Bastide (BASTIDE;

FERNANDES, 1955) afirma ser possível somente nas relações horizontais discernir sobre o que é preconceito racial e preconceito de classe. E entre tantas evidências quantitativas que apontam como negros são preteridos em relação aos brancos e recebem menor remuneração para exercer a mesma função, fica evidente a discriminação racial ainda muito latente no Brasil.

Em trabalho apresentado no XXII Encontro Anual da ANPOCS, de 27 a 31 de outubro de 1998, Silva e Hasenbalg (1998) afirmam que os negros estão concentrados nos estratos ocupacionais inferiores e têm menores chances de ascensão social. Daniela Vaz (2020) lembra que mesmo quando negros avançam no sistema educacional, eles têm maiores dificuldades em converter a

escolarização em rendimentos. E isso ocorre basicamente por dois motivos: eles estão em desvantagem em relação aos brancos no que se refere à educação de qualidade; e possuem menor bagagem cultural e social que media a socialização. E mesmo quando superam estas desvantagens, ainda lhes faltam as redes sociais de contato (networking) que permitem ascender a posições mais prestigiadas do mercado de trabalho.

O acesso à educação tem reflexos no mercado de trabalho. Negros estão mais presentes em ocupações manuais e são menos qualificados e, portanto, pior remunerados. O posicionamento na estrutura social facilita a reprodução do ciclo social. Nas últimas décadas, o Brasil teve êxito em equalizar o acesso aos primeiros anos de estudo, já que o acesso ao Ensino Fundamental é praticamente universal. Já após o ciclo inicial, as desigualdades começam a ser percebidas e acentuadas quando discriminadas pela raça. O Censo de 2010 mostra que entre os jovens brancos de 15 a 17, 68,1% frequentam o Ensino Médio, enquanto este percentual é de 49,3% e 53,7% entre pretos e pardos, respectivamente (ARRETCHE, 2015).

A partir do ano 2000, tivemos uma ampliação significativa do acesso ao Ensino Superior no Brasil. Mas, ainda assim, as desigualdades raciais são nítidas, mesmo entre os mais pobres.

Em 2010, aponta o Censo, entre os jovens de 18 e 24 anos presentes entre os 20% mais pobres, em média, 13,5% cursavam o Ensino Superior, mas entre os brancos este percentual era de 25,5%, enquanto entre os pretos e pardos, 8,1% e 8,4% respectivamente. Assim, comparando as desigualdades raciais é possível afirmar que o negro pobre encontra muito mais dificuldade para alçar níveis mais altos de educação do que o branco pobre (MÁRCIA; PRATES, 2015).

Apenas 1 de cada 4 brasileiros com curso superior completo no Brasil é negro, levando- se em consideração que os negros são a maioria dos brasileiros (55,8%). E mesmo com o crescimento que ocorreu nas últimas décadas, negros ainda ocupam posições de menos prestígio e valorização no mercado e recebem menor salário, mesmo quando exercem função e possuem formação similares. Ainda é preciso destacar que existe uma forte persistência intergeracional no Brasil. O status ocupacional dos filhos é fortemente associado ao status ocupacional dos país, assim, filhos pobres têm alta probabilidade de reproduzir o grau de educação e renda dos pais (ARRETCHE, 2015; AUGUSTO; ROSELINO; FERRO, 2015; CAMPANTE; CRESPO;

LEITE, 2004; RIBEIRO, 2020; VAZ, 2020).

Além disso, o descompasso entre brancos e negros vai além da pura e simples discriminação salarial, em cuja quantia negros recebem menor remuneração exercendo a mesma função e tendo a mesma formação. Como escreveu Gonzales e Hansebalg (1982, p. 98), “os negros sofrem uma desvantagem competitiva em todas as etapas do processo de mobilidade social individual.” Outra desvantagem em relação ao branco se dá com relação ao capital social,

pela rede de contatos que converte capital educacional em renda (VAZ, 2020). A rede de relações da família desempenha papel fundamental nas oportunidades de estágio e emprego. O capital social amplia significativamente as chances de uma boa colocação no mercado de trabalho, não sendo o capital humano a única, e talvez nem mesmo a mais importante variável.

Para concluir este debate – na próxima seção abordar-se-á políticas públicas efetivas no combate das desigualdades – podemos afirmar que as barreiras raciais têm diminuído no Brasil e as oportunidades de acesso aos negros foram ampliadas, principalmente a partir do ano 2000.

Mas ainda ao observarmos os dados das pessoas que concluem o ensino superior, notamos nítida desigualdade racial. Entre os filhos pais com curso superior, apenas 9,3% eram negros em 1980. Este valor saltou para 29,1% em 2010. Mas a renda domiciliar per capita de uma família negra com curso superior era apenas 62% da de uma família branca (MÁRCIA;

PRATES, 2015). A análise dos dados mostram que, ao considerar os filhos com pais com nível superior, a grande maioria é branca, e ainda eles têm forte vantagem de renda. Os dados são contundentes em explicitar as desvantagens socioeconômicas dos negros, dados tais que os colocam na base da pirâmide social, assim como há forte tendência geracional (SILVA;

HASENBALG, 2000; VAZ, 2020).

4 DESENVOLVIMENTO

Foi no século XX que o modelo político democrático e participativo ganhou força e os conceitos de direitos humanos e liberdade se destacaram no debate. Contudo, estes conceitos dividem espaço com a pobreza, a discriminação e a violência em todas as suas formas. O processo de desenvolvimento implica em atacar essa problemática de forma a superá-la.

Direitos humanos, liberdade, sustentabilidade e desenvolvimento são palavras presentes na retórica atual. Os conceitos estão presentes nas democracias desenvolvidas e no debate atual nos países com liberdade política. São muitas as privações que se apresentam como empecilhos à liberdade, mas a fome é a principal delas. A fome dói, machuca e mata lentamente.

Contudo, não é somente a fome que impede o processo de desenvolvimento, e o objetivo desta seção é apontar elementos constitutivos de ampliação das liberdades e de combate aos males sociais. Sen (2010, p. 10) afirma que no combate aos problemas enfrentados “temos que considerar a liberdade individual um comprometimento social.” Para Sen, o desenvolvimento consiste na eliminação de privações que impedem as pessoas de terem liberdade, que limitam suas opções de escolha e oportunidades. A expansão das liberdades é definida por ele como o principal fim e o principal meio do desenvolvimento. Eliminar o que priva as pessoas de ter liberdade é condição constitutiva do desenvolvimento. Sen vê o desenvolvimento como um processo de eliminação de privações de liberdade e ampliação de liberdades substantivas.

Dando seguimento à análise, Sen afirma que o objetivo supremo do desenvolvimento é suplementado pela eficácia instrumental de liberdades específicas que promovem outros tipos de liberdade. O encadeamento de diferentes tipos de liberdades é casual e não constitui, não define a liberdade, mas há elementos que apresentam forte correlação, como as liberdades econômicas e políticas. Oportunidades de educação e cuidados de saúde são elementos que combatem as privações de liberdade. Entendemos aqui que a liberdade é o principal objetivo do desenvolvimento e as políticas públicas devem estabelecer os encadeamentos empíricos capazes de ampliar a liberdade, pois é assim que se estabelece o processo de desenvolvimento (SEN, 2010).

Sen, de forma alguma, nega que a ausência de renda é uma das causas mais importantes da pobreza, mas ele amplia a dimensão do conceito de pobreza ao compreendê-la não somente como a ausência de renda, mas como uma privação de capacitações básicas. Ele parte do pressuposto antropológico básico de que a natureza humana, e o contexto que a rodeia, é diversa (COMIM, 2021).

O autor mostra como as privações, sejam elas absolutas ou relativizadas, levam a impedimentos concretos em termos de capacitações, ao apresentar a ideia de que uma pessoa pode ser pobre mesmo com uma renda em cuja análise meramente econômica não seria classificada como pobre. Em linhas gerais, como a pobreza relativa, dentro do contexto social do indivíduo, pode ser um limitador de capacitações e como lugares diferentes apresentam uma ética social distinta.

A princesa Jasmine, do clássico conto da Disney Aladdin, mora em um palácio cercado de luxo e todas as regalias possíveis e imagináveis. Mesmo assim, ela foge do castelo. E não é difícil entender o porquê. Falta-lhe o principal, a liberdade. Desenvolvimento é a remoção das privações de liberdade. Este é nosso entendimento de desenvolvimento, o que não implica em afirmar que não existam outras definições de desenvolvimento. Dito isso, entendemos o desenvolvimento como um processo de remoção de tudo aquilo que tolhe a liberdade, assim, o desenvolvimento é um processo contínuo.

A partir dessa perspectiva, nesta seção nosso objetivo é discorrer sobre liberdade, não uma liberdade negativa formal no sentido da não agressão e não restrição do direito de ir e vir, mas uma liberdade substantiva, dos elementos constituintes, capacitadores da liberdade real.

Desse modo, desenvolvimento e liberdade são dois conceitos nucleares para esta pesquisa que necessitam ser articulados de forma cuidadosa e sistemática.

No documento RENDA BÁSICA COMO INSTRUMENTO DE LIBERDADE (páginas 134-139)