2.1 A instituição policial: do Brasil Colônia e Imperial à reabertura
2.1.1 Brasil Colônia e Império: a força do poder real como combate à
que as colônias são enxertadas nesses novos parâmetros tecnológicos, gerando perda de sua autonomia e destruição da sua identidade étnica.244
Ou seja, a partir das questões que vêm dos países centrais, a colônia desenvolve sua própria tecnologia de poder-saber, tal como ocorreu com o desenvolvimento da polícia, da repressão aos africanos libertos, da repressão ao comunismo e da guerra às drogas. Por isso, temos uma política brasileira enxertada na política estadunidense, de guerra às drogas e de lei e ordem, as quais são impostas por meio de um saber- poder para atender interesses do poder central.
pessoas, da investigação de crimes e pela captura de criminosos. O poder do intendente englobava tanto poderes legislativos quanto executivos e judiciais.245
Em 1809 foi criada também a Guarda Real da Polícia, subordinada à intendência.
Era uma polícia organizada militarmente e a quem competia manter a ordem pública e perseguir criminosos, a qual, mais tarde, deu origem à polícia militar.246
Esses apontamentos são feitos por Thomas Holloway247, que propõe apresentar um estudo sobre a polícia utilizando a dialética da repressão e da resistência. Para tanto, analisa os relatórios diários da polícia do Rio de Janeiro que eram encaminhados para a corte, no período de 1808 a 1889, pois percebe aí um rico material de pesquisa.
Nesse material ele pretende analisar a figura de pessoas marginalizadas para contar a história da polícia sobre uma outra perspectiva.
Sua tese é de que a polícia é criada para cumprir a tarefa de proteger a propriedade que antes estava relegada aos cuidados particulares, executada pelos capitães do mato e pelos senhores de escravos, bem como para manter a classe de escravos e homens livres pobres dentro de determinados limites do comportamento público traçado pela elite como aceitável.248
A polícia era um exército permanente travando uma guerra social contra adversários que ocupavam o espaço a seu redor. O contato com o inimigo adivinha de ações guerrilheiras dos bandos de capoeira, de atos subversivos como fugir ao controle de seu dono e recusar-se a trabalhar, e de uma infinidade de pequenas violações individuais, que iam do pequeno furto ao atrevimento de ficar nas ruas depois do toque de recolher. Ainda nos moldes do exército permanente, concebia-se a força policial como o instrumento coercitivo daqueles que tinham criado e que a mantinham e controlavam.249
245 HOLLOWAY, T. Polícia no Rio de Janeiro: repressão e resistência numa cidade do século XIX.
Tradução de Francisco de Castro Azevedo. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1997.
246 HOLLOWAY, T. Polícia no Rio de Janeiro: repressão e resistência numa cidade do século XIX.
Tradução de Francisco de Castro Azevedo. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1997.
247 HOLLOWAY, T. Polícia no Rio de Janeiro: repressão e resistência numa cidade do século XIX.
Tradução de Francisco de Castro Azevedo. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1997.
248 HOLLOWAY, T. Polícia no Rio de Janeiro: repressão e resistência numa cidade do século XIX.
Tradução de Francisco de Castro Azevedo. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1997.
249 HOLLOWAY, T. Polícia no Rio de Janeiro: repressão e resistência numa cidade do século XIX.
Tradução de Francisco de Castro Azevedo. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1997. p.50.
As infrações mais comuns eram a fuga de escravos – os quais eram devolvidos ao seu senhor e teriam que prestar trabalhos ao setor público – e a capoeira. O termo capoeira se referia a várias atividades exercidas por afrodescendentes escravizados de forma coletiva, não exclusivamente a ginástica ou a dança, como vemos hoje, mas incluía ações como arremessos de pedra, porte de arma e até mesmo assoviar como capoeira, como forma de comunicação entre o grupo. O delito de capoeira somente foi positivado como crime pelo Código Penal de 1890, ou seja, ainda que nesse período não houvesse a previsão legal, a capoeira era reprimida com força policial. Registre-se que a maioria das pessoas presas era de afrodescendentes escravizados ou ex-escravizados, e que somente 1% da população livre nunca tinha sido escravizada.250
Da descrição dessas condutas e das pessoas que eram normalmente alvo da repressão policial, é perceptível que o foco são as ações e atitudes praticadas por pobres e afrodescendentes escravizados, população considerada hostil e perigosa, não discriminando ações praticadas pela elite branca como reprováveis.
A polícia também se tornou responsável pela prática dos açoites, punição utilizada para os africanos escravizados com o objetivo de manter a mão de obra ativa para o seu dono, além de identificar e simbolizar a sua condição de escravo e impor uma punição equivalente à pena de prisão para os não-escravos.251
Num contexto mais amplo, sendo a escravidão tão difundida no Rio de Janeiro do início do século XIX e tão importante para as relações econômicas e estrutura de classes da sociedade brasileira, o serviço de açoite significava a manutenção do sistema. Ele põe claramente em relevo o papel do Estado como instrumento de classe dominante, atendendo a sua necessidade de controlar, por meio da violência física, os que forneciam a força muscular de que dependia toda a economia.252
250 HOLLOWAY, T. Polícia no Rio de Janeiro: repressão e resistência numa cidade do século XIX.
Tradução de Francisco de Castro Azevedo. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1997.
251 HOLLOWAY, T. Polícia no Rio de Janeiro: repressão e resistência numa cidade do século XIX.
Tradução de Francisco de Castro Azevedo. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1997.
252 HOLLOWAY, T. Polícia no Rio de Janeiro: repressão e resistência numa cidade do século XIX.
Tradução de Francisco de Castro Azevedo. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1997. p.64.
No entanto, diante da abolição do regime escravocrata seria necessário repensar a posição dos afrodescendentes recém libertos dentro da sociedade brasileira liberal e republicana, alterando-se igualmente o papel da polícia.
2.1.2 A Polícia na República Velha: A Formação do Poder Bélico-Militar e o