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Primeira visita ao Complexo do Alemão

No documento Mariel Muraro UPP E UPS (páginas 158-166)

escola com várias marcas de tiro que são recobertas com adesivos de borboletas e corações para tentar diminuir o medo diário que afeta, inclusive, as crianças.476

Motivada por essa situação, buscou-se realizar a pesquisa no Complexo do Alemão, no ano de 2016, focando na perspectiva dos moradores em relação a essa política.

Ao passar pelos policiais, logo estacionamos próximo a um muro grande e fomos caminhando até o Bistrô do Complexo. A primeira informante e sua companheira conheciam o atendente do bistrô. Ele trouxe o cardápio de cervejas com muitas opções de cerveja gourmet. Achei isso interessante porque não tinha cervejas como Skol, Antarctica, inclusive tinha uma cerveja chamada Complexo do Alemão e foi com essa que começamos a conversa. A primeira informante chamou alguns amigos.

Entre algumas cervejas e bolinhos, essa conversa, que começou às 19h, foi até as 3h da manhã. Depois, fomos dar uma volta para chegar até onde estava acontecendo o baile funk. Andando pelas ruas do local, percebi que as casas são de alvenaria, relativamente grandes, não tem lixo na rua e existe saneamento básico.

O que tinha em comum com outras favelas eram os "gatos" de luz, ou seja, muitos fios ligados aos postes de iluminação pública. Também percebi que o tempo todo passava muita gente pelo bistrô de carro e moto. Quem anda de moto anda sem capacete. Havia muitas meninas e meninos bastante jovens.

3.3.1 A favela

A primeira informante começou a contar que morava ali desde pequena, que sua família ainda mora ali, tio, tias e primos, embora seus pais tenham se mudado há cerca de um ano por causa da exigência da legalização da Kombi de transporte, que iniciou no governo Paes, pois seu pai trabalha com isso. No Rio de Janeiro, as UPPs impuseram o controle sobre o transporte no morro, como Kombis e mototáxis, que acabaram sendo proibidos, em alguns lugares, sob a justificativa de serem ilegais477, exigindo para que continuassem a funcionar registros e autorizações legais o que implica no pagamento mensal de impostos.

A primeira informante disse que seus pais vieram morar ali quando ainda tinham vacas e cavalos, com poucas construções.Também contou que são muitas comunidades dentro do Alemão, com mais de 300 mil pessoas, e não é possível conhecer tudo, porque é muito grande.

477 GRANJA, P. UPP: o novo dono da favela: cadê o Amarildo? Rio de Janeiro: Revan, 2015.

Ela e sua companheira moravam ali, mas se mudaram há pouco tempo.

Durante esse período ficaram em três casas, uma delas de sua tia, que havia se mudado, mas resolveu voltar. Sua tia tentou morar em diversos outros lugares, porém, acabou voltando. Ela, brincando, disse que conversa com a tia que ela não consegue sair da favela, que ela pode até sair da favela, mas a favela não sai dela.

Muitos moradores têm dinheiro. Vi carros novos passando por onde estávamos, como Megane, Honda Fit e outros. A primeira informante chamou a atenção para uma moto esportiva que passava e que custa mais de 30 mil reais, segundo ela, e essas pessoas, mesmo com dinheiro, continuam na favela, não querem sair.

A primeira informante e sua amiga, ficaram dizendo que são tipo favela mesmo, barraqueiras, falam alto, como se essa fosse a forma de se comportar de um favelado. Interessante observar a constatação de que hoje é "cult" dizer que mora na favela. Antigamente mentiam sobre o lugar onde moravam e hoje já não têm mais vergonha, pois percebem um empoderamento da favela, mas que ainda precisa ser mais valorizada essa cultura. Percebem que hoje muitos têm orgulho do lugar onde vivem e de onde vieram.

A favela, segundo elas, não dorme, é o tempo todo, a noite toda, todos os dias as pessoas na rua.

A primeira informante também comentou sobre o jornal Voz da Comunidade, que é gerenciado pelo Rene Silva, que auxilia na divulgação das coisas que acontecem no Alemão para fora. Ele deu grande cobertura à ocupação do Alemão, mas criticou sua atuação porque convida jovens para escrever, mas não os remunera adequadamente.

Como não existe mais baile como antigamente, porque foram proibidos, o jornal acaba promovendo alguns eventos na comunidade.

Os imóveis não possuem registro, foram ocupados irregularmente, por isso, o documento que comprova a posse do terreno é o registro na associação de moradores.

A associação de moradores tem um forte vínculo com "o movimento", que é como a primeira informante se refere ao comércio varejista de substâncias entorpecentes.

No Alemão há uma igreja evangélica a cada esquina, pois muitos moradores são evangélicos, inclusive o pessoal do movimento. Quando o pastor passa por eles, pede para deixarem as armas e as drogas de lado e os abençoa.

3.3.2 O Movimento478

No Alemão é o Comando Vermelho quem lidera o comércio de substâncias entorpecentes e, até hoje, os comandantes são Fernandinho Beira Mar e Marcinho V. P., segundo a primeira informante. Houve uma tentativa de milícia com o Pereira, mas não se consolidou. O movimento hoje tem o gerente e os seus braços-direito.

Antes da instalação da UPP o movimento controlava muita coisa, como o comércio, que não pode vender ou fornecer qualquer tipo de serviço para os policiais.

Policial não pode morar no morro, o movimento aceita somente bombeiros.

O movimento não se integra muito à comunidade, é fechado, só faz parte do movimento quem é "cria", ou seja, quem nasceu e viveu na favela.

O movimento tem uma justiça própria que, por incrível que pareça, "funciona"

para inibir as pessoas, segundo a primeira informante. O tráfico não aceita estupradores, estes são condenados ao micro-ondas.479 Os moradores sabem que alguém morreu no micro-ondas porque as chamas e a fumaça são muito altas e visíveis para todos.

O roubo na favela também não é aceito e o culpado também é executado no micro- ondas. Outras discussões, como entre marido e mulher também são levadas ao movimento, que decide de diferentes maneiras. Há uma certa imprecisão na pena, e às vezes aquele que é considerado culpado leva uma surra. Outro exemplo é quando duas meninas brigam por causa de um menino, nesse caso eles raspam o cabelo delas. Um exemplo de justiça do movimento foi com um cara que atropelou e matou um pedreiro. Como não tinha certeza da culpa dele no acidente, ele levou uma surra como punição, mas não o mataram. Hoje o tráfico está voltando a utilizar armas e a circular mais.

Quando morre um membro, eles pagam o funeral e também pagam aposentadoria.

Um primo da primeira informante era do movimento e foi assassinado. Quando estavam fazendo o seu velório, alguns integrantes foram na casa da sua tia e disseram que pagariam tudo. O primo dela não tinha muito dinheiro, diz que vivia pedindo dinheiro para a tia e que não conseguiu comprar nada com isso.

478 O “movimento” refere-se aos comérciantes varejista de substâncias ilícitas nas favelas.

479 Pilha de pneus em que a pessoa é colocada dentro, jogam combustível e ateiam fogo.

Quando o movimento estava forte, eles expulsavam os "cracudos" da favela.

O movimento não vende crack, mas vende cocaína, maconha e sintéticos, pois existe uma preocupação com a aparência de ordem, o que é bastante interessante de se perceber, pois o objetivo é não chamar a atenção da polícia e das forças de ordem.

3.3.3 A Polícia e a UPP

A instalação da UPP foi em 2010 e, durante um certo tempo, até esse ano, não se viam na parte de baixo de Nova Brasília traficantes armados, havendo uma restrição na sua circulação pela favela. Nesse espaço existem quatro UPPs e uma central de inteligência, que fica na parte de baixo, que coordena as UPPs.

A parte de cima do Complexo é mais pobre e tem mais violência, mais troca de tiros, mas o local mais violento é na entrada da Grota, na parte de baixo, onde acontecem diversos conflitos armados pois é onde há resistência do movimento à circulação da polícia.

Depois da UPP não existe mais baile funk, e outras festas acabam sendo reprimidas também, porque as pessoas fazem churrasco na rua, festa de aniversário, e a polícia manda parar quando está passando. Ou seja, a promessa da polícia comunitária de controle das incivilidades e desordens urbanas proíbe a realização dos bailes funk, desde a perseguição aos proibidões a partir dos anos 2000, que se estendeu a festas de aniversários e outras comemorações, restringindo quanquer atividade de lazer e cultura da favela.

Segundo a primeira informante, com a redução do tráfico, muitos comércios fecharam, justamente porque diminuiu a circulação de dinheiro na favela. Numa rua próxima do local onde estávamos, algumas lojas foram demolidas pelo "choque de ordem", que também reprime mototáxi, barraca de frutas, festa junina... Alguns moradores voltaram a ocupar essas lojas ou montaram uma espécie de camelô em frente a sua antiga loja; outros estão colocando até a porta de metal para fechar.

Milton Santos, falando sobre o setor informal da economia, afirma que eles teriam a função de difundir o modelo capitalista para os pobres através do consumo, ao mesmo tempo em que absorvem para o circuito superior (setor formal) a poupança e a mais-valia desses, através da máquina financeira. Os canais para essa transmissão

seriam as agências bancárias, cooperativas e o próprio Estado, por meio da taxação e da distribuição desigual de recursos, ou seja, esse fluxo "[...] continua empobrecendo uns e enriquecendo outros".480

Comerciantes do Complexo do Alemão, após a ocupação, também passaram a sofrer ameaças de demolição e desapropriação de suas residências e comércios que não possuíssem registro ou alvará. Esse processo de fechamento do comercio local é realizado pelo "choque de ordem", que são agentes fiscais da prefeitura, que controlam o comércio ambulante e exigem a retirada das barracas, dos camelôs e do comércio em geral que não possui autorização de funcionamento, sem contar os relatos de que se apropriam das mercadorias apreendidas, quando não o fazem à força.481

Esse processo de remoção dos comércios ilegais e da cooptação das economias populares gerou a migração dos moradores, por conta do aumento dos custos de vida nas favelas "pacificadas", como ocorreu com os pais da primeira informante, possibilitando a recolonização do espaço da favela482 pelo capital.

É necessário fazer ainda mais críticas à UPP. Segundo a primeira informante os policiais são muito mal preparados, eles não conhecem o território, e depois de muitos anos de ausência do Estado, quando se quis fazer presente, foi de forma violenta. A UPP não trouxe nada para os moradores, que esperavam muitos serviços para a população – e isso não aconteceu.

O que foi feito foi antes da UPP, com o dinheiro do PAC. Colocaram um Banco 24 horas dentro da favela, asfalto onde antes escorria esgoto a céu aberto, um centro de tecnologia para os jovens e um cinema. Eu fiquei com a impressão de que, como o dinheiro do PAC entrou na favela antes da UPP e trouxe essa infraestrutura, muitos moradores acreditaram que a UPP poderia trazer mudanças, como a promessa da oferta de serviços que não se efetivaram.

Para a polícia, o morador tem que provar que é trabalhador, pois do contrário será tratado como “bandido”, reproduzindo a lógica maniqueísta da ideologia da defesa

480 SANTOS, M. Pobreza urbana. 3.ed. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2013. p.71.

481 GRANJA, P. UPP: o novo dono da favela: cadê o Amarildo? Rio de Janeiro: Revan, 2015.

482 VALENTE, J. L. UPPs: governo militarizado e a ideia de pacificação. Rio de Janeiro: Revan, 2016.

social de que todo favelado é “bandido” e deve ser neutralizado. Como retrato dessa situação, conta a primeira informante que, uma vez, seu irmão, indo para casa, encontrou com os policiais em perseguição e estes disseram que era para ele subir gritando "morador... morador...", para não ser alvejado pela polícia. Ela disse ainda: "a polícia mata por cagada", pois "encontra a pessoa e atira sem saber muitas vezes se ela é bandido ou não", como se a polícia tivesse autorização para matar "bandido".

Desse jeito a polícia matou o primo dela. Não foi em confronto. Segundo ela, ele não reagiu, embora estivesse armado.

Esse relato ainda demonstra o uso da violência por parte das forças policiais vinculadas à UPP que, como já dito, nada têm de pacíficas ou comunitárias.

As pessoas da favela não se sentem donas de seu próprio espaço, pois antes era o movimento quem controlava sua liberdade de ir e vir, agora é a polícia. Em nenhum momento os moradores foram chamados para conversar, para dar a sua opinião, e por isso não se sentem proprietários e não podem agir de forma livre.

3.3.4 Fim da visita

Andando pelas ruas, eles foram me mostrando onde tinha uma vala por onde escorria esgoto e hoje tem asfalto, até chegarmos à quadra de esportes. Devia ter cerca de umas 300 a 400 pessoas no local, a maioria jovens. Bem perto da quadra passamos por várias pessoas portando arma de fogo, inclusive uma que me chamou a atenção era um fuzil prateado, mas as pessoas agiam com normalidade, com exceção de quem estava comigo. Percebi que eles estavam com muito medo e receio por ter encontrado com essas pessoas armadas. Segundo a primeira informante e seus amigos, há muito tempo não viam o pessoal ali embaixo armados. Alguns deles não queriam estar ali, outros estavam curtindo e queriam ficar mais.

Uma das amigas da primeira informante depois me contou que chegou para um dos que ostentavam arma e falou para ele esconder um pouco a arma por minha causa. Percebi que muitos ali estavam armados. Segundo a primeira informante, o baile das antigas tinha muito mais gente e mais caixa de som. Eu não conseguia ouvir a música que estava tocando. Muitos estavam fumando maconha ou cheirando lança perfume. Ficamos ali cerca de uns 20 minutos e paramos um pouco para

observar em um ponto que estava menos movimentado. Chamou a atenção um cara branco, que se diferenciava muito dos demais, com uma moto superesportiva, tentando sair dali e atrapalhando as pessoas que estavam curtindo o baile.

Saindo dali ficamos conversando sobre o que estava acontecendo. A amiga da primeira informante me falou que parou perto do lugar onde compraram uma cerveja porque ali tinha uma viela por onde podiam correr, caso entrasse o caveirão.

A primeira informante falou que de vez em quando o caveirão entra ali “do nada”

para dar uma volta. Ela também falou que num tiroteio a melhor opção é ficar longe dos policiais e longe das pessoas armadas, porque eles são o alvo, e que devo ficar atenta à cintura da pessoa, porque, mesmo parecendo sonso, essa pessoa podia estar armada, como o cara ao nosso lado.

Isso me deixou bastante reflexiva, já que os moradores formulam estratégias para se abrigar e proteger diante da possibilidade de um conflito. Cada um mantém a atenção em determinadas questões que seriam necessárias no caso de a polícia invadir e haver troca de tiros. Quem não vive essa realidade sequer pensa nisso.

Dali fomos para a casa dos amigos da primeira informante. Conheci uma das casas, um quartinho pequeno, de uma peça. A outra casa é de classe média, com bons móveis, decoração, cozinha bem equipada. Fiquei ali até a primeira informante e a sua companheira irem embora. Fui com elas pegar o metrô às 6 horas da manhã. Todos, muito simpáticos, me convidaram para dormir ali, mas acabei recusando porque estava sem roupa.

Segundo eles, o "esquema" é andar sempre com uma muda de roupa, para poder dormir em qualquer lugar. Essa questão também me pareceu reflexo da violência em que vivem os moradores, pois sempre cogitam a possibilidade de não poderem voltar para casa.

Todos foram muito simpáticos, em especial a primeira informante, que se prontificou a ajudar. Percebi que ela é bem crítica da UPP. Repetiu várias vezes que o Estado nunca esteve presente, que a polícia é mal preparada porque não conhece o território e que a favela nunca dorme.

No documento Mariel Muraro UPP E UPS (páginas 158-166)