Para Garland, os dilemas do último terço do século XX são "a normalidade de altas taxas de criminalidade" e o reconhecimento "das limitações do Estado de justiça criminal".143 As altas taxas de criminalização se tornaram um fato social normal, algo rotineiro, assim como o fracasso das penas do Estado penal e da possibilidade de prover “lei e ordem” dentro de um território, especialmente no tempo em que a soberania estatal está sob ataque.
Passando a admitir isso, o Estado afirma que não é mais capaz de garantir sozinho a prevenção dos delitos e que é a comunidade quem deve assumir essa responsabilidade. Para tanto, busca, através de parcerias com entidades privadas e com o apoio da comunidade, a implantação de tecnologias de segurança mais amplas, ampliando as forças do controle social e ampliando o próprio Estado penal.
Esse modelo de polícia proposto nos discursos políticos e acadêmicos não implica um retorno ao liberalismo, que seria pensado a partir da minimização do
142 BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Tradução de Mauro Gama, Cláudia Martinelli Gama. Revisão técnica de Luís Carlos Fridman. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p.54.
143 GARLAND, D. A cultura do controle: crime e ordem social na sociedade contemporânea. Tradução de André Nascimento. Rio de Janeiro: Revan, 2008. p.243.
Estado; na verdade, amplia as esferas de intervenção policial para além dos delitos, abarcando desordens, incivilidades e emergências ligadas à qualidade de vida no âmbito urbano, como foi declarado nas políticas de tolerância zero e nas janelas quebradas. Mas, segundo Sozzo144, sem dúvida, existe uma afinidade eletiva entre esses discursos e o neoliberalismo.
Esse neoliberalismo incentivou certas inovações na técnica governamental, dentre as quais a construção de indivíduos ativos e independentes, ou seja, responsabilizando a comunidade e o setor privado pela busca da segurança, buscando o seu engajamento nessa pauta e a mudança das instituições, inclusive estatais, para o modelo "empresa comercial", fazendo com que a polícia passe a se organizar como uma empresa que deve atender às necessidades do cliente, já que a doutrina de polícia comunitária prega que é a comunidade que deve identificar os seus problemas, que deve se mobilizar para a sua própria segurança em parceria com a polícia e buscar sempre a prevenção, além de ser tarefa desse modelo de polícia remover a impressão de que a polícia é violenta, corrupta e ineficaz.
O neoliberalismo, com a privatização das atividades estatais, instaura uma nova técnica positiva de governo, privatizando a segurança pública e responsabilizando as empresas privadas, chamando isso de "prudencialismo privatizado", diante da possibilidade de reconfigurar uma comunidade, gerenciando especialmente a massa de excluídos e sobrantes.145 É uma parceria público-privada estabelecida entre a polícia e a comunidade para a gestão da pobreza que incomoda.
Para Garland146, o passo mais importante desse projeto foi chamar atores não estatais para as práticas preventivas, focando nas práticas informais. Chamar a comunidade e o setor privado para essa prevenção é uma forma de responsabilização, sendo uma mudança estratégica de ação por parte do governo, criando uma rede otimizada de controle do crime. Segundo essa visão, todos devem prevenir o crime, sendo que isso não é uma tarefa apenas da polícia.
144 SOZZO, M. Polícia, governo e racionalidade: incursões a partir de Michel Foucault. Discursos Sediciosos: Crime, Direito e Sociedade, v.17, n.19/20, p.511-554, 1.o e 2.o semestre de 2012.
145 SOZZO, M. Polícia, governo e racionalidade: incursões a partir de Michel Foucault. Discursos Sediciosos: Crime, Direito e Sociedade, v.17, n.19/20, p.511-554, 1.o e 2.o semestre de 2012.
146 GARLAND, D. A cultura do controle: crime e ordem social na sociedade contemporânea. Tradução de André Nascimento. Rio de Janeiro: Revan, 2008.
Quando se deu a instalação das UPPs, ficou claro que era essa a intenção das forças de ordem, uma vez que o projeto foi entabulado pelo governo federal e estadual em conjunto com empresários, desde o planejamento até o financiamento, buscando criar a imagem de uma cidade atraente para investimentos. Investimentos de empresas como "Coca-Cola, Souza Cruz, Firjan, Bradesco Seguros, Light, CBF e a empresa EBX, do multimilionário Eike Batista"147 remontam à quantia de 60 milhões de reais, apoiados pelas propagandas institucionais que comercializavam o modelo de pacificação pela UPP como uma grife.
Nesse contexto, colocou-se a favela com a imagem de que ela é um "problema"
paisagístico e ambiental de forte visibilidade que precisava ser modificado148, sob o discurso de que era um lugar violento e de concentração de crimes, sob o domínio do tráfico de entorpecentes e, por isso, devia ser também pacificado.
A intervenção urbana na favela se justificaria porque a cidade foi construída sem planejamento e agora, em razão dos megaeventos, precisa ser replanejada, passando a ser administrada como uma cidade-empresa.149
A abertura de microcréditos a pequenos empresários, junto com a venda da cultura do morro e com os teleféricos construídos com o dinheiro do PAC, trouxe o turismo para a favela e auxiliou no processo de gentrificação do território, os quais tiveram uma valorização de 400%, inviabilizando, inclusive, a presença dos moradores tradicionais150, expulsos pela especulação do mercado mobiliário.
Vera Malaguti Batista151 argumenta que a cidade do Rio de Janeiro fora transformada em commodities que estão à venda, tal como uma cidade-empresa a ser comercializada na "bolsa de imagens urbanas". Tanto é que, além da crescente valorização imobiliária na região, houve o encarecimento dos serviços públicos, o
147 GRANJA, P. UPP: o novo dono da favela: cadê o Amarildo? Rio de Janeiro: Revan, 2015. p.25.
148 VALENTE, J. L. UPPs: governo militarizado e a ideia de pacificação. Rio de Janeiro: Revan, 2016.
149 BRITO, F. Considerações sobre a regulação armada dos territórios cariocas. In: BRITO, F.;
OLIVEIRA, P. R. (Orgs.). Até o último homem: visões cariocas da administração armada da vida social. São Paulo: Boitempo, 2013.
150 BRITO, F. Considerações sobre a regulação armada dos territórios cariocas. In: BRITO, F.;
OLIVEIRA, P. R. (Orgs.). Até o último homem: visões cariocas da administração armada da vida social. São Paulo: Boitempo, 2013.
151 BATISTA, V. M. O Alemão é muito mais complexo. In: Paz armada. Rio de Janeiro: Revan/ICC, 2012.
que tem causado esse processo de migração dos moradores para outras áreas com menor custo de vida.
A mesma relação é perceptível nas UPSs, que, para a implementação das Unidades, firmaram compromissos de cooperação com a Federação das Indústrias do Paraná (FIEP), para que pudessem fornecer dados sobre a implantação dos 8 objetivos de desenvolvimento do milênio152 e promover reuniões nos locais que receberam as UPSs. Além disso, no termo de cooperação para o Município de Colombo para a UPS da Vila Zumbi, cabia à FIEP o apoio institucional ao projeto, buscando promover ações sinérgicas para potencializar os resultados; SESI e SENAI deveriam capacitar os moradores atendidos pela UPS e ofertar cursos de profissionalização básica.
Frise-se também que, em especial, a Vila Zumbi e Liberdade estão em uma região cercada por grandes empresas, como o Condomínio Alphaville, o Centro Industrial Mauá e o Clube de Campo Santa Mônica, espaços frequentados por pessoas de alto poder aquisitivo que querem ter a sua segurança preservada, além de ser apoiada de diversas formas por essas empresas.
É com razão que Garland153, ao comentar o caso britânico, afirma que "o investimento na criminalidade e os dispositivos de segurança são, portanto, impostos cada vez mais por forças econômicas do que pela política pública", demonstrando que a motivação dessa política de "pacificação" é o interesse econômico nos territórios escolhidos e arredores, bem como nas economias populares.
Ao mesmo tempo, a polícia também exige que os seus clientes tomem mais cuidado, empregando uma lógica de prevenção situacional154, recomendando, por exemplo, para não andar com dinheiro na bolsa, apenas o cartão; verificar o portão de casa antes de entrar para ver se não tem ninguém estranho; morar em condomínios fechados; não andar em lugares suspeitos; não sair à noite sozinho, fomentando a indústria da segurança privada.
152 OBJETIVOS DO MILÉNIO. 8 jeitos de mudar o mundo. Disponível em:
<http://www.objetivosdomilenio.org.br/>. Acesso em: 07 jan. 2018.
153 GARLAND, D. As contradições da "sociedade punitiva": o caso britânico. In: BOURDIEU, P. (Org.).
De L'Etat social al Etat penal. Discursos Sediciosos – Crime, Direito e Sociedade, Rio de Janeiro, v.7, n.11, p.83, 2002.
154 GARLAND, D. A cultura do controle: crime e ordem social na sociedade contemporânea. Tradução de André Nascimento. Rio de Janeiro: Revan, 2008.
Além disso, a discussão de que o projeto de policiamento comunitário instalado no Brasil, em especial os dois modelos tratados nesse trabalho, que são o fluminense e o paranaense, se consolidam como projeto de governabilidade neoliberal fica patente, em especial, pelo fato de que tanto as UPPs quanto as UPSs obtiveram recursos do BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento, com sede em Washington e com a participação de 30% nos fundos pelos Estados Unidos. O banco financia programas sociais dos países membros, desde que sigam a cartilha neoliberal.155
Segundo as informações recebidas pelo 1.o CRPM-PR, os recursos do BID recebidos no Paraná foram de 84,5 milhões, a serem gastos entre março de 2013 e dezembro de 2017, com a implantação de Unidades Modulares da Polícia, aquisição de viaturas, rádio, computadores, desenvolvimento de um sistema integrado de informação entre as polícias e o oferecimento de cursos de formação em policiamento comunitário para os profissionais envolvidos no projeto, além de monitorar e acompanhar a família de jovens em conflitos com a lei. Esses recursos foram empregados com o objetivo de aumentar a eficácia da polícia civil e militar, para o controle e prevenção do delito e evitar a reincidência da população jovem.
Portanto, o liberalismo oferece a possibilidade de se fazer um governo à distância. Isso seria feito através da identificação de questões e a mobilização de vários atores, sugerindo-lhes uma determinada atuação sem retirar sua autonomia ou existência. O governo à distância procura formar uma rede de agentes e agências, buscando dar-lhes um direcionamento comum em um determinado problema. Isso constitui uma ambiguidade fundamental156, já que os próprios moradores afetados por essa política não foram ouvidos. Quem desenvolveu "soluções" para os "problemas"
das favelas foram os "brancos do asfalto", com a sua racionalidade neoliberal, pensando na promoção de sua vida e segurança em detrimento da deles.
Por isso, o projeto de uma polícia comunitária se inscreve dentro de uma crise de soberania e seria, portanto, um projeto de governamentalidade, de governo à distância. Essa estratégia é motivada por uma
155 BID MELHORANDO VIDAS. Disponível em: <https://www.iadb.org/pt>. Acesso em: 07 jan. 2018.
156 SOZZO, M. Polícia, governo e racionalidade: incursões a partir de Michel Foucault. Discursos Sediciosos: Crime, Direito e Sociedade, v.17, n.19/20, p.511-554, 1.o e 2.o semestre de 2012.
[...] nova concepção de exercício de poder no campo do controle do crime, uma nova forma de 'governar à distância' que introduz princípios e técnicas de governo que, a essa altura, já estão bem sedimentadas em outras áreas da política econômica e social.157
Para Garland, a soberania, como um conceito complexo, pode ser compreendida como a capacidade do Estado de governar um território e garantir a resistência de inimigos internos e externos, ao menos, isso faz parte da promessa do Estado aos seus cidadãos. No entanto, essa noção de soberania se tornou insustentável, já que o Estado não consegue mais garantir o afastamento e a neutralização de seus "inimigos".158
Ainda, cabe observar que Foucault159 também vai atrelar a noção de soberania à noção de território, afirmando que a soberania se exerce sobre um território, mas essa noção se amplia com a concepção de população e finalmente com a noção de governamentalidade.
Mesmo admitindo-se o fracasso e reposicionando os objetivos estatais, a polícia ainda diz ter a possibilidade de resolver crimes graves e levar criminosos perigosos a julgamento e, recentemente, a polícia norte-americana disse que era possível tornar as ruas mais seguras e empregou suas forças contra crimes leves e pequenos distúrbios, com a política de tolerância zero, mas ela também avisa que não pode agir contra crimes aleatórios.160
O discurso ambivalente e esquizofrênico da política de segurança é retratado no Brasil tanto pela corporação policial quanto pelas mídias de massa, que pedem mais polícia, mais prisão e mais julgamentos.
Dentro das agências estatais também é preciso provocar algumas mudanças na organização, procurando o planejamento estratégico e a cooperação interagências,
157 GARLAND, D. A cultura do controle: crime e ordem social na sociedade contemporânea. Tradução de André Nascimento. Rio de Janeiro: Revan, 2008. p.273-274.
158 GARLAND, D. A cultura do controle: crime e ordem social na sociedade contemporânea. Tradução de André Nascimento. Rio de Janeiro: Revan, 2008.
159 FOUCAULT, M. Segurança, território e população: curso dado no College de France (1977-1978).
Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
160 GARLAND, D. A cultura do controle: crime e ordem social na sociedade contemporânea. Tradução de André Nascimento. Rio de Janeiro: Revan, 2008.
além do compartilhamento de decisões entre os departamentos que antes operavam apartadamente.161 Isso também pode ser identificado no projeto brasileiro, em especial do Paraná, em que se estabeleceram convênios entre o município, o estado e a federação das indústrias, buscando a mobilização e a injeção de recursos no projeto das UPSs, bem como a integração entre as diversas secretarias municipais e estaduais que não atuam em conjunto em outras regiões.
Essas políticas são, portanto, esquizofrênicas, já que, de um lado, afirmam que o Estado não é capaz de "combater o crime" e, de outro, continuam pregando a necessidade de um Estado fortemente armado. Garland162 chama esses discursos de uma "criminologia do eu", que coloca o sujeito criminalizado como um sujeito normal, e uma "criminologia do outro", que o coloca como inimigo. Uma é invocada para banalizar o medo do crime e a outra para demonizá-lo.
Essa soma de argumentos dá sustentação para qualquer política de segurança, o que tem como reflexo o agigantamento do sistema penal, que passa a ser administrado tanto para fins neoliberais, quanto para fins neoconservadores, ou seja, existe uma política para ambas as criminologias e essas políticas coexistem, por isso o sistema penal se expande.
Essas duas políticas somente coexistem porque são forjadas dentro do neoliberalismo e dentro do neoconservadorismo, como ambiente ideológico, porque são ambivalentes, assim como as próprias políticas penais decorrentes destas são ambivalentes. Por isso Garland acerta quando afirma que "a soberania do Estado sobre o crime é simultaneamente negada e simbolicamente reafirmada".163
Assim, o Estado aumenta o controle social sobre aqueles que são excluídos e marginalizados, embora reconheça cada vez mais a inadequação desta estratégia soberana, criando novas formas de governo à distância, como o policiamento dito comunitário.
161 GARLAND, D. A cultura do controle: crime e ordem social na sociedade contemporânea. Tradução de André Nascimento. Rio de Janeiro: Revan, 2008.
162 GARLAND, D. A cultura do controle: crime e ordem social na sociedade contemporânea. Tradução de André Nascimento. Rio de Janeiro: Revan, 2008.
163 GARLAND, D. A cultura do controle: crime e ordem social na sociedade contemporânea. Tradução de André Nascimento. Rio de Janeiro: Revan, 2008. p.289.