Nessa reunião foi discutido o projeto "Memórias do Alemão", um trabalho de compilação e classificação de todos os textos acadêmicos e institucionais já escritos sobre o Complexo do Alemão. Por isso, esse encontro tinha como objetivo reunir pessoas que têm interesse em auxiliar na catalogação e classificação desses trabalhos.
Depois disso, pretendem pesquisar questões sobre o Complexo do Alemão nos órgãos públicos. A proposta seria verificar como se dá esse olhar de fora para dentro.485
Na conversa com Thiago a respeito da minha pesquisa, ele afirmou que o beco é o ponto de enfrentamento, o que me marcou bastante. Sugeriu alguns materiais para consulta como o dossiê dos Megaeventos e outras pesquisas já realizadas nesse contexto. Ele também abriu a oportunidade para que eu pudesse frequentar o Raízes nos dias em que estivesse no Rio de Janeiro e fazer a minha pesquisa a partir dos seus contatos. Para isso, conversou com o Alan Brum, um dos fundadores do Raízes, que concordou e me apresentou o senhor Sidney, morador do prédio do Raízes e membro do Instituto há 5 anos, além de estar no Alemão há bastante tempo, pedindo a ele que me auxiliasse na pesquisa e me apresentasse a alguns moradores locais.
Nas semanas seguintes voltei ao Raízes todas as quintas e sextas-feiras, para participar das atividades do Instituto e para auxiliar no projeto Memórias do Alemão.
Nesses dias em que estava no Raízes, eu conversava muito com o segundo informante. Ele me contou que foi o Davi do "verdejar" que o convidou para participar do Instituto pela primeira vez. No começo achou que esse projeto era coisa de "marginal", e tinha divergências com algumas lideranças, mas, participando das reuniões, recebeu o convite para integrar o instituto. Acredita que tenha sido por seu jeito de tratar as pessoas. Acabou aceitando e ficou porque essas lideranças com quem tinha divergências saíram. Deu a entender, mas não deixou claro, que essas pessoas tinham vícios com os quais ele não concordava, ou seja, parece que faziam uso de drogas.
O segundo informante contou dos filhos e dos netos, da esposa de quem se separou, contou que foi seu aniversário no dia anterior, dia 29 de setembro de 2016, por isso ganhou um bolo surpresa dos filhos. Ele me ofereceu um pedaço do bolo de chocolate, que estava uma delícia. Contou que se converteu e passou a frequentar a
485 O livro com esse trabalho foi lançado recentemente, no dia 09 de dezembro de 2017, durante um evento organizado por eles, que é o Circulando, e que está discutindo "rolebilidade" urbana. O título do livro é "Complexo do Alemão: uma bibliografia comentada".
igreja evangélica e mudou, inclusive, a forma de se vestir. Seu pastor é o quinto informante, a quem tive a grata satisfação de entrevistar.
A praça em frente ao Raízes foi construída com verba da Petrobrás e da secretaria de cultura, mas o projeto é deles, por isso cuidam desse espaço. Esse apoio foi cortado quando negaram apoio ao governo Sergio Cabral.
Havia ainda outros projetos, tal como uma parceria firmada com uma ONG, que pagava R$ 150,00 (cento e cinquenta reais) por mês para o professor dar quatro horas de aula de informática por semana. Apesar do projeto ser voltado para as crianças, o Raízes mudou e começou a ensinar as pessoas mais velhas. Em uma visita de verificação, a responsável viu que havia muitas senhoras aprendendo. Na hora achou legal, mas, quando reportou ao chefe sobre a divergência no projeto, que custeava a luz e a manutenção dos computadores, ele não concordou e deixou de repassar essa verba, extinguindo-se o projeto.
Assim, o instituto propõe diversas ações que buscam fomentar a vida na favela, com o apoio financeiro de agências governamentais e também do setor privado, trazendo alternativas, discussões e cursos para os jovens moradores do Complexo.
3.4.1 Vamos desenrolar
O Raízes promove ainda algumas discussões sobre temas variados na comunidade, em lugares abertos e para todos que tiverem interesse, convidando alguns pesquisadores, mas também moradores do Alemão para participarem como dinamizadores do evento.
O primeiro Vamos Desenrolar que acompanhei foi sobre o tema Mulheres.
Nesse dia fui ao Raízes para ver se alguém de lá iria até o EDUCAP onde haveria o evento, mas não encontrei ninguém, apenas o Sr. Sidney, que não iria participar. Eu fui até lá de mototáxi, sistema de transporte que utilizei algumas vezes. Então o Sr.
Sidney explicou para o mototaxista onde era e ele aceitou me deixar no local.
Foi uma experiência única andar pela favela de mototáxi, pois pude conhecer melhor as casas e ver como a vida se estrutura nos becos e vielas, algumas tão estreitas que só passava a moto. O esgoto e o lixo infelizmente estão na rua constantemente. Quando chegamos à região da Grota, da qual eu tinha notícias de
ser um lugar muito perigoso, o mototaxista me disse que eu podia tirar o capacete.
Sem entender o porquê e pensando que seria melhor para a minha segurança, fiz o que ele recomendou, retirei o capacete e ficamos andando mais uns minutos até chegarmos ao lugar do evento. Ele contou que morava por ali. Eu perguntei se tinha polícia por lá e ele disse que não, que estava tranquilo.
Para a realização de eventos como esse é preciso pegar da polícia o "nada a opor". Para isso é necessário encaminhar um ofício para a UPP, informando a data e o local do evento e a polícia assinar o "nada opor", liberando a sua realização.
Várias mulheres foram convidadas a falar, como dinamizadoras, sobre a sua experiência como mulheres moradoras do CPX486 e pesquisadoras. Dentre vários assuntos que foram abordados, com ênfase no feminismo e no lugar do feminino na sociedade e na favela, uma questão levantada chama muito atenção e tem conexão com a temática aqui exposta, que foi uma fala do Sergio Cabral, logo no início do seu mandato como governador do Rio de Janeiro, em apoio à legalização do aborto, já que o corpo feminino favelado seria uma "fábrica de produzir marginal", pois acredita que essa seria uma medida para reduzir a violência. Apenas para ilustrar, segue o trecho da entrevista citada:
Sou favorável ao direito da mulher de interromper uma gravidez indesejada.
Sou cristão, católico, mas que visão é essa? Esses atrasos são muito graves.
Não vejo a classe política discutir isso. Fico muito aflito. Tem tudo a ver com violência. Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas, Tijuca, Méier e Copacabana, é padrão sueco. Agora, pega na Rocinha.
É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginal. O Estado não dá conta. Não tem oferta da rede pública para que essas meninas possam interromper a gravidez. Isso é uma maluquice só.487
Nesse evento, uma das dinamizadoras fez menção a essa fala para contextualizar a disputa sobre os corpos afrodescendentes e favelados, afirmando que as mulheres da favela são por isso ameaçadas, ou seja, têm o seu corpo e a sua sexualidade
486 CPX é utilizado como abreviação de Complexo do Alemão.
487 FREIRE, A. Cabral defende aborto contra violência no Rio de Janeiro. Globo, 24 out. 2007. Disponível em: <http://g1.globo.com/Noticias/Politica/0,,MUL155710-5601,00-CABRAL+DEFENDE+
ABORTO+CONTRA+VIOLENCIA+NO+RIO+DE+JANEIRO.html. Acesso em: 14 out. 2017.
controlados, além de terem mencionado também que a maioria das crianças na favela é criada unicamente por mulheres.
Essa fala é muito marcante, pois é possível perceber que a favela está consciente de como o poder público lhe enxerga e dirige políticas de extermínio e controle dos corpos dos afrodescendentes.
Outro evento como esse aconteceu no dia 05 de novembro, sobre o tema arte urbana. Foi muito interessante porque, ao mesmo tempo em que se discutia sobre o funk, a pichação e outras manifestações como movimentos culturais da favela, vários pichadores faziam desenhos nos muros do bar da torre, onde foi o evento.
Uma questão que foi mencionada por um dos dinamizadores é que a polícia hoje proíbe essas manifestações. Ela quer controlar todos esses espaços e oprime quem tenta se manifestar dessa forma. Um dos dinamizadores falou sobre a intervenção da polícia na Batalha de Rima de Olaria, que sofreu várias intervenções policiais.
E o último Vamos Desenrolar do qual participei foi sobre cartografia social, no dia 26 de novembro de 2016. Foi muito interessante aprender sobre esse tema, em especial a fala do Fransérgio, de Manguinhos, que utiliza a cartografia como forma de resistência, chamada de cartografia de conflito. Experiências desse tipo são feitas de várias formas, por exemplo, construindo uma cartografia coletiva, deixando mapas nos pontos dos ônibus e estimulando os moradores a sinalizarem coisas no mapa.
Segundo Fransérgio, é necessário dar visibilidade ao morador porque alguém está sendo oprimido. A favela é oprimida por grupos hegemônicos que a invisibilizam, sendo a cartografia uma forma de emancipação, de reconhecimento e de luta. "Cartografias insurgentes" seria a nomenclatura mais adequada para denominar quem tem lutado, é uma cartografia que nunca está acabada, é construída pelas relações sociais.
Algumas cartografias foram produzidas pelos moradores das favelas chamados para participar de serviços que seriam oferecidos pelos órgãos estatais durante as obras do PAC e da UPP social. Em alguns territórios essas cartografias foram identificando os becos e lugares de conflito, por exemplo, e posteriormente esses dados foram utilizados para planejar a ocupação do território pelas UPPs, ou seja, os serviços prometidos não chegaram, mas as informações repassadas foram encaminhadas diretamente para a Secretaria de Segurança Pública.
Partindo dessa concepção, foram produzidos dois aplicativos para monitorar o impacto da militarização nas favelas. Um é o Nóspornós e outro é o Defezap. O Nóspornós
reúne informações de 15 favelas e o aplicativo serve para denunciar a violência policial, enquanto o Defezap recebe vídeos e fotos de abusos policiais pelo WhatsApp.
Essa é uma iniciativa da própria favela, que passou a utilizar as novas tecnologias para realizar denúncias e monitorar as ações de repressão e violência. Além desses aplicativos específicos para denúncia, os moradores também se comunicam via Facebook, que hoje conta com várias comunidades que buscam reunir os grupos de interesses para os mais diversos assuntos a serem compartilhados. E utilizam também o WhatsApp.
Existe um grupo no WhatsApp dos moradores do complexo que serve para comunicar, por exemplo, quando está havendo tiroteio, quando está entrando o caveirão ou a polícia.
3.5 A perspectiva dos moradores sobre a relação entre população, polícia