SUMMARIO : 33. Formas de governo, formas de Estado e formas politicas. Possibilidade da classificação das formas
politicas. Classificação de Aristóteles. Theoria do Estado mixto. 3-j. Classificação de Montesquieu.
38. Critérios dominantes nas classificações poste- riores : a) O da evolução histórica das formas politicas.
b) O da razão e da justiça.
c) O da distincção de classes ou castas.
d) O da combinação dos diversos membros da classificação aristotélica.
e) O da forma como se exerce a soberania,
f J O da analogia entre o Estado e o organismo humano, g) O das relações entre governantes e governados.
45. h) O da distincção entre as formas de Estado e H as formas do governo.
46. Classificação que formulamos em harmonia com este critério.
33. FORMAS DE GOVERNO, FORMAS DE ESTADO E FOR-
MAS POLITICAS. — Depois de nos termos occupado dos poderes políticos, que se devem admittir, vamos agora expor o modo como elles se podem encontrar organi- zados, «o que nos leva naturalmente ao estudo da theo- ria das formas politicas.
Nem todos os escriptores dão á theoria que agora vamos estudar a denominação de theoria das formas politicas. A denominação mais usada é a de theoria
34.
35. 36.
39. 40.
41.
42.
43.
44-
84 PODERES DO ESTADO
das formas de governo. Na theoria das formas de governo, os escriptores tomam geralmente a expressão governo no sentido de complexo de instituições politicas de que se compõe o direito publico do Estado, e não como o poder que preside á direcção politica geral, e que se confunde até certo ponto com o conceito de poder executivo.
Mas, ainda esclarecida deste modo a theoria, nem por isso pareceu mais acceitavel a denominação clássica aos auctores allemães, como Mohl, Gneist e Bluntschli, que substituíram esta denominação pela de theoria das formas de Estado, com o fundamento de que se não podem classificar as formas de organização politica sem attender ao mesmo tempo aos governantes e aos governados. Esta innovação obteve um acolhimento benévolo por parte de alguns escriptores italianos, e nomeadamente por parte de Schanzer, que substituiu a antiga terminologia pela de classes e espécies de Estados.
Esta terminologia, porem, já hoje não corresponde ao estado da sciencia, visto desde Burgess se ter accentuado a doutrina da distincção entre as formas do Estado e as formas de governo, que encontra actualmente notáveis defensores em Miceli e Racioppi. Por isso, appareceu a necessidade de designar o problema com uma expressão que abrangesse esta nova solução que elle pode comportar. Esta expressão é a da theoria das formas politicas, empregada por Majorana, Racioppi e Santamaria Paredes (i).
(i) Bluntschli, Théorie générale de 1'Êtat, pag. 292; Brunialti, I Le forme di governo, pag. xxxix ; Miceli, Principii fondamentali di diritto costitujionale generale, pag. 86 e seg.; Racioppi, Forme di Stato e forme di governo, pag. 20 e seg.; Santamaria Paredes, Curso de derecho politico, pag. 343 ; Majorana, Teoria sociológica delia costituxione politica, pag. 64.
PARTE PRIMEIRA — BASES DA ORGANIZAÇÃO 85
34. POSSIBILIDADE DA CLASSIFICAÇÃO DAS FORMAS POLI-
TICAS. — A questão das formas politicas é uma das que mais profundamente tem preoccupado os escri-ptores do direito politico, bem como a consciência dos povos, excitando vivamente as paixões e as luctas dos indivíduos, dos partidos e das sociedades. Embora a forma politica não seja tudo na vida das sociedades, é certo que ella tem uma notável influencia sobre a existência e o desinvolvimento dos povos.
Não faltam escriptores, como Posada e Charles Benoist, que julgam impossível construir uma classificação verdadeiramente scientifica das formas politicas. Cada Estado tem a sua forma especial de governo que depende das condições geraes delle próprio, e das circumstancias do meio em que se encontra, não podendo esta forma ser integrada numa classificação mais ou menos vaga e abstracta das formas politicas. As classificações das formas politicas são o producto duma operação intellectual, encontrando-se por isso no espirito dos escriptores, e não nos factos. Os factos são refractários á simplicidade, e por isso as formas politicas combinam-se em proporções muito diversas e em inteira opposição com as classificações dos escriptores.
Estas razões, comtudo, não nos parecem procedentes, porquanto em todas as classificações attende-se unicamente aos caracteres geraes, visto ellas se realizarem pelo agrupamento dos phenomenos, segundo os seus attributos communs, de ordinário, ao mesmo tempo, os mais salientes e os mais evidentes. A doutrina de Posada e Charles Benoist levaria a negar a legitimidade das classificações na sociologia e na biologia, como fez Augusto Comte, em opposição completa com a evolução histórica das classificações botânicas, zoológicas e sociológicas successivas, determinadas pela evolução natural do espirito humano.
86 PODEBES DO ESTADO
A classificação, como diz De Greef, é um dos modos mais elevados da organização do conhecimento, e opera- se por uma forma rigorosamente invariável em todas as sciencias, bem como em todas as intelligen-cias, com excepção dos accidentes e interrupções que se dão em toda a evolução natural (i).
35. CLASSIFICAÇÃO DE ARISTÓTELES. — As primeiras classificações das formas politicas encontram-se nos escriptores gregos, que nestas como noutras matérias da sciencia politica apresentam ensinamentos e doutrinas, dignos ainda hoje de serem ponderados. Assim, Heródoto fornece-nos dados suficientes para a distracção entre monarchia, oligarchia, democracia e tyrannia.
Platão, depois de idear como typo de perfeição completa a soa republica aristocrática, distingue, como corrupções delia, a timocracia, a oligarchia, a democracia e a tyrannia.
Mas, o escriptor grego que conseguiu elaborar a clas- sificação das formas politicas mais notável foi sem duvida Aristóteles, visto tal classificação ainda hoje predominar na sciencia, com leves modificações. Aristóteles parte do principio de que em todo o Estado ha um órgão elevado e dominante, no qual se concentra o poder supremo e ao qual todos os outros órgãos estão subordinados, determinando por isso o modo de ser do Estado. E' esse órgão, pois, que deve servir de base á classificação das formas politicas. Aristóteles chama normaes ou puras as formas de governo que tèem em vista o interesse da communidade, e anormaes ou viciosas as que téetn em vista o interesse dos governantes.
Por isso, admitte três formas normaes, a que corres- pondem outras três anormaes. Como o poder supremo
(i) Posada, Tratado dei dcrechopolitico\ tom. i, pag. 379; Charles Benoist, La politique, pag. 58; De Greef, Introduction à la sociolo- gie, tom. t, pag 37.
PARTE PRIMEIRA — BASES DA ORGANIZAÇÃO 87
pertence necessariamente a um só, a alguns, ou á maioria, dahi derivam três formas normaes: a realeza (monarchia, segundo a terminologia moderna), ou o governo dum só; aristocracia, ou o governo duma minoria distincta; politeia (democracia, segundo a ter- minologia moderna), ou o governo da maioria.
A estas três formas normaes correspondem outras três anormaes ou viciosas: a tyrannia ou a despotia, governo dum só, tendo por objecto o interesse próprio;
a oligarchia, governo dos ricos em seu proveito; e a demagogia (demagogia ou ochlocracia, segundo os modernos), governo arbitrário da multidão pobre.
Esta classificação tem sido objecto de criticas injus- tas principalmente por parte dos escriptores allemães, que, como Mohl, consideram a distincção de Aristóteles exclusivamente quantitativa. Ora na classificação aris- totélica a differença quantitativa encontra-se em intima relação com a differença de qualidade, que até preva- lece. Em todo o caso, Aristóteles não exprime com suficiente precisão os elementos qualitativos.
Menos justa ainda' do que esta critica de Mohl, é sem duvida a que Posada dirige á classificação de Aristóteles, por este ter dividido os governos em puros e impuros, divisão que tem uma importância capital sob o ponto de vista histórico, mas que, no intender de Posada, não pode admittir-se como expressão das formas que o governo pode revestir, sem deixar de ser governo do Estado e pelo Estado. Tal critica desconhece que em sociologia se devem estudar tanto as formas physiologicas como as pathologicas.
A classificação de Aristóteles, porem, tem o grave defeito de attender unicamente aos governantes, esque- cendo completamente a participação dos governados (i).
(1) Dr. Frederico Laranjo, Princípios de direito politico, fase. 11, pag.
173 ; Bluntschli, Théorie générale de VEtat, pag. 29a; Posada, Tratado de derecho politico, tom. 1, pag. 38i.
88 PODERES DO ESTADO
36. THEORIA DO ESTADO MIZTO.— A classificação aristotélica foi seguida pelos escnptores que se lhe succederam até Montesquieu. Estes escriptores pro- curaram fazer salientar principalmente a forma de Estado denominada Estado mixto, que se encontrava obscuramente delineada em Aristóteles. O Estado mixto é constituído por uma combinação da monarchia, da aristocracia e da democracia. Segundo Polybio, toda a forma politica que se apoia sobre um só principio não pode durar, porque cahe dentro em pouco no defeito que lhe é próprio, e que é inherente a este principio. Assim como a ferrugem anda de tal modo ligada ao ferro e o caruncho á madeira, que, embora preservados de toda a acção exterior, o ferro e a madeira são destruídos por esta causa de ruina que em si cònteem, assim também todas as formas de governo téem constantemente em si um gérmen de destruição : o reino, a monarchia ■, a aristocracia, a oligar-chia; a democracia, a ochlocracia, com todos os seus furores selvagens. Daqui deriva que se deve julgar preferível a constituição que se componha das três formas de governo. E' por isso que Polybio admirou tanto a constituição de Sparta e a republica romana dos seus tempos.
Cicero apresenta ideas similhantes. Chama regnum o Estado em que. o governo pertence a um só individuo;
diz que o Estado é governado arbítrio optimatium, quando o governo compete a uma minoria distincta (penes electos); denomina civitas popularis o Estado em que governa o povo; mas a estas três formas julga preferível o governo mixto quartum quoddam genus reipublicce, porque o governo mixlum é cequatum et temperatum.
Tácito notou que os povos são governados ou pelo povo, ou pelos principaes, ou por um só individuo
PARTE PRIMEIRA — BASES DA ORGANIZAÇÃO 89
(populus, primores aut singuli); considera digna de louvor uma forma mixta, delecta ex his consociatd reipublicce forma; julgava-a, porem, de difficíl realiza ção e pouco duradoura. ''■',<
Os escriptores da edade-media continuaram na esteira dos antigos, reproduzindo mais ou menos fielmente a doutrina de Aristóteles. Assim, Machiavelli recom- menda o Estado mixto, chama pestíferas todas as seis formas simples do governo, pela brevidade da vida que ha nos três bons, e pela malignidade que ha nos tresj máos, e prefere uma forma que participe de todos, como mais firme e mais duradoura. Por isso, este escriptor elogia a constituição de Lycurgo e a republica romana, como typos da realização do Estado mixto.
O Estado mixto que estes escriptores tão arden- temente propugnavam, encontrou os seus primeiros adversários na escola democrática francesa, segundo a qual o Estado deve ser governado pelo povo soberano, não sendo admissível nem o poder régio nem a nobreza como instituição politica, devendo unicamente existir uma assemblêa com o direito de fazer leis e um poder governativo com o mandato de executar estas leis.
Dahi as condemnações dos governos mixtos devidas a Mário Pagano e a Caetano Filangieri.
Embora não sejam exactos os princípios em que esta escola se basêa para combater o Estado mixto, não pode haver duvida alguma a respeito da inadmissibili- dade desta forma politica. A classificação aristotélica funda-se na determinação das pessoas a quem pertence o poder supremo. Segundo este poder pertence a um, a poucos, ou a muitos, assim temos a monarchia, a aristocracia ou a democracia. Ora, o facto do poder supremo pertencer a um só, a poucos ou a muitos, é sufficiente para elle não poder pertencer contempora- neamente a um só e a poucos, a um só e a muitos, a um só, a poucos e a muitos, como termos e elementos antitheticos.
1
' .■■>: I
QO PODERES DO ESTADO
Demais, se se intende por Estado mixto aquelle em que o governo dum elemento superior é limitado por outro* não se tem uma nova forma politica, porquanto esta é caracterizada pelo elemento predominante. Se se intende por Estado mixtQ uma divisão egual do poder, isto é, uma duarchia ou triarchía, tal forma politica contradiz a própria essência do Estado, que precisa da unidade como condição fundamental da sua existência.
Não pode imaginar-se uma forma de Estado que não seja uma das três de Aristóteles.
A. combinação das duas ou a combinação das três é tão inadmissivel, como o facto dum numero par e impar ao mesmo tempo. Um Estado não pode ser ao mesmo tempo uma monarchia, uma aristocracia e uma demo- cracia, visto a noção duma destas formas politicas excluir a outra.
Nem o equilíbrio que se pretende obter com o Estado mixto se pode conceber, porquanto na vida politica um dos elementos ha de preponderar necessariamente, sob pena do Estado permanecer na immobilidade (i).
37. CLASSIFICAÇÃO DE MONTESQUIEU.— Montesquieu foi o escriptor que primeiro tentou afastar-se da classi- ficação aristotélica, apresentando uma doutrina nova sobre as formas politicas. Este escriptor classificou os governos em monarchias, despotismos e republicas. O governo republicano é aquelle em que todo o povo ou uma parte delle tem o poder soberano. O monar-chico é aquelle em que governa um só, mas mediante leis fixas e estabelecidas. O despotismo é o governo
(1) Palma, Corso di diritto eostitufhnale, tom. i, pag. 220;
Brunialti, Le forme di governo, pag. xxvi; Ballerini, Fisiologia dei governo representativo, pag. i53 ; Racioppi, Forme di Stato e forme di governo, pag. 47; Orlando, Principii di diritto coslitujio- nale, pag. 52; Bluntschli, Théorie generale de 1'Êtat, pag. 295 ; Contuzzi, Diritto costilujionale, pag. 127.
PARTE PRIMEIRA — BASES DA ORGANIZAÇÃO 91
arbitrário dum só, independentemente de" leis e de
regras. .
Montesquieu procurou determinar o principio a que cada uma destas formas de governo obedece, dizendo que a monarchia tem por principio activo a honra, o despotismo o medo, e a republica a moderação ou a virtude, conforme é aristocracia ou democracia.
Bluntschli considera a theoria de Montesquieu um progresso relativamente á de Aristóteles, por ter procurado determinar o principio intellectual ou moral da vida de cada uma das formas de Estado. Esta .doutrina de Bluntschli carece de fundamento, porquanto a doutrina de Montesquieu é muito inferior á theoria do genial philosopho grego.
Effectivãmente, o illustre escriptor francês confundiu a aristocracia e a democracia numa forma de governo que denominou republica, quando é certo que aquellas duas formas de Estado são inteiramente differentes.
Foi duma grande infelicidade, quando procurou deter- minar o principio activo de cada uma das formas de governo, visto considerar a virtude própria da republica democrática, excluindo-a dos outros governos, sendo certo que ella é necessária a todos. O mesmo se pode dizer da moderação, que Montesquieu julga principio activo da republica-aristocratica, e que deve informar todas as formas de governo. A doutrina de Montesquieu é muito arbitraria, e por isso não pode com justiça admittir-se.
Não *é a classificação das formas de governo que tornou notável Montesquieu, mas a sua doutrina da divisão dos poderes, considerada como condição e garantia da liberdade.
Depois de Montesquieu, é difficil e quasi impossível acompanhar o desinvolvimento da sciencia a respeito da classificação das formas politicas. As classificações multiplicam-se até á confusão, visto a maior parte dos
92 PODERES DO ESTADO
auctores, depois de indicarem as classificações de Aristóteles e Montesquieu, enumerarem alguma outra construida em harmonia com a sua orientação scien-
tifica (i). I
38. CRITÉRIOS DOMINANTES NAS CLASSIFICAÇÕES POS-
TERIORES: A) O DA EVOLUÇÃO HISTÓRICA DAS FORMAS POLITICAS. — Uns escriptores attendem á evolução his- tórica dos governos por que tem passado a humanidade, procurando-os caracterizar com uma relativa exactidão.
Assim, Von Mohl admitte cinco espécies de Estados correspondentes ás cinco diversas formas de conceber o fim da vida, segundo o diverso grau de desinvolvi- mento do povo. Deste modo á consideração religioso- ascética corresponde a theocracia; á que se propõe o goso sensivel, o despotismo; á pretensão juridico- privada, o Estado patrimonial; á que attende somente á familia, o Estado patriarchal; á consideração sensivel- racional, o Estado jurídico.
Roscher enumera, segundo a successão histórica, as monarchias patriarchaes, as aristocracias militares ou theocraticas, as monarchias absolutas, as democracias e os cesarismos, pretendendo que taes formas se suc- cedem segundo a ordem por que elle as apresenta.
Majoraria, notando os perigos e as difficuldades das classificações, e reflectindo que a forma politica no seu sentido mais geral abrange tanto o aggregado como o governo, apresenta as seguintes formas politicas, em harmonia com as phases do desinvolvimento histórico da humanidade: governo patriarchal, ieratico, militar, municipal e representativo.
(i) Vejam sobre este assumpto: Bluntschli, Théorie générale de 1'État, pag. 298; Posada, Tratado de derecho politico, tom. 1, pag.
385.
PARTE PRIMEIRA — BASES DA ORGANIZAÇÃO 98
A forma patriarchal é aquella cm que o Estado se considera como uma amplificação da família c o vinculo politico como um desinvolvimcnto do do tangue. A forma icratica é aquella em que o Estado é dirigido por Deus, devendo considcrar-se um desinvolvimento do patriarchal, visto o culto religioso derivar do dos antepassados. A forma militar é aquella em que o aggregado politico c produzido pela conquista, imme-diata ou recente ou antiga. A forma municipal corresponde a um aggregado simples, mas não originário, sendo o resultado dum processo de differenciação de aggregado* mais complexos, icraticos ou militares. A forma representativa é o desinvolvimento da municipal, suppóc um aggregado vasto como pode ter-se na forma icratica ou militar, mas, comprehendendo, numa maior ou menor escala, a participação no governo dos membros do aggregado.
Kste methodo da classificação das formas do Estado é pouco acceitavel, porquanto a evolução politica deve intender-ae independentemente de phases fataes e pre- estabelecidas. Assim como • evolução orgânica não se pode realizar com a regularidade quasi mathematica que se dá na evolução sideral, por causa das maiores resistências e do maior numero dos factores de perturbação, assim também a evolução superorganica muito mais complexa, e por isso a politica, não pode manifestar se com uma regularidade mecânica, visto ser accelerada ou retardada segundo as diversas causas de desequilíbrio. A regularidade geométrica introduzida nos phenomenos mais complexos e variáveis da natureza, como são os phenomenos políticos, constitue um exaggero 4a tbcoria evolucionista, de caracter meta-physico, visto fazel-a adoptar critérios unilateraes e inadequados, que falslam o resultado das investigações por causa da preoceupação unitária do systema.
A irregularidade dos phenomenos políticos é de tal ordem, em virtude da sua complexidade e interdepcn-
94 PODERES DO ESTADO
dencia, que Paulo Liiienfeld, no segundo congresso de sociologia, não duvidou sustentar que não ha uma lei da evoluçSo das formas politicas. Embora não possamos concordar com este illustre sociólogo, é certo que julgamos muito difficil determinar essa lei. E' por isso que nenhuma classificação das formas politicas, baseada no desinvolvimento das phases históricas, nos parece viável, o que aliás resalta claramente do exame das classificações apresentadas (i).
3çj. B) O DA RAZÃO E DA JUSTIÇA. — Outros escri- ptores basêam a classificação das formas politicas em princípios metaphysicos, seguindo por isso um caminho inteiramente diverso do dos escriptores anteriores.
Assim, Hélio distingue as formas politicas que atten- dem ao direito natural dos indivíduos, das que des- prezam ou desconhecem tal direito.
Guizot distingue as formas politicas que reconhecem a soberania num poder terreno das que a attribuem a um principio superior e abstracto. Por isso, enumerai dum lado as monarchias, aristocracias e democracias, nas quaes governam os homens; e do outro os governos representativos (republicanos ou monarchicos), nos quaes imperam a razão e a justiça.
Saredo classifica os governos em illegitimos, legítimos e racionaes, segundo nelles domina a força e o arbítrio, ou são consentidos pelo povo, mas não fundados sobre o principio da liberdade individual, ou se basêam sobre os princípios da razão, dividindo estes últimos em monarchias constitucionaes e em republicas.
Este systema da classificação das formas politicas encontra-se dominado pela theoria da soberania da razão
(1) Gumplowicz, Derecho politico filosófico, pag. 241; Majoraria, Teoria sociológica delia costitujione politica, pag. 65; Racioppi, Forme di Stato e forme di governo, pag. 6.
PARTE PRIMEIRA — BASES DA ORGANIZAÇÃO 0,5
e da justiça, e por conseguinte é inteiramente inadmissível.
A morphologia politica não se pode de modo algum moldar por princípios metaphysicos (i).
40. C) O DA DISTINCÇÃO DE CLASSES 00 CASTAS. —
Outros escriptores fundam a classificação das formas politicas sobre a> distincção de classes ou castas. Vor- laender classifica os governos, segundo se basêam sobre distincções de classes ou de castas, como os Estados antigos e medievaes, ou conservam alguns vestígios delias, como os Estados modernos, ou são independentes dumas e doutras, como os Estados patriarchaes.
Mosca segue também esta doutrina, porquanto intende que uma classificação verdadeiramente scientifica dos governos deve ser baseada sobre os caracteres mais importantes, pelos quaes os vários typos de classes politicas se differenciam. Examinando a natureza destas classes e os caracteres pelos quaes ellas se differenciam, nota que num primeiro periodo prepondera o elemento militar.; depois, assegurada a paz, com o desinvolvimento económico que ella determina, predominam os ricos; em seguida, o mérito pessoal torna-se um elemento decisivo; finalmente, o nascimento conserva sempre uma certa importância. A historia politica da humanidade deriva em ultima analyse da coordenação e actividade destas diversas classes.
£' certo que as classes ou castas téem uma grande importância na organização politica, mas não tal que sejam sufficientes por si só para caracterizar todas as formas politicas (2).
(1) Racioppi, Forme di Stato e forme di governo, pag. 4; Bru- nialti, 11 diritto coslitujionale, tom. i, pag. 397.
(a) Brunialti, U diritto costitujionale, tom. 1, pag. 3g8; Mosca, Teórica dei governi, pag. 19-20.