Foram aplicados 369 questionários presencialmente, conforme o instrumento de coleta apresentado no apêndice B. A aplicação ocorreu no pátio externo da Basílica de Santa Paulina, nos dias 22 e 23 de fevereiro, 07 e 08 e 14 e 15 de março, com a autorização da administração do Santuário, para sujeitos que não eram de Nova Trento, abordados de forma aleatória, com mais de 18 anos de idade. O período para aplicação foi escolhido buscando evitar o período de férias de verão, como também o período de grandes celebrações religiosas que se iniciam em maio no Santuário, que poderiam influenciar nos perfis de interesses dos visitantes nesses períodos.
161 Não foi possível continuar a aplicação dos questionários devido as restrições impostas pela pandemia do coronavírus (Covid-19), que ocasionou a partir do dia 17 de março o fechamento do Santuário para visitação (SANTA CATARINA, 2020). As atividades religiosas passaram a ocorrer de forma virtual ao longo do ano de 2020, pelas reedições de decretos de isolamento e distanciamento social por parte do governo estadual e pelas definições da própria Congregação.
Sobre a representatividade da amostra, a inexistência de uma pesquisa de demanda pelos órgãos públicos dificulta o reconhecimento, conforme a pesquisa realizada junto a Prefeitura Municipal de Nova Trento e Santur. Os dados apresentados nos meios de comunicação, em geral, estimam em cerca de 70 mil visitantes por mês no Santuário, o que equivale a 840 mil por ano, conforme entrevista da Irmã Anna Tomelim, diretora do Santuário Santa Paulina (O TRENTINO, 2016, p.2). Essa estimativa foi calculada ao longo dos anos de acordo com o número de veículos que acessam o Santuário e a ocupação da Basílica em celebrações, não possuindo assim um rigor estatístico. Apesar das limitações impostas pela representatividade da amostra, algumas inferências puderam ser feitas, procurando caracterizar o público do Santuário, a partir da pesquisa realizada.
A amostra dos dados sociodemográficos é representada por 64% dos respondentes do sexo feminino e 36% do masculino. A geração predominante foi a X, com 45%, seguida pela Baby Boomers (35%), Y (14%) e Z (6%), que reflete o contexto brasileiro do aumento do número de idosos ao ser comparado ao de jovens e crianças, que demonstra o envelhecimento populacional e aumento da expectativa de vida (CLOSS; SCHWANKE, 2012), embora não seja homogêneo esse fenômeno em todas as regiões geográficas brasileiras. Nas regiões Sul e Sudeste, o índice de envelhecimento da população apresenta-se mais acelerado que no restante do Brasil, com a tendência da população idosa mais presente na sociedade, o que passa a requerer novas formas de pensar a mobilidade e hospitalidade neste contexto.
Considerando a amostra representativa do público que frequenta o Santuário, o perfil do visitante é na sua maioria feminino, com faixa etária acima dos 43 anos (Geração X e Baby Boomers). As duas gerações representadas tiveram marcantes contatos com a religiosidade católica e a rigidez da estrutura familiar patriarcal, ao mesmo tempo em que vivenciaram as primeiras mudanças na ordem social, com o crescente consumo de massa e individualismo. Neste contexto de disciplina religiosa
162 e liberdade pessoal, as tensões sobre as identidades dos sujeitos dependem das relações de força existentes no cotidiano, que podem marcar a ruptura com as práticas familiares ou manutenção e fortalecimento delas.
As principais modificações no catolicismo com o Concílio do Vaticano II afetam diretamente estas duas gerações, como tentativa de manter estes fiéis frente as transformações econômicas, ao avanço das religiões neopentecostais e as mudanças geradas pelos movimentos sociais. Para Prandi e Santos (2015), o Concílio significou a reação da Igreja Católica a perda de influência no mundo pós-2ª Guerra, com a proposta de mudanças para enfrentar as mudanças sociais em curso e criar estratégias de aproximação com as comunidades como forma de aproximar os fiéis à igreja e recuperar a capacidade de influência, tanto em escala local como global.
A receptividade das mudanças propostas no Concílio não foi rápida o bastante dentro do contexto demográfico brasileiro, que conforme Mariano (2013), entre 1980 e 2010, os católicos declinaram de 89,2% para 64,6% da população, com o crescimento do número de evangélicos de 6,6% para 22,2%. A atenção de João Paulo II para com o Brasil tem suas bases nesse contexto de modernização da sociedade e das possibilidades de escolhas que passaram a se desenhar no contexto da abertura democrática e desvinculação dos filhos das gerações baby boomers e X da herança religiosa, buscando outras alternativas para lidar com o espiritual, até mesmo com a negação desse pelo ateísmo, que também cresceu nesse contexto (MARIANO, 2013).
Os municípios que possuem um número baixo de habitantes, tem a tendência de manter suas práticas religiosas de maneira mais conservadora, legando aos filhos e filhas a continuidade do pertencimento a comunidade religiosa, característica existente em grande parte dos municípios de Santa Catarina, estado caracterizado por municípios de pequeno e médio porte.
O estado civil dos respondentes reforça essa característica geracional, com 65% casados e um percentual de 6% entre divorciados e união estável, mantendo o padrão de comportamento familiar esperado dentro da Igreja Católica. Pelo predomínio das faixas etárias mais elevados é significativo o número de viúvos (12%), que, desse total, 88% são mulheres. Esse dado é condizente com a realidade brasileira, no qual as mulheres apresentam cerca de 7,5 anos a mais na expectativa de vida e são cerca 3 milhões a mais no total da população que os homens, de acordo com os dados de 2010 (ALVES; CAVENAGHI, 2013). Com o envelhecimento da
163 população, aliado a maior taxa de mortalidade masculina, a tendência das mulheres adultas ou idosas continuarem como público principal do Santuário, aliado a construção do papel feminino dentro da sociedade e as representações no contexto religioso.
Santa Catarina é o local de origem de 78% dos respondentes, seguido do Paraná (18%), Rio Grande do Sul (3%) e 1% de outros estados. A proximidade rodoviária, principalmente após a duplicação da BR 101 (início do século XXI), pode ser uma das justificativas para essa centralização geográfica na região sul, aliado aos meios de deslocamento utilizados e tempo de visita (dados serão apresentados no desenvolvimento das análises). Os finais de semana que concentram o maior fluxo de pessoas no Santuário, com um menor movimento durante os dias úteis.
Do total de respondentes, 96% se consideram católicos, com 2% evangélicos, 1% de outras religiões e 1% sem religião. A atratividade do Santuário predomina para o público fiel a Igreja Católica e devoto a santidades, elemento questionável para outras religiões. Mesmo com toda estrutura para além do atendimento ao sagrado dos fiéis, prevalece os praticantes da religião como os principais visitantes, unindo turismo a religiosidade, com intensidades variáveis dependendo dos interesses e motivações.
Prazeres e Carvalho (2015), na pesquisa com três cidades-santuário marianas europeias, Lourdes (França), Loreto (Itália) e Banneux (Bélgica) encontraram resultados similares, com 89% se considerando católicos e 55% mulheres como público principal. Abbate e Di Nuovo (2013), analisando o Santuário de Medjugorje (Bósnia-Herzegovina), obtiveram cerca de 64% do total de visitantes do sexo feminino.
Mónico, Machado e Alferes (2018), identificaram entre os peregrinos que visitam o Santuário de Fátima (Portugal) como 66% mulheres e 34% homens, com essa tendência demonstrando uma similaridade de públicos nos santuários católicos pesquisados.
Em relação a escolaridade 74% possuem a educação básica completa, ensino fundamental no total de 41% e médio com 33% e 15% sem escolaridade. Ensino superior foi concluído por 9% e pós graduação por 2% do total. O acesso a escolaridade formal dos respondentes se equipara aos níveis nacionais, com baixo percentual de conclusão ao ensino superior e alta taxa de analfabetismo. Estes dados estão diretamente vinculados a faixas etárias mais elevadas, que tiveram maiores dificuldades em acessar a escolarização nas décadas de 1980 e 1990 especialmente,
164 devido as necessidades do trabalho, sendo as velhas barreiras que se mantém e outras novas com a recessão econômica e redução das políticas públicas (SENKEVICS; CARVALHO, 2020). As diferentes condições de oferta e acesso ao ensino básico no Brasil são variadas, promovendo exclusões e inclusões que envolvem renda, raça, gênero e localização espacial, que são aspectos dinâmicos e heterogêneos, impactando diretamente nas oportunidades de trabalho e renda dos jovens e adultos.
A renda familiar média predominante é de 2 a 3 salários mínimos (1 salário mínimo em 2020 é equivalente a R$ 1045,00) com 47%, seguido de 3 a 5 salários (21%), até 1 salário (17%) e 8% não responderam ou não sabem. Acima de 5 salários mínimos temos 7% dos respondentes, o que leva a análise da aproximação da escolaridade com a renda: quanto menor o tempo de estudo, menor a renda e vice versa. Os dados apresentam que 64% dos respondentes recebem até 3 salários mínimos, representando a realidade econômica do período anterior da pandemia, marcada pela concentração de renda no país.
Nascimento (2016) identifica, entre outros fatores para esse processo, a evolução da urbanização e os impactos da globalização no Brasil, que tornou a dinâmica social mais complexa e diversa, contribuindo para o aumento da diferença de renda e sua concentração na camada mais rica da população. A exclusão social nos centros urbanos de médio e grande porte mantém os padrões existentes, mesclando-se com novas formas que se originam ao longo do século XXI, principalmente com as mudanças nas relações de trabalho e a redução de ofertas de vagas para emprego formal, levando muitos trabalhadores a buscarem outras alternativas de renda, sem os direitos básicos garantidos.
O gráfico a seguir (Figura 15) que apresenta a ocupação profissional dos respondentes, demonstra os aposentados (39%) e assalariados (29%) como os principais frequentadores do Santuário. Ocupações que não possuem renda direta, como estudantes, dona de casa e desempregados correspondem a 6%.
165 Figura 15 – Ocupação profissional
Fonte: O Autor, 2020.
A tendência, ao analisar estes dados, que quanto maior as necessidades materiais, maior a procura por ajuda espiritual, no sentido de pedidos de proteção e/ou de alcançar alguma graça, seja para saúde ou bem material. O turismo religioso junto com a peregrinação, tem esse perfil de público, que representa a maior parte da população brasileira, com uma renda média baixa, que restringe seus deslocamentos ao longo do ano para turismo.
As relações entre a religião, o capitalismo de consumo e a mídia eletrônica vem modificando as práticas religiosas em um processo dialética entre inovação e manutenção da autenticidade da religião, na busca de recuperar o significado da fé e a conexão com a natureza (ROCHA; VÁSQUEZ, 2014). As gerações X e baby boomer, que são maioria na procura ao Santuário Santa Paulina se enquadram nesse processo de busca de manutenção de uma herança religiosa familiar, que tem nas transformações sociais recentes levado modificações significativas ao campo religioso, com as gerações mais novas rompendo esses laços espirituais, em muitos casos. O acompanhamento a pais e avós, por exemplo, pode ocorrer pela obrigação familiar e não necessariamente pelo interesse religioso, podendo ser o profano o interesse para este grupo.
39%
29%
9%
6%
5%
3% 3%3%2% 1%
Ocupação profissional
Aposentado Assalariado Autônomo Fun. Público
Empresário Profissional liberal Pensionista Desempregado Estudante Dona de casa
166 Os santuários religiosos são atrativos com custos baixos e podendo ser realizadas viagens em um dia, dependendo da distância a ser percorrida. A movimentação, no caso do Santuário Santa Paulina, nos finais de semana, principalmente no domingo, dia dedicado ao descanso dentro dos dogmas da Igreja Católica e legitimado no calendário civil, predomina e com o fluxo de turistas/peregrino que vivem próximos ou nos estados vizinhos. As motivações para o turismo em espaços religiosos são variáveis e oscilam com os períodos de celebrações ou festas litúrgicas e podem também ser, como define Poncela (2013), a busca pelo autêntico e por experiências e emoções junto ao sagrado. Essa busca por parte dos turistas/peregrinos do Santuário Santa Paulina é apresentada a seguir.