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Sagrado e profano: concepções

81 ser turista ou peregrino. A busca de novos sentidos para a vida, argumenta o autor, provoca este estreitamento da diferença entre turista e peregrino como vêm apresentando as discussões teóricas e as práticas sobre o tema. A chamada mudança turística pode ser considerada o elemento que agrega a pesquisa atual em peregrinação e suas diferentes interfaces, com o contínuo apagamento das distinções conceituais aceitas anteriormente.

Øian (2019)analisa a patrimonialização da peregrinação na Noruega através da retomada do Caminho de Santo Olavo, que envolve o interesse de diferentes stakeholders e gera concorrências na forma como é representada para atendimento desta demanda: religiosa ou secular; turística ou não. O entendimento de como deve ser organizada e desenvolvida as rotas para peregrinação envolve a dicotomia entre os grupos interessados no turismo gerado neste processo, que se contrapõe aos princípios religiosos da igreja, provocando embates políticos para definir suas formas.

Neste estudo de caso abordado pelo autor, a comercialização da peregrinação provoca tensão entre os interesses seculares e religiosos, não demonstrando haver uma coesão para a coexistência destas atividades. O autor argumenta que as rotas de peregrinação na contemporaneidade são vias públicas, não mais somente religiosas, com diferentes significados como históricos e culturais. Estão envolvidos diferentes interesses na esfera pública e privada para o desenvolvimento e exploração comercial, que necessitam ser analisados para compreensão dos papeis dos stakeholders e os impactos no turismo.

82 símbolos, significados e narrativas, não de uma forma linear e evolutiva, mas sim baseada nas relações de poder estabelecidas entre as formas de conhecimento e de compreensão do mundo.

O sagrado se manifesta por ser diferente do profano no contexto das religiões e religiosidade dos sujeitos. Hierofania é a manifestação do sagrado, quando este se revela de alguma forma, como uma realidade diferente daquela expressa no cotidiano, surgindo a oposição entre o profano com as manifestações do sagrado (ELIADE, 1999). Essa compreensão da hierofania depende de cada cultura e das relações estabelecidas com a religiosidade, pois a concepção da revelação do sagrado em uma árvore, pedra ou animal, por exemplo, pode não ser compreendida por sujeitos no qual a manifestação do sagrado ocorre de outras formas, como na transubstanciação do corpo e sangue em pão e vinho, como ocorre no catolicismo, e vice-versa.

Utilizando deste conceito de hierofania, Bernard (2013) estuda os simbolismos e rituais religiosos de curandeiros falantes de nguni, na África do Sul. Acreditam na água como uma entidade viva e que abriga divindades como a serpente, com a necessidade da realização de rituais para essas forças que produzem a vida e o próprio mundo continuarem existindo.

A hierofania é um paradoxo: a manifestação do sagrado em um objeto que o torna outra coisa, mas ao mesmo tempo continua a ser o mesmo, mudando a relação do sujeito religioso com este objeto e interagindo com uma realidade sobrenatural. O sagrado é o irreal e o profano real, nessa dicotomia entre duas formas de ver e estar no mundo dos sujeitos, de vivenciar e compreender as diferentes religiosidades.

Para um crente, essa igreja faz parte de um espaço diferente da rua onde ela se encontra. A porta que abre para o interior da igreja significa, de fato, uma solução de continuidade. O limiar que separa os dois espaços indica ao mesmo tempo a distância entre dois modos de ser, profano e religioso. O limiar é ao mesmo tempo o limite, a baliza, a fronteira que distinguem e opõem dois mundos – e o lugar paradoxal onde esses dois mundos se comunicam, onde se pode efetuar a passagem do mundo profano para o mundo sagrado (ELIADE, 1999, p. 28-29).

O limiar, neste contexto, é um símbolo que demarca a passagem do tempo secular, do espaço profano para o sagrado, em um local que é possível a aproximação com deus ou deuses, dependendo da prática religiosa. A demarcação desse limiar através de um local de entrada e saída é o que distingue o templo das outras edificações, que foi consagrado em determinado momento histórico dentro dos rituais e cultos praticados (Figura 5). A sacralidade que define esta fronteira simbólica

83 necessita ser atribuída para possuir significados aos praticantes, que irá possibilitar essa passagem entre a materialidade e a sobrenaturalidade do culto.

Figura 5Manifestação do sagrado: hierofania

Fonte: O Autor, 2019.

Essa manifestação do sagrado pode ocorrer sem a necessidade de alguma instituição religiosa definir ou decretar: a fé da comunidade pode levar a tornar um local um santuário para orações e expressão da devoção, que acaba se tornando parte da cultura religiosa e pode atrair visitantes ou peregrinos. A relíquia de um santo, águas com poderes curativos, o local de um milagre, o túmulo de alguém considerado muito religioso, são exemplos que passam a serem sacralizados pelos devotos daquela fé, embora para outros sujeitos continuará sendo somente mais um lugar sem significados. Não é possível compreender o fenômeno religioso sem o colocar no espaço e tempo histórico, devido a multiplicidade de práticas religiosas que existiram e existem, que embora possuindo pontos de convergência, apresentam ainda mais divergências.

A oposição entre sagrado e profano opera em uma dialética de escolhas, conforme Eliade (1988), que determinada a sacralidade de um espaço, objeto ou ser vivo dentro das possibilidades existentes no contexto social. A multiplicidade de práticas religiosas apresenta distinções sobre o que pode se tornar sagrado, sendo que não são presentes os mesmos elementos nas diferentes culturas, com as possibilidades de sacralização as mais variadas possíveis neste contexto. A repetição

84 de cerimônias ou rituais que irá proporcionar aos crentes compreender a manifestação do sagrado como algo do seu mundo real, que pertence a normalidade e inserir-se no cotidiano.

Os ritos que devem ser realizados no momento do ato religioso que permitem a transição, ou romper o limiar, do mundo profano para um momento que o sagrado se apresenta, de acordo com os preceitos religiosos. A diversidade destas manifestações ao longo da história e as lutas de poder entre diferentes sociedades, fortaleceram alguns cultos, ressignificaram outros e promoveram a extinção de outras práticas, que somente são conhecidas pelas ruínas de seus templos, registros escritos ou pelas descobertas de escavações arqueológicas.

As construções demarcam o espaço sagrado, podendo ser um muro, círculo de pedra, um templo ou santuário, que possui a função de delimitar o espaço sagrado e o diferenciar do profano (ELIADE, 1998). A constituição de regras e rituais para a entrada e permanência no espaço sacralizado é mais uma amostra da importância da separação e a constituição de limites para a vivência religiosa. Dentro deste espaço que o fiel pode se conectar a suas divindades e realizar seus pedidos ou agradecimentos, que seguem diferentes formatos, dependendo da complexidade das prescrições religiosas.

A presença de relíquias consideradas sagrados reforça essa conexão com o sobrenatural, na dialética entre o bem e o mal, que se apresenta de formas variadas nas religiões ao longo da história, e o espaço sagrado é o local que o mal não consegue adentrar. As religiosidades ligadas aos elementos da natureza possuem uma relação diferente com o sagrado, por vincular suas origens, transformações e rituais com as vivências do cotidiano de maneira mais peculiar, com a sacralidade presente a todo momento como forma de explicar o mundo natural que está entrelaçado com o espiritual,

Para as sociedades ocidentais modernas, chama atenção Eliade (1999), a compreensão sobre a religião como uma escolha de vida e concepção de mundo é atrelada diretamente ao cristianismo, sendo difícil projetar o universo sagrado nas representações de outras sociedades. As transformações dos rituais do próprio cristianismo e as rupturas com a institucionalização das Igrejas que surgiram nesse processo, demarcam ainda mais este distanciamento das origens da fé com o

85 presente, muito mais ligado ao livro sagrado, que orienta a mitologia e a teologia neste caso, como também no judaísmo, islamismo e zoroastrismo (ELIADE, 1999).

Essa pluralidade de formas simbólicas que as religiosidades apresentam é um fator de motivação para a visitação destes espaços considerados sagrados, seja por praticantes ou não daquela fé. O turismo nestes espaços do sagrado é uma experiência cultural para os sujeitos que buscam conhecer a história, a arquitetura, os rituais e cerimônias como um atrativo e não como integrantes da comunidade religiosa, sem ter assim obrigações a serem cumpridas no seu período de estadia no local. O deslocamento do praticante daquela religião envolve o pertencimento e a participação efetiva no desenvolvimento dos rituais, demonstrando sua devoção e seu compromisso com as orientações e práticas do culto.

Lugares sagrados são ambiente serenos, inspiradores e devem incentivar a meditação e a contemplação, levando a diferentes experiências emocionais de acordo com a religiosidade do sujeito. Nesta perspectiva, Levi e Kocher (2012) abordam a questão do sagrado e do profano e a atividade turística no templo budista Wat Phra Singh (Tailândia), identificando as necessidades para atender a demanda de praticantes budistas e turistas neste espaço. De acordo com os dados coletados na pesquisa, para manter a serenidade, necessária para os ritos religiosos, é preciso limitar as perturbações causadas pelos turistas (principalmente o barulho), as perturbações do uso do lugar e preservar as características naturais. Outro aspecto é quanto à forma que o espaço sagrado é apresentado para o turismo: como atrativo, histórico ou religioso, com a necessidade de informar aos turistas previamente sobre os comportamentos culturalmente apropriados, pois para preservar o sagrado é necessário o seu contínuo uso religioso. A interpretação turística sobre os aspectos arquitetônicos, artísticos, simbólicos e sagrados é um outro fator que é preciso levar em conta neste contexto de relacionamento de não praticantes com o espaço religioso.

A relação do turismo com o sagrado apresenta uma multiplicidade de interpretações, desde a interferência no cotidiano dos rituais estabelecidos como a organização das atividades para o respeito com a cultura local. Este último ponto é fundamental para os turistas que visitam locais sagrados com práticas muito diferentes das predominantes no monoteísmo ocidental. Evitar a profanação do sagrado é um elemento importante no contexto atual, devido as rupturas de identidade produzidas

86 pela massificação das comunicações, mas que ao mesmo tempo as tradições estão enraizadas nas culturas, promovendo este embate entre o antigo e o moderno, que se reflete no sagrado e profano, relação construída historicamente nas sociedades. É um dos elementos de conflito no turismo, pois nem sempre a comunidade receptora compreende a insensibilidade ou ausência de respeito frente ao que é considerado sagrado, devido a outras identidades culturais que estão mobilizadas nessa interação.

Para Nikiforova (2017), no mundo contemporâneo o sagrado está se secularizando, especialmente pelo turismo de massa que tem nos espaços religiosos uma forma de entretenimento cultural, modificando a dialética entre o sagrado e o profano. A autora apresenta três formas de transformações das fronteiras do sagrado nesse contexto: a primeira nomeia como "suave", com a mudança identidade religiosa, como por exemplo, de católico para evangélico; a segunda como “intermediária”, com a igreja modificada para ser um museu, sala de concertos ou outro fim devido ao turismo de massa; e a terceira como uma transformação “pesada”, com a destruição de edifícios religiosos, relíquias ou igrejas e de sua memória histórica e religiosa nesse processo. As transformações na sociedade impactam na forma de entender e vivenciar a religiosidade, embora no caso estudado pela autora seja centrado no monoteísmo cristão, não podendo assim ser generalizado para outras práticas religiosas, embora essas transformações apresentadas podem ser utilizadas para a reflexão e discussão da dicotomia sagrado e profano.

O objeto de estudo de Kim, Kim e King (2016) é o Caminho de Santiago de Compostela, analisando os valores e os significados da peregrinação durante o trajeto através da relação hierárquica entre atributos desse processo, com os benefícios e o alcance dos valores pessoais estabelecidos na jornada. Neste estudo, os autores apontam para as singularidades dos sujeitos contemporâneos que fazem o percurso do Caminho, com atribuições de significados diferentes para o sagrado e profano. Ao comparar com pesquisas realizadas anteriormente, é apresentada uma interpretação atualizada, de acordo com os resultados alcançados com os viajantes, tanto peregrinos e não peregrinos, relacionando atributos como o conhecimento de novas culturas, convívio social, relação na vivência com o ambiente natural e espírito de aventura, além do aspecto religioso, que com a mudança das mentalidades passa a ser uma busca de experiências diversificadas.

87 Nilsson e Tesfahuney (2016), também analisando Santiago de Compostela, apresentam como resultado da pesquisa o paradoxo entre o sagrado e profano, entre o turismo e a religiosidade. O crescimento do fluxo de visitantes em locais sagrados provoca o aumento da “turistificação” destes destinos tradicionais, gerando modificações nos significados e simbolismos religiosos, mas ao mesmo tempo, a

“turistificação” contribui para o fortalecimento da religião e dos espaços. Concluem afirmando que o turismo atravessa o sagrado (o tradicional) e o profano, com as concepções de secularidade do mundo contemporâneo (o moderno), considerando o turismo como parte do sagrado e do secular. Para os autores o sagrado não se opõe ao moderno, mas sim possuem entrelaçamentos com as mudanças geradas nas últimas décadas, com a identidade do lugar e suas simbologias em constante transformação.

Com objetivo de inverter o olhar sobre a relação do sagrado e do profano no turismo, Mu, Nepal e Lai (2019), investigam as interpretações dos moradores locais sobre o sagrado, as paisagens e as influências do turismo na espiritualidade neste contexto. O Parque Nacional Sagarmatha (Nepal), onde está localizado o Monte Everest, foi o local de estudo, com os sherpas participantes da pesquisa, por estarem envolvidos diretamente com o turismo, atuando como guias na exploração das montanhas da região, que consideram como um espaço sagrado.

O turismo contribuiu para alterações na vida e na relação dos moradores locais com o espaço, pois o isolamento geográfico não existe mais, com a presença dos interesses da economia e do contato com a cultura global, de diferentes formas. O turismo tem papel importante na preservação e na valorização da cultura e da espiritualidade do local, mas ao mesmo tempo gera conflitos pelo crescente número de turistas e comportamentos sociais que causam estranhamento aos praticantes da religião. Mu, Nepal e Lai (2019) concluem existir atitudes de tolerância e aceitação das mudanças geradas pelo turismo, mas com resistências devido as influências que estão ocasionando alterações na relação com a paisagem e o espaço considerados sagrados e as formas de prática dos rituais frente a sujeitos que concebem a relação com a fé de outras perspectivas. Não é somente uma montanha a ser percorrida e explorada, mas sim o espaço de devoção e respeito religioso, que os turistas, na maioria dos casos, não possuem tal compreensão, pelas motivações de sua viagem e as diferenças culturais existentes.

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