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Entre o turista e o peregrino

191 Esse território passa por ressignificações com as relações de poder, com surgimento de um novo território neste processo, que pode preservar elementos existentes ou sofrer profundas modificações, ou seja, uma dinâmica de transformações de acordo com as possibilidades no espaço e tempo (RAFFESTIN, 2012). O território turístico religioso constituído com a beatificação de Madre Paulina e concretizado com a canonização, vem sofrendo transformações ao longo desse tempo histórico, que embora recente, repercute nas formas dos sujeitos se relacionarem com o sagrado. A construção da Basílica e todo o reordenamento físico do território também ocorre nos aspectos imateriais, com os sujeitos estabelecendo novas relações a cada retorno para os 75% que refazem essa viagem, tanto mensalmente como anualmente.

Os dados da análise fatorial exploratória demonstram evidências de como as relações entre o ser turista ou peregrino está vinculada a noção do que é o sagrado neste momento e como interagir nesse território turístico religioso, que comporta juntamente o profano, que sempre esteve presente nas peregrinações e assume novos contornos com o turismo. O turista e/ou peregrino que buscava a beata até 2002, passou a buscar a santa, que continua possuindo a sacralidade como pressuposto, mas em uma categoria mais elevada dentro dos dogmas da Igreja Católica, modificando as relações de poder, discursos e o território para atender essas necessidades espirituais e materiais.

192 Quadro 2 – Conceitos de turista e peregrino

Autor (es) Conceito de turista e peregrino Collins-Kreiner

(2010)

Aponta para o gradual desaparecimento das diferenças entre peregrinos e turistas e o surgimento de semelhanças entre ambos, como por exemplo o deslocamento através de viagens e o envolvimento emocional com os lugares de visitação. As experiências não podem ser consideradas homogêneas devido as suas motivações e as constantes mudanças que ocorrem.

Palmer, Begley e Coe (2012)

Defendem a diferenciação entre peregrinação e turismo. Não é possível empregar o termo peregrinação como uma forma de turismo ou que a viagem envolva estes dois momentos em algumas partes do trajeto.

Pereira e Christoffoli (2013)

Apresentam a diferença entre turista e devoto nos santuários: o primeiro tem liberdade para escolher os atrativos e atividades que quer participar ou conhecer; o segundo tem obrigações religiosas à cumprir, limitando assim sua interação com outros atrativos, pois sua motivação é a fé e seus rituais.

Rocha e

Belchior (2016)

São dois caminhos paralelos, com características próprias, mas que possuem aproximações, devido a facilidade de trânsito entre um e outro por parte do sujeito que viaja a algum destino por questões religiosas.

Adam (2018) Defende que tanto a peregrinação como o turismo são instantes para conhecer o diferente, a outra cultura, e uma forma de escapar, mesmo que momentaneamente, das pressões da globalização.

Fonte: O autor, 2020.

Os conceitos apresentados no quadro 2 demonstram as incertezas do campo teórico em abordar uma temática que envolve elementos subjetivos que não são facilmente mensuráveis e que possibilitam interpretações e análises com múltiplas perspectivas. Esses cinco conceitos podem ser considerados pertinentes para o estudo do turismo religioso em territórios que envolvem peregrinação por motivações religiosas, como no cristianismo, judaísmo, islamismo, budismo e hinduísmo, que possuem os maiores números de fiéis. É um fenômeno presente na história das sociedades a milênios, com várias formas e rituais, que possuem suas permanências, mas também passam por mudanças e as análises dependem de cada caso pelas peculiaridades culturais e econômicas desses contextos culturais.

Os dados estatísticos apontam para uma tendência maior de aproximações que diferenciações entre peregrinos e turistas pelas condições de viagem e de comportamentos no território turístico religioso, próximo as constatações Collins- Kreiner (2010). Cada vez mais as distinções entre lugar de peregrinação e turístico são mais difíceis de distinguir, devido as estruturas materiais construídas para

193 possibilitar as condições de permanência no local adequadas sanitariamente e acesso a alimentação, além de outros atrativos que podem estar vinculados diretamente ao território do sagrado ou seu entorno.

Essa tendência de produzir o discurso sobre os sujeitos e seus papeis dentro do território turístico prevalece nas pesquisas em turismo, com as abordagens definindo e delimitando os possíveis interesses e necessidades dentro dessas concepções. Os dados quantitativos apresentam a divergência entre a identificação dos sujeitos no santuário e seus interesses e experiências no tempo de permanência no local. Ao se declarem como turista, o esperado seriam experiências que colocassem o religioso em segundo plano, prevalecendo o envolvimento com lazer ou recreação, o que não se confirmou nos dados.

A devoção teve maior importância que outros elementos, com 75% desses respondentes são visitantes recorrentes, ou seja, busca o território do santuário pela fé e espiritualidade, nessa busca de aproximação com o sagrado nos espaços dedicados a esses rituais (GEERTZ, 1989). O ponto dessa análise é compreender a produção do discurso sobre o peregrino, anterior ao turismo, mas que devido as mudanças nas relações históricas e materiais, que influenciam diretamente a consciência dos sujeitos, essas definições passam a ter novos significados, que muitas vezes não são percebidos dentro da produção cultural.

É uma relação que depende desses dois pares para ter significados pois sagrado e profano somente existem nessa oposição de conceitos e representações produzidos pelas relações de poder em diferentes instâncias. O normal, nessa produção dos discursos, é ser religioso, ter a crença, o anormal aquele que nega o sagrado para viver no profano somente, sem a crença no sobrenatural, como aquele que foge a essa normalidade imposta pela sociedade (FOUCAULT, 1999). Dos respondentes, somente 1% declararam não ter religião e podem ser considerados aqueles que fogem da normatização. Nessa perspectiva, a relação com o santuário pode ser sem o atributo religioso, mas as relações de poder demarcam os comportamentos esperados e a serem seguidos pela coletividade no local do sagrado, impondo assim uma forma de ser e estar, na relação com os demais sujeitos, por pertencer a uma memória coletiva religiosa que transcende o espaço do sagrado (HALBWACHS, 2003).

194 Esse sentimento religioso é um produto social, estabelecido nas relações sociais e materiais no curso da história. A busca pelo sagrado é uma tentativa de romper com a materialidade do real para esse sujeitos que tem a formação dessa representação de mundo, que entre o mundo espiritual e o material, estão em constante luta contra as adversidades, que contam assim com a religiosidade como um momento de sair dessa temporalidade e buscar uma outra, mesmo que provisoriamente.

O sagrado perdeu, ao menos nas sociedades industrializadas, sua presença em todos os espaços, cada vez mais confinado a consciência dos indivíduos e aos territórios designados para suas práticas. A produção dos discursos e das representações sobre ser turista e ser peregrino se encontram entrelaçadas com os aspectos do mundo material e as relações históricas e culturais estabelecidas. A devoção, manifestada como atributo por parte dos turistas e peregrinos é constituída nas “opressões” da vida cotidiana, que tem na busca de uma santidade uma alternativa para ter outros sentimentos e expectativas frente ao processo real da vida.

Os santuários, como parte dessa produção de significados e representações do mundo material, recebem os sujeitos independente de sua fé, como um território turístico religioso que agrega, pelo sagrado, valores que transcendem as suas estruturas físicas, que é o diferencial frente a outros destinos. O ser turista ou ser peregrino dependem das relações que os sujeitos, por diferentes contextos, assumem em determinado momento frente a sua consciência e o que é oferecido para acessar esse tempo da sacralidade. São dois opostos que, ao mesmo tempo são complementares, assumem antagonismos, seja no individual ou coletivo, dependendo dos fatores dominantes que são colocados nas relações materiais no território.

Outra tendência dos dados, que é um fator significativo ao analisar santuários católicos, é a concepção de devoção, que pode ser considerado a motivação principal para o sujeito católico se deslocar para realizar suas orações, pedidos ou agradecimentos a uma santidade que tem uma ligação religiosa e que requer assim um retorno constante. As variáveis do fator 1 demonstram essa importância desse território turístico religioso estar preparado para atender as expectativas devocionais, que é o lado mais sagrado dentro desse deslocamento de sua residência e paróquia de origem. As variáveis do fator 2, envolvem a comparação de sua realidade cotidiana com esse momento de ruptura, ao entrar em contato com um fluxo de pessoas em

195 grande quantidade, que pode não ser usual para moradores de cidades de pequeno ou médio porte, gerando um desconforto em alguns momentos, como pode ser o caso na observação sobre as mudanças nos rituais religiosos.

A rigidez da peregrinação, com todo o sacrifício envolvido, torna-se uma prática pontual, dentro de determinados momentos do ano por grupos, que percorrem trajetos a pé que não necessariamente foram os percorridos por Santa Paulina em vida. O Santuário em sua homenagem foi construído com este duplo sentido de ser um atrativo turístico e um lugar sagrado, proporcionando condições para atender a demanda desses públicos que procuram conhecer a primeira santa do Brasil e majoritariamente são católicos.

Esse ponto necessita de atenção pela atratividade ser a devoção e os outros elementos acabam secundários, o que sugere que a profanização do sagrado é aceitável dentro da manutenção de um comportamento que não interfira nos momentos de oração, contemplação e devoção. As variáveis destacadas pela fatorial apontam nessa direção, de aceitação da convivência com o profano desde que o motivador principal não seja afetado diretamente.

O território turístico religioso de um santuário tem sua dinâmica envolta na tensão entre a administração, tanto leiga como de religiosos, dos fiéis e turistas de outras religiões, que podem ter interesses diversos no local, por questões históricas, patrimoniais ou curiosidade sobre os rituais, por exemplo, como o caso apresentado na pesquisa de Shuo, Ryan e Liu (2009). No Santuário Santa Paulina, a procura por não católicos é reduzida, 5% do total, um destino voltado ao católico devoto, que tem a tendência de retornar, seja mensalmente, para os que residem mais próximos, ou anualmente.

A concentração desses turistas/peregrinos ou turistas religiosos devotos, ocorre no Santuário devido ao período reduzido destinado a viagem, que prevalece de um dia, com o consumo de bens e serviços no local ou em estabelecimentos comerciais nas vias de acesso. No município, após o fim do horário comercial ao meio- dia de sábado, somente restaurantes, além de mercados e posto de combustível ficam abertos, não havendo atrativos disponíveis para o turismo, nem mesmo o centro de informações turísticas (que é a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo), em muitos casos. O turismo religioso em santuários tem essa característica de não necessariamente contribuir para outros atrativos se desenvolverem, devido a

196 intencionalidade dos sujeitos com a devoção naquele momento, deixando viagens para descanso e lazer para outro momento. A busca pelo sagrado para agradecer ou pedir é uma das formas de sacrifício, que não realizada durante a viagem, se converte em subir de joelhos escadarias ou outros trajetos, para cumprir uma promessa, que faz familiares ou amigos estarem acompanhando e, independente da força de sua fé, terem respeito e participarem desses momentos com o sagrado.

A permanência curta no destino, um dia como predomina no Santuário Santa Paulina, que é uma das questões que foram definidas como dificuldade pra o desenvolvimento do turismo em Nova Trento (e será discutido no próximo capítulo), é o tempo dedicado ao sagrado, que Pereira e Christoffoli (2013) tem bem definido este momentos, mas que os dados apontam essa transição de conciliar as obrigações religiosas com o turismo no espaço sagrado.

Um indício que os dados revelam é a necessidade desse turista religioso devoto para a existência e manutenção do Santuário. Sem esse personagem o território do sagrado perde seu significado e sua função de existir enquanto espaço de fé, tornando-se um lugar profano. O sagrado depende do fiel para se manifestar e atuar sobre as necessidades que são apresentadas pela oração e sacrifício. Por isso a importância de irradiar a devoção para outros territórios, como no catolicismo, com a entronização de imagens ou capelas dedicadas a santidade, para manter a fé dos sujeitos ao longo do calendário civil até o momento de retorno ao centro de sua fé. O santuário pode ser considerado um receptor do devoto e emissor da espiritualidade, que pode ser materializada através da compra de produtos religiosos a serem levados consigo para seu destino de origem, difundindo essa fé.

A reconstituição simbólica dos lugares do sagrado narrados nos textos bíblicos ou na história dos santos, no caso do catolicismo, é uma tentativa da sociedade religiosa manter a convicção que nada mudou, embora tudo ao redor esteja sempre em transformação (HALBWACHS, 2003). Os territórios do sagrado são a formas de um pensamento de grupo se imobilizar e durar pelo tempo de sua devoção no santuário, com a materialidade necessária para evocação da memória coletiva do grupo a que pertence naquele momento. A identificação através da memória religiosa determinada os lugares e posições dos sujeitos dentro da hierarquia do sagrado e suas contraposições ao profano nesses momentos de devoção.

197 8 A PRODUÇÃO DO TERRITÓRIO TURÍSTICO RELIGIOSO DO SANTUÁRIO SANTA PAULINA

O cristianismo chega ao continente americano através dos navios a partir de fins do século XV e é reforçado ao longo dos séculos seguintes com novas práticas e denominações religiosas cristãs que se opõem aos deuses dos povos indígenas e africanos, como parte da estratégia de dominação colonial.

Um contexto que impacta também nas outras regiões que os europeus tem contato e buscam expandir a fé no cristianismo, embora sempre com resistências e lutas, independente do continente. O convívio de vários credos contribuiu para difusão de diferentes formas de compreensão do sagrado e suas expressões, gerando novas práticas e devoções. As relações entre religiões indígenas, africanas e cristã gerou uma diversidade de rituais pela América Latina, buscando aproximar as realidades materiais as espirituais.

As levas de imigração que chegam ao Brasil na década de 1870, no caso dos italianos do norte da Itália, trazem em sua bagagem o catolicismo com a devoção as santidades de suas localidades, além da presença de religiosos que acompanharam a fundação dos núcleos coloniais, como ocorreu em Nova Trento. O catolicismo praticado buscou manter-se de acordo com os rituais e a fé importada do continente europeu, naquele contexto do campesinato com poucos recursos, que buscavam novas terras para realizar o sonho da fartura e fim da pobreza. A influência dos padres jesuítas é um fator fundamental para os imigrantes italianos que passaram a erguer construções como símbolo de sua fé e consagrando um território para sua devoção.

O contexto de vida de Amábile Visentainer é inserido nesse limiar entre sagrado e profano, com os sacrifícios diárias frente as dificuldades nessa construção da vocação para com o religioso, que resulta na organização de uma congregação para mulheres (1895), mesmo com as resistências de parcelas da comunidade, no caso de homens, que, de acordo com Eliade (1998) ocorrem devido quando os sujeitos são colocados frente a dedicação total ao sagrado, como foi a proposta de Amábile e suas primeiras seguidoras. A opção de mulheres seguirem uma vida religiosa, renunciando a vida profana de casar e cuidar da família, encontra a reação daqueles que tem no sagrado um momento de suas vidas, mediado com os rituais de oração e de convívio no espaço sagrado da igreja ou capela.

198 A constituição da religiosidade como um atributo que caracteriza Nova Trento é parte de uma construção cultural demarcada por estruturas que foram reinterpretadas ao longo dos anos, mas que reforçam a presença do divino nesse território. A escolha de Amábile, pela aparição durante sonho em três vezes de Nossa Senhora da Imaculada Conceição (dogma oficializada em 1854 por bula papal), para fundar uma congregação é atribuída ao sagrado e não pela vontade da jovem.

Interessante observar como a devoção mariana ganha força no século XIX, coincidindo com o período de construção com a capela existente no Vígolo, dedicada a Nossa Senhora de Lourdes (1880).

Foram registradas dezenas de aparições de Maria (Nossa Senhora) a partir de 1830 na Europa, consideradas as mais notáveis que ocorreram na França: em 1830 em Paris, que gerou a crença em uma medalha milagrosa; em La Salette, por duas crianças em 1846; e em Lourdes (1858) que se tornou um dos grandes centros de peregrinação mariana junto com outros dois lugares que tiveram aparições no século XX, sendo Fátima (Portugal -1917) e Medjugorje (Bósnia-Herzegovina-1981) (RYAN, 1993). O crescimento da adoração a Virgem Maria foi incentivado a partir das notícias das aparições e os religiosos contribuíram neste processo, com essa devoção disseminada também nas áreas de colonização.

A aparição de Maria em sonho, uma capela dedicada a Nossa Senhora Lourdes e a devoção também na Imaculada Conceição fazem parte desse contexto do sagrado que influencia Amábile em caminhada na vida religiosa em Nova Trento. O Santuário de Nossa Senhora do Bom Socorro, construído em 1901, é mais um lugar sagrado para a devoção mariana, marcado por um trajeto de cerca de 5 quilômetros e 525 metros de altitude, por intermédio da mobilização realizada pelo padre jesuíta Alfredo Russel, para ser local de peregrinações, através do sacrifício e oração ao longo do trajeto (CADORIN, 1992). A presença dos jesuítas e o incentivo as devoções católicas, juntamente com a carga simbólica e identitária dos imigrantes e seus descendentes, estimula a inserção da religiosidade no cotidiano, embora os momentos com o sagrado tenham seus lugares e tempos para ocorrer. Este movimento não é homogêneo, nem pacífico, mas sim marcado por resistências e enfrentamentos, que passa a definir a partir da década de 1970, algumas imagens que representaram a cidade para o turismo em nível estadual e nacional, dentro dos discursos produzidos

199 e ressignificados nesse processo de constantes mudanças nas concepções e representações.