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Os procedimentos metodológicos foram norteados pelo método histórico que conforme Marconi e Lakatos (2017) proporciona investigar os fenômenos em sua gênese, desenvolvimento, entrelaçamentos e rupturas através da temporalidade histórica. Para as autoras, foi o antropólogo Franz Boas que desenvolveu este método ao longo da primeira metade do século XX, contrapondo-se ao evolucionismo (ou antropologia) cultural. Defende que cada comunidade fosse estudada através da reconstrução histórica particular e não os conceitos generalizados como parte de um processo de evolução natural das sociedades que todas deveriam seguir.

128 Assim, um “mesmo fenômeno étnico pode se desenvolver a partir de diferentes fontes”, de acordo com as condições do espaço e tempo daquela sociedade específica e “não se pode dizer que a ocorrência do mesmo fenômeno sempre se deve as mesmas causas, nem que ela prove que a mente humana obedece às mesmas regras em todos os lugares” (BOAS In: CASTRO, 2010, p. 25). As relações de produção e de poder estabelecidas em cada sociedade contribuem para a organização das práticas e saberes aceitos e difundidos as gerações futuras, bem como as regras, leis e valores considerados impróprios e que devem ser evitados, em uma relação cultural própria constituída historicamente.

Como técnicas de pesquisa para o levantamento dos dados foram utilizados a pesquisa documental e bibliográfica, definidos por Marconi e Lakatos (2017) como documentação indireta. A pesquisa documental ou de fontes primárias se caracteriza por documentos escritos, iconográficos e fotográficos, possuindo, como fontes para acesso e pesquisa, os arquivos públicos, particulares e fontes estatísticas. Os documentos podem ser escritos (documentos oficiais, publicações parlamentares, documentos jurídicos, fontes estatísticas, publicações administrativas e documentos particulares) e não escritos (icnografia, fotografias, objetos, músicas e vestuário).

A revisão bibliográfica, ou fontes secundárias conforme Marconi e Lakatos, possibilita “colocar o pesquisador em contato direto com tudo que foi escrito, dito ou filmado sobre determinado assunto, inclusive conferências seguidas de debates que tenham sido transcritas de alguma forma” (2017, p. 200) e abrange a imprensa escrita, meios audiovisuais, material cartográfico e publicações científicas.

As fontes documentais e bibliográficas foram pesquisadas nos arquivos e registros da Prefeitura e Secretaria Municipal de Turismo, no acervo da Paróquia de Nova Trento e das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, fontes de arquivos pessoais de entrevistados e jornais de circulação semanais ou diários (apêndice D).

Além disso, foi utilizada a entrevista como um outro instrumento para coleta de dados. Dentre as possibilidades de técnicas de pesquisa, a entrevista centrada no problema, de acordo com a definição de Flick (2009) permite obter dados sobre um determinado problema, através de um guia de entrevista para auxiliar na narrativa desenvolvida pelo entrevistado, principalmente para a orientação ao objeto em discussão por parte do pesquisador. É a chamada indução específica que “aprofunda o entendimento por parte do entrevistador, refletindo (...) o que foi dito, por meio de

129 questões de compreensão e confrontando o entrevistado com contradições e inconsistências presentes em seus enunciados” (FLICK, 2009, p. 155).

Durante a entrevista as informações foram coletadas através de gravações de áudio e transcritas, para serem assim confrontadas com as outras fontes coletadas e as bases teóricas e metodológicas deste trabalho. Ao trabalhar com os sujeitos que vivenciaram a histórica, buscar-se com a entrevista, que também é fonte para o processo da pesquisa, proporcionar compreender as construções discursivas de um determinado período de tempo histórico e as implicações para o contexto presente, na dialética de relembrar o passado e suas ressignificações com o presente.

As entrevistas, segundo Thomson (1997), podem revelar através da história oral a natureza e os significados das experiências e como são trabalhadas as reminiscências sobre o passado, tanto das narrativas como dos silêncios dos testemunhos. Um cuidado, chama atenção o autor, com a ética no momento da entrevista, que o bem-estar do entrevistado tem prioridade frente a outros aspectos, principalmente quando as lembranças que são mobilizadas podem envolver temas delicados ou traumas vivenciados (THOMSON, 1997).

Importante frisar que na utilização desse instrumento, a realização de um pós- escrito, como recomendado pela literatura, foi utilizado como forma do pesquisador documentar as informações do contexto ao longo da entrevista e ser usada juntamente no processo de transcrição da narrativa. Esse registro “pode ser útil para a posterior interpretação dos enunciados na entrevista, permitindo a comparação de diferentes situações de entrevista” (FLICK, 2009, p. 156).

A oralidade tem a peculiaridade de proporcionar um elemento que outras fontes não proporcionam de forma direta que é a subjetividade do entrevistado, segundo Portelli (1997). Para este autor, “as fontes orais contam-nos não apenas o que o povo fez, mas o que queria fazer, o que acreditava estar fazendo e o que agora pensa que fez” (PORTELLI, 1997, p. 31). As relações entre o passado e o presente são intrínsecas nesse processo de rememoração, envolvendo novos significados e interpretações sobre o passado, de acordo com o momento histórico vivenciado e as compreensões sobre o que e de que formas ocorreu. A narrativa construída com a entrevista, a partir das perguntas e encaminhamentos do entrevistador, é um desenvolvimento de uma história individual com as influências das memórias do coletivo, seja do passado ou do presente.

130 De acordo com Portelli, “o realmente importante é não ser a memória um depositário passivo de fatos, mas também um processo ativo de criação de significações” (1997, p.33). Por estar a memória em constante transformações, entre o lembrar e o esquecer, entre o importante e o descartável, as narrativas nas entrevistas precisam estar inseridas no contexto histórico da pesquisa, para estes marcos temporais serem referências no rememorar. A percepção e a clareza teórica e metodológica do entrevistador são um elemento fundamental em auxiliar nesta construção narrativa, devido as avaliações subjetivas estarem presentes no que pode ser considerado relevante ou não pelo entrevistado.

Os sujeitos para compor o grupo de interesse foram os moradores do destino, nascidos no município e os visitantes (peregrino e turistas). Lembrando que a relação entre peregrino e turista apresenta uma fronteira frágil de ser caracterizada na literatura científica nas últimas décadas devido as subjetividades envolvidas na escolha do destino: esse território é ao mesmo tempo considerado profano e sagrado, pela sua atratividade turística, seja religiosa ou histórica, além de contarem com diferentes estruturas para atendimento ao público (GONZALO, 2006; CHAND, 2010;

CHRISTOFFOLI; PEREIRA; FLORES e SILVA, 2012; ABBATE; DI NUOVO, 2013 e CASTILLO; VARGAS, 2017). O critério principal para a definição do grupo de interesse foi o envolvimento no passado ou presente com o objeto direta ou indiretamente. Dessa maneira, o trabalho com a memória possibilita analisar as representações e as mudanças produzidas no espaço e tempo nas compreensões desses sujeitos em processos que possuem uma atuação direta ou indireta, como no caso dos moradores.

Para os moradores autóctones, foram realizadas entrevistas semiestruturadas (apêndice A), buscando selecionar, de acordo com os critérios estabelecidos, de forma equitativa entre moradores do Vígolo e outros bairros do munícipio. A opção de entrevista para este grupo de interesse possibilita identificar as memórias e suas flutuações sobre o turismo religioso na cidade e a constituição do território turístico religioso nos discursos no período e em suas narrativas de pertencimento ao território, com perspectivas diferentes, em tese. Foram realizadas 23 entrevistas (apêndice B), com a identificação dos entrevistados mantida anônima, identificados no texto com uma letra do alfabeto, garantindo a segurança de poderem expressar suas memórias e leituras do presente sem receios de possíveis críticas por parte da comunidade. As

131 comparações entre o passado e presente são parte da constituição a memória dos sujeitos, com interpretações múltiplas desses processos de acordo com as formas que foram sendo acompanhadas as produções dos discursos e das representações ao logo do tempo histórico. As falas dos residentes situam-se dentro desse contexto de produção de significados e conceitos sobre o Santuário, turismo religioso e seus posicionamentos estão inseridos nos discursos que a memória guardou e são retomados ao serem questionados sobre suas percepções e representações no momento presente.

Para os turistas e peregrinos foram aplicados questionários com questões fechadas e abertas (apêndice C), abrangendo tanto sujeitos que tem experiência recente no Santuário como também aqueles que possuem uma trajetória de visitas anteriores, através da amostra aleatória por conveniência. Os questionários para os turistas e peregrinos tiveram sua aplicação realizada nas proximidades da Basílica do Santuário de Santa Paulina com os frequentadores do local que se disponibilizarem a participar, com o pré-requisito de serem maiores de 18 anos.

Os dados quantitativos coletados com as respostas dos questionários foram tratados através do software IBM SPSS Statistics 25 e JASP, para posterior análise.

A frequência das respostas em cada categoria estabelecida no questionário contribuiu em estabelecer a relação entre as formas como o sujeito se identifica, como turista e/ou peregrino, e suas relações com o turismo e religiosidade, avaliando os aspectos considerados sagrados e profanos no Santuário Santa Paulina (HAIR et al., 2009).

A utilização da escala Likert, com 7 pontos (1 discordo totalmente e 7 concordo totalmente), possibilitou realizar uma análise exploratória fatorial, considerado um tratamento estatístico mais aprofundando sobre as variáveis que envolvem a satisfação, fidelidade, relação com o sagrado e o profano, turismo e fé, relação do Santuário com a cidade e o consumo, na percepção dos turistas e/ou peregrinos. O contexto do sagrado e do profano no desenvolvimento do turismo religioso e como impacta ou não nas concepções dos sujeitos, suas memórias e narrativas sobre o território turístico religioso podem ser analisados com essa coleta de dados.

132 Figura 12 – Fontes de dados para pesquisa

Fonte: O Autor, 2019.

Para análise dos dados coletados na pesquisa, foi definida a análise do discurso, a partir da perspectiva de Foucault. Para este autor, o discurso é como historicamente se ordenam os objetos não somente por seus significados, mas também pelas relações de poder estabelecidas e os efeitos que esses discursos produzem na realidade, “quando tudo pode ser dito e o discurso pode ser dito a propósito de tudo, isso se dá porque todas as coisas, tendo manifestado e intercambiado seu sentido, podem voltar à interioridade silenciosa da consciência de si” (FOUCAULT, 1997, p.49).

O discurso está situado dentro de um determinado espaço e tempo histórico, produzidos nessa relação entre o poder, o saber e a linguagem. Na análise do discurso o enunciado possui uma função importante constituindo o conjunto de sentidos mais elementares que podem ser particularizados dentro do discurso e “examinando o enunciado, o que se descobriu foi uma função que se apoia em um conjunto de signos, que não se identifica nem com aceitabilidade gramatical, nem com a correção lógica”

(FOUCAULT, 1997, p.133). Essa função é composta, conforme o autor, por um conjunto de signos, um referencial, um sujeito, um campo associado e uma materialidade. O discurso pode ser entendido como uma ordem em um campo de

133 experiência, ou seja, um referencial, sendo o enunciado, a materialidade que possibilita a análise.

O discurso é disperso e é necessário na análise descrever e compreender essa ligação entre os enunciados, seu conceito histórico e social, que fazem parte de um discurso, o lugar no qual se circunscreve o campo da experiência, do saber e das relações de poder.

O enunciado não é uma unidade do mesmo gênero da frase, proposição ou ato de linguagem; não se apoia nos mesmos critérios;

mas não é tampouco uma unidade como um objeto material poderia ser, tendo seus limites e sua independência. Em seu modo de ser singular (nem inteiramente linguístico, nem exclusivamente material), ele é indispensável para que se possa dizer se há ou não frase correta (ou aceitável ou interpretável), se a proposição é legítima e bem constituída, se o ato está de acordo com os requisitos e se foi inteiramente realizado. Não é preciso procurar uma unidade longa ou breve, forte ou debilmente estruturada, mas tomada como as outras em um nexo lógico, gramatical ou locutório. [...] trata-se, antes, de uma função que se exerce verticalmente, em relação às diversas unidades, e que permite dizer, a propósito de uma série de signos, se elas aí estão presentes ou não (FOUCAULT, 1997, p.98).

Ocorrem, dessa maneira, as formações discursivas estabelecidas em um nível mais geral e, do outro, ocorrem os enunciados que interagem na formação discursiva e que podem ser particularizados. O discurso é objeto do desejo e historicamente o discurso não é a tradução simples das lutas ou dos sistemas de dominação, mas é um campo que se luta para conquistar para ter poder sobre o que é válido ou não, verdadeiro ou falso, bom ou ruim, normal e anormal, que os sujeitos querem assim se apoderar (FOUCAULT, 1999). Nessa perspectiva, as relações de poder formam esses campos de luta dentro das narrativas discursivas no turismo religioso e seus impactos na realidade histórica de determinado território, definindo os papeis e funções dos sujeitos, incluindo ou excluindo, determinando verdades e normas, que podem assim ser identificados através da análise do discurso.

O desenvolvimento das pesquisas foi pautado em quatros fases, conforme figura a seguir, que não necessariamente seguiram esta sequência, desenvolvidas concomitantemente, dentro da dinâmica entre a pesquisa, análises e a produção escrita da tese.

134 Figura 13 – Fases da pesquisa

Fonte: O Autor, 2019.

A todo momento estas fases dialogam, ao mesmo que se questionam, principalmente entre as análises das fontes documentais e orais, para serem confrontadas com as bases teóricas e os objetivos propostos, possibilitando investigar as limitações e inconsistências nesse movimento dialético.

Situar historicamente o processo de constituição do território turístico-religioso, tendo por objeto o Santuário Santa Paulina, em Nova Trento (SC), foi fundamental para as análises, o contato com as fontes documentais e orais e as interpretações desse movimento de mudanças e permanências. Os objetivos escolhidos contribuem para balizar as análises dentro do espaço e tempo, não de forma linear, mas sim inter- relacionados na dialética de transformações e resistências dos sujeitos, em diferentes escalas, que demarcam as características do destino e os conflitos decorrentes dessa constituição do turismo como atividade que modifica as relações estabelecidas culturalmente.

São propostos desta forma três marcos temporais (como já apresentado na introdução), que não foram abordados de forma linear ou estanques, devido a dinâmica teórica proposta para esta pesquisa: período anterior a beatificação de Madre Paulina (1991); da beatificação a santificação (2002); de Santa Paulina e construção do Santuário ao momento contemporâneo. Esta periodização leva em conta os principais momentos que demarcam a passagem de um local de peregrinação religiosa, em pequena escala e regional, para a transformação no

135 principal destino religioso de Santa Catarina e, ficando atrás somente do Santuário de Nossa Senhora Aparecida (SP), em nível nacional. Esses períodos possibilitam as aproximações com os objetivos específicos propostos, colocando as fontes e suas narrativas dentro do momento histórico para a realização das contraposições na análise dos discursos. A memória é seletiva e balizas temporais são um recurso para auxiliar na reconstrução e organização das lembranças, contribuindo para o sujeito buscar elementos que aproximem os momentos do passado e suas interpretações com o contexto do presente.

Na proposição de utilização da análise do discurso como metodologia para a construção do conhecimento na interpretação das fontes com o referencial teórico da pesquisa, os enunciados foram constituídos no processo da análise. Os discursos presentes nos documentos e nas entrevistas constituem os enunciados referentes as formas como os sujeitos criaram significados sobre o processo de transformações com a constituição do destino turístico-religioso.

Esses discursos sobre o turismo religioso constituem os significados e representações para a análise das mudanças e resistências no contexto cultural, dependendo de como os discursos são aceitos e ressignificados nesse contexto. A construção das verdades nos enunciados que geram os discursos ao serem identificados nas fontes, permitiram analisar as concepções e as relações estabelecidas pelos sujeitos de turismo religioso e religiosidade, turista e peregrino, sagrado e profano, papel das instituições e moradores, materialidade e imaterialidade, objetividade e subjetividade, memória coletiva e individual, cultura local e mercantilização, nestas dialéticas que são estabelecidas em um movimento constante e não linear dentro do contexto histórico.

Por não existir um arquivo municipal foi necessário o contato com as diferentes instituições identificadas e envolvidas com o tema para acesso a sua documentação, com o contexto da pandemia gerada pela Covid-19 um outro limitador, devido as dificuldades de acesso a arquivos a partir de março de 2020, pelo atendimento as normas estipuladas pelas autoridades sanitárias de distanciamento social. O fechamento das instituições, com horários limitados ou atendimentos somente virtuais acarretaram entraves para o desenvolvimento da pesquisa, além da falta de organização dos documentos ou dados solicitados, pela ausência de arquivos estruturados.

136 Tanto as fontes documentais e orais possuem sua historicidade e registram, com as diferentes percepções de seus autores, as transformações e resistências com a constituição do destino turístico religioso ou também podem apresentar silenciamentos e esquecimentos que a teoria poderá identificar e interpretar. A subjetividade é construída historicamente e está presente nas fontes documentais também, além das orais, com os sujeitos ao registrarem com a escrita estão articulando e realizando escolhas sobre como, o que e os objetivos da comunicação, ou seja, a neutralidade não é um atributo inerente ao documento escrito, tornando necessário sua análise e interpretação no contexto do passado e suas significações para o presente.

O quadro a seguir apresenta a metodologia da pesquisa, relacionando os objetivos específicos com o universo e as estratégias da pesquisa, de acordo com os referenciais propostos.

Quadro 1: Visão geral dos procedimentos da pesquisa

Objetivo Geral

Analisar as permanências e as transformações estabelecidas pelos discursos e relações de poder entre moradores, turistas e peregrinos na constituição do território turístico-religioso com o sagrado e o profano no Santuário Santa Paulina.

Objetivos específicos Fontes de Dados Estratégias da pesquisa Historiar a constituição do

destino turístico-religioso Santuário Santa Paulina, em Nova Trento/SC;

Fontes documentais

primárias e

secundárias.

Moradores

autóctones e migrantes.

Coleta e categorização documental e bibliográfica.

Sistematização e análise das informações e dados.

Entrevista estruturada centrada no problema.

Caracterizar o turista e/ou peregrino e suas relações com o sagrado e profano no território turístico-religioso do Santuário Santa Paulina

Questionários Aplicação dos questionários para turistas e peregrinos.

137 Interpretar os significados

produzidos entre os sujeitos nos discursos e as relações de poder sobre o destino turístico-religioso pesquisado;

Fontes documentais

primárias e

secundárias.

Moradores

autóctones e migrantes; turistas e peregrinos.

Coleta e categorização documental e bibliográfica.

Sistematização e análise das informações e dados.

Entrevista estruturada centrada no problema

Analisar as memórias

produzidas entre os sujeitos nos discursos e as relações de poder do destino turístico e religioso Santa Paulina entre o sagrado e o profano.

Fontes documentais

primárias e

secundárias.

Narrativas das entrevistas e questionários realizados com os sujeitos.

Identificação e relação dos enunciados dos discursos das fontes documentais e orais.

Análise do discurso.

Fonte: O autor, 2020.

138 6 NOVA TRENTO: COLONIZAÇÃO E FORMAÇÃO IDENTITÁRIA

Os processos de imigração adquirem características singulares, dependendo do tempo histórico que acontecem e os motivos que levam sujeitos buscarem novas terras para sua sobrevivência. O Brasil recebeu diferentes contingentes populacionais ao longo dos últimos cinco séculos, tanto de forma voluntária, como forçada, como no caso da escravidão africana. A ruptura com a mudança é acompanhada pela resistência para a manutenção da identidade cultural ao ser colocada em contato com o diferente. As representações e significados atribuídos na constituição de um novo território em outro espaço geográfico remetem ao local de origem, com a tentativa de manter as práticas antes da imigração.

Na ocupação e colonização realizada em Nova Trento a partir de 1875, os habitantes do norte da Itália atual (com as fronteiras definidas em 1929) imigraram para esta região e buscaram a manutenção da identidade de seus paese, em um período que as fronteiras dos países europeus estavam em constante alteração. A identidade nacional não era um atributo característico destes grupos, mas sim a identificação com sua comunidade. Zanini (2004) define paese como o local de moradia de uma determinada comunidade, com dialeto próprio e adoração a um santo específico, distinta de outras, não havendo a identificação com a Itália enquanto nação, pelo processo de unificação que é um movimento paralelo ao momento da imigração para América.

A região norte da Itália, conhecida por Trentino, pertenceu politicamente a Áustria em muitos momentos das disputas de fronteiras territoriais do século XIX à Primeira Guerra Mundial, na Europa. Grosselli (1995) defende o pertencimento a identidade italiana, ou tirolesa-italiana, destas populações pelas características que foram mantidas, mesmo com as tentativas de germanização empreendidas no período, gerando uma cultura com traços alpinos, envolvendo as tradições do Tirol austríaco e italiano. O contato com outras comunidades com práticas culturais distintas reforça no continente americano uma concepção de identidade nacional como forma de demarcar as distinções sociais, principalmente com o uso da linguagem oral como marca de pertencimento. A colonização das terras que formam o município de Nova Trento conta com a presença dos italianos, que foram a maioria, além de contingentes, em menor escala, de alemães, poloneses e austríacos, que