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Scripta Alumni – Uniandrade, n. 4, 2010.
O título da peça Come and Go é traduzido em língua portuguesa como Ir e vir, invertendo a posição dos verbos. Parece haver, portanto, uma inversão de sentido. O título da versão em inglês alude ao fato de se chegar e partir, que coincide com a temática principal do texto ou com a lógica sequencial de primeiro ser necessário nascer e depois morrer. Fato que pode ser percebido em decorrência dos exemplos citados anteriormente, remetendo ao ciclo de lembranças e esperanças, de vida e de morte. Por outro lado, as ações encadeadas, por formarem um elo ou uma ciranda, não marcariam um fim, nem um começo, posto se unirem, não se sabendo exatamente onde e como acabam ou começam, não importando, portanto, se o título é traduzido como Vai e Vem ou Vem e Vai. De qualquer forma, nascer e morrer são temas recorrentes na obra de Beckett. Esse movimento circular será respaldado pelo diálogo intertextual com a obra de Shakespeare.
Serão discutidos, dentro desses pressupostos, alguns intertextos das peças Hamlet e Macbeth, que por sua vez, apresentam elementos que remetem à mitologia clássica.
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a idéia de que o homem só sobrevive porque se conforta dentro de hábitos comuns a todos. Pelo hábito se defende e dele é refém, mantendo-se aprisionado:
"As leis da memória estão sujeitas às leis abrangentes do hábito. O hábito é o acordo efetuado entre o indivíduo e seu meio, ou entre um indivíduo e suas próprias excentricidades orgânicas, garantia de uma fosca inviolabilidade, o pára-raios de sua existência" (BECKETT, 2003, p.17). As personagens das três mulheres revelam comportamentos que não fogem ao condicionamento, ou hábito sustentado por Beckett. O hábito é apresentado como um reduto de ações certas e seguras. Se não se ousar o diferente, todos estarão seguros. A herança segura se delega aos homens, cujos comportamentos e padrões sociais são os mesmos. Não há exposição a riscos. O que garante ao sujeito suportar as mazelas de sua existência são as ações habituais. O comportamento dos indivíduos se repete de geração em geração. [...] "A vida é um hábito. Ou melhor, a vida é uma sucessão de hábitos, posto que um indivíduo é uma sucessão de indivíduos" (BECKETT, 2003, p.17).
As características a respeito dos perfis de personagens, da temática e composição estrutural da peça Come and Go, revelam uma nova linguagem cênica e se incorporam às múltiplas possibilidades de transformações da teatralidade contemporânea ou do teatro pós-dramático, estudado por Hans- Thies Lehmann, em seu livro Teatro pós–dramático:
Para Lehmann, o teatro pós-dramático não é apenas um novo tipo de escritura cênica. É um modo novo de utilização dos significantes no teatro, que exige mais presença que representação, mais experiência partilhada que transmitida, mais processo que resultado, mais manifestação que significação, mais impulso de energia que informação. (FERNANDES, 2006, p.9)
Nesse sentido a encenação de Come and Go apresenta um palco vazio;
o único objeto é um tronco, no qual que as mulheres se sentam para conversar. O palco é escuro, sendo que uma única luz de pino incide sobre as mulheres quando estão sentadas. Constata-se a possibilidade de negação de um determinado tipo de compreensão voltado aos discursos da arte.
Conforme Lehmann: "[...] Foram os próprios desdobramentos mais recentes nas artes que colocaram o tema da incompreensibilidade no topo da agenda"
(LEHMANN, 2007, p.142).
No teatro pós-dramático prevalece a ação artística em detrimento da interpretação das técnicas utilizadas. A não compreensão, como estado de análise permanente da arte, é, portanto, uma forma enaltecê-la. Lehmann diz ainda:
A procura pela compreensão visa a um fechamento. O mesmo gesto que abre e emoldura o que foi aberto, fecha o que acabou de ser aberto de forma que fique inteiramente apreensível. Se considerarmos o teatro como o paradigma da experiência estética (o que se justifica
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tanto pela tendência à teatralização das artes, quanto pelas categorias estéticas do 'acontecimento', do 'performático', do instantâneo e do cênico que desempenham um papel central na teoria contemporânea), então fica óbvia aqui a relatividade da compreensão e a prioridade da experiência sobre a compreensão. (LEHMANN, 2007, p.143)
Sendo assim, de nada adiantaria especular sobre o que as personagens estariam discutindo. De cada resposta "[...] Ru: (acerca de Vi) - "Será que ela não percebe?" Vi: (acerca de Flo) - "Vamos lhe dizer?" Flo: (acerca de Ru),
"Será que ela não sabe?", não seria pertinente defender a idéia de que seriam uma doente terminal ou que o marido as trairia. Precisamente porque não é explicito, faz-se arte. Por enquanto deixa um mistério por resolver.
Privada de formular um conflito, a peça faz com que os diálogos desapareçam e se enfraqueçam. A elocução não acontece sobre o domínio de um pensamento. Ao contrário, deslocam-se e dispersam-se:
[...] A totalidade da obra dramática de Beckett apresenta-se como um verdadeiro compêndio de comunicação em uso em nossos dias. Uma comunicação circular e repetitiva. Um discurso de isolamento, cujo diálogo seria o astro morto e, apenas, os satélites permaneceriam acessíveis: solilóquio, monólogo, "à parte" e outras compulsões solitárias da linguagem. (SARRAZAC, 2002, p.138)
As mulheres em Come and Go, ao mesmo tempo em que falam, não exprimem seu ego, repetem-se em vozes separadas, marcadas pelo silêncio e pausas, mergulhadas em uma ausência de comunicação. Frases soltas, que se repetem, alternam-se na ordem de diferentes bocas. Sarrazac, citando Michel Foucault argumenta:
Como é que o homem pode ser sujeito de uma linguagem que há milênios se formou sem ele, cujo sistema lhe escapa, cujo sentido dorme de um sono quase invencível nas palavras que ele faz, por instantes, cintilar através do seu discurso, e no interior do qual é, logo à partida, obrigado a instalar a sua palavra e o seu pensamento, como se estes não fizessem do que animar durante algum tempo um segmento nesta trama de possibilidades incomensuráveis? (SARRAZAC, 2002, p.139)
A estrutura da peça, também, circular e repetitiva é dividida em três segmentos exatamente iguais, de sete linhas, em que uma personagem sai e volta depois de completar seu circuito, tendo um lugar diferente do que estava sentada originalmente. Neste sentido, as personagens também se movem em torno de seus assentos em forma de anel, repetindo sempre as mesmas funções. O vai e vem é marcado em espirais de ausência e ameaça ao serem contados os segredos. Ir ou vir? Seria melhor ir ou não ir? Vir ou não vir?
Ficar ou partir? Sem esperança de restauração, a morte é eminente. Contudo,
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mais do que a morte, é a decadência que permeia a cena, ilustrada pelas fofocas mesquinhas e pontuada por silêncios repetidos que ameaçam o desenrolar da cena e a linguagem elegante das três mulheres em Come and Go. As mãos dadas ao final simulam uma corrente de união entre elas, um elo que as aprisiona e as une. O que pode revelar, também, o medo da morte, da solidão, do vazio da existência, do nada.