3Claus Clüver, no seu artigo Inter textus/ Inter artes/ Intermedia, discute o conceito de estudos intermidiáticos e sugere que este campo deve não só se ocupar "[...] das relações entre os Estudos das Mídias e seus objetos [...]", mas também dar conta "[...] das relações entre as artes tradicionais e as novas mídias, compreendidas como formas de arte" (CLUVER, 2006, p.37), o que estimula o diálogo entre representantes das disciplinas em questão.
4Tradução desta autora para: "different media will inevitably highlight different aspects of that story".
(GAUDREAULT; MARION, citados em HUTCHEON, 2006, l. 224).
5Versão kindle book disponível no site: <www.amazon.com>.
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Scripta Alumni – Uniandrade, n. 4, 2010.
O primeiro momento desta análise centra-se no conflito interior do personagem principal que foi causado pela visita do homem do violino. Lourenço estava trabalhando em sua loja, quando um homem tentou vender um violino para ele. Lourenço ofereceu pouquíssimo dinheiro pelo instrumento musical, o homem ficou ofendido e desistiu do negócio. Porém, antes de sair, disse que, se o dono do antiquário era a única pessoa que usava aquele banheiro, então o cheiro não era do ralo, mas de Lourenço. No romance o trecho a ser analisado se apresenta da seguinte maneira:
[...] Lembrava do que o homem disse... Acho que foi o que levou o violino para vender. Pensei em um círculo vicioso. Ele disse que o cheiro era meu. Ele disse isso na minha cara. O pior é que isso, de certa forma me atingiu. Círculo vicioso não é. Pensei, vejo a bunda que me alimenta, alimenta os sonhos que não tenho. O preço para poder ver é comer o lixo daquela comida. A comida sempre cai mal.
Sendo assim, o ralo fede. Ou seja, a bunda faz o ralo feder. Mas não é isso. Isso não funciona assim. Pois mesmo antes de que eu pudesse perceber a bunda, o ralo já fedia. Disso eu tenho certeza. Quer dizer, estou quase certo disso. No Cartoon um desenho barulhento.
É verdade. Eu tenho quase certeza absoluta de que o ralo já fedia mesmo antes de eu ter descoberto a bunda. Acho que sim. É, não é a bunda que faz o ralo feder. Não é não. E se fosse? Se fosse, eu iria ter que fazer um grande sacrifício. É. Eu ia ter que escolher entre ver a bunda e agüentar o cheiro, ou não ver a bunda para o ralo não feder.
Acho que se esse fosse o caso, eu iria preferir suportar o fétido odor.
Não, mas aí, de tanto inalar a merda eu ia acabar lesando o meu cérebro. E aí teria que coabitar com o vulto. É, isso não ia dar certo.
Mas não tem nada a ver.
A bunda tá fora disso.
Bem que eu queria estar entrando aqui, agora, com a bunda ao meu lado. Mas elas são todas iguais.
Logo o convite estaria na gráfica. (MUTARELLI, 2002, p.39-40)
Conforme Bulhões, "no cinema, um mundo inventado é materializado pela imagem crível. [...] Na literatura, a matéria verbal constitui o mecanismo semiótico responsável por ativar no leitor um processo de elaboração mental da imagem." (BULHÕES, 2009, p.64). No trecho do romance transcrito acima, todo o raciocínio do protagonista é ilustrado por citações de eventos e coisas que o rodeiam e que delimitam o seu problema. A partir do texto, o leitor constrói suas imagens particulares. No filme, este momento de reflexão é apresentado como segue:
Acho que foi o homem do violino que disse que o cheiro era meu. Ele disse isso na minha cara. Pior é que isso me atingiu. É como se fosse um círculo vicioso. Eu vejo a bunda que me alimenta. O preço para ver a bunda é comer o lixo daquela lanchonete. A comida sempre cai mal.
Sendo assim, o ralo fede. Ou seja: a bunda faz o ralo feder. Não, não é isso. Isso não funciona assim. Porque antes de eu perceber a bunda, o ralo já fedia. É... a bunda está fora disso. Bem que eu queria estar agora com a bunda ao meu lado. Mas mulher é tudo igual. Se você bobear, os convites vão para a gráfica. (O CHEIRO DO RALO, 2006)
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Scripta Alumni – Uniandrade, n. 4, 2010.
Este momento de introspecção do personagem é concretizado pela colagem6 de imagens, o que não apenas dá conta de uma espécie de flash- back7, mas possibilita ao espectador o transporte para dentro da mente do protagonista e compartilhamento de suas impressões. Vê-se na tela o que Dulac denominou imagem mental, ou seja:
O plano psicológico, o primeiro plano, como o chamamos, é o próprio pensamento da personagem projetado na tela. É sua alma, suas emoções, seus desejos... A vida interior, tornada perceptível pelas imagens, é com o movimento, toda a arte do cinema... O cinema tem maravilhosamente, os instrumentos para expressar tais manifestações de nosso pensamento, de nosso coração, de nossa memória.
(DULAC, citado em AUMONT; MARIE, 2006, p.162)
Segundo Pierce: "Toda vez que pensamos, temos presente na consciência algum sentimento, imagem, concepção ou outra representação que serve de signo." (PIERCE, citado em ECO, 2003, p.146). E desta maneira, quando acompanhamos auditivamente o raciocínio de Lourenço e visualizamos em seqüência o homem do violino, Lourenço pensando, a bunda, o sanduíche, o vaso sanitário, o ralo, Lourenço pensando, o ralo, o vaso sanitário, Lourenço comendo o sanduíche, a bunda, o ralo, Lourenço pensando, a noiva em um gesto de carinho, a noiva apontando uma faca e os convites, obtemos acesso ao mundo interior do protagonista, à sua consciência, aos seus sentimentos, às imagens de sua memória e aos conceitos que se formaram a partir da sua experiência de vida.
A colagem de imagens – imagens que já haviam sido previamente apresentadas ao espectador – com o objetivo de acompanhar os pensamentos de Lourenço, intensifica e reforça a presença de determinados signos na trajetória do personagem. A escolha deste artifício é ainda melhor justificada por Robert Stam (2008, p.279):
O poder especial da colagem provém de sua capacidade de aproximar e associar de forma intensamente significativa objetos, imagens e textos aparentemente não relacionados, todos re-enquadrados dentro de um novo espaço de uma totalidade criativa refeita. A potência estética da colagem provém de sua abertura semiótica, de sua capacidade de
6Segundo Pavis: "A colagem é uma reação contra a estética da obra plástica feita com um único material, contendo elementos fundidos harmoniosamente dentro de uma forma ou de um âmbito preciso. Ela trabalha os materiais, tematiza o ato poético de sua fabricação, diverte-se coma aproximação casual e provocativa dos seus constituintes [...]. Colar objetos é um modo de citar um efeito ou um quadro anterior [...]. O ato citacional tem uma função metacrítica, ele dobra o objeto e seu olhar, o plano factual e a distância tomada em relação a ele." (PAVIS, 2008, p.51-52).
7O Dicionário de teatro define flash-back como "termo inglês para uma cena ou motivo dentro de uma peça (na origem, dentro de um filme) que remete a um episódio anterior àquele que acaba de ser evocado". (PAVIS, 2008, p.170).
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Scripta Alumni – Uniandrade, n. 4, 2010.
encenar proximidades instigantes, gerando uma aleatoriedade estruturada que reconcilia o rigor formal da arte com a casualidade da vida [...].
Como é descrito acima, a escolha das imagens que constituíram este trecho do filme intensificou a associação significativa de objetos e idéias materializando de um modo eficaz um momento de reflexão.