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CONSIDERAÇÕES FINAIS

No documento UNIANDRADE N.4, 2010 (páginas 47-52)

A obra Decameron de Boccaccio retrata com grande realismo as transformações pelas quais passava a sociedade européia na Baixa Idade Média a partir de cem novelas de temas variados, todas contadas por personagens que vivenciavam aquilo que, na época, foi considerado como o fim dos tempos: a peste negra. E é neste contexto que esse escritor ambienta sua história, servindo-se, como uma de suas referências, o poema épico A Divina Comédia, de Dante Alighieri, "emprestando" alguns personagens desta obra para a criação de suas novelas.

Temas como a sexualidade no ambiente interno da Igreja Católica e o prazer feminino chocaram uma época conhecida pela intensa religiosidade;

contudo, e como o próprio autor enfatizou, suas novelas só poderiam ser consideradas inconvenientes se fossem lidas por mulheres que não fossem honestas, caso contrário, suas leitoras entenderiam que as histórias nada mais são do que a tentativa de oferecer prazer àquelas que as lêem. As palavras de Boccaccio resumem as mudanças trazidas pelo movimento Humanista pelo qual passava a sociedade européia no século XIV, primeiramente por proporcionar um livro direcionado à leitura feminina, mas também por abordar assuntos que durante todo o período medieval – e muito além dele – foram considerados tabus pela civilização ocidental.

Obviamente, uma grande obra não poderia ser esquecida pelo tempo.

Assim, Decameron foi objeto de adaptação para diversas mídias não-literárias como, o teatro, a televisão e o cinema. E o enfoque principal neste artigo é a transposição das novelas de Decameron para a obra homônima cinematográfica de Pier Paolo Pasolini.

A partir da escolha de nove das cem novelas criadas por Boccaccio, o diretor italiano transpôs, de uma forma bastante peculiar, a linguagem escrita

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da literatura para a linguagem multifacetada do cinema. Não preocupado em se restringir a uma "fidelidade" para com o livro, Pasolini cria suas histórias ilustrando uma Idade Média bastante incomum em comparação aos filmes hollywoodianos, pois caracteriza seus cenários, atores e indumentárias tendo como referência as pinturas italianas medievais.

Desta forma, o diretor prioriza escolher novelas que tem a sexualidade e a desmoralização da Igreja Católica como temas, mostrando assim, sua intenção de expor a transgressão da sociedade e caracterizando sua própria personalidade incomum. Assim, Pasolini cria uma produção cinematográfica que resgata um sentimento já vivido no período medieval com o livro de Boccaccio: o choque de membros mais conservadores da sociedade perante obras de arte que estavam à frente de seu tempo.

Além disso, Pasolini também cria uma relação transtextual com a pintura ao utilizar duas obras do artista italiano pré-renascentista Giotto di Bondone – Juízo Final e Madonna com o menino Jesus – criando uma alegoria que ironiza a sociedade vivida pelo diretor, mas também questiona o poder do homem como senhor absoluto.

Enfim, este artigo analisou como uma obra pode ser trabalhada em mídias distintas, como a literatura e o cinema, resgatando períodos tão distantes.

Assim, Decameron, tanto de Boccaccio quanto de Pasolini, expuseram o imaginário da sociedade de sua respectiva época – o primeiro de uma forma mais explícita e o segundo a partir de alegorias criadas na construção das cenas – trazendo inquietações que se configuram nas sociedades medieval e contemporânea, no que tange à sexualidade e à moralidade, e como elas podem ser ilustradas a partir das novas mídias surgidas com a modernidade.

REFERÊNCIAS

BARTHES, Roland. A morte do autor. In: _____. O rumor da língua. Trad.

Mário Laranjeira. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p.57-64.

BOCCACCIO, Giovanni. Decameron. Trad. Torrieri Guimarães. São Paulo: Abril Cultural, 1981.

CUMMING, Robert. Para entender a arte. São Paulo: Ática, 1995.

ELIOT, T.S. Tradição e talento individual. In: _____. Ensaios. Trad. Ivan Junqueira. São Paulo: Art, 1989, p.37-48.

FERRO, Marc. Cinema e história. São Paulo: Paz e Terra, 1992.

GENETTE, Gérard. Palimpsestos: a literatura de segunda mão. Trad. Luciene Guimarães e Maria Antônia Ramos Coutinho. Belo Horizonte: UFMG –

Faculdade de Letras, 2005.

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GUERINI, Andréia. O Decameron e Pasolini: a interface literatura-cinema.

Anuário de literatura, Florianópolis, n.7, p.37-48, 1999. Disponível em:

<http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/literatura/article/viewFile/5321/4645>.

Acesso em: 10 jan. 2010.

IL DECAMERON. Direção de Pier Paolo Pasolini. Itália: 1971. 1 DVD.

PESAVENTO, Sandra Jatahy. História e literatura: uma velha-nova história.

2006. Disponível em: <nuevomundo.revues.org/index1560.html>. Acesso em: 08 jan. 2010.

QUEM FALA a verdade deve morrer. Direção de Philo Bregstein. Holanda:

1981. 1 DVD.

SIMONI, Karine. De peste e literatura: imagens do Decameron de Giovanni Boccaccio. Anuário de Literatura, Florianópolis, p.31-40, 2007.

STAM, Robert. A literatura através do cinema: realismo, magia e arte da adaptação. Trad. Marie-Anne Kremer e Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.

_____. Do texto ao intertexto. In: _____. Introdução à teoria do cinema.

Trad. Fernando Mascarello. São Paulo: Papirus, 2003.

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IMAGENS DA LOUCURA EM POLICARPO QUARESMA: HERÓI DO BRASIL, DE PAULO THIAGO

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Maria Terezinha Knabben2

RESUMO: Nos estudos sobre adaptação de obras literárias para o cinema, verifica-se que ainda há quem veja como virtude a busca da suposta fidelidade em relação ao texto- fonte. Tal posição – pelo critério subjetivo da análise ou por nem sempre levar em conta as características específicas das duas linguagens – é considerada superada por estudiosos da área. Nesse sentido, o objetivo deste trabalho é analisar as interpolações operadas pelo diretor Paulo Thiago no episódio do manicômio, na transposição para o cinema do romance Triste fim de Policarpo Quaresma (Lima Barreto, 1911), que originou o filme Policarpo Quaresma, herói do Brasil (1998). Como referencial teórico, utilizam-se os estudos de Mikhail Bakhtin acerca da teoria do riso e da carnavalização da literatura.

Palavras-chave: Policarpo Quaresma, herói do Brasil. Adaptação fílmica. Intermidialidade.

Carnavalização.

1Trabalho orientado pela Prof.a Dr.a Verônica Daniel Kobs.

2Mestranda do Curso de Teoria Literária no Centro Universitário Campos de Andrade.

E-mail: [email protected]

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INTRODUÇÃO

O romance Triste fim de Policarpo Quaresma (1911), que deu origem à adaptação fílmica Policarpo Quaresma: herói do Brasil (1998), tem sua história dividida em três partes, ambientada nos primeiros anos do regime republicano (1893-94), já no governo do marechal Floriano Peixoto. No filme, embora não haja uma divisão formal dessas partes, mantém-se praticamente a mesma sequência. Quanto à cronologia, registram-se alguns avanços no tempo, visto que a produção incorpora dados biográficos e de obras posteriores do escritor.

Quaresma é apaixonado pelo país e personificado num ideal ufanista de brasilidade – desmontado criticamente pelo olhar de um narrador onisciente –, em uma busca e crença ingênuas, patéticas, até, de saídas políticas, econômicas, sociais e culturais para o Brasil, características que levaram a crítica literária, desde o lançamento do livro, a identificá-lo com o D. Quixote de Cervantes.

Funcionário público disciplinado, é também muito metódico, de hábitos mecânicos e repetitivos. "Se não tinha amigos na redondeza, não tinha inimigos" (BARRETO, 1991, p.17); mas, quando em conversas domésticas, sociais ou de trabalho, é cortês e de fala eloquente na defesa de suas ideias. Em casa, onde vive em companhia da única irmã, dedica boa parte do tempo à leitura dos livros de sua biblioteca pessoal, com acervo composto sobretudo por obras da literatura brasileira e da História do Brasil. Por conta desses traços, era considerado pelos vizinhos "esquisito e misantropo".

Nesta primeira parte, nos ambientes familiares, festivos ou de trabalho, é apresentado o conjunto das principais personagens, constituído por funcionários públicos civis e militares movidos unicamente em função de interesses pessoais, cujas características vão sendo desnudadas no contraste com o caráter íntegro de Quaresma. Nesse mesmo ambiente toma-se contato com o grupo de personagens femininas, cujo perfil é explorado mais profundamente no romance do que na adaptação fílmica. Cada uma a seu turno, essas personagens representam, pelo olhar crítico do narrador, a condição doméstica e submissa da sociedade machista da época.

Em consonância com a exacerbada paixão de Quaresma pelo país, elementos da cultura brasileira, como o violão, a modinha, a culinária, a fauna e a flora – na visão nacionalista de Policarpo, pouco valorizados por uma sociedade que cultua valores europeus –, tornam-se parte da história.

Se os anos pós-proclamação da República impulsionaram um período de reformas radicais no país – em sua maioria atendendo a interesses dos representantes do poder – as reformas sonhadas por Quaresma, sempre no sentido de querer preservar a pureza da identidade nacional contra toda tentativa de influência estrangeira, são de outra ordem. A decretação do tupi-guarani como língua oficial, cuja proposta na câmara, aliada a outras atitudes fora dos

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padrões considerados "normais", leva-o ao internamento em um manicômio, episódio que encerra a primeira parte.

No documento UNIANDRADE N.4, 2010 (páginas 47-52)