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CONCEITUAÇÃO DA UNIÃO ESTÁVEL

‘União Estável’ passou a constituir uma denominação oficial, utilizada em diplomas que trataram e tratam do assunto, constando na Constituição Federal, nas Leis n.ºs 8.971, de 29.12.1994, e 9.278, de 13.05.1996, e no Código Civil de 2002. O significado é facilmente perceptível. A palavra ‘união’

expressa ligação, convivência, junção, adesão; já o vocábulo ‘estável’ tem o sinônimo de permanente, duradouro, fixo. A expressão corresponde, pois, à ligação permanente do homem com a mulher, desdobrada em dois elementos: a comunhão de sentimentos e a comunhão material; e a relação conjugal exclusiva de direitos e deveres inerentes ao casamento118.

A juridicização oficial da união estável veio com a Constituição Federal de 1988, rezando o artigo 226, § 6º: “Para efeito da proteção

117 AZEVEDO, Álvaro Villaça. Estatuto da família de fato: de acordo com o novo código civil, Lei n.

10.406, de 10-01-2002. p. 257

118 RIZZARDO, Arnaldo. Direito de família: Lei n.º 10.406, de 10.01.2002. p. 885

do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento”119.

A Lei n.º 8.971, de 29.12.1994, no artigo 1º e em seu parágrafo único, constitui-se no primeiro diploma a fornecer elementos para caracterizar a união de fato. Estabelecia o artigo 1.º “a companheira comprovada de um homem solteiro, separado judicialmente, divorciado ou viúvo, que com ele vivia há mais de cinco anos, ou dele tenha prole, poderá valer-se do disposto na Lei n.º 5.478, de 25 de julho de 1968, enquanto não constituir nova união e desde que prove a necessidade120”.

E o parágrafo único. “igual direito e nas mesmas condições é reconhecido ao companheiro de mulher solteira, separada judicialmente, divorciada ou viúva”.

O conceito de união estável no novo Código Civil, nos molde do caput do artigo 1.723, é o mesmo conceito, constante do artigo 1º da Lei n.º 9.278/96, em que se apresentam seus elementos essenciais. Veja-se então o artigo 1º: “É reconhecida como entidade familiar a convivência duradoura, pública e contínua, de um homem e uma mulher, estabelecida com objetivo de constituição de família”.

A união estável não abarca a união homossexual, pois, por conceituação constitucional, que se projetou no artigo 1º da Lei n.º 9.278/96 e no artigo 1.723 do novo Código Civil, é a convivência “entre o homem e a mulher”121. A união estável é também, a convivência pública, contínua e duradoura122.

Na obra de Bittencourt que encontramos o conceito mais preciso e jurídico, considerando a união estável, à época nominada como concubinato, em dois sentidos: um amplo ou lato e outro estrito. No primeiro,

119 RIZZARDO, Arnaldo. Direito de família: Lei n.º 10.406, de 10.01.2002. p. 885

120 RIZZARDO, Arnaldo. Direito de família: Lei n.º 10.406, de 10.01.2002. p. 885

121 AZEVEDO, Álvaro Villaça. Estatuto da família de fato: de acordo com o novo código civil, Lei n.

10.406, de 10-01-2002. p. 437

122 AZEVEDO, Álvaro Villaça. Estatuto da família de fato: de acordo com o novo código civil, Lei n.

10.406, de 10-01-2002. p 437

configura-se como a “união estável, no mesmo ou em teto diferente, do homem com a mulher, que não são ligados entre si pelo matrimônio... É a forma primitiva das uniões sexuais estáveis; é o estado intermédio entre a união fugaz e passageira e o matrimônio, consortium omnis vitae”. No segundo, “é a convivência more uxório, ou seja, o convívio como se fossem marido e mulher..., a união de fato, implicando não somente relações sexuais, mas também a prolongada comunhão de vida”123.

Monteiro124 afirma que “o concubinato consiste na união entre o homem e a mulher sem casamento ou, de maneira mais simplificada é a ausência de matrimônio para o casal que viva como marido e mulher”.

Oliveira e Muniz125 ensinam que:

As expressões concubinato ou união livre designam a situação de vida em comum de casais não casados. A maioria dos autores que escrevem sobre esta matéria formula a idéia de que o concubinato apresenta as aparências do casamento. Como o casamento, o concubinato é mais uma comunhão de vida em que dominam essencialmente relações de sentido e de interesses de vida em conjunto que se estendem ao campo econômico (...).

Bittar126 também opta pelo termo concubinato para designar união estável. Ressalta, todavia, que só o concubinato puro, ou seja, aquele onde não existem impedimentos matrimoniais para o casamento, é que se ajusta ao conceito de união estável ou permanente referido na Constituição Federal de 1988 e em relação ao qual “se instituiu regime jurídico compatível com a evolução sofrida pela sociedade”.

123 BITTENCOURT, Edgard de Moura. O concubinato no Direito. Vol. II Rio de Janeiro: Editora Jurídica e Universitária Ltda, 1969, 2ª ed. P. 105 e 106

124 MONTEIRO, Washington de Barros. Curso de direito civil: direito de família. p. 18

125 OLIVEIRA, José Lamartine Corrêa e MUNIZ, Francisco José Pereira. Direito de família (direito matrimonial). Porto Alegre: Fabris, 1990, p. 76

126 BITTAR, Carlos Alberto. Direito de Família. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1993, p. 201

Azevedo127 expressa: “casamento de fato ou união estável é a convivência não adulterina nem incestuosa, duradoura, pública e contínua, de um homem e de uma mulher, sem vínculo matrimonial, convivendo como se casados, sob o mesmo teto ou não, constituindo, assim, sua família de fato”.

Azevedo128 ainda explana que: “a união estável sempre foi casamento de fato. Na união estável, a liberdade dos conviventes é maior, porém vivem como se fossem marido e mulher, mas sem o serem, em verdade. Não existe o estado conjugal, mas meramente o convivencial ou concubinatário”.

Gomes129 menciona que por “família natura se entende hoje o grupo familiar que não se constitui pelo casamento mas por união livre, tanto na formação como na dissolução. Tal é o concubinato, no qual a mulher é quase- esposa e tem o título simpático de companheira, já convertido em nomen júris, e que provém de causas diversas (...)”

De acordo com a manifestação acima, Pires130 prefere a utilização do termo companheira para qualificar a mulher que faça parte da união estável:

(...) o termo mais elevado e de maior conteúdo, com o qual o varão designa a mulher, é companheira, traduzindo uma ligação honesta e estável. É o nome que se dá à mulher unida por longo tempo a um homem, como se fosse sua esposa, ou o designativo à concubina honesta e de sólida ligação, que é respeitada no meio social da condição de esposa.

Na realidade, como bem observou Cahali131, “o importante é que pouco importa a terminologia adotada pelo legislador, estudioso ou julgador.

O importante é que se identifique a existência de união estável em todos os seus contornos, ao fito de ampará-la juridicamente”.

127 AZEVEDO, Álvaro Villaça. União estável antiga forma do casamento de fato. São Paulo, RT, 1994, p. 701

128 AZEVEDO, Álvaro Villaça. Estatuto da família de fato: de acordo com o novo código civil, Lei n.

10.406, de 10-01-2002. p. 270

129 GOMES, Orlando. Novos temas de direito civil. Rio de Janeiro: Forense, 1983, p. 177

130 PIRES, Maria da Graça Moura de Sousa Soromenho. O concubinato no direito brasileiro. Rio de Janeiro: Forense, 1998, p. 8.

131 CAHALI, Francisco José. União estável e alimentos entre companheiros. p. 47