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Condições de vida

No documento Andre Alexey Polidoro.pdf - Univali (páginas 62-65)

entende que as pessoas precisam se controlar, pois “é claro que eu não vou ficar chorando pros canto [...]. Eu acho que a gente tem que se controlar”.

Desta maneira, foi se desvelando a definição de saúde antes pronunciada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, “a capacidade de lutar contra tudo o que nos oprime” (ROCHA, 2010, p. 5). Diante destas dificuldades, a proposta do part 17 é que os participantes da roda e as pessoas que passam por dificuldades não devem se encolher. O fato de “não se encolher” traz a necessidade dos subalternos de romper com a influência da classe dominante, conquistando consciência de si e contrapondo-se em termos de visão de mundo (ABREU, 1995). Para o mesmo autor, os subalternos adquirem consciência das condições de existência e vontade de transformá-las durante a luta contra a exploração. Isto leva à terceira categoria.

dialéticos, contraria a dialética de Hegel, na qual a realidade efetiva era expressão da ideia (ou da consciência) (SARTORI, 2014).

É importante perceber nas falas e na literatura, a relação presente entre trabalho e condições de vida, relação fundamental no pensamento marxista visto que as condições de vida dependem da relação do indivíduo com o meio de produção. Na leitura que Semeraro (2014a) faz de Marx, a história do homem está inscrita no trabalho. Assim, em relação aos meios de produção, percebo que a maioria dos participantes estava entre aqueles que vendem ou venderam a força de trabalho, sendo principalmente no mercado informal. Havia, também, pequenos agricultores, donos de chácaras de cultivo familiar. Mesmo com certa homogeneidade em relação ao local que ocupam no meio de produção, há bastante diferença no poder aquisitivo dos participantes, variando de quem morava em área de invasão, com goteiras na casa, e quem tem carro, casa e possui uma casa para aluguel. Essa diferença proporcionou, inclusive, ao longo das discussões, um debate entre uma participante cuja renda deriva também de coleta de reciclados e participantes produtores de lixo. O debate se deu pela reclamação de que os catadores pegam o que querem e jogam em qualquer lugar o resto, ao que a part 4 observou os vários equívocos cometidos na separação do material reciclável do lixo, fazendo com que o catador leve lixo, ao invés do material de troca. Apenas no diálogo, pode-se desvelar a realidade.

Ressalto, ainda, a fala dos participantes do conselho local de saúde, na qual o lixo era o principal problema do bairro, sendo que isso foi confirmado nas falas, buscando até mesmo soluções para este problema, entendido como problema complexo, apesar da coleta seletiva e da coleta de lixo. Além disso, desde os primórdios do bairro, o lixo da cidade era trazido para ali, de maneira legalizada ou oculta, sendo que até os dias de hoje é comum observar descarte de móveis ou alguns tipos de lixo à margem de um córrego que cruza o bairro. Esse córrego recebe a água das chuvas com detritos causadas pelas más condições sanitárias e, às vezes, assemelha-se a um esgoto a céu aberto. O fato é piorado pela população crescente no local, sem melhora da estrutura do bairro.

As condições acima levaram a falas a respeito do rio poluído, permitindo pernilongos e caramujos, que infestam as casas e, seguindo a linha dos problemas

do bairro, foi lembrada, também, a grande presença de cachorros abandonados na região, frequentemente espalhando o lixo na frente das casas. A part 4 critica a dificuldade para um idoso usar o ônibus no horário existente. A part 22 questiona a falta de creche e, principalmente, a falta de um espaço para lazer. A part 1 critica a falta de uma maternidade na cidade, sendo que os partos acontecem na cidade vizinha. A unidade de saúde é criticada em relação ao acesso à consulta, aos horários, ao número de pessoas que faz uso da mesma unidade, à estagnação do número de funcionários em relação à crescente população, à forma de atendimento médico.

Em uma relação dialética, na qual bairro, cidade e Estado não podem ser completamente separados, as críticas evoluem em direção aos problemas de gestão do município, que na visão dos moradores do bairro, preocupa-se com as áreas turísticas da cidade, em detrimento das áreas mais pobres e falam até sobre o poder aquisitivo do salário mínimo. Essas falas reforçam o fato de que as classes subalternas não são formadas apenas pela inserção no modo de produção, mas pelas experiências nas condições objetivas dadas, sofrendo a ação da classe hegemônica (ABREU, 1995).

As conversas foram momentos de reflexão sobre essa realidade concreta, em um processo contrário ao da imersão da consciência, realizado pelos instrumentos de dominação que domesticam, porém, tornando a opressão real ainda mais opressora ao acrescentar a consciência deste fato (FREIRE, 1987).

A opressão e as condições reais de existência foram sendo desveladas pelos participantes em discussões que eu, como animador, apenas observava. O diálogo abaixo, entre a part 24 e a part 22, mostra um pouco disso:

“[...] porque eu não vou brigar por causa que não tem um remédio. Tem pessoas que, não tem, chegam ali, faz um escândalo. Meu Deus, não tem hoje, tem amanhã. E os remédio são baratinho. Custa ir lá, comprar?

“É, depende: tem pessoas que não tem nem o dinheiro pra comer, às vezes.

Assim, ao compreendermos as condições materiais reais de existência, e durante o desvelamento disso entre e pelos participantes, há aproximação dos

participantes entre si, e aproximação dos mesmos a realidade desnudada de opressão, possibilitando o reconhecimento dos mesmos não apenas com indivíduos oprimidos, mas como classe subalterna, apesar de não ter sido usada essa expressão. Para a aproximação e reconhecimento como classe, é importante romper com as diferenças sociais (criadas pelas classes dominantes) em um grupo de 20 pessoas, onde todas elas vendem ou venderam a força de trabalho, ou são explorados de alguma forma. Este momento é importante para criação de uma identidade coletiva, como classe subalterna e, assim, favorecer a construção de uma vontade coletiva, termo analisado por Gramsci (COUTINHO, 2009).

Ainda relacionado às condições materiais de existência, é necessário entender a questão da conjuntura.

No documento Andre Alexey Polidoro.pdf - Univali (páginas 62-65)