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Funções da roda de chimarrão

No documento Andre Alexey Polidoro.pdf - Univali (páginas 55-58)

temas e se encontravam novamente na nona reunião, na qual a part 4 responde e comprova que não estava bem mesmo.

Todas as rodas de chimarrão contaram com mais de uma cuia, sem ser necessário que eu sugerisse levá-las, tendo até quatro cuias na mesma reunião, todas compartilhadas de maneira não tanto organizada. Ao mesmo tempo, e também sem a sugestão de minha parte, eram trazidos biscoitos, tortas, bolos, salgados e outras bebidas, sendo que dois participantes não apreciavam a bebida típica, preferindo chás, cafés e refrigerantes.

As conversas que aconteceram nessas rodas foram ouvidas, transcritas e lidas diversas vezes e, ao terem gerado quase vinte horas de gravação, proporcionaram grande número de dados, que a princípio, como já exposto, foram agrupados nas próximas seis categorias

partilha e sociabilidade, entendendo este elemento como objeto de coletivos, não apenas de indivíduos.

A part 2, proveniente do Rio Grande do Sul, aproveitava esses momentos para relatar, por mais de uma vez, os benefícios do uso da erva em si. Em um dos momentos de apologia do uso do chimarrão, a paciente pede para o animador ler os benefícios da erva, sendo que a mesma havia trazido um recorte de uma caixa de chimarrão, na qual se lia:

“estimulante da atividade física e mental, diminui o colesterol e o triglicerídeo, tem ação antioxidante capaz de combater o envelhecimento, elimina estados depressivos, facilita a digestão, faz bem ao coração, tem efeitos cosméticos na pele, promove sensação de bem estar e vigor, estimula a circulação, regulas as funções sexuais, previne doença de Parkinson, ajuda na prevenção de diabetes e no combate a celulite”.

Ao falar das funções sexuais, a part 1 exclama:

“Opa!”.

Mas, mesmo assim, a part 2 também destacava a qualidade da aproximação das pessoas entre si, como entendido por Boguszevski (2007).

“O que faz bem! Um monte de coisas. Mais ainda a gente se reunir, né?”.

Os sentimentos de amizade foram nítidos também na frase já citada da part 24 à part 4, em um momento que esta última expressava fisicamente que não estava bem, confirmando o exposto por Boguszevski (2007).

Essa possibilidade de surgimento de apoio, ou rede de apoio, está em concordância com fundamentos da educação popular, como o apoio social no território, estratégia para enfrentamento dos problemas de saúde-doença e que se estruturam mediante relações solidárias entre os participantes, com efeitos favoráveis para todos os envolvidos, tanto os que oferecem ou os que recebem o apoio, fortalecendo a compreensão da interdependência entre as pessoas para construção de relações integrais de cuidado (GOMES; MERHY, 2011).

“Nessa perspectiva, o apoio social se desenvolveria e se potencializaria por meio da articulação em uma rede social, que se configura como uma teia que agrega e conecta os indivíduos; uma

teia de vínculos sociais que permite uma circulação dos recursos tangíveis e intangíveis mobilizados pelo apoio social. Esse apoio desenvolvido em redes de solidariedade possibilitaria o fortalecimento da singularidade dos sujeitos e os tensionaria a serem portadores de projetos para a própria vida, além de que reforçaria laços que criam uma sensação de pertencimento coletivo, melhorando sua saúde de modo integral em âmbito individual e coletivo” (GOMES; MERHY, 2011, p. 15).

A part 2 também diz que:

“A gente aprende muito”.

Esta fala é de extrema importância, visto ser uma atividade que faz uso das ferramentas da educação popular, que parte da realidade concreta dos educandos e na qual o saber é coletivamente construído. A atividade difere de tudo o que eu havia conhecido sobre educação na minha formação acadêmica como médico e, portanto, verificar a ocorrência deste aprendizado pronunciado pelos educandos é reconhecer a eficácia das práticas pedagógicas ativas e do “método” de Paulo Freire. Ressalto, ainda, a ênfase dada por Noernberg (2012) ao fato de que o consumo de chimarrão em grupo possui potencial para percepção de novas formas de si mesmo e do mundo. A part 2 também atribui, durante as reuniões uma mudança no part 9, dizendo que o mesmo estava irreconhecível na última reunião. A mesma refere que, a princípio, via raiva e angústia no participante e que agora ele estava rindo, descontraído, comunicativo. O part 9 concorda com a crítica. Assim, concordo com Santos, et al (2006), que entende os vários benefícios possíveis de um grupo de promoção à saúde e entende que o mesmo não garante a mudança de comportamentos. Eu poderia muito bem ter respondido à part 2 que os participantes ensinaram muito, não apenas aprenderam.

Ao longo das conversas, outras falas também refletiram o benefício percebido pelos participantes em participar da roda de chimarrão, como possibilidade de reflexão, apoio, suporte, desabafo, alegria e capacidade de “tirar o peso”. A fala da participante faz refletir, não somente, sobre a importância da roda de chimarrão, ressaltada por Noernberg (2012) que entendeu as questões sociais relacionadas a sua prática, mas traz o questionamento sobre que tipo de peso os moradores daquele bairro estavam carregando. É possível perceber essa reflexão, sobre “tirar o peso”, como a presença de peso não sobre um indivíduo, mas sobre um grupo

social, sobre o coletivo de moradores daquele local e, como descrito anteriormente, possivelmente os participantes encontraram na roda de chimarrão uma forma de lazer em um local hostil, com restritas opções de entretenimento. Vivendo vidas de restrições e de lutas diárias, em um mundo onde “ninguém tem tempo” (part 28), a roda de chimarrão foi uma maneira de integração desses subalternos, em torno de um elemento de sua cultura, observando a necessidade e importância do elemento cultural na emancipação dos subalternos (SIMIONATTO, 2009).

No documento Andre Alexey Polidoro.pdf - Univali (páginas 55-58)