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Saúde como resistência

No documento Andre Alexey Polidoro.pdf - Univali (páginas 58-62)

social, sobre o coletivo de moradores daquele local e, como descrito anteriormente, possivelmente os participantes encontraram na roda de chimarrão uma forma de lazer em um local hostil, com restritas opções de entretenimento. Vivendo vidas de restrições e de lutas diárias, em um mundo onde “ninguém tem tempo” (part 28), a roda de chimarrão foi uma maneira de integração desses subalternos, em torno de um elemento de sua cultura, observando a necessidade e importância do elemento cultural na emancipação dos subalternos (SIMIONATTO, 2009).

parágrafo do mesmo tema da conferência, que continha o que era decorrente de um conceito ampliado de saúde:

“[...] trabalho em condições dignas, com amplo conhecimento dos trabalhadores sobre o processo e o ambiente de trabalho;

alimentação para todos segundo as suas necessidades; moradia higiênica e digna; educação e informação plenas; qualidade adequada do meio-ambiente; transporte seguro e acessível; repouso, lazer e segurança; participação da população na organização, gestão e controle dos serviços e ações de saúde; direito à liberdade, à livre organização e expressão; acesso universal e igualitário aos serviços setoriais em todos os níveis” (CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE, 1986, p.5).

Assim, os pacientes começaram a trazer relatos de acordo com o que liam no texto da conferência e que acrescentava a todos no entendimento do processo saúde-doença como fenômeno coletivo e fato social. A part 4, por exemplo, fala sobre suas dificuldades para estudar.

Hoje em dia é uma bênção isso aí, porque eu ia longe estudar com aqueles tamanco de pau ainda, né, aí chovia, ficava liso, escorregava e caía tudo. E meu pai me pôs na aula muito véia, já. Já tinha quase 15 anos, depois das férias de julho.

Passei pro segundo ano no fim do ano, no primeiro lugar. Fui 2 anos; não cheguei bem 2 anos, já meu pai me tirou da aula porque disse que mulher não precisava estudar muito porque depois ia começar a escrever cartinha (Risos). Tinha que aprender a escrever 1 kilo de sal, 1 kilo de açúcar (Risos), as coisas que precisava pra ir comprar ou mandar alguém comprar e escrever aquilo”.

A fala mostrou os desafios pelos quais passou e passa a part 4. Muitas outras falas corroborariam para mostrar como a vida dos participantes foi preenchida de dificuldades e vitórias, mostrando a resiliência dos mesmos diante das dificuldades.

É necessário destacar a presença de risos dos participantes em momentos tristes e até mesmo emocionantes, enquanto eu passava por momentos de espanto com as falas. A risada e a brincadeira são formas que aqueles participantes encontraram para tentar se defender contra as adversidades, o que será observado novamente logo a diante. Ao mesmo tempo, é necessário refletir sobre o motivou de eu estranhar a reação dessas outras pessoas, por serem reações diferentes daquelas que eu julgava serem as reações normais, pela minha vivência e experiências completamente diferentes. Assim, nesse momento e em alguns outros, eu cometo um pré-julgamento acerca daquelas pessoas, porém, acredito que esses deslizes

são observados na prática dialogal, e nesse diálogo entre iguais há possibilidade do aprendizado com as pessoas e da compreensão de outras realidades e de outras formas de pensar essa realidade.

A própria busca de atendimento em saúde mostrou-se como uma tarefa difícil para participantes que dependeram constantemente da saúde pública. A part 28 conta:

“Eu precisava ir no médico quando eu morava em Itapiranga e nós tinha que ir em são Miguel do Oeste. Pra ir no médico, só pra você ter uma ideia: sessenta, setenta quilómetros, pra ir no médico. Aí, o que que nós tinha que fazer porque não tinha outro recurso? [...] ou, então, a gente pagava um cara pra levar a gente, ou, então, nós ia de tardezinha, pousamo na frente do posto até vir o guarda, quatro horas da manhã, entregar as fichas pra nós, pras as oito, nove horas, ser atendido.

A noite toda a gente passou lá.

Portanto, não sou ingênuo quanto às limitações que o SUS apresenta, nem as nego, porém a defesa que faço do SUS significa defender o direito desses indivíduos que precisam diariamente que o sistema universal e gratuito seja eficaz e, de fato, universal.

Quanto à questão da moradia, eu já havia tomado conhecimento das más condições de moradia de várias famílias e das dificuldades com a regularização dos terrenos. Mas, houve uma questão que me surpreendeu. Enquanto se falava da Figura 1, que mostra uma casa velha (conforme descrição da part 4), a part 1 diz que gostaria de ter morado em um local assim em 2008. Os outros participantes respondem com novos risos, enquanto eu continuava sem entender o comentário. A part 1 se explica:

“Na enchente [...] Aqui na rua deu mais de 1 metro de água em 2008, não tinha o asfalto ainda, só o chão batido”.

A part 2 e o part 7 complementam, respectivamente:

“Na casa onde eu morava, entrava água pela janela”.

“Agonia quando vê 3 dias de chuva. Quando chove 3 dias, já lembra da enchente”.

Surgem mais palavras como desespero, trauma e horror. Alguns choram ao lembrar. Há um momento de comoção. A part 5 diz que só pensava em ir embora.

Havia sido uma experiência pela qual todos os que estavam naquela reunião passaram. Destaco mais algumas falas da part 1 e do part 7, respectivamente. “[...]

Agora tu tá ali, sair como a gente saiu, com os filhos. A gente saiu com os filhos na garupa, porque não dava pé para os nossos filhos”.

“[...] e tem uma coisa pior também: foi no outro dia, quando a gente retornou:

tudo destruído. Tudo destruído, não tinha nada! A gente não tinha nem o que comer.

Casualmente, eu tinha pendurado um cacho de banana e ficou pendurado. Não molhou. Porque a gente só se amontoou, não dava pra sair comprar nada, ainda tava cheio de água aqui, não tinha nem o que comer. Não tinha nem peça de roupa”.

As palavras do part 7 vem de um pai de família que, na época, tinha esposa e filhos de 11 e 8 anos.

Assim, um novo conceito de saúde surge. Bem-estar é pouco. Ausência de doenças é alienante. Condições de vida interferindo diretamente na saúde, na vida, na felicidade de pessoas cujas condições materiais forjaram a capacidade de resistir. Capacidade de olhar a luta com resiliência, entendendo que as lutas e as adversidades fazem e sempre fizeram parte do modo de vida desse grupo de pessoas, possibilitando o seguinte relato, ainda sobre o mesmo tema, por parte da part 5:

“Mas tem um lado bom. A minha filha me disse: ‘mãe, estou muito feliz porque andei de barco hoje’”.

Não é de se estranhar que a part 5 seja, hoje, uma liderança no bairro, e sua filha, campeã de tae kwon do.

Surgiram ainda outras falas que indicaram a definição de saúde presente naquele local. Para a part 22, a pessoa precisa “ser insistente para conseguir as coisas”. Para a part 13, o correto é “não se deixar levar pelos problemas”. A part 4

entende que as pessoas precisam se controlar, pois “é claro que eu não vou ficar chorando pros canto [...]. Eu acho que a gente tem que se controlar”.

Desta maneira, foi se desvelando a definição de saúde antes pronunciada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, “a capacidade de lutar contra tudo o que nos oprime” (ROCHA, 2010, p. 5). Diante destas dificuldades, a proposta do part 17 é que os participantes da roda e as pessoas que passam por dificuldades não devem se encolher. O fato de “não se encolher” traz a necessidade dos subalternos de romper com a influência da classe dominante, conquistando consciência de si e contrapondo-se em termos de visão de mundo (ABREU, 1995). Para o mesmo autor, os subalternos adquirem consciência das condições de existência e vontade de transformá-las durante a luta contra a exploração. Isto leva à terceira categoria.

No documento Andre Alexey Polidoro.pdf - Univali (páginas 58-62)