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Diante do exposto, podemos dar uma resposta à pergunta:

Somos tão irracionais como alguns achados neurocientíficos apontam?

Não. A “racionalidade” pode ser entendida ainda como a capacidade de agir segundo “razões” e “motivos”. Exercer esta habilidade pressupõe a existência de estruturas neuronais (localizadas na sua maioria no neocórtex) que nos habilita a viver em sociedade − uma tarefa nada simples, haja vista que nossa natureza nos “força” a mentir, enganar, cooperar, competir, sempre tendo como fim alcançar um objetivo específico.

Porém, possuímos racionalidade restrita (CHERNIAK, 1986;

DE SOUSA, 2009). Ao viver em sociedade, temos que ter a habilidade de detectar mentiras e a confiabilidade das asserções de nossos pares para definir a melhor estratégia de ação, dada a informação disponível no meio. Isto é ser racional e, é o máximo a que podemos chegar; agir racionalmente significa agir segundo razões que sirvam de suporte para alcançar um fim. Se as crenças que suportam a decisão não são as mais adequadas é um assunto que demanda outra discussão.

A posse de estruturas neuronais nos habilita a agir segundo razões.

Não é a base neuronal que causa nossa ação, esta última é apenas a estrutura necessária subjacente que processa estímulos físico-químicos captados no meio. É a interação do agente com o meio social que o faz definir estratégias de ação segundo estados de coisas no meio ambiente imediato.

A neuroquímica e a genética, embora possam impor limitações àqueles que possuem anomalias, não impedem a interação social por completo. O agente incapaz de executar alguma tarefa certamente se mostra capaz de

realizar outras. Phineas Gage, embora tivesse o cérebro danificado, ainda tinha a habilidade de interagir socialmente e conseguia controlar alguns impulsos, demonstrando certo autocontrole.16 Reconhecer a verdade ou falsidades das asserções pressupõe a posse de faculdades racionais, isto é, uma racionalidade mínima.

Além disso, parece irreversível o caminho de estudar o comportamento humano segundo a neurobiologia e a neurociência ao lado das ciências sociais, a fim de fornecer uma explicação racional, sólida e completa da natureza humana. Entretanto, os atuais achados neurocientíficos ainda são insuficientes e escassos e, não servem de suporte para argumentar em favor da ausência de racionalidade e consciência.

Não há a intenção de negar ab initio a possibilidade da confirmação das hipóteses propostas pelas neurociências. Contudo, é preciso reconhecer que há um agente racional capaz de reconhecer a verdade ou a falsidade de certas asserções. Além disso, o modo como alguns neurocientistas argumentam, usando instrumentação, técnicas e protocolos experimentais rudimentares e limitados, não convence. Como uma ciência recente, a neurociência requer ainda discussão crítica sobre seus fundamentos, uma verdadeira “filosofia da neurociência” que discuta epistemologia, metodologia e ontologia, a fim de garantir o estudo e as conclusões que se seguem dos achados. O argumento científico é, em última instância, um argumento racional, e neurocientistas tentam nos convencer por meio do oferecimento de razões e motivos.

A normatividade das regras não é uma fortaleza, pois agentes supostamente racionais desviam frequentemente das normas estabelecidas, cometendo erros e desvios normativos. Mas, este fato não parece implicar em irracionalidade irrestrita. Pelo contrário, há alguém no comando, há uma racionalidade restrita, pois mesmo aqueles neurocientistas que visam reduzir a racionalidade à neurobiologia decidiram argumentar em favor de suas hipóteses na base da argumentação racional, e este procedimento pressupõe uma racionalidade mínima, o que é a demonstração cabal de que há alguém no controle, capaz de avaliar as razões e motivos expressos por meio da linguagem.

16 Após o acidente, Gage passou a ganhar a vida expondo seu acidente em apresentações públicas e como motorista de carruagens até morrer, treze anos depois do acidente. Pelo que consta, sua morte foi causada por complicações resultantes de convulsões epiléticas.

Em suma, Hempel (1962) tem razão: “[O] homem é de fato um ser racional: ele pode fornecer razões para qualquer coisa que ele faça”, e Aristóteles, mutatis mutantis, ainda está certo: a racionalidade é a marca definidora da natureza humana.

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Gerson Tavares do Carmo Karine Castelano Jean Pierre Couto Lessa

Este ensaio é dedicado à ilustre professora Ruth Chaves.1 In memorian Este ensaio analisa o livro de poesias Por que o galo não canta?, de Max Vieira (1990), com o objetivo de refletir sobre as cidades pequenas a partir de um paradoxo comum, típico delas, que oscila entre a crítica à história de sua origem e o ideal comunitário latente. Tendo a poesia de Max Vieira e o município de Cantagalo como referências, iremos conduzir nosso texto de modo a discutir a poesia como forma de crítica social e a cidade pequena como lugar privilegiado para o exercício de uma sociabilidade contrafactual. Usamos dois recursos metodológicos: (i) a comparação com o objetivo de problematizar a hegemonia da cidade grande em relação à cidade pequena; e (ii) o dispositivo de análise dos espaços mentais para capturar os sentidos dos poemas de Max Vieira.

Inicialmente apresentaremos algumas informações de modo a conferir ao leitor condições de situar-se nas ideias que desenvolveremos, considerando que a temática da cidade pequena não é objeto de importância na investigação acadêmica. Dar visibilidade a outros aspectos/modos de ver as cidades pequenas, tidas invariavelmente como sinônimo de atraso, pitoresco, lugares que nada têm de atrativo ou “empolgante”, é por onde

1 Ruth Maria Chaves nasceu a 2 de abril de 1934 em Belém do Pará. Formada em Letras Neo-latinas e Biblioteconomia. Publicou "Roda Pião", poesia, edição do Jornal de Letras em 1956, exerceu o magistério na Faculdade de Filosofia de Campos, onde passou a residir, lecionando Língua Portuguesa. Professora convidada da Universidade Estadual do Norte Fluminense de 1993 a 2003, ministrando a disciplina Linguagem Poética.

o presente ensaio encontra sua justificativa.