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Julio Esteves

1) INTRODUÇÃO

Há já algum tempo, em aulas ministradas em cursos de pós-graduação, venho me ocupando com temas concernentes à bioética, como o problema do aborto, da eutanásia, do uso de seres humanos para experimentação de novas técnicas médicas e medicamentos, etc. Infelizmente, pelo menos até o presente momento, das discussões ocorridas durante essas aulas e das reflexões que se seguiram a elas não resultaram registros escritos e publicados. Eu gostaria de aproveitar essa oportunidade para começar a reverter esse quadro, apresentando aqui algumas reflexões introdutórias sobre a questão da eutanásia, uma das mais pungentes e debatidas na atualidade.

Ela vem despertando crescente interesse não apenas no mundo acadêmico, mas também no público em geral, o que pode ser evidenciado pelas recentes produções cinematográficas que tocam no tema, como, por exemplo, o filme espanhol “Mar Adentro”, a produção americana “Menina de Ouro”

e, mais recentemente, o filme italiano “Bela Adormecida”. Como já deixei indicado no próprio título, meu objetivo neste texto é introduzir o leitor na discussão do tema. Mais especificamente, meu objetivo é introduzir o leitor no que considero os marcos conceituais fundamentais em que a questão da permissibilidade moral da eutanásia deveria ser discutida. Desse modo, não me ocuparei aqui dos aspectos jurídicos ou legais relativos ao tema.

considerados como resultantes do aparecimento ou desenvolvimento de novas e às vezes até mesmo revolucionárias técnicas e aparelhos no interior das ciências biomédicas. Assim, por exemplo, máquinas de diálise e aparelhos mantenedoras da vida em estado vegetativo, assim como transplantes de órgãos, abriram a possibilidade de manter vivos pacientes que teriam morrido prematuramente, tempos atrás. Isso coloca o problema de se determinar até que ponto vale a pena ou seria correto manter artificialmente uma vida, até mesmo porque isso no mais das vezes envolve um altíssimo custo, tanto financeiro quanto emocional, para a sociedade, parentes e para o próprio paciente. Por sua vez, técnicas de fertilização in vitro, de inseminação artificial e a possibilidade de uso de “barrigas de aluguel” colocaram questões sobre relações de parentesco antes sequer imaginadas. A descoberta das células-tronco trouxe também à luz questões espinhosas relacionadas ao direito de se procederem a experimentos com seres humanos e de se fazer uso de alguns deles com a finalidade de salvar a vida de outros. O aparecimento dos modernos contraceptivos, do exame pré-natal e a disponibilidade de métodos de aborto seguros propiciaram às mulheres e aos casais possibilidades de escolha e de planejamento familiar inteiramente inusitados. Diante disso, muitos autores sustentam que esses novos desenvolvimentos tecnológicos na área biomédica teriam levado ao aparecimento de problemas morais também inteiramente novos.

E, em resposta a esses inteiramente novos problemas, teria então surgido uma disciplina inteiramente nova, a bioética, um ramo de investigação na verdade interdisciplinar ou multidisciplinar, congregando contribuições da biologia, da psicologia e ciências médicas em geral, assim como da filosofia propriamente dita.

A bioética seria então uma disciplina híbrida, constituída para tentar dar conta do crescente interesse ligado a questões morais resultantes dos recentes desenvolvimentos tecnológicos na área biomédica. E, com essa nova disciplina, surgiram também os respectivos novos especialistas, os quais muitas vezes se esquecem de que a bioética, malgrado a sua especificidade e perfil necessariamente interdisciplinar, não deixa de ser uma subdisciplina da ética, uma subárea da filosofia detentora de uma longa e respeitável história. Como resultado disso, vemos frequentemente os autores da bioética contemporânea simplesmente ignorando a tradição ou, no pior dos casos, deliberadamente rejeitando-a como inútil para lidar com problemas supostamente novos. Diante disso, gostaria de mostrar que os problemas da bioética não são inteiramente novos, na verdade, mais exatamente, que não pode haver problemas morais inteiramente

novos. Se isso estiver correto, então poderemos esperar obter da tradição filosófica em ética uma contribuição importante e substantiva para a discussão dos problemas morais que encaramos na atualidade.

Considerados em si e por si, desenvolvimentos tecnológicos são incapazes de colocar problemas morais. Para compreender esse ponto, façamos uma comparação entre diferentes exemplos de avanço ou desenvolvimento tecnológico. Assim, por exemplo, recentemente, os japoneses apresentaram ao mundo o i-sodog, um cãozinho-robot de brinquedo que imita muitos dos movimentos de um cão natural. Temos aqui um exemplo de um novo e inusitado desenvolvimento tecnológico, que, contudo, não gera nenhum problema moral. Em contraposição a isso, a recente descoberta das células-tronco, que levou ao desenvolvimento de técnicas de recuperação de tecidos danificados nelas baseadas, criou um problema moral. Pois, em muitos casos, a própria pesquisa com esse tipo de células implica na destruição de embriões humanos. Ora, se o i-sodog e as técnicas baseadas em células-tronco são igualmente exemplos de novos desenvolvimentos tecnológicos, por que somente o segundo gera novos problemas morais? Isso porque as pesquisas com células-tronco tocam num velho problema, a saber, o de determinar os limites em que podemos usar seres humanos como simples meios, o velho problema do respeito à vida humana. E, na verdade, todos os “novos” problemas tratados pela bioética não passam de velhos problemas que aparecem sob uma nova roupagem, muito embora, sem dúvida alguma, muitas vezes, sob uma roupagem bem mais dramática. De fato, a questão da clonagem de seres humanos, da experimentação e pesquisas médicas envolvendo seres humanos, do aborto, da eutanásia, etc., giram em torno da antiga pergunta pelos limites no interior dos quais nós é lícito dispor da vida dos seres humanos, tanto na nossa própria pessoa quanto na de terceiros. Mesmo que se queira incluir no escopo dos temas tratados pela bioética também o problema dos direitos dos animais e os problemas da assim chamada ética ambiental, chegamos ao mesmo resultado. Pois o que está em questão nesses casos é se devemos estender para outros seres na natureza ou à própria natureza como um todo o respeito que desde sempre atribuímos aos seres humanos e que deveria impor limites ao uso que fazemos de seres distintos de nós. Enfim, o que quero dizer é que não descobrimos esses supostamente “novos” problemas morais como algo dado pelos novos desenvolvimentos tecnológicos em si e por si mesmos. Na verdade, esses supostamente “novos” problemas morais só surgem para nós como tais porque ou na medida em que os novos desenvolvimentos tecnológicos

nas ciências biomédicas são avaliados por nós à luz de princípios morais de que já dispomos a priori e independentemente do próprio progresso e desenvolvimento tecnológico. Dito de outro modo, não é da experiência com esses novos desenvolvimentos tecnológicos nas ciências biomédicas que retiramos o conhecimento desses supostamente “novos” problemas morais, mas da avaliação daqueles desenvolvimentos à luz de princípios de que já dispomos a priori, anteriormente, em sentido lógico, ao próprio progresso tecnológico. Eis por que eu afirmei acima que não pode haver problemas morais inteiramente novos: nós simplesmente seríamos incapazes de tomar conhecimento deles a partir do exame da realidade, se não dispuséssemos a priori de princípios morais à luz dos quais avaliamos o que é dado na realidade. Pois, como afirma Ewing (1965, p. 9),1

[...] there seems to be no possibility of validly deducing ethical propositions by some sort of logical argument from the nature of reality without first assuming some ethical propositions to be true.

Ora, se não se trata propriamente de problemas morais inteiramente novos, mas de velhos e tradicionais problemas sob uma nova roupagem, então é lícito poder esperar obter da tradição filosófica alguma orientação relevante para dar conta dos mesmos. Assim, por exemplo, no que tange à questão da eutanásia, um dos temas mais pungentes da bioética, se pudermos evidenciar que ela pode ser tratada como um caso particular de um velho e bem conhecido problema moral, a saber, o problema do suicídio em sentido usual, será razoável abordá-la tendo por base uma longa e respeitável tradição de filósofos e pensadores que dele se ocuparam, como Platão e Aristóteles, passando por Cícero, Agostinho e Tomás de Aquino, incluindo David Hume, Immanuel Kant e Arthur Schopenhauer, e, mais contemporaneamente, Martin Heidegger, Albert Camus e Thomas Nagel, entre muitos outros. Na verdade, como observa Michael Cholbi2, em concordância com o que escrevi acima, é mesmo

1 Tradução minha: “Parece não haver nenhuma possibilidade de validamente deduzir proposições morais a partir da realidade, por alguma espécie de argumento lógico, sem a suposição prévia de que algumas proposições morais são verdadeiras”.

2 “However, many of the same issues and concerns that surround PAS and

lamentável que os autores da bioética contemporânea que se ocupam com a questão da eutanásia tenham ignorado o que a tradição filosófica tem a dizer sobre o suicídio em sentido usual.

3) A EUTANÁSIA COMO UMA ESPÉCIE DE SUICÍDIO