rigorosamente recíproca s e complementares, de uma mesma realidade: uma não pode ser pensada sem a outra e toda reflexão sobre uma desemboca imediatamente na consideração da outra (p. 14).
Freire (1996) entende que a educação é uma forma de intervenção no mundo e afirma que:
[...] como experiência especificamente humana, a educação é uma forma de intervenção no mundo.
Intervenção que além do conhecimento dos conteúdos bem ou mal ensinados e/ou aprendidos implica tanto o esforço da reprodução da ideologia dominante quanto o seu desmascaramento (p. 98).
Para Morin (2000, p. 61) “[...] a educação deveria mostrar e ilustrar o Destino multifacetado do humano: o destino da espécie humana, o destino individual, o destino social, o destino histórico, todos entrelaçados e inseparáveis”.
Nesta ótica, Oliveira (2009) acrescenta que a educação é o desenvolvimento de potencialidades e apropriação do “saber social”
(conjunto de conhecimentos e habilidades, atitudes e valores que são produzidos pelas classes, em uma situação histórica dada de relações para dar conta de seus interesses e necessidades) objetivando a formação integral do homem, ou seja, o seu desenvolvimento físico, político, social, cultural, filosófico, profissional, afetivo, entre outros. Para o autor esta concepção de educação fundamenta-se numa perspectiva crítica que o homem na sua totalidade, como ser constituído pelo biológico, material, afetivo, estético e lúdico. “Portanto, no desenvolvimento das práticas educacionais, é preciso ter em mente que os sujeitos dos processos educativos são os homens e suas múltiplas e históricas necessidades”.
(OLIVEIRA, 2009, p. 245).
requer uma estruturação de objetivos, conteúdos, métodos e formas de organização do ensino, tendo em vista a assimilação de conhecimentos, e de desenvolvimento de capacidades cognitivas, havendo, portanto uma relação recíproca entre as atividades de ensino e as atividades de aprendizagem. Para o autor, na maioria das escolas brasileiras, ainda hoje, o processo de ensinamento se faz pelo método tradicional, com a transmissão das matérias aos alunos, memorização de fórmulas e definições e exercícios repetitivos, cabendo aos alunos à tarefa de escutar, responder e reproduzir aos ensinamentos do professor e do livro didático. Neste caso o elemento ativo é o professor que fala e interpreta o conteúdo. Ao livro didático é dada extrema importância às matérias, sem a preocupação de significados para o aluno, sem a preocupação da associação com conhecimentos prévios do aluno. E acrescenta que:
O ensino deve ser mais do que isso. Compreende ações conjuntas do professor e dos alunos pelas quais estes são estimulados a assimilar, consciente e ativa mente, os conteúdos e os métodos, de assimilá-los com suas forças intelectuais próprias, bem como aplicá-los, de forma independente e criativa, nas várias situações escolares e na vida prática (p. 78).
O processo de ensino deve, então, ser baseado na compreensão de que o processo de aprendizagem consiste em como as pessoas aprendem e quais os fatores internos e externos que as influenciam. Vivemos em processo de aprendizagem desde que nascemos e continuamos a aprender por toda a nossa vida. Libâneo (2004) distingue como sendo duas as formas de aprendizagem: a aprendizagem casual e a aprendizagem organizada.
Segundo ele, a aprendizagem casual é espontânea, surge da interação entre as pessoas e com o ambiente em que vivem, ou seja, por meio da convivência social, pela observação de objetos e conhecimentos, pelo contato com meios de comunicação, leitura, conversas, entre outros, e assim, as pessoas vão acumulando experiências, conhecimentos, formando atitudes e convicções.
Já a aprendizagem organizada tem finalidade específica de aprender determinados conhecimentos, habilidades, normas de convivência social e é na escola que são organizadas as condições específicas para a transmissão desses conhecimentos e habilidades. “Esta organização intencional, planejada e sistemática das finalidades e condições da aprendizagem escolar é tarefa específica do ensino” (LIBÂNEO, 2004, p. 82).
De acordo com as considerações de Libâneo (2004), o processo de ensino constitui-se de um sistema articulado dos seguintes componente:
objetivos, conteúdos, métodos, incluindo meios e formas organizativas, e condições, e é através do seu desenvolvimento que se assegura a assimilação ativa dos conhecimentos e habilidades e do desenvolvimento das capacidades cognitivas. Neste processo nenhum dos componentes pode ser considerado isoladamente.
Na construção do conhecimento são reconhecidos dois níveis de aprendizagem humana: o reflexivo e o cognitivo. O nível reflexivo,
“[...] se refere as nossas sensações pelas quais desenvolvemos processos de observação e percepção das coisas e nossas ações motoras (físicas) no ambiente”. (LIBÂNEO, 2004, p. 84). Este nível de aprendizagem é obtido de forma automática e inconsciente e ocorre durante toda a vida. A reflexão ou o pensamento reflexivo, segundo Leitão (2007),
[...] designa um processo auto regulador do pensamento, processo este que se constitui quando o indivíduo toma suas próprias concepções sobre fenômenos do mundo (conhecimento) como objeto de pensa mento e considera as bases em que estas se apoiam e os limites que as restringem (p. 454).
Piaget e Vygotsky (apud LEITÃO, 2007) exerceram grande influência no último século sobre a psicologia do desenvolvimento humano, e viram a reflexão como um processo ligado a for mas argumentativas de comunicação.
O nível cognitivo, associado ao nível reflexivo, se refere à aprendizagem de conhecimentos e operações mentais, por meio da apreensão consciente, compreensão das propriedades e relações essenciais da realidade, como também da aquisição de modos de ação e aplicação dessas propriedades e relações. Neste sentido, Libâneo (2004) argumenta que:
No nível cognitivo, os indivíduos aprendem tanto em contato direto com as coisas no ambiente quanto com as palavras que designam coisa s e fenômenos do ambiente. Isso significa que, como instrumento de linguagem, as palavras constituem importante condição para a aprendizagem, pois formam a base dos conceitos com os quais podemos pensar (p. 85).
Para Papalia (2008), o desenvolvimento do ser humano ocorre durante toda a sua vida e cada período tem suas próprias características sendo que nenhum é mais ou menos importante do que o outro. Cada pessoa se desenvolve dentro de um conjunto específico de circunstância ou condições definidas por tempo e lugar que influenciam o seu próprio contexto histórico e social e são influenciados por eles, não apenas respondendo a ambientes físicos e sociais, mas também interagindo com eles e os mudando. E acrescenta ainda que:
As crianças crescem sobre tudo em uma direção – para cima – tanto em tamanho como em habilidades. Na idade adulta, o equilíbrio muda gradualmente. Algumas capacidades, como vocabulário, continuam aumentando;
outras como a capacidade de resolver problemas desconhecidos, podem diminuir; alguns novos atributos, como perícia, podem aparecer (p. 49).
Portanto, o ser humano encontra-se constantemente em transformação, agregando valores e conhecimentos na sua trajetória de vida; diferenças significativas podem ser percebidas em cada uma das fases de seu desenvolvimento; quando crianças apresentam maior grau de dependência dos pais, familiares e professores; na adolescência, já com certo grau de independência, buscam a autoafirmação e identidade nos aspectos pessoal, sexual e profissional; na fase adulta, já independente, responsável por suas ações, buscam basicamente reconhecimento social, profissional e autorrealização; na velhice, ocorre maior grau de dependência de familiares, preocupação com doenças, perdas, dificuldades motoras, entre outros. Sobre isso Paplia (2008) ainda acrescenta que: “As sociedades do mundo inteiro reconhecem diferenças no modo como pessoas de diferentes idades pensam, sentem e agem” (p. 51).
Na concepção de Piaget (1976) o desenvolvimento mental se faz em estágios sucessivos e integrativos, seguindo uma cronologia de idades que se completa por volta dos 15 anos atingindo o estágio formal, o ponto máximo do desenvolvimento da inteligência. Segundo ele,
O desenvolvimento psíquico, que começa quando nascemos e termina na idade adulta, é comparável ao crescimento orgânico: como este, orienta-se, essencialmente, para o equilíbrio. Da mesma maneira que
o corpo está em evolução até atingir um nível relativamente estável – caracterizado pela conclusão do crescimento e pela maturidade dos órgãos –, também a vida pode ser concebida como evoluindo na direção de uma forma de equilíbrio final, representada pelo espírito adulto (p. 11).
Quanto ao desenvolvimento e à aprendizagem, Vygotsky (1989), diferentemente de Piaget, considera que a aprendizagem não é em si mesma desenvolvimento, mas que uma correta organização da aprendizagem leva ao desenvolvimento mental. Aprendizagem e desenvolvimento se inter- relacionam, e a aprendizagem influi no desenvolvimento. Considera ainda três planos de desenvolvimento: nível de desenvolvimento real (em que o indivíduo se encontra); nível de desenvolvimento potencial (acionado com o auxílio de alguém); e zona de desenvolvimento proximal (função em processo de maturação que vão chegar ao nível real). E compreende as interações sociais como espaço privilegiado de construção de sentidos e da linguagem.
No processo de ensino e aprendizagem a relação interpessoal professor-aluno é um fator determinante. Tanto o aluno como o professor são agentes concretos, históricos, que trazem consigo suas próprias bagagem que o meio lhes ofereceu até então, num processo de desenvolvimento contínuo e permanente. Na metodologia tradicional, o professor transmite a informação aos alunos, é, portanto, centrada no professor, unilateral. Ao contrário, numa metodologia ativa, o professor é o mediador da aprendizagem, há uma reciprocidade na comunicação entre o professor e o aluno.
A metodologia é um elemento da ação pedagógica de grande relevância neste processo. O “como aprender” tão importante quando “o que se aprende”. No entanto, para Libâneo (2004), a maioria das escolas brasileiras prioriza “o que” e não “como” se aprende, enfatiza mais os produtos do que os processos de aprendizagem. A forma como o aluno aprende é, por si mesma, um conteúdo importante de aprendizagem. Para se ensinar é preciso ter a preocupação de entender como ocorrem as aprendizagens.