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Constituição do pensamento

No documento Elismar Alves dos Santos (páginas 55-59)

1 Vida e obra

1.1 Constituição do pensamento

Ao completar sessenta e cinco anos de vida, Marciano Vidal recebeu uma homenagem do Instituto Superior de Ciências Morais, de Madrid, que resultou numa monumental obra com diversos temas referentes à Teologia Moral. A obra foi escrita por vários teólogos da moral como tributo à incansável dedicação do teólogo espanhol ao estudo da Teologia Moral. Na primeira parte dessa obra, Marciano Vidal apresenta uma biografia pessoal entrelaçada com a Teologia Moral pós-conciliar. Para abordar a constituição de seu

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pensamento, o próprio autor descreve como foi assimilando e construindo seu pensamento teológico-moral; as influências recebidas da filosofia e da teologia; e a assimilação pessoal das exigências impostas pelo Concílio Vaticano II ao empenho da renovação da Teologia Moral.

Em 1974, Marciano Vidal publicou a primeira edição de sua Moral fundamental.

haviam transcorrido nove anos do término do Vaticano II quando essa obra foi concluída com os traços da inspiração e as exigências da renovação da Teologia Moral Católica assinalada pelo Concílio. No ano de 2000, o teólogo publicou outra obra especificamente de Moral Fundamental: Nova moral fundamental3, agora com insistências sobre os âmbitos axiológicos e espirituais que oferecem a ética cristã de acordo com as éticas seculares. Há mais de trinta anos a dedicação teológico-moral de Marciano Vidal volta-se para a exortação do Concílio Vaticano II, formulada pelo Decreto Optatam totius, n.16:

Tenha-se especial cuidado em aperfeiçoar a teologia moral, cuja exposição científica, nutrida com maior intensidade pela doutrina da Sagrada Escritura, deverá mostrar a excelência da vocação dos fiéis em Cristo e sua obrigação de produzir frutos na caridade para a vida do mundo4.

Diante das inúmeras obras escritas pelo teólogo em mais de trinta anos de trabalho, faz-se necessário observar que há uma divisão em Livros Maiores e Livros Menores5. Os Livros Maiores6, de acordo com o autor, têm como finalidade recorrer às mais valiosas contribuições da tradição teológica, dialogar com os saberes antropológicos do mundo e propor um projeto ético para a realização das pessoas e para a construção de um mundo justo e solidário. Sinteticamente, podem-se resumir os principais traços da Teologia Moral de Marciano Vidal nos seguintes termos: Moral fundamental: destina-se ao estudo das categorias de opção fundamental e de atitudes, à categoria de discernimento ético, à

3 Cf. VIDAL, M. Nueva moral fundamental: el hogar teológico de la ética. Bilbao: Desclée de Brouwer, 2000.

4 COMPÊNDIO DO VATICANO II. Decreto Optatam Totius, n.16.

5 Consideram-se como Livros Menores na estrutura da pesquisa realizada os escritos menos significativos para o desenvolvimento do tema da Moral da Sexualidade, porém importantes para a compreensão do pensamento de Marciano Vidal. O mesmo aplica-se aos artigos publicados pelo autor.

6 Os Livros Maiores estão agrupados em três volumes, a saber: Moral fundamental: Moral de actitudes, v.1;

Moral da pessoa e bioética teológica: Moral de actitudes, v.2 – 1ª parte; Moral do amor e da sexualidade: Moral de actitudes, v.2 – 2ª parte; Moral social: Moral de actitudes, v.3, 1995. A obra Nova moral fundamental (2000) faz parte dos Livros Maiores. Especificamente no campo da Moral da Sexualidade, além da 2ª parte do volume 2 da Moral fundamental, consideram-se como Livros Maiores as obras: Moral do amor e da sexualidade (1972);

Ética da sexualidade (1991); Sexualidade e cristianismo: orientações éticas e perspectivas sobre a homossexualidade (2009). Essa divisão corresponde à finalidade da pesquisa bibliográfica realizada para melhor facilitar a compreensão do pensamento de Marciano Vidal.

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conceitualização de pecado e, de modo especial, do pecado estrutural, e à caridade como síntese da moral cristã.

Em bioética, volta-se para a investigação do valor da vida humana, a eutanásia, as técnicas de reprodução humana assistida, questões fronteiriças como a ética da SIDA (Síndrome de Imunodeficiência Adquirida – Aids) e da clonagem. Em moral sexual, dedica- se aos temas do matrimônio e da família, às relações pré-matrimoniais, à homossexualidade, às pessoas não casadas e ao juízo ético frente às novas formas de família. Na área de moral social, concentra-se no estudo e significado da Doutrina Social da Igreja, à moral pública, aos valores da ética diante do capitalismo, à paz e à guerra, à ética das empresas e à objeção de consciência7.

Os Livros Maiores de Marciano Vidal, desde 1974, dedicam-se a colocar em prática a dimensão da Moral Renovada, como exorta o Concílio Vaticano II. Esse é o motivo da excelente receptividade de suas obras entre professores de Teologia Moral e, sobretudo, entre os estudantes de Teologia Moral espalhados por diversos países e culturas diferentes.

Outro dado importante sobre a constituição do pensamento do teólogo espanhol consiste na renovação e atualização da tradição moral alfonsiana8. Sobre essa particularidade escreve:

Existe na Congregação do Santíssimo Redentor “um profundo e filial compromisso com Santo Afonso Maria de Ligório, guia luminoso dos moralistas”. Seríamos infiéis a nosso dever eclesial se não trabalhássemos por dar à Igreja essa resposta de nossa vocação dentro do trabalho comum do Corpo Místico de Cristo9.

Com a difusão de suas obras em âmbito internacional, exerceu diversos trabalhos em outros países, entre conferências e aulas sobre Teologia Moral, principalmente em alguns países da Europa, América Latina, América do Norte, África (Angola, Congo, Quênia) e Ásia (Coreia do Sul e Japão).

Quanto à pesquisa teológica, lança-se na busca da identidade da Moral Cristã: “o conteúdo do número 22 da Gaudium et Spes tem constituído para meu trabalho teológico um ponto de referência irrenunciável: „Realmente o mistério do homem somente se esclarece no

7 Cf. RUBIO, M.; GARCIA, V.; MIER, V. G.Una biografia personal entrelazada con la Teología moral postconciliar. In: La ética cristiana hoy, p.51-52.

8 Cf. VIDAL, M. Frente al rigorismo moral, benignidad pastoral: Alfonso de Liguori (1696-1787). Madrid:

Editorial Perpetuo Socorro, 1986, p.11-228. O empenho na renovação e atualização da moral de Santo Afonso encontra-se também em alguns artigos escritos por Marciano Vidal.

9 VIDAL, M. Renovación de la teología moral: Congreso de Madrid, 13-16 de octubre de 1965. Pentecostés, Madrid, n.10, p.77, 1966.

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mistério do Verbo Encarnado‟”10. Considera a Revelação Cristã como “horizonte de sentido tão radicalmente novo que origina uma permanente alternativa ética para cada indivíduo, para cada cultura e para toda época histórica”11. A moral cristã como “estilo de vida”, tem como meta a orientação para o “seguimento de Jesus”. Seu pensamento estabelece articulação com as necessidades e exigências da atualidade. Nesse intuito, considerou importantes os acontecimentos históricos que marcaram o século XX e que exigiram confrontação em seu pensar teológico:

O século XX, em sua metade, conheceu a Declaração Universal dos Direitos Humanos. A seu final, se vislumbra outra declaração que ampliou o compromisso moral da humanidade mediante uma Declaração Universal das Obrigações Humanas. Eu desejo que nessa proposta, junto às obrigações que emanam da igualdade e da justiça, sejam incluídas as que devem surgir da solidariedade e fraternidade. Tenho-me ocupado de fundamentar esta opção em um estudo sobre essa nova sensibilidade ética, que considero ao mesmo tempo como virtude pessoal e como princípio ético da vida social12.

Viu-se obrigado a estabelecer um diálogo entre ética cristã e ética civil. No âmbito espanhol, foi um dos primeiros pensadores a propor a importância da educação moral comum para todos, “baseada precisamente nos valores universalmente compartilhados”13. Concebendo a ética civil como riqueza do corpo social e “justificativa da convivência pluralista e democrática”14, considera a ética cristã como “Lei da Graça”, nada interferindo em sua articulação com a ética civil.

Por outro lado, em sua formação como redentorista, reconhece a herança recebida por parte da Moral Casuística, não negando, entretanto, “o valor que teve a moral casuística em ordem à formação dos sacerdotes. Porém o que começou sendo bom, agora já não serve”15. Assim, às “escondidas” lia a monumental obra de Teologia Moral A lei de Cristo, de Bernhard Häring, com a qual se identificou desde cedo. Uma característica de seu pensamento consiste em propor a igualdade ética entre homem e mulher. A esse ato, atribui a educação

10 RUBIO, M.; GARCÍA, V.; MIER, V. G.Una biografia personal entrelazada con la Tología Moral postconciliar. In:La ética cristiana hoy, p.36.

11 RUBIO, M.; GARCÍA, V.; MIER, V. G.Una biografia personal entrelazada con la Teología Moral postconciliar. In: La ética cristiana hoy, p.36.

12 RUBIO, M.; GARCÍA, V.; MIER, V. G.Una biografia personal entrelazada con la Teología Moral postconciliar. In: La ética cristiana hoy, p.37.

13 RUBIO, M.; GARCÍA, V.; MIER, V. G.Una biografia personal entrelazada con la Teología Moral postconciliar. In: La ética cristiana hoy, p.37.

14 RUBIO, M.; GARCÍA, V.; MIER, V. G.Una biografia personal entrelazada con la Teología Moral postconciliar. In: La ética cristiana hoy, p.37.

15 VIDAL, M. Renovación de la teología moral, p.100.

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recebida ainda criança, por meio da “escola mista”, a rica convivência com o sexo feminino e o despertar posterior aos escritos da “ética dos gêneros”16.

Uma crítica que se faz a seus escritos corresponde às inúmeras citações bibliográficas em suas obras. O próprio autor reconhece que cita demasiadamente, porém ressalta que confere pessoalmente todas as citações utilizadas em suas obras. Seu modo de escrever é simples, claro e objetivo. Primeiramente, coloca o “estado da questão”, por isso, sua excelente capacidade de síntese: “creio que minha capacidade de síntese, conjugada com a amplitude do horizonte temático, tem-me favorecido não somente para minhas exposições em classes e em conferências, mas também para haver-me decidido, bem cedo, a fazer um Manual de Teologia Moral”17.

No documento Elismar Alves dos Santos (páginas 55-59)