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Segundo elemento antropológico: os imperativos categóricos

No documento Elismar Alves dos Santos (páginas 175-184)

2 Matriz axiológico-kantiana

2.3 Segundo elemento antropológico: os imperativos categóricos

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tem um objetivo específico: a autonomia não é outra coisa que a emergência do homem como sujeito:

É possível formular uma moral sem sujeito? De nenhum modo. Dizer moral é confirmar a responsabilidade humana. Por isso, a moral cristã não pode projetar-se se não é através da mediação da autonomia. O empenho ético é co-extensivo com o empenho por lograr a autonomia da pessoa67.

A autonomia da realidade humana tem que prolongar-se até sua autonomia ética68. Para Marciano Vidal, à luz da doutrina kantiana o sujeito moral é alguém emancipado:

“tomando como referência comparativa a consequência da maioria da idade e a realidade jurídica da emancipação, Kant entende o rito histórico da ilustração como a passagem da infância à vida adulta e como a conquista da autonomia humana”69. O uso da razão autônoma define a existência e a práxis da emancipação. Explica ainda que a autonomia da razão corresponde a uma condição antropológica e também a implicações políticas, pois “o uso da razão autônoma é força que propicia e exige de modo definitivo a dessacralização das instituições sociais”70. Ou, mais ainda, “essa é, em síntese, o ideal da emancipação humana segundo Kant: o uso da razão autônoma frente à existência pessoal e à vida social. Todo o genuinamente humano fica marcado „dentro dos limites da razão‟. A emancipação consiste no uso antropológico e político da autonomia racional”71.

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O imperativo categórico deixa de ser uma fórmula para atingir a existência concreta da pessoa. Essa é a fórmula básica e mais célebre do imperativo categórico kantiano:

“Age como se a máxima da tua ação se devesse tornar pela tua vontade lei universal da natureza”73. Por outro lado, o segundo imperativo evidencia o caráter antropológico da ética kantiana: “Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio”74. Marciano Vidal destaca que na segunda formulação do imperativo categórico encontra-se a valoração mais fundamental do homem75.

Em seu sistema teológico-moral, esse imperativo torna-se importante: “da consideração de cada pessoa como fim em si mesmo nasce o conceito do „reino dos fins‟76. É no “reino dos fins” onde a pessoa vive a realidade social do comportamento moral. É nesse reino, portanto, que se torna possível a moralidade, como também a realização das pessoas, e

“todos podem pertencer a esse reino”77. Concretamente, o autor considera o reino dos fins em si como o “reino da caridade” e o “reino de Deus” como o lugar da liberdade humana. A relevância antropológica do “reino dos fins” em seu sistema teológico-moral assegura “o princípio básico da humanidade: tratar o „outro‟ como um „eu‟, ou seja, incluir todos no „reino dos fins em si (Kant), onde existe um mesmo valor absoluto para todos os sujeitos humanos”78.

O terceiro elemento antropológico assimilado da doutrina kantiana consiste no conceito e precisão ética sobre a pessoa, em relação ao significado antropológico de reino dos fins. “Dentro do amplo e profundo sistema kantiano, a pessoa humana é o centro dos valores.

73 KANT, I. Fundamentação da metafísica dos costumes, p.59. Kant recebeu uma formação racionalista e desde cedo começou a estudar a física newtoniana. Newton adotou como método de análise a formulação das leis universais. A moral kantiana segue esse mesmo princípio, sobretudo o da universalidade e o da objetividade. A moral kantiana é uma moral formal e autônoma. Por ser puramente formal, tem de postular um dever para todos os seres racionais independentemente da situação social e cultural.

74 KANT, I. Fundamentação da metafísica dos costumes, p.69.

75 Cf. VIDAL, M. La solidaridad, p.117, 1985.

76 VIDAL, M. Moral de actitudes: ética de la persona, p.33. O imperativo prático será, pois, como segue: “age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na de qualquer outro, sempre e simultaneamente como um fim e nunca simplesmente como meio” (p.117).

77VIDAL, M. Moral de actitudes: ética de la persona, p.33. Marciano Vidal recorre à Fundamentação da metafísica dos costumes, de Kant, e explica que “um ser racional pertence ao reino dos fins como membro dele, quando forma nele como legislador universal, porém também como sujeito a essas leis. Pertence ao reino como chefe, quando como legislador não está submetido a nenhuma vontade de outro”. Explica ainda que, dentro desse reino dos fins, somente o homem tem dignidade: “no reino dos fins, todos têm um preço ou uma dignidade”.

Entretanto, “somente às pessoas se deve respeito. O respeito se aplica sempre e somente às pessoas, nunca a coisas” (p.34).

78 VIDAL, M. La vertiente ética del SIDA, p.109 (grifos do autor).

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O homem há de ser tratado como um fim em si e nunca como um meio”79. É com esse objetivo que desenvolve a temática da pessoa como centro dos valores morais, tendo o magnífico ideal de um reino dos fins em si, como suporte antropológico sobre a pessoa: “da consciência de cada homem, como um fim em si mesmo, nasce o conceito de reino dos fins, um conceito que para Kant é muito „frutífero‟. Dentro desse reino dos fins é onde se faz possível a moralidade e a realização das pessoas”80.

Nesse contexto, explica que, para o filósofo alemão, o homem é “santo”. A lei moral é também “santa” e inviolável. Explica ainda que o ser humano, na visão kantiana, encontra-se bastante distante da santidade, porém “a humanidade em sua pessoa, tem que ser santa”81. Antropologicamente, para Kant, os seres irracionais são tomados como meros meios, pois são “coisas”. Como descreve o teólogo sobre esse ponto, “unicamente o homem, e com ele toda criatura racional é fim em si mesmo”82. A pessoa torna-se o centro dos valores morais, assim, enquanto valor supremo, o valor moral é uma realidade da pessoa e o conteúdo da bondade moral encontra-se nas atitudes realizadas pela pessoa.

Segundo a estimativa do autor, para Kant, o homem é pessoa por ser sujeito da moralidade e por estar inserido no “reino dos fins”, lugar em que se vive a moralidade. Para Marciano Vidal, a defesa antropológica de Kant, vista sob a perspectiva moral, representa “o magnífico ideal de um reino universal dos fins em si (seres racionais), ao qual somente podemos pertencer como membros quando nos conduzimos cuidadosamente segundo as máximas da liberdade, que produzem em nós um vivo interesse pela lei moral”83. Sublinha que “o critério fundamental para uma ética da pessoa, segundo Kant, é, portanto, a consideração do homem como um fim em si e a concepção das relações interpessoais, como um reino dos fins em si”84.

Pontua, por outro lado, a importância e a influência da ética kantiana, na qual a pessoa adquire uma criticidade incontestável: “Kant é o profeta da autonomia moral do homem e defensor absoluto da pessoa. Na moral kantiana, o homem ocupa o lugar

79 VIDAL, M. Retos morales en la sociedad y en la iglesia, p.139.

80 VIDAL, M. Moral de actitudes: ética de la persona, p.33.

81 VIDAL, M. Moral de actitudes: ética de la persona, p.34.

82 VIDAL, M. Moral de actitudes: ética de la persona, p.34.

83 VIDAL, M. Moral de actitudes: ética de la persona, p.34.

84 VIDAL, M. Moral de actitudes: ética de la persona, p.34.

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privilegiado”85. Entretanto, formula algumas críticas ao pensamento moral de Kant, como, por exemplo, o excessivo formalismo: “Kant não se preocupou o suficiente com o conteúdo da moral, dedicando sua atenção quase exclusivamente ao „formalismo ético‟”86. Critica, ainda, a importância que Kant outorga ao conceito de “vontade” como sede da moralidade:

Na síntese kantiana, a “boa vontade”, o “dever”, o “imperativo categórico” e outras categorias éticas similares, possuem coerente sentido, mas isto não basta para que nelas se advirta o começo do “voluntarismo” fazendo uma “moral do dever”, que se tem qualificado popularmente como kantismo moral87.

Outra crítica pertinente consiste em observar a redução da religião à moral feita por Kant. Para o filósofo, a religião ficou enquadrada dentro dos “limites da razão” e com isso a razão prática recebeu uma supremacia: “isso conduz a um tipo de moral em que a atitude religiosa fica subordinada (indevidamente) à atitude moral”88.

Mesmo com essas críticas ao postulado kantiano, especialmente à maneira de compreender o significado antropológico de pessoa, em vista do formalismo kantiano, o teólogo espanhol reconhece a contribuição positiva do filósofo alemão em preservar a dignidade da pessoa como alguém que precisa ser concebida como “fim em si mesmo”. Esse postulado kantiano, como ressaltado, encontra-se nos escritos do autor. Da noção da pessoa como “fim em si mesmo” emerge a concepção antropológica de pessoa presente na Matriz axiológico-kantiana. É o que será abordado no tópico a seguir.

2.4 Concepção antropológica de pessoa presente na Matriz axiológico kantiana Este tópico busca responder à seguinte questão: que concepção antropológica de pessoa emerge da Matriz axiológico-kantiana? Primeiramente, faz-se necessário retomar o percurso feito até o momento e responder em que consiste propriamente a lei moral concebida por Kant, uma vez que é preciso reconhecê-la para verdadeiramente estar certo de que as ações estão conforme o seu mandamento.

A moral kantiana tem como escopo perguntar ao sujeito da ação quais os motivos que o levam a realizar os atos humanos. Segundo Ernest Tugendhat, o sujeito da ação moral precisa interrogar-se: “quero enfim compreender-me moralmente? Quero que a perspectiva do bem seja uma parte de minha identidade? Quero compreender-me na perspectiva desta

85 VIDAL, M. Moral de actitudes: ética de la persona, p.34.

86 VIDAL, M. Moral de actitudes: ética de la persona, p.35.

87 VIDAL, M. Moral de actitudes: ética de la persona, p.35.

88 VIDAL, M. Moral de actitudes: ética de la persona, p.35.

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concepção, no caso, a concepção kantiana? Quero agir moralmente? Em todas as três questões pode-se perguntar pelos motivos”89. A preocupação de Kant está em explicar que o agir precisa ser visto a partir de duas dimensões: “agir moralmente porque se quer ser bom; ou porque o bom é aquilo que se quer”90. Como já explicado por Marciano Vidal, para Kant, só há uma boa vontade, aquela que quer imediatamente o bem, e esse bem somente se mostra no agir do sujeito moral.

Uma ação é vista como boa não porque traz bons resultados, ou porque é sábia, mas porque é feita em obediência a esse senso íntimo do dever. Trata-se, portanto, de uma Lei Moral que não vem da experiência pessoal do ser humano, mas legisla imperiosamente, e a priori, para todos os comportamentos. A única coisa incondicionalmente boa nesse mundo, para o filósofo alemão, é uma boa vontade, a vontade de seguir a lei moral, não importa se resulta em vantagens ou desvantagens para o sujeito moral91. Por isso, a moralidade, não consiste propriamente na doutrina de como o ser humano pode ser feliz, mas como pode tornar-se digno da felicidade.

Para conseguir a perfeição em si mesmo e a felicidade dos outros, escreve Kant:

“age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e simplesmente como fim e nunca simplesmente como meio”92. Ele mostra que

89 TUGENDHAT, E. Lições sobre ética, p.99. Para Kant, a pessoa, ao executar uma ação, não pode agir como age o egoísta. Este age exclusivamente conforme a máxima: “eu faço apenas aquilo que me agrada”. Segundo Kant, é preciso ter consideração com os outros e não apenas quando agrada o sujeito da ação moral. Em sua explicação, Kant ensina que o egoísta não tem relação moral com seus semelhantes, mas um relacionamento meramente instrumental: os outros apenas lhe servem como meio para a satisfação de suas necessidades. Isso quer dizer que ele se compreende na relação com os outros exclusivamente como ser humano de poder.

90 TUGENDHAT, E. Lições sobre ética, p.130.

91 Kant ressalta que se faz necessário evitar o comportamento que, se adotado por todos os seres humanos, tornaria a vida social impossível. Deseja o homem fugir a uma dificuldade usando uma mentira? Kant acredita que, embora o homem possa desejar a mentira, não pode em absoluto desejar que mentir seja uma lei universal, porque com uma lei dessas não há possibilidade de promessa alguma. Daí a sensação, no sujeito moral, de que não deve mentir, ainda que seja para tirar vantagem. A prudência é hipotética, explica Kant, pois seu lema é honestidade quando esta for a melhor política, mas a lei moral que está no coração do ser humano é incondicional e absoluta.

92 KANT, I. Fundamentação da metafísica dos costumes, p.69. O último capítulo descreve a Ética Teo-lógica da Sexualidade. Nessa parte, encontra-se estruturada a proposta da Ética fundamental da sexualidade na perspectiva teológica de Marciano Vidal. Para isso, o imperativo categórico kantiano presente na Fundamentação da metafísica dos costumes oferece um suporte antropológico para as considerações práticas à ética “da” e “na”

sexualidade. Através do princípio antropológico de nunca usar a pessoa simplesmente como meio para o uso do desejo e da vontade, mas tomá-la sempre como “fim em si mesmo”, torna-se válido para as considerações éticas na área da sexualidade. O segundo capítulo ressaltou que a sociedade encontra-se sexualizada. Daí a necessidade de encontrar meios para não fazer do outro um objeto, ou, nas palavras de Kant, fazer do outro um simples meio”. A Ética fundamental da sexualidade recorda que na relação com o outro deve prevalecer o princípio do respeito, pois o outro é um “fim em si mesmo”. Trata-se, portanto, de um estilo de ética que prioriza o cuidado com o outro na relação.

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agir exclusivamente por desejo e visando recompensas não possui valor moral. O filósofo admite que haja no ser humano um desejo natural de felicidade e que o papel da moral visa torná-lo digno da felicidade: “a moral não é propriamente a doutrina sobre como devemos nos tornar felizes, mas como devemos nos tornar dignos da felicidade”93.

De acordo com esse princípio, a relação social será capaz de criar uma comunidade ideal de seres racionais e para criá-la é preciso apenas agir como se o ser humano já pertencesse a ela. Trata-se de aplicar a lei perfeita no estado imperfeito. Esse modelo ético torna-se exigente a partir do momento em que coloca o dever acima da beleza, da moralidade e da felicidade94. Assim, uma ação é considerada como boa somente quando é conduzida pela vontade correspondente, quer dizer, pelo motivo que a origina, pois somente o agir por dever, e não o agir de acordo com o dever, é bom para Kant95.

Mesmo assim, o “rigorismo” de Kant torna-se repressivo. Entretanto, se o ser humano faz alguma coisa por causa do imperativo do dever, o faz porque o outro é um ser humano. A universalidade desse princípio é o que Kant deseja assegurar com sua insistência sobre o dever como motivo: “nunca praticar uma ação senão em acordo com uma máxima que saiba poder ser uma Lei Universal, quer dizer, só de tal maneira que a vontade pela sua máxima se possa considerar a si mesma ao mesmo tempo como legisladora Universal”96. A moralidade torna-se a única condição que pode fazer de um ser racional um fim em si mesmo, pois somente por ela pode ser membro legislador. O problema da moralidade exige que se ponha a questão do fundamento da bondade dos atos, ou em que consiste o bom. A boa vontade de uma ação não deve ser procurada na ação mesma, mas na vontade com que se faz.

E boa é a vontade que age por puro respeito ao dever, sem razões outras que não seja o mero cumprimento do dever.

93 KANT, I. Crítica da razão prática, p.85. O valor da vida moral tem como objetivo proporcionar, ou obrigar, o ser humano a procurar a própria perfeição como também a felicidade das demais pessoas.

94 Mais à frente, no capítulo dedicado à Ética fundamental da sexualidade, mostrar-se-á a incidência dessas considerações na formulação da ética do cuidado ao outro nas relações subjetivas da sexualidade.

95 O filósofo explica que, nesse caso, apenas de acordo com o dever se age, por exemplo, o comerciante que atende sua clientela honestamente, não por causa do “princípio da honestidade”, mas por dever. Ele age, portanto, com propósitos egoístas. O comum entre os homens é ajudar os demais por inclinação e isso quer dizer, segundo Kant, por simpatia ou por compaixão. Por outro lado, Kant defende que a ajuda que uma pessoa presta a outra somente é moral quando ocorre por causa do dever e não por inclinação. Um dos sentimentos morais impróprios para Kant consiste na “ternura de coração”. Trata-se de um sentimento natural de benevolência. Essa qualidade induz o ser humano a comportar-se com o outro de maneira conforme ao que a moral exige. Mas não se trata de uma verdadeira moralidade, pois o sentimento de benevolência, sendo fruto da simples inclinação natural, torna-se instrumento do capricho e volúvel partidário das mais diversas circunstâncias.

96 KANT, I. Fundamentação da metafísica dos costumes, p.46.

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Marciano Vidal explica que, para Kant, o ser humano tende a aperfeiçoar-se moralmente porque a experiência não é capaz de satisfazer plenamente a razão. Aperfeiçoar- se moralmente, no entendimento do filósofo, significa interrogar-se sobre o sentido das ações do ponto de vista do rigor da lei. A lei moral é santa, inflexível e exige a santidade dos costumes, embora toda perfeição moral a que o homem possa chegar não passará de uma virtude, ou de uma intenção conforme a lei e por respeito à lei. Mas, no dizer de Kant, a lei moral não promete por si própria, como a felicidade, porque esta não está ligada à observação da lei como aquela97.

Não se pode perder de vista a importância da pessoa para Kant e Marciano Vidal.

A noção de pessoa, como pontuado, sobretudo na segunda fórmula do imperativo categórico, especifica o respeito e revela o dever no próprio interior da pessoa e isso se estende a outrem.

Conhecer outrem, conforme aponta Kant, implica respeitá-lo e reconhecê-lo como ser humano. Na obra Fundamentação da metafísica dos costumes, Kant defende a necessidade de se exaltar o valor da dignidade da pessoa humana. Considerando que todo ser racional, nessa proporção, possui dignidade, é possível afirmar que a dignidade do homem consiste na razão.

Antropologicamente, o ser humano, segundo o filósofo, sabe do poder da razão na condução da dimensão empírica por causa dos móbeis, que são desejos inclinantes e que geralmente falam mais forte que a própria vontade, afinal, “nenhuma criatura pode estar totalmente livre de desejos e de tendências”98.

Retomando o significado antropológico de “reino dos fins” e não obstante os limites do formalismo kantiano, Marciano Vidal, amparado pelo princípio antropológico kantiano, explica que esse “reino dos fins”, na perspectiva da Teologia Moral, revela na verdade a expressão do amor de Deus por meio da moralidade operada pela justiça, bondade e amor99. Por “reino dos fins” entende-se, portanto, a união, através de leis comuns, de diversos seres dotados de razão. Daí pode-se dizer que a noção de “reino dos fins” não se aplica a toda circunstância, mas apenas àquela de seres racionais, em que o ser humano se encontra.

97 Kant explica que o homem aqui na terra chega apenas a um grau pouco elevado de moralidade. Deverá, pois, continuar o seu esforço para além da morte, o que pressupõe a permanência da pessoa moral e a imortalidade da alma.

98 KANT, I. Crítica da razão prática, p.88.

99 Cf. VIDAL, M. La ética civil, riqueza del cuerpo social y justificación de la convivencia pluralista y democrática. Moralia, Madrid, n.5, p.89, 1983.

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O sujeito moral precisa fazer uso da razão prática e tal uso está voltado para a consecução do bem, para a prática de uma boa ação para com o próximo100. Por isso, o antropocentrismo kantiano exalta um dos princípios mais célebres em favor da pessoa, concede-lhe a dimensão mais alta e o faz exatamente num mundo humano, no “reino dos fins”, conceito no qual o homem, longe de ser um meio, torna-se um fim em si mesmo.

Essa consciência de que o homem não deve ser tratado como meio, e sim como fim, tem um profundo conteúdo humanista e moral, e inspira até os dias de hoje todos os que desejam a realização desse princípio kantiano, não num mundo ideal, mas no mundo real de cada pessoa. Por conceber o comportamento moral como pertencente a um sujeito autônomo livre, ativo e criador, Kant estabelece o ponto de partida de uma filosofia e de uma concepção de moral na qual o ser humano se define antes de tudo como ser ativo, produtor ou criador.

Pode-se afirmar que um dos pontos centrais da moral cristã consiste em aceitar a ordem humana diante do princípio da normatividade consistente e autônoma. A moral kantiana considera o ser humano como alguém criado por Deus. Em outras palavras, “a tarefa da religião, segundo Kant, é restaurar no sujeito moral sua capacidade de agir segundo o dever”101. O próprio filósofo expressa seu objetivo ao fazer a ligação entre religião e moral:

“ao ligar firmemente ao pensamento relativo a Deus com nossa moralidade, há de ser para que nos tornemos homens melhores”102.

Entretanto, o próprio autor critica o excesso de formalismo da doutrina kantiana.

Essa crítica é pertinente, tendo em vista que Marciano Vidal demonstra o alcance e o limite do pensamento moral de Kant. O alcance consiste em ressaltar a preocupação em resguardar a dignidade da pessoa. O limite encontra-se no excesso de racionalismo. Sobre esse ponto, Bernhard Häring tem uma consideração importante sobre o valor das éticas científicas, de

100 Para Kant, o ser humano não deve confundir o amor “patológico” que reside na sensibilidade, numa compaixão passiva e amolecedora, com o amor “prático” que reside na vontade atuante. O amor prático consiste no triunfo da razão sobre os móbeis, que são sentimentos inclinantes. A pessoa precisa perguntar a si mesma:

“até que ponto minhas ações podem ser consideradas morais?” Pois, no entendimento de Kant, às vezes o ser humano julga certas ações como morais, mas na realidade não passam de ações legais. A moralidade exige que eu me conforme com o espírito da lei por respeito a ela.

101 RICOEUR, P. Leituras 3: nas fronteiras da filosofia. São Paulo: Loyola, 1996, p.173. O sentido da religião, para Kant, corresponde ao conhecimento dos deveres do ser humano como mandamentos divinos. Aí está subjacente o Dogma Cristão da origem moral. De acordo com Kant, existe um Soberano Bem que justifica o porquê de se agir conforme o dever. O agir ético visa, acima de tudo, alcançar o Sumo Bem. Entretanto, o Sumo Bem não é possível de ser vivido no mundo sensível, por isso Kant recorre à religião para dizer que essa experiência, no que se refere ao aspecto prático, proporciona o viver bem, tendo em vista os mandamentos que existem no cumprimento dos preceitos religiosos. Para ele, tanto na moral como na religião existe um Soberano Bem que exige do ser humano o respeito e o cumprimento do dever.

102 KANT, I. Lecciones sobre la filosofia de la religión. Madrid: Ediciones Mater Print, 2000, p.134.

No documento Elismar Alves dos Santos (páginas 175-184)