• Nenhum resultado encontrado

Sexualidade e publicidade: a realidade visual sexualizada

No documento Elismar Alves dos Santos (páginas 126-129)

2 A sexualidade na atualidade

2.5 Sexualidade e publicidade: a realidade visual sexualizada

126

127

reforçamento, um cúmplice indireto em agressões sexuais graves e perigosas, tais como a pedofilia, os sequestros e assassinatos”273.

Um dos motivos básicos da difusão da pornografia e de sua violência sádica, pelos meios de comunicações, demonstra “a propagação de uma moral permissiva, baseada na busca da satisfação individual a todo custo”274. Uma das consequências desse processo consiste na violência e no menosprezo do outro, sobretudo, ao considerá-lo como objeto em vez de pessoa, pois a violência “suprime a ternura e a compaixão para deixar seu espaço à indiferença, quando não à brutalidade”275. A pornografia, por explorar o lado erótico do corpo e por fazer deste um objeto de consumo, faz do sexo um “sexo de papel”, ou “sexo de celuloide ou de qualquer outro material”276 como realidade descartável.

A situação da sexualidade atual é explicada pelo autor por uma série de fatores históricos que contribuíram para a liberalização do erotismo. A erotização da sociedade evoluiu passando ao menos por três etapas: a consideração da sexualidade como problema científico (B. Hellis, S. Freud e os endocrinólogos Haschek e Maranon); a liberação literária da repressão social do erotismo (D. H. Lawrence na Inglaterra e H. Miller nos EUA) e a explosão erótica provocada pelo cinema, e ampliada pela TV, com as suas influências miméticas na sociedade277. Com essa análise é possível afirmar que o sexo tornou-se fator de atração e de venda. As propagandas lançam ao mercado o selo erótico do corpo como mercadoria. As propagandas servem-se de vários métodos para atrair a atenção do telespectador:

O primeiro método consiste em sexualizar o produto para que o contato do objeto com o espectador passe à corrente erótica; o segundo modo consiste em fazer que o espectador realize, ante o objeto, o gesto que desencadeia a corrente erótica; o terceiro modo visa submeter o produto e a pessoa em um banho de erotismo. O erotismo é gancho que nossa sociedade de consumo utiliza para seus múltiplos fins278.

Eduardo Azpitarte lembra que da relação entre erotismo e mercado o erotismo pode ser concebido ao menos em três perspectivas. A primeira refere-se ao “erotismo social”.

273 QUATTROCCHI, P. Pornografia e erotismo. In: VIDAL, M. (Ed.) et al. Nuevo diccionario de teología moral, p.1468.

274 QUATTROCCHI, P. Pornografia e erotismo. In: VIDAL, M. (Ed.) et al. Nuevo diccionario de teología moral, p.1468.

275 QUATTROCCHI, P. Pornografia e erotismo. In: VIDAL, M. (Ed.) et al. Nuevo diccionario de teología moral, p.1468.

276 QUATTROCCHI, P. Pornografia e erotismo. In: VIDAL, M. (Ed.) et al. Nuevo diccionario de teología moral, p.1468.

277 Cf. VIDAL, M. Moral de actitudes: moral de la persona: moral del amor y de la sexualidad, p.498-499.

278 VIDAL, M. Moral de actitudes: moral de la persona: moral del amor y de la sexualidad, p.499.

128

Trata-se do erotismo comercial, no qual o sexo é apresentado como mercadoria, promoção e venda. É a “degradação do erotismo”279. A segunda corresponde ao “erotismo de distração”.

A sexualidade é tomada como meio para distrair a atenção dos autênticos problemas que o ser humano não deseja enfrentar. E, em terceiro, o “erotismo de consumo”, alicerçado numa ordem econômica parecida com a do “erotismo social”, mas que se distingue exclusivamente pela finalidade consumista.

De acordo com Merleau-Ponty, na estrutura interna do corpo existe um mecanismo e uma zona que ele chama de “esquema sexual”. No corpo há um esquema corporal sexual, no qual se encontram as zonas erógenas responsáveis pela fisionomia sexual que se expandem através dos movimentos e dos gestos do corpo. Com esse fator fisiológico, torna-se possível pensar filosoficamente e teologicamente uma moral dos gestos carnais. “O corpo visual é submetido por um esquema sexual, estritamente individual, que acentua as zonas erógenas, desenha uma fisionomia e reclama os gestos do corpo, ele mesmo integrado a essa totalidade afetiva”280.

Com a tríade corpo, erotismo e sexualidade pode-se pensar no papel da ética na sexualidade. Trata-se apenas de uma primeira noção da compreensão de ética e sexualidade no pensamento de Marciano Vidal. Esse tema será ainda debatido nos próximos capítulos, mas, por ora, basta dizer que o teólogo concebe a ética “na” e “da” sexualidade como realidade “crítica” e “encarnada”. Enfatiza a necessidade da contextualização e das circunstâncias históricas diante do papel da ética em relação à sexualidade.

Falar de sexualidade, nos dias de hoje não é o mesmo que falar dessa mesma temática nas décadas passadas, pois cada período da história exige com precisão uma hermenêutica com fins de abordar as discussões na área da sexualidade. Os estudiosos não apresentam uma posição negativa ou pessimista quanto ao tema do erotismo na sexualidade.

“O erotismo seguirá porque forma parte do jogo da psicossexualidade”281. Este, por sua vez, torna-se negativo quando entra no jogo econômico com suas estratégias. O erotismo em si é um “conteúdo artístico”.

Que propõe Marciano Vidal para conter os aspectos negativos do erotismo explorados pela pornografia? Outros estudiosos observam que “deve-se afirmar que a

279 LÓPEZ AZPITARTE, E. Ética da sexualidade e do matrimônio, p.139.

280 MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da percepção, p.216.

281 QUATTROCCHI, P. Pornografia e erotismo. In: VIDAL, M. (Ed.) et al. Nuevo diccionario de teología moral, p.1473.

129

educação ao humanismo integral parece constituir o único antídoto contra a propagação da pornografia”282. Recordam, ainda, a proposta positiva do Magistério Eclesiástico na insistência em conceber sempre a sexualidade como um processo mais amplo de crescimento do ser humano. O pensamento do teólogo vai de encontro com a proposta da Exortação Apostólica Familiaris Consortio, a qual defende que,

diante de uma cultura que “banaliza” em grande parte a sexualidade humana, porque a interpreta e a vive de maneira redutiva e empobrecida, relacionando-a unicamente com o corpo e o prazer egoísta, o serviço educativo dos pais deve basear-se sobre uma cultura sexual que seja verdadeira e plenamente pessoal”283.

Corpo, erotismo, sexualidade e publicidade são ainda temas não bem articulados pela Moral Cristã da Sexualidade, estando sempre vinculados à falta de integração do prazer na sexualidade.

No documento Elismar Alves dos Santos (páginas 126-129)