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Construção da pesquisa

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 50-53)

3 O PAIF E A AUSÊNCIA DE UMA PERSPECTIVA DE GÊNERO

A presente pesquisa teve como objetivo compreender como as psicólogas da cidade de São Luís - MA trabalhavam com a questão da equidade de gênero intrafamiliar nos CRAS, pois, como vimos, é uma temática imprescindível para o contexto desses Centros e seu desenvolvimento faz parte das orientações contidas nas normativas técnicas do PAIF.

sociais esperados sem que fosse dada a devida ênfase às questões de gênero. Logo, essa discussão me pareceu urgente, ainda mais quando a pesquisa bibliográfica aponta o quão pouco isso é debatido na literatura, especialmente quando falamos de autoras(es) da psicologia (razão pela qual uso maciçamente, nesta dissertação, escritoras do serviço social).

Até mesmo porque estamos falando de um espaço muito recente para psicólogas(os) e, por isso, os debates atuais se concentram muito mais em delimitar quais nossas funções e como executá-las nesses Centros.

Assim, embora tenha buscado um programa de mestrado no Sudeste (na minha cidade não existem mestrados em Psicologia Social) e, inicialmente, tenha pensado em delimitar meu campo no Rio de Janeiro, compreendi que poderia contribuir bem mais com os estudos de psicologia nos CRAS investigando a realidade que vivi por 8 anos, até mesmo porque a maioria das publicações desse campo são referentes a discussões e experiências no eixo Sul- Sudeste, deixando uma grande lacuna sobre os territórios de maior pobreza do país.

Ressalto ainda que, dos oito anos em que trabalhei nos CRAS do Maranhão, 4 deles foram em São Luís, tendo ido para os interiores definitivamente desde 201265. Assim, quando iniciei minha pesquisa de mestrado, já havia 4 anos que eu não tinha contato direto com o trabalho que vinha acontecendo na capital. Mesmo com esse espaço de tempo, escrever sobre um contexto em que estive atuando me requereu um cuidado maior. De um lado, possuo uma experiência que muito contribui para a construção de uma análise mais aprofundada. De outro, essa mesma experiência pode invisibilizar questões que me parecem “óbvias” por serem habituais. Certamente, revisitar os materiais técnicos e as vivências sob uma perspectiva dos estudos de gênero foi um facilitador para que o PAIF me parecesse uma novidade.

Partindo desses pontos, busquei investigar, na presente pesquisa, todo o cotidiano de trabalho das psicólogas dos CRAS, entendendo que trabalhar com gênero ou com qualquer outra temática no PAIF com eficiência depende de que o Serviço integralmente esteja funcionando de maneira adequada. Assim, para além dos estudos referentes à Assistência Social/Psicologia Social, também trouxe, para análise do material colhido nas entrevistas, minha própria experiência profissional do cotidiano investigado.

65 No Maranhão, os CRAS do interior costumam pagar salários maiores dos que os da capital (o dobro, geralmente) com a vantagem adicional de que a carga horária é bem menor, em média 16h semanais (quase a metade da de São Luís que é de 30h). Assim, é comum as profissionais recorrerem às vagas fora da capital, fechando vários contratos ao mesmo tempo, o que é significativo para seus rendimentos, mas nem sempre para a produtividade e dedicação em cada local trabalhado. Por outro lado, as condições de trabalho costumam ser mais difíceis no interior, as estradas de acesso encontram-se em más condições e não são garantidos direitos como 13º salário e férias, além das prefeituras não repassarem as contribuições do INSS que são descontadas mensalmente dos salários das técnicas.

Nesse sentido, o planejamento do roteiro de entrevista semi dirigida (ver Apêndice B) foi pensado de modo a contemplar quatro pontos que me faziam questão enquanto profissional inserida no PAIF (e que os estudos me mostraram ser de relevância nacional dentro da pratica da psicologia nos CRAS), a saber: 1) formação para atuação com questões de gênero na Assistência Social e a inserção nesse campo; 2) o papel das(os) psicólogas(os) no PAIF; 3) percepção sobre a relação entre famílias-mulheres-usuárias e mulheres- profissionais-psicólogas e 4) o desenvolvimento da temática equidade de gênero intrafamiliar no Serviço a partir dos fatores investigados anteriormente.

As entrevistas foram realizadas em apenas um encontro cada, nos próprios CRAS onde cada psicóloga trabalha, tendo duração média de 50 minutos e com gravação de áudio, mediante a aceitação em participação na pesquisa por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (ver Apêndice C). A opção pelo encontro dentro dos CRAS foi uma escolha intencional, no sentido de me possibilitar algumas observações sobre a estrutura e condições de funcionamento dos Centros.

A análise do material de campo se deu por: 1°transcrição das entrevistas; 2° avaliação dos dados obtidos de forma a fazer agrupamentos dos conteúdos de acordo com os enquadres dentro dos assuntos investigados; 3º discussão qualitativa com base em estudos da Psicologia Social, estudos de gênero, da branquitude; e das normativas técnicas do PAIF.

Dentre as entrevistadas, três delas me eram desconhecidas, as outras duas conheci nos CRAS quando trabalhei em São Luís. Esse fato não pareceu fazer diferença no momento das entrevistas enquanto eu mantive a gravação do áudio. No entanto, com o gravador desligado, surgiram falas bem interessantes viabilizadas por essa proximidade adquirida anteriormente (material que também utilizo nas minhas discussões nesta dissertação).Igualmente se fez relevante o fato de que todas as participantes pareceram surpresas quando indagadas sobre como elas se percebiam em relação às usuárias do PAIF, muitas chegando a dizer que nunca tinham parado para pensar sobre isso. Já imaginava que conteúdos que pudessem soar preconceituosos não seriam ditos diretamente, visto que estávamos entre psicólogas, abordando um campo de atuação que deve combater toda forma de preconceito e discriminação social. Por outro lado, a própria ausência de reflexão sobre si é um bom indicativo de como a psicologia dominante vem atuando sob um ponto de vista que considera a ciência neutra e que camufla a existência de privilégios de raça e classe, por exemplo.

Ressalto, ainda, que as entrevistas foram analisadas não com intuito de destacar individualidades das pessoas participantes, mas entendendo suas falas como representantes de

um contexto geral advindo dos discursos produzidos na psicologia, nos CRAS e na sociedade, dentro da realidade ludovicense atual.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 50-53)