As duas perguntas que iniciaram diretamente a investigação sobre gênero na entrevista questionavam sobre a realização de palestras, oficinas, orientações ou mediações referentes às questões de gênero feitas pelas psicólogas nos CRAS. Quase todas as respostas foram negativas, ou seja, a temática nunca tinha sido desenvolvida por quatro delas nas atividades que realizavam. Quando perguntei o motivo dessa ausência, as seguintes respostas foram dadas:
Até que dos grupos que eu venho acompanhando não surgiu essa demanda. Não chegou a ser algo evidente. (Eliza)
Eu gostaria de ter essa experiência, mas não apareceu nenhum caso. (Beatriz) Não sei exatamente. Acho que seria desafiador trabalhar isso, mas não vem como queixa, então a gente acaba deixando passar. (Daniela)
Amanda: As mulheres não trazem isso no discurso e a maioria são mulheres sozinhas, então...não cabe.
Vanessa: Mas gênero não está somente nas relações conjugais, podem ter demandas na educação dos filhos, por exemplo...
Amanda: Sim. Não noto isso porque isso nunca foi falado para mim e nem por elas, eu nem conheço as crianças. As demandas que chegam não se relacionam com isso.
No primeiro capítulo desse trabalho vimos que a orientação técnica é de que seja feita uma entrevista com a usuária no início de sua inserção no PAIF a fim de identificar todo seu contexto familiar, compreendendo suas necessidades e convidando os membros familiares a participar das atividades disponíveis nos CRAS que atendam seus perfis. De acordo com essa análise, quando necessário, deve-se traçar o Plano de Acompanhamento Familiar. Portanto, entendemos, pelos relatos acima, que em todo esse histórico familiar, as psicólogas afirmam não ter percebido demanda relacionada a gênero, já que a entrevista inicial é atividade adotada em suas rotinas. O ponto chave para entendermos essas falas está na própria conclusão de uma das entrevistadas:
Vanessa: Você considera que estudos sobre gênero podem contribuir com seu trabalho nos CRAS?
Eliza: Sim. A gente só percebe aquilo que a gente já conhece.
Bem, nenhuma das psicólogas participou de discussões que envolvessem gênero em suas graduações. Depois de formadas também não tiveram contato com a temática de maneira
sistemática, somente por meio de leituras na internet ou mesmo alguma matéria na televisão e nem sempre essas fontes estão bem fundamentadas. Partindo disso, vejamos a resposta da única psicóloga que respondeu que já havia feito intervenções de gênero nos seus atendimentos:
Vanessa: Você já realizou orientações/mediações familiares envolvendo questões de gênero?
Camila: Sim. Teve um caso que chegou do conselho tutelar. Eu fiz visita, deixei o convite para vir no CRAS, mas a família não compareceu.
Vanessa: Qual foi a situação exatamente?
Camila: Era um caso de uma mãe evangélica que não estava em concordância com a opção [orientação sexual] da filha, não lembro se era filha ou filho...já tem algum tempo, eu sei que tava tendo muito conflito, mas eles não compareceram.
Uma das possíveis decorrências do não aprofundamento nos estudos de gênero é a extrapolação da temática e não estabelecimento de uma separação desse campo com a sexualidade, seguindo um modelo heteronormativo. Assim, os gêneros adquirem estereótipos fixos e dicotômicos que seguem um padrão que relaciona compulsoriamente genital-sexo- gênero-orientação sexual em que qualquer elemento percebido como concernente ao gênero
“oposto” altera todo esse script – como vemos na fala acima, quando a entrevistada percebe a homossexualidade enquanto uma questão de gênero. Ocorrência que também pode ser notada em outra fala:
Vanessa: Você já participou de capacitações que envolvessem a temática gênero?
Beatriz: Fiz muitas capacitações, mas voltadas especificamente para área de gênero não, apesar que teve uma que falava do público LGB, mas muito geral, seria importante conhecer mais essa questão das pessoas que são gays, lésbicas, etc., mas foi bem geral mesmo.
Outro ponto seria a redução da temática, melhor dizendo, seria quando não se consegue identificá-la, fato que ocorreu com a maioria das entrevistadas. Daí a contradição nas suas falas logo após terem afirmado não observarem demandas de gênero nos CRAS:
Vanessa: Em relação à divisão de tarefas domésticas, como você percebe essa organização nas famílias usuárias?
Eliza: Geralmente são mães solteiras, são sozinhas, então fica difícil eu te dizer isso.
Vanessa: Mas essa divisão pode ser feita também entre os filhos. Em relação à educação dos filhos meninas e meninos, você percebe diferenças?
Eliza: Existe sim. Geralmente as meninas são mais responsáveis por essas questões de casa do que os meninos.
Vanessa: E mesmo você percebendo questões de gênero como essa, você nunca fez nenhuma intervenção quanto a isso?
Eliza: Na verdade, muita gente tá vindo aqui em busca do Bolsa Família. A gente tem isso bem forte, então, às vezes, a gente até busca puxar algumas informações
daquela família, mas não trazem. As mães que vem aqui vem muito focadas: “é Bolsa Família, só quero fazer meu cadastro”. E acaba ficando no atendimento do Bolsa Família. Até porque o volume grande de atividades, não dá para detalhar muito.
Vanessa: Você não percebe nenhuma diferença na educação dos filhos meninos e meninas ou na divisão de tarefas domésticas?
Daniela: Na verdade, a gente até observa questões de gênero muito frequentemente, né? Mas um trabalho mais assertivo sobre isso não fazemos.
Vanessa: Então você observa essas diferenças, mas não intervém?
Daniela: Na prática, no dia-dia, a gente acaba fazendo só um pouco do que as orientações falam, a questão do empoderamento, de transformar a realidade do usuário, de ser protagonista social. Então o foco do nosso trabalho seria esse, mas como o foco das demandas das pessoas são mais urgentes, elas correm todas para cá porque aqui é a porta da assistência... aí eu deixo de trabalhar outra coisa, a gente acaba atendendo só aquilo que é mais urgente. É muito atendimento. A demanda geral é Bolsa Família. Não tem como a gente ganhar isso, por enquanto a demanda do CRAS é do assistente social.
Vanessa: Você considera que capacitações sobre gênero seriam úteis no seu trabalho no CRAS?
Beatriz: A gente lida muito com essas questões e a gente precisa de um olhar melhor para isso. Acabo não percebendo isso sempre...é essa correria, não tenho tempo para leitura. A priori, a demanda das famílias não é essa, mas nas entrelinhas, realmente tem uma fala...uma coisa que tem a ver com gênero...mas a gente intervém mais na queixa principal que é econômica, geralmente.
Nesses trechos, nos chama atenção a sobrecarga de trabalho das psicólogas e ainda o uso de análises que personalizam as dificuldades econômicas/físicas enquanto problemas individuais. Com isso, não estamos afirmando que o atendimento desse tipo de demanda emergencial não seja importante, pelo contrário, sabemos que necessidades básicas, como as de alimentação, por exemplo, precisam ser satisfeitas para que as pessoas consigam se mobilizar para outros setores de suas vidas. Contudo, a análise situacional no PAIF exige um olhar macroestrutural que deveria desvelar as relações de gênero articuladas com as de classe e raçaque promovem a divisão sexual do trabalho, penalizando, especialmente, as mulheres pobres e negras. Nesse sentido, ofertar benefícios eventuais ou fazer a inclusão em benefícios de transferência de renda sem compreender e discutir como e porque aquelas questões estruturam as desigualdades sociais/econômicas é pactuar com a (re)produção do ciclo intergeracional de subordinação e pobreza para essas famílias usuárias.
Os fragmentos a seguir reforçam nossa avaliação de que gênero é visto como algo paralelo e que não constitui todas as esferas da sociedade, explicando, inclusive, a própria configuração do PAIF enquanto espaço de mulheres:
Vanessa: Na tua opinião, o que seria igualdade de gênero numa família?
Daniela: Eu acho que uma coisa é a questão da divisão de tarefas mesmo, do homem compreender que a função dele não é só prover e mesmo ele provendo precisa ajudar
dentro da família. Eu acho também que é a questão da sexualidade, da mulher dizer como ela prefere, como ela gosta, ou mesmo ela dizer não, né? Porque a gente sabe que fica muito no homem, o homem que diz a hora que ele quer, né?
Vanessa: Você percebe isso nos atendimentos?
Daniela: Nos atendimentos eu já observei, tanto individual como nos grupos. A gente faz algumas pontuações naquele momento, mas não é uma coisa que a gente trabalha, até pelo foco que é muito pontual... não trabalha grandes questões por um período longo de tempo. Talvez essa fosse uma sugestão para gente trabalhar num grupo com mulheres, num grupo de famílias que tivessem mulheres e a gente discutir isso...quais são realmente os papéis...que hoje tem realmente invertido, a mulher tem agregado o mercado, mas em compensação os outros papéis ela tá acumulando e não tem descanso.
Vanessa: E os grupos já não são de mulheres?
Daniela: Mas são grupos específicos que não comportam essa temática. É grupo do Bolsa Família, grupo de gestantes, do aluguel social, o grupo de cuidadoras de pessoas com deficiência, das mães das crianças do SCFV.
Para além da ausência de uma percepção minuciosa das expressões do sexismo no contexto familiar, observam-se ainda que as próprias psicólogas elencam outros motivos que são considerados desfavoráveis para o desenvolvimento da temática gênero no PAIF:
Vanessa: Você acredita que o trabalho social com famílias pode contribuir com a diminuição das desigualdades de gênero nas famílias usuárias? Se sim, como?
Amanda: Eu acredito que sim. Tentar trazer novas concepções para essas mulheres...isso poderia ser feito com palestras de sensibilização para esse tema. Às vezes, essa questão já está melhor esclarecida quando a mulher já tem um pouco mais de escolaridade, segundo grau completo...
Vanessa: A escolaridade influencia nessas questões?
Amanda: Acho que sim. Quem tem maior escolaridade talvez esteja mais receptiva e talvez esteja menos vulnerável do ponto de vista social, aí você pode pensar em aspectos de maior liberdade de comportamento. Eu acho que para essas mulheres que são tão oprimidas fica tão difícil discutir isso...Mas... é possível e necessário.
Vanessa: Você não percebe nenhuma diferença na educação dos filhos meninas e meninos, por exemplo?
Beatriz: Eu observo que sim porque as pessoas mais simples são mais apegadas a conceitos mais antigos, é natural pela falta de informação, mas eu não entro muito nessa área para não chocar, porque tem pessoas que podem entender, outras não.
Ah... meu menino tem que brincar de tal jeito, tem que vestir tal roupa...
Vanessa: Então você observa questões de gênero, mas não faz intervenções nesse sentido?
Beatriz: Isso. É um tema muito delicado ainda para pessoas que não tem muito esclarecimento sobre o assunto, mas é um tema pertinente.
Ou seja, percebemos que existe certa descrença em relação à efetividade do trabalho com gênero voltado para pessoas pobres (por serem “muito oprimidas”) e sem escolaridade ou de escolaridade básica (por ser “chocante” ou de difícil entendimento). É notório que não é uma concepção construída por meio das experiências dessas profissionais, visto que elas não desenvolvem esse assunto em seus cotidianos. De qualquer modo, desconheço estudos/pesquisas que possam oferecer conclusões de que existe realmente uma maior dificuldade de trabalhar esse assunto com esse público específico. Por outro lado, existem
inúmeras experiências bem sucedidas que podem referenciar as(os) profissionais dos CRAS, como as do Instituto Promundo e Instituto Papai que desenvolveram ações com famílias beneficiárias do Bolsa Família e até chegaram a elaborar duas cartilhas de orientação bem interessantes – uma direcionada para técnicas(os) (ARRUDA; FONSECA; MATTOS;
ARAÚJO, AZEVEDO; FRANÇA; VIEIRA; CERDEIRA, 2016) e outra para as(os) participantes (ARRUDA; FONSECA; ARAÚJO, AZEVEDO; FRANÇA; VIEIRA;
CERDEIRA, 2016) – voltadas para a promoção de equidade de gênero em programas de transferência de renda. E ainda posso citar a experiência ocorrida no Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste (MMTR-NE) que é apresentada no documentário “Mulheres Rurais em Movimento73” de Héloïse Prévost e MMTR-NE (2016), vencedor da Mostra Audiovisual do 13º Congresso Mundo de Mulheres e Seminário Internacional Fazendo Gênero 11.
Uma das psicólogas entrevistadas também afirma ter percebido transformações importantes quando fez intervenções nesse campo nos casos em que pode realizar um acompanhamento adequado:
Vanessa: Você acredita que o trabalho social com famílias pode contribuir com a diminuição das desigualdades de gênero nas famílias usuárias?
Camila: Sim, percebo muito isso no grupo de idosos porque é um grupo que eu faço um acompanhamento mais longo. Por exemplo, uma senhora falou que o marido não deixava ela ir para o grupo, era um caso de violência mesmo... Ela era muito presa em casa e agente foi acompanhando, eu coloquei a questão da violência, expliquei sobre os direitos dela e ela foi se empoderando. Hoje em dia o marido entende e não acontece mais, ela consegue ir ao grupo sem problemas, além de outras conquistas.
Ainda em relação à percepção sobre o gênero no cotidiano, parece que o tema adquire uma real visibilidade quando relacionado com situações de violência contra a mulher, visto que foi a ocorrência imediatamente trazida/percebida pelas participantes quando abordamos questões de gênero nos CRAS. Talvez pela relação de causa-efeito imediata e pela notoriedade que ganhou com as intensas campanhas de divulgação da Lei Maria da Penha:
Daniela: Não fazemos um trabalho mais assertivo com gênero porque, por exemplo, quando é caso de violência contra a mulher que era um caso que a gente poderia ter uma intervenção maior sobre isso, falar mais sobre protagonismo da mulher, falar como ela poderia abandonar esse ciclo de violência, a gente acaba encaminhando pro CREAS. Então nesses casos talvez a gente devesse trabalhar mais na ponta.
Como é um trabalho muito pontual, eu acabo muito presa em outras queixas que a pessoa traz do que necessariamente na questão de gênero.
Vanessa: Então quando você pensa em CRAS e gênero o que te vem à cabeça é a questão...
73 Disponível no YouTube no link https://www.youtube.com/watch?v=PQkIWTIyJc4
Daniela: Da violência. Violência física... acaba vindo para cá por meio de violências, abusos, negligências...mas a gente acaba encaminhando.
Vanessa: Você já realizou palestras relacionadas à temática gênero no CRAS?
Amanda: Não. Aqui já teve palestra sobre a Lei Maria da Penha, mas não fui eu que conduzi. Mas acho que nem se faz esse tom de gênero que deveria se fazer quando se discute violência contra a mulher.[por focarem somente na explicação dos preceitos da lei]
Já quando perguntamos sobre como era pensada a equidade de gênero intrafamiliar, as respostas trazem questões mais variadas e rotineiras, possivelmente frutos da própria reflexão promovida pela entrevista:
Seria uma divisão melhor das atribuições domésticas, por exemplo. Isso já traria uma igualdade maior, as mulheres são sobrecarregadas não somente nas atividades, mas também nas responsabilidades mesmo. As orientações que se dá são sempre para a mãe fazer, para a mãe executar e elas ficam muito sobrecarregadas. Mas elas são sozinhas, sozinhas mesmo! Não tem companheiro e nem ninguém para ajudar.
Às vezes quem ajuda é a mãe que é outra mulher. (Amanda)
Seria que todos os membros familiares soubessem a questão das suas responsabilidades, soubessem que além dos direitos, tem seus deveres, que não fosse aquela coisa assim tão inflexível. Essa mentalidade que histórica e culturalmente foi se construindo... que elas pudessem exercer aquilo que dá sentido para vida delas com responsabilidade. (Camila)
Eu acho que é mais no nível profissional, educativo. Os direitos básicos mesmo, de nível profissional, em relação aos cuidados com os filhos, que essa divisão fosse igual. Como aqui é a [proteção social] básica, casos de violência a gente não tem tanto contato, eles já vão mais direcionados pro CREAS quando surgem. Acho que é essa a questão mais básica mesmo, das famílias que vem aqui seria por aí. (Eliza)
Nesse sentido, as percepções das entrevistadas sobre como desenvolver o trabalho de promoção de equidade de gênero intrafamiliar no PAIF adquire um caráter de viabilidade e encontramos os seguintes conteúdos de como isso pode ser feito:
Uma forma que nós tentaríamos ajudar, se fosse o caso, seria pelo próprio acompanhamento familiar desses grupos que a gente tem, de fazer essa orientação, fazer esse acompanhamento, nas visitas domiciliares também, discussão de temas sobre isso. Desenvolver um pouco mais essa autonomia da mulher em termos profissionais, não trabalhar só em casa, trabalhar fora de casa também. Porque algumas mulheres, não que elas escolham não fazer, mas até pelas condições de vida elas acabam ficando mais em casa, enquanto o homem tem mais essa possibilidade de ter trabalho fora. (Eliza)
O PAIF pode sim contribuir com a promoção dessa equidade, mas é um trabalho de formiguinha. A gente estaria plantando sementes e precisaria que outros espaços também discutissem isso, que a rede se ampliasse, eu acho que isso é importante, mas a gente não pode pegar essa responsabilidade só para gente.Eu acho que pode ser tanto nos grupos como de forma individualizada. Eu acho que, como você falou, que o técnico identificasse alguma demanda relacionada a gênero e pudesse focar mais, porque o que acontece, normalmente é que a gente foca em outras coisas,
talvez somente naquilo que o indivíduo traz inicialmente e aí por trás disso tem o gênero, mas a gente não trabalha, a gente trabalha a queixa em si. Talvez a gente tivesse que ter uma atenção maior nesse olhar... não se prender só naquilo que ela traz e ir um pouco além. (Daniela)
O CRAS pode tudo que ele quiser. Talvez esse trabalho esteja sendo feito pelos educadores sociais nos SCFV, mas é voltado para crianças e adolescentes. Nós técnicos podemos fazer isso nas orientações, nas pequenas situações que a gente percebe...precisa investir também mais na área de cursos que é muito importante para essas mulheres poderem ter mais chances de emprego. (Beatriz)
Como as psicólogas colocam, o trabalho de promoção de igualdade intrafamiliar de gênero pode e deve ser realizado nas diversas atividades executadas no PAIF, sejam individuais, sejam em grupo, contando com a parceria de toda a rede socioassistencial e setorial (BRASIL, 2012b). O ideal é que fosse criada uma oficina específica voltada para o desenvolvimento da “consciência de gênero”, convidando homens e mulheres a participar e ainda envolvendo os SCFV, de modo que o trabalho não fosse algo pontual e envolvesse todos os membros familiares.
As desigualdades sociais de gênero nesses espaços devem ser avaliadas de forma crítica, desnaturalizando comportamentos e ideologias opressoras que perpassam os mais diversos contextos sociais, promovendo a autoestima, a autocompreensão e o empoderamento das usuárias, de acordo com o conceito que cada um desses termos adquire no Serviço, tal como vimos no primeiro capítulo. O intuito é que as(os) usuárias(os) possam usar os conhecimentos adquiridos não somente em suas próprias vidas, mas também sendo multiplicadores dessas reflexões nos seus outros grupos sociais e comunidade em geral(BRASIL, 2012b).
Diante do que discutimos nessa seção, percebemos que o desenvolvimento das questões de gênero não faz parte da rotina de trabalho das psicólogas entrevistadas principalmente em razão da ausência de uma percepção crítica sobre o assunto. Quanto a isso, é preciso entender que as mulheres não são o principal público dos CRAS porque se encontram “entre as mais pobres dos pobres”, mas em razão de toda uma estrutura social histórica e cultural gendrada que as responsabiliza pela reprodução social e que se materializa no oferecimento de oportunidades sociais desiguais a homens e mulheres.
Portanto, o PAIF só conseguirá atingir os impactos esperados quando puder realmente cumprir com sua finalidade política ao contestar “...as raízes estruturais do sistema gerador de desigualdades”, rompendo com práticas assistencialistas/clientelistas que avaliam as vulnerabilidades sociais de maneira simplista, se valendo de intervenções que solucionam apenas demandas emergenciais (RUSSO; CISNE; BRETTAS, 2008, p. 134).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente pesquisa foi construída a partir da necessidade de compreender como o trabalho com as questões de gênero estava sendo desenvolvido pelas psicólogas do PAIF em São Luís. Essa é uma temática fundamental para o Serviço, visto que na sua atual configuração é executado por mulheres e para mulheres, visando a promoção dos direitos de cidadania, bem como a prevenção e o combate às situações de vulnerabilidades e riscos sociais em nossa sociedade visivelmente demarcada pelo sexismo e suas consequentes desigualdades de gênero.
Os cursos de psicologia brasileiros, tradicionalmente, excluíam de suas grades curriculares disciplinas que apresentassem e discutissem mais detalhadamente a atuação na área das Políticas Públicas (principalmente no que se refere a Assistência Social), deixando igualmente omitidos os estudos de gênero, adotando um modelo padronizado eurocêntrico, branco, cishesteronormativo, elitista e quase que exclusivamente a partir de produções de autoria de homens. Contexto que influencia diretamente nas escolhas de interesse de campos de atuação das(os) estudantes e em suas capacidades profissionais nas diferentes áreas após formadas(os). Em São Luís, já é possível notar uma relativa mudança nas faculdades de psicologia em relação a isso. Tanto porque percebe-se quea atuação na Política de Assistência Social agora é conteúdo encontrado em todos os cursos de psicologia disponíveis na cidade, quanto porque gênero já é tema incluído (em disciplina própria ou transversal) em boa parte das grades curriculares.
Essa tendência vem se delimitando mais recentemente, provavelmente pelos debates promovidos pelas diferentes correntes do movimento feminista nas últimas décadas, bem como pela resolução do CNAS, em 2011, que determina a obrigatoriedade da(o) psicóloga(o) nas equipes SUAS. Portanto, não era uma realidade no período de graduação da atual equipe de psicólogas dos CRAS em São Luís (composta por técnicas formadas até o ano de 2009), o que explica parte de suas dificuldades em relação a pratica da psicologia nos CRAS, especialmente quando avalia-se o trabalho com gênero.
Como vimos, a integração da(o) psicóloga(o) na equipe do PAIF busca a promoção do bem-estar psicossocial e o protagonismo das(os) usuárias(os) a partir da construção de novos significados para suas vivências e concepções, pois “para romper com os processos de exclusão, é importante que o sujeito veja-se num lugar de poder, de construtor do seu próprio direito e da satisfação de suas necessidades” (CFP, CREPOP, 2007, p. 18). Dessa forma, sua