Como vimos na sessão 1.2 do presente trabalho, todos os técnicos CRAS (independente da formação) devem realizar as atividades de acolhida, ações comunitárias, ações particularizadas, oficinas e encaminhamentos. De acordo com as psicólogas entrevistadas, os CRAS de São Luís realizam todas essas atividades. Abaixo sintetizo essa rotina trazida nas entrevistas:
Datas comemorativas e campanhas: realização de eventos culturais e/ou ações comunitárias voltadas a temáticas de importância nacional e internacional para a assistência social, tais como: Dia da Mulher, Dia Nacional do Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças, Dia da Família, etc.
Quinzenalmente ou mensalmente: conduzem reuniões de “Acolhida” para as novas usuárias do PAIF, ocasião em que essas usuárias recebem informações sobre todos os serviços disponíveis no CRAS e tiram suas dúvidas sobre os programas, projetos e outros serviços da rede socioassistencial. Também realizam oficinas para os grupos de convivência identificados como: grupo do Programa Bolsa Família, do Benefício de Prestação Continuada – BPC, de gestantes, de idosos, dos beneficiários do aluguel social, das mães dos adolescentes/crianças do SCFV e grupo de Inclusão Produtiva (voltado para o Programa Nacional de Promoção do Acesso ao Mundo do Trabalho – ACESSUAS Trabalho). Cada profissional é responsável pelo planejamento de um ou mais desses grupos, sendo chamado de técnico de referência dos grupos que organiza. As temáticas trabalhadas se relacionam diretamente com aquela que nomeia cada grupo ou mesmo com demandas secundárias que surgem pela identificação de outras similaridades e necessidades entre as(os) participantes.
Semanalmente: cada CRAS reserva um dia na semana para realização de visitas domiciliares e institucionais, não existindo um carro próprio para cada Centro, o que aparece nos relatos colhidos como uma grande dificuldade para o cumprimento de um acompanhamento adequado de todas as famílias que buscam o PAIF. Essas visitas ocorrem, na maioria das vezes, em dupla formada por assistente social e psicóloga. Nas sextas-feiras o expediente é interno, não são marcados atendimentos ao público, informações são oferecidas para os casos de demandas espontâneas (aquelas que surgem sem agendamento prévio) e os técnicos devem fazer seus planejamentos semanais individualmente ou em conjunto (com os outros técnicos e coordenação e/ou com os orientadores dos serviços de convivência).
Diariamente: as técnicas fazem atendimentos iniciais (acolhida) ou de acompanhamento que estão agendados e também os que surgem de demandas espontâneas urgentes, preenchendo o Cadastro CRAS, prontuário SUAS e realizando encaminhamentos quando necessário. Geralmente, esses atendimentos ocorrem com uma única profissional, já que o grande número de atendidos inviabiliza o trabalho em equipe, como é proposto nos cadernos de orientação. Assim, com o intuito de otimizar o tempo e conseguir atender todo o volume de casos recebidos, somente quando a profissional que acolheu inicialmente uma usuária percebe que se trata de uma situação que vai além de sua competência, é que convoca
outra para concluir o atendimento. Nesse sentido, demandas de benefícios que exigem pareceres socioeconômicos são destinadas às assistentes sociais, e aquelas referentes à saúde mental, à psicóloga da equipe.
Aparentemente, esse funcionamento demonstra uma divisão bem delimitada da função de cada profissional.Contudo, conforme fui questionando essa rotina de trabalho, a situação se mostrou diferente. Vejamos alguns trechos das entrevistas:
Como nossa equipe é pequena, acabou que a gente não tem uma separação do que o psicólogo faz, do que o assistente social faz.(Eliza)
[...] as equipes nem sempre são completas e às vezes acaba que fica um profissional muito assoberbado de trabalho e você tem que fazer algumas coisas do outro. Aqui eu não sinto muito isso porque a assistente social está sempre comigo, mas no outro CRAS eu ficava a maior parte do tempo só eu e eu acabava fazendo algumas orientações, alguns encaminhamentos que não eram do trabalho do psicólogo. Então acabava que eu acumulava as minhas coisas e as do assistente social. (Daniela) Aqui os atendimentos não são psicossociais porque eu não tenho assistente social no momento, mas aí eu faço a minha parte também... exercito o meu olhar de assistente social. Faz bem, não vai me tirar pedaço (Beatriz).
Para além da evidente insuficiência de profissionais nas equipes dos CRAS, chama- nos atenção nesses relatos o fato de que as profissionais dizem realizar atividades que supostamente seriam das assistentes sociais, embora nenhuma delas tenha formação em serviço social. Quanto a isso, percebi que atividades que não estejam ligadas diretamente a questões subjetivas71são consideradas fora do campo da psicologia – um equívoco provavelmente facilitado por uma formação que prioriza a psicologia clínica. Portanto, deve- se observar que algumas atividades dizem respeito a todas as técnicas dos CRAS justamente por não exigirem conhecimentos específicos de uma única graduação e sim, estudos sobre Políticas Públicas e Cidadania. Uma situação que pode exemplificar bem como isso está representado no imaginário de muitos trabalhadores dos CRAS é uma fala que eu ouvia recorrentemente quando eu dava explicações sobre a configuração da PNAS: “Você nem parece psicóloga, parece mais assistente social”. Certamente, não eram assistentes sociais que protagonizavam essas afirmações.
Vale ressalvar que essa errônea compreensão de que se está executando atividades da(o) assistente social muitas vezes acarreta uma banalização dos conhecimentos necessários para determinadas tarefas que são realmente da especificidade desses profissionais, levando a ocorrências como a descrita abaixo:
71 Ver conceito de subjetividade para o PAIF na página 24, em nota de rodapé de número 36.
Aqui o que acontece é que a coordenadora não tem entendimento de que existem algumas diferenças éticas e profissionais do que o assistente social faz e o que psicólogo faz, por exemplo, ela insiste que eu tenho que fazer parecer de aluguel social...e eu falo que é um documento exclusivo do assistente e ela me diz: “mas o que é isso? Você pode fazer sim, é só escrever no relatório parecer técnico! ”.
(Amanda)
O enfoque interdisciplinar nos CRAS busca garantir que as situações de riscos e vulnerabilidades sociais possam ser analisadas a partir dos diferentes saberes de cada profissão em um trabalho completamente articulado por uma equipe multiprofissional. Nesse sentido, como já foi apresentado, todos os profissionais de nível superior possuem as mesmas atribuições, inclusive a de construir relatórios técnicos de rotina, “...informativos e avaliativos sobre o acompanhamento de famílias e indivíduos usuários dos serviços socioassistenciais”, ou ainda visando “...subsidiar a elaboração de documentos solicitados por órgãos das demais Políticas Públicas e instituições que compõem o Sistema de Garantia de Direitos (SGD)
”(BRASIL, 2012b, p. 50).
Complementando essa determinação, a nota técnica do SNAS/MDS n 02/2016 (p. 08) explica que esses relatórios devem ser “...compostos de registro de informações, observações, pesquisa, fatos que identificam as famílias nos territórios e pareceres dos profissionais”
respeitando “...o caráter privado e sigiloso de algumas informações e as condições e prerrogativas éticas e técnicas dos profissionais que elaboram o relatório e compõem a equipe de referência das unidades”. Sendo importante lembrar que a elaboração de pareceres, laudos ou perícias sociais para processos judiciais ou BPC não devem ser realizados pelos profissionais dos CRAS (BRASIL, 2012b).
Ainda sobre essas delimitações profissionais, Daniela e Amanda explicam:
A demanda para o assistente social é mais relacionada aos benefícios...de como conseguir, de como manter...pelo que eu vejo é muito mais isso. E para o psicólogo mesmo vem uma demanda muito mais clínica: eu tenho meu problema e tem psicólogo lá e eu quero resolver. (Daniela, grifos meus)
Eu entendo assim...enquanto o assistente social vai relatar as vulnerabilidades sociais, o psicólogo vai relatar as condições psíquicas da família, mas sem ser um parecer formal...não vai ser um parecer aprofundado como a saúde iria requerer.
(Amanda, grifos meus)
A imprecisão sobre o saber fazer psicologia nos CRAS está intimamente ligada à escassez de publicações que, considero, no presente momento, seriam de maior contribuição se estivessem voltadas a relatos de experiências práticas dos próprios profissionais ou de pesquisa de campo. O assunto foi trazido nas entrevistas em algumas falas:
[Quando questionada sobre sua percepção entre a teoria e prática no PAIF]A teoria que eu chamo são os parâmetros que o CRP traz, mas, a meu ver, até hoje eu acho muito genérico. Acho tudo muito amplo...e aí eu penso: o que eu vou fazer com essa família? Que instrumentos eu vou utilizar? Então assim...não tem nenhum manual que te dê uma receita pronta, assim como outras áreas da psicologia você vai precisando adaptar, mas aqui eu acho que é mais difícil porque não tem tantas pesquisas da área social... (Daniela).
[...] eu costumo falar que tudo que tu faz de leitura da ação do psicólogo no CRAS eu vejo que é assim muito genérico, não tem um fazer e um procedimento específico, mas eu acho assim, a gente tem que ter claramente que não é um acompanhamento clinico, não é um psicodiagnóstico, eu vejo muito como uma psicoeducação, que é uma prevenção, uma orientação, é aquilo que a gente faz no grupo de tá prevenindo, de tá orientando, de tá buscando essas relações sociais fortalecidas que é realmente a proposta do serviço de convivência. (Camila)
Esses relatos também trazem outros temas importantes como o destaque no caráter preventivo do PAIF. Por estarmos falando de um Serviço da Proteção Social Básica,sua atuação se dá de forma a prevenir situações de violação de direitos ou o agravamento delas, diferente da Proteção Social Especial que atua quando tais circunstâncias já ocorreram. Na PNAS isso relaciona-se com a concretização de ações protetivas e proativas. Ou seja, não basta “chegar antes” das ocorrências violadoras, mas deve-se defender e promover o acesso das famílias aos direitos de cidadania, desenvolvendo suas potencialidades de enfrentamento (BRASIL, 2012a).
Outro ponto é a questão da clínica, que aparece com frequência nas discussões sobre psicologia nos CRAS. Parece que existe grande dificuldade em compreender como trabalhar com a subjetividade sem que isso envolva uma pratica clínica. Em minha pesquisa de monografia (CASTRO, 2011) identifiquei muitos psicólogos(as) que afirmavam fazer clínica no PAIF sem nem mesmo ter noção de que isso não era parte de suas tarefas nesse contexto.
Nos últimos dois anos, em que estive em contato com as psicólogas dos CRAS por meio de eventos acadêmicos ou mesmo em encontros casuais fora desses ambientes, não me recordo de nenhuma situação em que isso ocorreu, provavelmente pelo aumento de capacitações em nível municipal, bem como pelo Programa Nacional de Capacitação do SUAS (CapacitaSUAS) iniciado em 2014. Contudo, nas entrevistas, as psicólogas relataram atendimentos com crianças/adolescentes com dificuldades de aprendizagem e também adultos com queixas psicológicas diversas, destacando que estes não seriam acompanhamentos clínicos, essencialmente pelo tempo de duração. Vejamos as falas abaixo:
E o que fazer? Pequenas intervenções da psicologia mesmo que não seja uma terapia, mas pode ter um momento psicoterapêutico, mesmo que eu não vá muito a fundo. As pessoas, às vezes, interagem bem e se emocionam. Teve uma que se
emocionou com a historinha dela, ela fez questão de falar e naquele momento eu dou aquela oportunidade, mais uma vez, minha pretensão não é clínica, embora eu goste muito da clínica, mas minha pretensão não é, mas se acontece, surge sem querer eu não vou negar esse acolhimento, esse momento de atenção, e assim, muitas me abraçam depois, ficam felizes, demonstra vontade de voltar, mas nós aqui não podemos ter essa continuidade. (Beatriz, grifos meus)
Agora uma problemática de São Luís especificamente é que a rede é muito pequena, a rede de alta complexidade é muito pequena para a demanda, então todo mundo encaminha para lá e tem lugar, por exemplo, que já não aceita mais porque não consegue atender. E aí o que o usuário faz? Ele volta e quer ficar sendo atendido aqui e aí para que a gente não transforme esse atendimento numa clínica a gente faz um trabalho, dependendo da situação, de atender mensal, fazer minimamente um acompanhamento para que aquela pessoa também não fique sem nada. Que ele venha pela menos para um atendimento mensal, mesmo não sendo o foco do CRAS. (Daniela, grifos meus)
E assim...no atendimento inicial as vezes não é demanda nossa e eu costumo dizer que eu não gosto de encaminhar porque as pessoas as vezes tem uma imagem de que psicólogo de CRAS só encaminha e como eu já vim do CREAS eu percebo que tem algumas coisas que aqui mesmo no CRAS a gente consegue dar um andamento. Não que eu vou fazer um acompanhamento [psicológico] ou fazer um trabalho de CREAS ou da saúde, mas eu penso que tem algumas questões que a gente pode intervir aqui pra não tá encaminhando ou enchendo o CAISCA ou qualquer outro órgão...a pessoa chega e eu digo qual é a demanda do psicólogo aqui do CRAS e digo que se eu perceber que aquilo que foi trazido não pode ser trabalhado em dois ou três atendimentos eu vou encaminhar. (Camila, grifos meus).
De acordo com os relatos, as entrevistadas realizam “intervenções psicológicas” ou
“momentos terapêuticos” sob as justificativas de necessidade de acolhimento das usuárias e de deficiências nos serviços públicos de saúde. Vimos que os cadernos de orientação são muito enfáticos sobre o fato de que práticas clínicas não correspondem às seguranças afiançadas na PNAS, mesmo que aconteçam de forma breve. O que deve ser realizado é a escuta qualificada dos aspectos subjetivos que envolvem as situações de vulnerabilidade a fim de que isso seja trabalhado, preferencialmente, em grupos (BRASIL, 2012a).
Quanto a isso, observa-se que a escuta qualificada de qualquer demanda – mesmo que seja exclusivamente daquelas decorrentes das vulnerabilidades socioeconômicas – acaba exigindo das(os) profissionais a utilização de técnicas de intervenção psicoterápicas para realização da entrevista psicológica, o que pode acabar tendo um efeito terapêutico para a pessoa que fala, mesmo que esse não seja o objetivo inicial da atividade. Portanto, Camila traz à tona um questionamento que permeia todas as falas analisadas nas entrevistas “...até que ponto o que se faz aqui não é uma escuta clínica? ”.
Nesse sentido, a meu ver, essas “intervenções psicológicas” não fogem da proposta de atuação das(os) psicólogas(os) no PAIF quando a utilização dos recursos teóricos e técnicos da psicologia clínica têm a finalidade de investigação inicial das demandas familiares, visto
que não adquirem “caráter terapêutico” e nem servem para “patologizar” ou “categorizar”
as(os) usuárias(os)(BRASIL, 2009b, p. 65).Certamente, essa é uma problemática que precisa ser melhor esclarecida nos materiais de orientação do MDS e CFP.
Vale dizer que as normativas técnicas advertem que mesmo na ausência de serviços de saúde no território ou extrema necessidade de uma/um usuária(o) a clínica não deve acontecer(BRASIL, 2012a). Acredito que se trata de uma determinação bastante pertinente, primeiramente porque fica visível a incapacidade de ofertar um atendimento de qualidade por questões de tempo e espaço físico. Segundo, porque a realização dessas atividades nos CRAS camufla parcialmente a necessidade da região de ampliação da oferta de atendimento clínico especializado, inviabilizando que isso seja providenciado no planejamento público referente à oferta dessas Políticas Sociais.
3.6 “CRAS é coisa de mulher”
Uma das perguntas elaboradas para a entrevista era sobre como são as famílias do PAIF. O objetivo dessa pergunta era verificar se a vivência/percepção das entrevistadas também confirmava a presença massiva de mulheres usuárias. Obtivemos respostas semelhantes às selecionadas abaixo:
[...]eu te diria que a maioria são mulheres, mulheres adultas, um público um pouco menor de mulheres idosas. Maioria com nível médio completo. Em questão de raça, um grupo maior são negras. Em nível de questões profissionais, muitas não trabalham, só fazem bicos, como elas dizem. Ou seja, só trabalho informal. É...donas de casa, responsáveis pela casa, muitas não tem companheiros morando com elas...
muitos filhos. (Eliza)
Muitas são mães desempregadas, são pessoas negras dependentes do Bolsa Família, filhos de pais separados, alguns que eu percebo muito são protestantes, evangélicos.
Com esse emprego mesmo autônomo, vendedora de produtos...são famílias com o pai ausente, as vezes porque se mudou, está preso ou mesmo dependentes de drogas.
(Camila)
Ou seja, as famílias do PAIF “são” mulheres negras e seus filhos. E esse atendimento (quase) exclusivo de mulheres é visível não somente para as técnicas como também para as pessoas que utilizam do Serviço. No meu deslocamento até os CRAS para realização das entrevistas, geralmente, eu ia pedindo informação pelas ruas a fim de localizá-los. No caminho da segunda entrevista que fiz, perguntei para um homem como chegar ao CRAS do
bairro e ele me respondeu que quem poderia me orientar com certeza seria a mulher dele, “a senhora sabe, CRAS é coisa de mulher”.
Nesse caso, sabendo que, teoricamente, o PAIF deveria prestar serviços para homens e mulheres, coube investigar se havia homens participando das atividades e como essa participação ocorria de modo a tornar-se invisível.As repostas foram semelhantes a essas:
Eu quase não atendo homem. Quando eles vêm não é para discutir assuntos sobre famílias e filhos, geralmente é BPC de PCD. Vem sozinhos...sem responsabilidades de criar filhos, morando com as mães. Raramente, aparecem alguns poucos que criam filhos sozinhos sem a companheira, mas isso é raro, nesses casos eles vêm atrás do Bolsa Família. (Amanda)
Normalmente quando eles vêm é arroz,vêm só para acompanhar a mulher no atendimento dela. (Daniela)
Também foram apontadas as demandas de homens para Cadastro Único com a finalidade de obtenção de NIS para isenção de taxas de concurso público, bem como para inscrição em cursos de capacitação oferecidos pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) e outras instituições parceiras dos programas de inclusão produtiva. Ou seja, quando eles participam efetivamente (não somente acompanhando as esposas), trazem demandas relacionadas à geração de renda, enquanto as mulheres apresentam demandas envolvendo situações familiares, principalmente cadastro e resolução de dúvidas sobre o Bolsa Família. A naturalização dessa divisão de tarefas acaba levando a procedimentos que podem reforçar o distanciamento dos homens, conforme o relato abaixo:
[...] [então a técnica] vai fazer um cadastro e aí vem um homem sozinho para fazer do filho, a gente acha estranho e a gente pede para averiguar, pede ajuda do conselho tutelar. Isso foi uma orientação superior que veio para gente, não foi um critério que a gente aqui falou “vamos fazer assim”. (Eliza)
Em contrapartida, as técnicas percebem positivamente as participações dos poucos homens presentes nos assuntos de família:
Às vezes a gente faz a mediação familiar e eu percebo que quando a gente consegue trabalhar com a família como um todo tem mais efeito. Já vi casos do homem comparecer depois que chamei e ter como resultados uma maior aproximação com a vida do filho e o comportamento da criança acabou mudando também. A presença do pai é muito importante. Mas isso é raro. (Camila)
Eu até observo alguns [homens] bem ativos dentro do contexto familiar, participativos, presentes. Isso melhora muito as condições da família. Mas um grupo específico de pais não temos. Não sei se algum dia fizeram essa tentativa, acho que os homens ficam bem esquecidos nos CRAS. (Eliza)
Não fazemos tentativas de incluir eles. Os atendimentos sociais deveriam acontecer em horários flexíveis para que isso acontecesse. A gente vê que quem tem companheiro participativo acaba tendo condições melhores...uma renda um porquinho melhor. (Amanda)
Nesses trechos também se observa que a iniciativa técnica de incluir esses homens no PAIF se dá de forma restrita, limita-se basicamente a convocá-los quando a queixa familiar está diretamente relacionada ao relacionamento pai-filho, não existindo no planejamento técnico a formação de grupos ou oficinas para esse público. Interessante observar ainda que a inflexibilidade de horário do Serviço foi citada como um empecilho para participação dos homens, entretanto, isso não foi levantado no que se refere às mulheres usuárias, validando o fato de que a expectativa é que elas não somente estejam desempregadas, mas que permaneçam nesse papel naturalizado de donas de casa para que consigam participar das atividades do CRAS. Além de apontar a vigência de uma concepção de família constituída por papéis complementares e hierárquicos.
Ainda dentro desse assunto, buscamos compreender quais os motivos trazidos pelas famílias que justificavam essa ausência dos homens, mesmo nos casos em que eram convidados a participar do PAIF. Analisemos as respostas obtidas.
Sempre que tem um homem, um pai...ele tá trabalhando, passa o dia fora de casa, ele não consegue sair do trabalho para vim aqui,é mais difícil. Acho que seria interessante ter um grupo de homens, nunca tinha pensado nisso. Mas no momento ainda é muito difícil. (Eliza)
É difícil [homens irem ao CRAS] porque às vezes o homem tá fazendo os bicos dele, às vezes ele é meio resistente para determinadas coisas, a mulher é mais flexível, muitas vezes. Aí nunca surge uma oportunidade para eu convidar o marido.
(Beatriz)
Os homens são muito...é...a presença deles é bem tímida. Porque quando a gente faz o convite para essa mãe e a gente fala da importância que o homem esteja presente, que ele compareça, dificilmente ele vem. Elas dizem que eles trabalham o dia todo.
A gente diz que dá uma declaração para apresentar no trabalho, mas mesmo assim. É aquela história mesmo, é cultural... é a mulher que vem ver a coisa da saúde da família...ela que vê a coisa dos problemas da criança. (Camila)
Como vimos, os processos de subjetivação de gênero atuam a partir dos sistemas de significados (re)construídos nas relações sociais por meio das representações simbólicas disponíveis socialmente, que são elucidadas por teorias como a psicologia e materializados nas instituições como a família e as Políticas Públicas, determinando identidades generificadas conforme as interpretações de cada sujeito sobre esses significados. Assim, para entendermos os efeitos do PAIF nas relações de gênero é necessário que pensemos como os profissionais compreendem e discutem (ou deixam de discutir)junto às usuárias essas