• Nenhum resultado encontrado

Da margem ao centro: gênero como instrumento do pêndulo

2. FEMINISMO, GÊNERO E A ASCENSÃO DE UM CENÁRIO

2.2 Ascensão de coalizões de direita, neoliberalismo e neoconservadorismo

2.2.2 Da margem ao centro: gênero como instrumento do pêndulo

LGBTQIA+ e outras políticas anti-gênero61, estão interconectados e são intencionais para o campo da aliança neoconservadora. Assim como Wendy Brown coloca (2019), a radicalização do capitalismo destruiu tanto a sociedade que os modos de vida como o comunitarismo e pertencimento que, em certa medida, impediam um certo tipo de violência, não existem mais. Essas serias as estratégias do neoliberalismo para tentar lidar com os efeitos de desproteção social, da precariedade e das inevitáveis desigualdades que surgem como resultado da adoção das políticas neoliberais e para manterem o espaço político como uma reserva cis masculina branca (MATOS, 2020).

O neoliberalismo tem um papel central na tradução restrita das agendas feministas e LGBTQIA+. Seu alinhamento com forças multifacetadas, formaram uma coalizão de direita, neoconservadora, que ganhou formato, sobretudo, após se estabelecer a partir de 2015. Para este contexto, derivaram-se pólos: um favorável ao impeachment de Dilma Rousseff e o pólo de apoio às políticas sociais petistas (BRINGEL; PLEYERS, 2015). Dentre as múltiplas demandas colocadas, começaram a se estabelecer, a partir da perspectiva de gênero, as investidas antifeministas e anti-gênero, instrumentos que têm tido um papel intenso e singular no atual processo de regressão democrática brasileiro.

lugares do ranking. Ao todo, 93,8% foi a porcentagem de evangélicos e 67,7% de não- evangélicos a favor do impeachment;

O impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff pode ser identificado, dentre outras formas, como uma tentativa de colocar o sentido da família como o centro, a partir de uma idealização convencional, em uma perspectiva cristã conservadora. É o dispositivo argumentativo que a autora Biroli (2019) denomina como “familismo”. O processo da destituição de Rousseff do cargo da presidência também ganhou diversos contornos de misoginia com a adoção de estratégias pró-impeachment que desumanizava e tratava violentamente a presidenta como “histérica” e “louca”. No entanto, o impeachment não iniciaria a crise da democracia brasileira62, mas, foi responsável por intensificar as dinâmicas misóginas uma vez que, sob a ótica que considera gênero como “centro nervoso das disputas”63 em momentos de crise da democracia brasileira intensificam-se as políticas que trazem efeitos antagônicos para a participação política das mulheres no país (MATOS, 2020).

O precedente dessas tensões entre gênero, moralidade, religião e normatividade vem sendo expressadas por pelo menos nas últimas duas décadas.

Neste tempo, os movimentos feministas, os movimentos negros e os movimentos LGBTQIA+ vem pautando a dimensão dos direitos e do âmbito jurídicos de políticas públicas como prioritárias. Tais movimentações são importantes, sobretudo, por serem dimensões capazes de contribuir com o processo de redemocratização no Brasil, ampliando a noção de cidadania no sentido de aprofundar propriamente a democracia (BIROLI, 2019). Contudo, conforme mencionado em subtópico anterior,

“em nome de Deus, em nome da moral, da família, da meritocracia”, uma “politização reativa”64 precisou gestar o contra-ataque e isso produziu rompimentos com ciclos democráticos.

É no bojo dessa reação que se assenta a chamada “ideologia de gênero”

capitaneada pelos/as atores/as conservadores/as morais — que dão origem ao

62 Pois, como vimos anteriormente, esta seria anterior e processual, até levar a concretização impeachment.

63 Expressão criada por Ana Flauzina (2019) para se referir à raça como dimensão central para a interpretação do atual contexto de regressão democrática. Assim, me aproprio dessa expressão para referir-me a ótica do gênero como central para este trabalho, no entanto, certa de que gênero e raça são marcadores interseccionais indissociáveis, portanto, ambos não são meramente temas dentro das teorias políticas e sociais. São dimensões estruturantes de todos os processos políticos e sociais experimentados. Essa concepção esteve veementemente presente ao longo deste trabalho.

64 Uma espécie de backlash seria, portanto, um contra-ataque que ativaria o que a Esther Solano Gallego trouxe em sua análise sobre o ano de 2015 haver nos pegado de surpresa com uma gama multifacetada de militantes de direita nas ruas.

neoconservadorismo e suas interconexões com a matriz econômica neoliberal — que elegeram o feminismo como inimigo político. Esta parcela de atores/as reage ao gênero e as referências a orientações sexuais a fim de combater a (des)ordem sexual que parece ameaçada diante de questões como o direito ao aborto ou os direitos casamento igualitário e constituição de família entre pessoas do mesmo sexo. Tal embate tem se proliferado por campos que vão desde a debates e pesquisas, às legislações e políticas públicas, propriamente (BIROLI; MACHADO; VAGGIONE, 2020) Mas, por que se a retórica da “ideologia de gênero” na última década vem tendo um lugar central nas estratégias dos grupos conservadores?

Retomando o pensamento de Friedrich Hayek desenvolvido por Wendy Brown, a redistribuição da justiça, se implementada por poucos, é contrária a liberdade e isto consequentemente ameaça o voluntarismo político. Nesse sentido, o feminismo político se tornaria o grupo “minoritário” alvo ameaçador desta liberdade. O feminismo, sobretudo por sua capacidade de mobilização, seria, para os grupos conservadores, um impulsionador da narrativa da “ideologia de gênero” que subverte os termos de gênero e tem por finalidade (1) estabelecer uma perspectiva ideológica; (2) incentivar a ideia de que cada um é livre para definir o próprio gênero; isto se tornaria uma ameaça à família e toda a concepção de sociedade natural humana e sua reprodução (BIROLI; MACHADO; VAGGIONE, 2020).

2.2.2.1 Breve nota sobre as políticas de gênero como um “centro nervoso”

As agendas de direitos humanos estão no centro da disputa democrática contemporânea e suas formas de ativismo e de inovação democrática podem ser entendidos como antídotos que buscam combater e desestabilizar a ordem de gênero provocadas pelos movimentos feministas e LGBTQIA+. Mulheres, sobretudo, vem protagonizando nas últimas décadas o esforço de expansão dos direitos sexuais, econômicos, culturais, dentre outros e, são justamente estas as forças que o conservadorismo quer deter. Retomando Biroli, Machado e Vaggione (2020) a expressão “ideologia de gênero”65 é um sintagma que vem sendo utilizado pelos neoconservadores para exercer esta força de contenção e mais, ofensivamente.

65 Narrativa política antigênero. A autora Sônia Corrêa (2018) reconstrói a trajetória de constituição paulatina internacional de uma política antigênero fabricada pelo Vaticano que tem início nos anos 1990. Para Corrêa “Os ataques a gênero se deram no processo da IV CMM, mas há quem identifique a Conferência do Cairo ou a ECO 92 como sendo o momento inicial dessa saga. Isso decorre de que

No âmbito da América Latina, a autora Mirta Moragas (2020) os discursos e argumentos utilizados pelos grupos que tem articulado a política anti-gênero valem- se da secularização, da ciência (biológica) e dos direitos humanos com interpretações literais e restritivas que buscam negar os dispositivos dos direitos humanos. Assim, os direitos humanos; a “ideologia de gênero”; a família; os direitos LGBTQIA+; os direitos das mulheres; a soberania nacional; a discriminação religiosa e liberdade de expressão; a ordem natural; e o totalitarismo das minorias seriam os principais argumentos que os discursos antigênero tornam elementos constitutivos e tais discursos tem construído repertórios compartilhados pela região, como é o caso da hashtag #ConMisHijosNoTeMetas utilizada no Peru e se estendeu para Argentina, Chile, Equador, Paraguai, México e Uruguai, todas mobilizações com semelhanças estéticas muito intensas.

Uma característica histórica e definidora da reação de gênero na América Latina é sua promoção de alternativas e enquadramentos de direitos e relações de gênero a partir de atitudes reacionárias contra movimentos culturais e de justiça social.

No Brasil, especialmente a terminologia “ideologia de gênero” tem uma citação realizada na Câmara Federal em 2003, mas, é a partir de 2013 que a expressão ganha um desenho mais robusto no sentido concreto de caráter político. A tramitação do Projeto de Lei n. 8.305/2010, o Plano Nacional de Educação (PNE) se deu no Congresso Nacional nas vésperas de 2013. O PNE em questão obtinha logo em seu segundo capítulo uma menção a superação das desigualdades educacionais e a

“ênfase na promoção da igualdade racial, regional, de gênero e orientação sexual” e tal ponto foi motivo de efervescência dos neoconservadores, impulsionando uma aliança entre católicos e evangélicos que viria, nos próximos anos, investir contra a referente agenda dos movimentos feministas (TEIXEIRA, 2019; BIROLI; MACHADO;

VAGGIONE, 2020).

essas conferências se deram numa sequência intensa, na qual as definições sobre reprodução, gênero e sexualidade foram condensadas de maneira cumulativa, suscitando a cada etapa novos movimentos reativos e não é fácil rastrear esses meandros sem ter estado neles.” (CORRÊA, 2018, p. 03)

Quadro 2: Embates dos neoconservadores no Brasil (2014-2018)

2014

• Mobilização contra a adoção da perspectiva de gênero no Plano Nacional de Educação;

2014

• Apresentação, na Câmara Federal, do PL n. 7.180/2014, de autoria do pastor evangélico Erivelton Santana, que visa incluir, entre os princípios do ensino, o respeito às convicções do aluno, de seus pais ou responsáveis, dando precedência aos valores de ordem familiar sobre a educação escolar nos aspectos relacionados à educação moral, sexual e religiosa;

• Apresentação do PL n. 2.974/2014, que visa criar o Programa Escola sem Partido no âmbito do sistema de ensino do estado do Rio de Janeiro;

• Apresentação do PL n. 867/2014, que visa criar o Programa Escola sem Partido, no município do Rio de Janeiro, de autoria do vereador evangélico Carlos Bolsonaro;

2016

• O vice-presidente Michel Temer grava vídeos com pastores evangélicos às vésperas do impeachment de Dilma Rousseff;

• A votação do impeachment é comandada pelo pentecostal Eduardo Cunha;

• Apresentação, no Senado Federal, do PL n. 193/2016, de autoria do pastor Magno Malta, que visa incluir o Programa Escola sem Partido na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional;

2018

• STF reconhece a possibilidade de alteração de registro civil sem mudança de sexo para transgéneros, contrariando os neoconservadores;

• Visita de assessores evangélicos de Donald Trump ao Brasil;

• Eleição de Jair Bolsonaro (PSL) à Presidência, com forte apoio de cristãos.

Fonte: adaptação do quadro de cronologias de Biroli, Machado e Vaggione (2020, p.123).

O avanço e as investidas do neoconservadorismo, setor em que, na temática de gênero, os direitos sexuais e os direitos reprodutivos são uma agenda cara para este grupo, pode ser observado no quadro acima, em que são apresentados momentos que marcam a ascensão do embate. Estamos vivendo uma verdadeira ofensiva neoconservadora e o período pós-2013 parece nos trazer indícios de que algumas iniciativas de restrição de direitos vinculados a gênero e sexualidade vem sendo produzidas. Os neoconservadores e a campanha antigênero no Brasil é composta pela aliança entre católicos e evangélicos. Para Biroli, Machado e Vaggione (2020):

Enquanto os primeiros se destacaram nas últimas décadas pela oposição ao direito ao aborto, em uma estratégia retórica de “defesa da vida”, os políticos evangélicos (...) se mobilizaram mais nas controvérsias em torno da sexualidade, combatendo de forma assertiva as tentativas de ampliação dos direitos sexuais (BIROLI; MACHADO; VAGGIONE, 2020, p. 95).

Como foi discutido nesse subtópico, a nova configuração do ativismo neoconservador projetou diversas estratégias que buscam resguardar suas concepções em detrimento dos direitos das mulheres. Não é trivial posicionar a agendas de direitos no centro da disputa democrática e a aliança da nova direita com o conservadorismo que adere às disputas econômicas neoliberais, acelerou o processo de exclusão, retrocesso e retiradas de direitos, sobretudo com investidas antifeministas e anti-gênero que buscam ser instrumentos ativadores do processo de regressão democrática. Saindo de uma busca teórica para apresentar dados empíricos, no próximo tópico veremos como os movimentos sociais feministas, negros, LGBTQIA+ tentam constantemente recolocar a democracia dentro de concepções de projetos de sociedade, para além de estruturas institucionais e sistemas de governo, na contracorrente das desigualdades e dos ataques as políticas de gênero e consequentemente, às mulheres.

2.3 Recolocando a democracia em concepções inclusivas (pós-2016)