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2. FEMINISMO, GÊNERO E A ASCENSÃO DE UM CENÁRIO

2.1 Democracia e crise

2.1.1 Os limites da democracia liberal para a igualdade

Ainda que não haja um único conceito de democracia, uma vez que, para ser analisado, o termo precisa estar integrado em contextos e correntes teóricas, os modos de ver e entender precisam estar alinhados com os modos de interpretar o mundo, descritiva e normativamente. Para descrever ou prescrever normativas democráticas, parte-se do entendimento de que a democracia foi reinventada na modernidade a partir de um debate liberal ocidental. Junto a esta mesma modernidade emerge o conceito de indivíduo, de poder político e de capacidade e/ou necessidade de organização política e social para a contestação da concentração de poder (MENDONÇA; CUNHA, 2018).

Neste ensejo, emerge também a necessidade de construção de sistemas democráticos capazes de serem inclusivos, em contraste aos antigos regimes

47 Essa conceituação tem suas marcas teóricas nos escritos de Gilberto Freyre, em Casa-Grande &

Senzala (1933) na qual Freyre discutiu a formação sociocultural brasileira, sugerindo uma relação cordial entre senhores e escravizados. Esta noção vem a ser contestada sob a égide de que a democracia racial seja um mito advindo da miscigenação cordial, com função de perpetuar no imaginário da sociedade brasileira a não existência do racismo estrutural.

monárquicos-absolutistas. O Estado Moderno também vem a ser fundado sobre as bases do pensamento liberal, sobretudo advindo das epistemes e ontologias de potências europeias colonizadoras. Em confluência, democracia e capitalismo criam uma proposta de igualdade em direitos políticos e liberdade de igual cidadania na esfera pública, gerando um modelo de democracia liberal representativa (MATOS, 2018).

No entanto, os limites das democracias liberais conservam padrões de exclusão na representação de grupos, ainda que seja uma exclusão não-normativa (PHILLIPS, 2011). O regime democrático liberal que exclui grupos, se assenta em um tipo de contrato social48 capitalista e burguês e é qualificado como sendo também um contrato sexual e racial de exclusão. Consequentemente, novas formas de exclusão estariam em constituição junto a um patriarcado fraternal moderno em unidade com o sistema capitalista que, historicamente, no âmbito do liberalismo, “foi compatível com a opressão das mulheres e a escravidão da população negra” (MATOS, 2018, p. 266).

A intelectual feminista Anne Phillips (2011), dentro de uma visão normativamente igualitária, para a reversão desse quadro de exclusão, sugere que o caminho seria de correções normativas arranjadas, especialmente para a garantia da presença igualitária. No entanto, tal tratamento aparece como conflitante aos princípios fundadores do liberalismo, como a própria autora pondera ao qualificar o liberalismo como produtor de muros. Dentro dessa mesma concepção, Matos (2018) nos aponta a necessidade de tecer críticas prescritivas — considerando a exclusão como resultado de um processo de opressão — para além de normativas a esse modelo de cidadania política e de democracia liberal burguesa que advém das

48 Como vimos no primeiro capítulo, ao analisar os primórdios da teoria política feminista com a intelectual conhecida por apresentar a obra crítica do Contrato Sexual, Carole Pateman (1993), “O direito político é legitimado pelo direito patriarcal. A dominação dos homens sobre as mulheres e o direito masculino de acesso sexual a elas estão em questão na formulação do pacto original. O contrato social é uma história de liberdade; o contrato sexual é uma história de sujeição. O contrato original cria ambas, a liberdade e a dominação (PATEMAN, 1993, p.16). Assim como para o intelectual Charles Mills (1997), que em sua obra The Racial Contract, discorre sobre a conquista colonial ter sido a própria constituição de estados com mecanismos jurídicos de exclusão. Mills explica como a sociedade foi criada ou crucialmente transformada, ou seja, como os indivíduos nessa sociedade foram reconstituídos e como o Estado foi estabelecido a partir de um código oral particular e uma certa psicologia moral trazida à existência para estabelecer o que ele denomina de Contrato Racial. Tal Contrato seria também epistemológico por haver prescrito normas de cognição às quais seus signatários deveriam aderir. O desenho destas normas seria provindo das histórias das ideologias racistas oficiais — com formais e informais estruturas de discriminação —, estando todas ideologias dentro da memória histórica não óbvia, uma vez que a maioria não pensa sobre essa exclusão como o resultado de uma história de opressão política.

imposições de estruturas coloniais que fazem persistir algumas desigualdades profundas.

Assim como Biroli (2018) também assinala, as contradições colocadas ao longo da história são constituídas pelas demarcações de raça e gênero que estão diluídos pelas hierarquias nas sociedades produzindo desigualdades. Dessa forma, as disputas em torno do sentido da democracia passam a se dar para além de espaços institucionais, pois, tais marcadores limitam não somente regras, mas, práticas e valores democráticos.

Dadas essas primeiras noções de democracia, inclusão e exclusão, compreendemos que não há como pensar a democracia, como um todo, somente a partir de sistemas de freios e contrapesos de instituições, é necessário repensar todo o fundamento da democracia ocidental, com instituições e retóricas liberais ancoradas em processos civilizatórios colonialistas — inclusive, fundamentos ocultos49. Assim, é necessário decidir quais valores civilizatórios queremos projetar. O modelo ocidental orientado para o progresso democrático, ainda é um modelo emblemático como define o autor Runciman (2018), entretanto, temos tido sinais de estarmos vivendo sociedades esgotadas por não darem conta mais de lidar com as desigualdades.

Um princípio normativo e prescritivo da democracia é a noção de inclusão, ao passo que a exclusão se torna, portanto, seu sintoma mais desafiador. A partir disso, propomos duas chaves analíticas acerca do desalinhamento entre democracia e inclusão, que nos auxilia a projetar os sintomas, por vezes suportados, de que (a) a exclusão é uma consequência de modelos de sociedades desiguais e democracias que, ao conviverem com o capitalismo e com as dinâmicas coloniais a produzem — tal como a democracia liberal —; e/ou (b) a exclusão como efeito e limite insustentável a longo prazo de um sistema democrático em que é razoável ansiar a reversão desses quadros de desigualdade a partir da radicalização de atores e atoras de grupos politicamente minoritários que se tornam, por agência, sujeitas/os políticos. Em

49 Essas instituições que engendram desigualdade ao administrar, inclusive e para além da exclusão

política, sujeitos matáveis, ou seja, a que dita quem pode morrer e quem pode viver, tal como a narrativa da necropolítica anunciada por Mbembe (2016). Esta narrativa vem sendo denominada e desenvolvida a partir da noção de necropolítica cunhada pelo filósofo político Achille Mbembe (2016). A noção de necropolítica pode sintetizar a apresentação destas discussões. Para o intelectual, que é considerado um dos mais agudos pensadores da atualidade, necropolítica seriam as formas contemporâneas que subjugam a vida ao poder da morte, sendo várias as maneiras pelas quais algumas populações são submetidas a condições de vida que lhes direcionam a própria morte. Mbembe (2016) sugere que a expressão da soberania de um Estado-Nação, em sua função máxima, está em seu poder e capacidade de ditar, direta ou indiretamente, quem pode viver e quem deve morrer.

consonância com os/ autores/as supracitados, a segunda chave orienta essa pesquisa por vir a ser a condição da democracia associada a modelos de gestão pública que projetam a prática cidadã multidimensional, a democratização de institucionalidade e regras que sejam porosas a presença efetiva dos coletivos oprimidos no espaço público, tal como Matos (2018) apresenta.

Aos sinais de sociedades esgotadas pelas desigualdades que estão em consonância com as inflexões do liberalismo e do capitalismo neoliberal, estimula-se em maior ou menor grau sistemas estruturais de exclusão50; ou, modelos de democracias liberais em suas bases normativas conservam, por definição, estruturas excludentes? Estariam as crises das democracias contemporâneas em consonância com essa articulação?

Para diagnosticar as crises das democracias contemporâneas, tem surgido análises sobre a necessidade de definir propriamente a democracia. Em momentos de disputas pelos significados, torna-se interessante disputar as próprias definições, sentidos e entendimentos democráticos. Assim, nos interessa projetar o entendimento do que a democracia não seja. A democratização não implica necessariamente em paz social, crescimento econômico e muito menos, no fim da história. Sua consolidação possibilitada pela sua capacidade dinâmica em dar resposta a diferentes circunstâncias é que podem se dar para os fins de se projetar instituições políticas capazes modular políticas públicas e canalizar conflitos sociais e econômicos (DIAMOND, 2017).

Assim, a partir dessas concepções gerais, para as interpretações das crises das democracias e, ademais, das crises da democracia liberal e seu cordão umbilical com as estruturas do capitalismo, identificamos uma retroalimentação dos dois pressupostos em que a exclusão como consequência de modelos de sociedades desiguais e democracias que convivem com o capitalismo; e da exclusão como efeito e limite insustentável a longo prazo de um sistema democrático. Essas estimulariam em maior ou menor grau o patriarcado e o racismo estruturais e produtores de exclusão e, vice-versa; ou, modelos de democracias liberais que acometem em sua normativa as bases que conservam estruturas excludentes se alimentariam desse contexto, por definição51. Partimos, nesse momento, para uma análise que pretende

50 Patriarcado e racismo estruturais, por exemplo.

51 Diferentes correntes da teoria política e democrática, como o deliberacionismo, o pós-marxismo ou o pós-estruturalismo, vem construindo narrativas para estes debates.

sugerir que as inflexões no liberalismo, na democracia liberal mais especificamente, têm tido um forte direcionamento de oposição às agendas de igualdade, não somente no Brasil e, posteriormente, buscamos traçar o perfil dos/as atores/as que vem ganhando mais visibilidade dentro da disputa por exclusão.