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Do clássico ao atual: a confluência neoconservadora

2. FEMINISMO, GÊNERO E A ASCENSÃO DE UM CENÁRIO

2.2 Ascensão de coalizões de direita, neoliberalismo e neoconservadorismo

2.2.1 Do clássico ao atual: a confluência neoconservadora

Acedendo as reflexões sobre a reemergência60 da direita brasileira que empenhamos elaborar nesse subtópico e, compreendendo que o neoliberalismo é um campo que se direciona a tornar os princípios do Estado mais mercantis — dimensão que historicamente, tem a afeição do que viemos nomeando aqui de coalizões de direita e decorrente aliança neoconservadora — recuperamos a proposta de Silvio de

60 É importante frisar que não compreendemos a direita brasileira como, alguma vez, ausente da política. No entanto, o termo “reemergência” é utilizado para se referir e enfatizar uma direita que tem se articulado em coalizão com outros campos políticos e, em confluência, tem ganhado contornos sobretudo neoconservadores.

Almeida (2018) de distinguir o conservadorismo clássico do neoconservadorismo atual que, consequentemente, tem se derivado do vínculo do neoliberalismo que o conservadorismo impulsiona e, vice-versa. No entanto, a fim de escapar de uma análise unilateral e restrita ao campo da economia política, ressaltamos que tais ideologias são complexas e multifacetadas.

Antes de estabelecer os parâmetros para o que estamos denominando aqui como neoconservadorismo e para que consigamos analisar o surgimento dessas concepções na atualidade, é necessário fazer o contraste com suas origens, assim como sugere o autor Silvio de Almeida (2018). Ao analisar o neoconservadorismo e o liberalismo, o autor demarca as origens do conservadorismo “clássico” em um contexto específico de defesa de valores e instituições tradicionais em face às históricas revoluções liberais americana e francesa. Nesse contexto, o que de fato se queria conservar seriam as monarquias e o cristianismo, ou seja, os pilares das civilizações e culturas ocidentais. Nesse sentido, o conservadorismo seria uma reação de defesa. No entanto, para a atualidade, o neoconservadorismo teria como inimigo o Estado de bem-estar social, a contracultura e a nova esquerda. Para o autor, os conservadores reagem às crises que levantam uma culpa moral cristã. Para os conservadores, a crise seria moral pelo fato de o Estado ter intervindo demasiadamente no privado, prejudicando os valores de alguma forma conservados.

Assim, nos alinhamos ao debate sobre as transformações do Estado em sociedade capitalistas neoliberais e, compreendemos que, para a atualidade, o campo que vem ganhando visibilidade política, das ruas às instituições, é neoconservador e é composto por uma aliança entre a moralidade, a racionalidade econômica ligada diretamente ao neoliberalismo e ao conservadorismo religioso (ALMEIDA, 2018;

BIROLI; MACHADO; VAGGIONE, 2020). Entretanto, é necessário adicionar a essa concepção uma aproximação com as últimas obras de Wendy Brown para melhor definir o neoliberalismo em processo corrente nas sociedades democratizadas, uma vez que, como afirmando anteriormente, estamos diante de fenômenos complexos e multifacetados.

Desde o início do século XXI, Wendy Brown vem tecendo análises sobre a rápida expansão das deformidades geradas pelo neoliberalismo dentro das democracias liberal-capitalistas. Seus trabalhos mais recentes são American Nightmare (2006); seu livro Undoing the Demos (2015); e seu livro traduzido no Brasil, em 2019, como: Nas ruínas do neoliberalismo: a ascensão da política antidemocrática

no ocidente (2019), obra que a autora se propõe a revisar alguns dos argumentos anteriores. Nos dois primeiros trabalhos citados, Brown evoca uma análise mais restrita ao campo neomarxista para o que ela denomina de “ascensão desastrosa de extrema-direita”, na tentativa de compreender o neoliberalismo pelas vias da racionalidade. No entanto, em Nas ruínas do neoliberalismo, Brown avança no debate, agregando a abordagem foucaultiana ao neomarxismo.

Tal movimentação teórica-analítica nos chama a atenção por se propor a trazer à abordagem neomarxista — que se concentra nas instituições, políticas e relações de efeitos econômicos — uma articulação com a abordagem foucaultiana que buscaria direcionar o olhar analítico para os efeitos do neoliberalismo na produção dos sujeitos. Assim, Brown potencializa a discussão sobre os valores éticos, políticos e culturais do neoliberalismo que contribuem para compreender essa ascensão da política antidemocrática no ocidente como um aguçamento de sentimentos nativistas, racistas, homofóbicos, sexistas e cristãos que, nas últimas décadas, adquiriram bases políticas (BROWN, 2019).

Dentro de sua discussão, Brown sugere que o neoliberalismo cria e aumenta desigualdades ao tentar anular os princípios daquilo que seria, propriamente, pertencente à sociedade. Assim como a democracia, que exige algum nível de igualdade, portanto, o papel das organizações seria elaborar e administrar esse nível de igualdade. Embora esta noção exija um certo grau de abstração, pois exige a reflexão em torno de se governo é capaz de produzir igualdade, desconstruir desigualdades e, ademais, como alcançá-las.

Cabe ressaltar que Wendy Brown (2019) está em diálogo com Friedrich Hayek (1930), um autor da Escola Austríaca de pensamento econômico que sugere que toda forma de intervenção do Estado é uma intervenção injusta. Hayek diverge propriamente da justiça redistributiva. Assim, o neoliberalismo, em nome de liberdades econômicas, de certa forma restringe outras liberdades e direitos dos indivíduos.

Hayek coloca que a questão central da sociedade, não é uma questão prioritária e que o problema da política é igualdade e não a desigualdade. A preocupação do neoliberalismo é de que as regras sejam justas, ignorando as diferenças entre as pessoas. Nesse sentido, o neoliberalismo preserva as liberdades individuais sem garantir que existam equilíbrios.

Wendy Brown (2019) ainda suscita a aliança entre a moralidade e a racionalidade econômica e, em consonância a essa coalizão, Biroli, Machado e

Vaggione (2020) propõem cinco dimensões que irão nos contribuir para compreender tal aliança que vem se dando conjuntamente entre atores religiosos e de matriz econômica, formando o que viemos denominando de neoconservadorismo. No intuito de identificar as matrizes em que agem o conservadorismo religioso e suas especificidades para a contemporaneidade, para os/as autores/as, a primeira dimensão nos diz que o conceito de neoconservadorismo é o que nos permite iluminar as afinidades existentes entre estes diferentes atores e setores; a segunda diz da capacidade do neoconservadorismo de juridificar a moralidade, inclusive utilizando a estratégia da gramática dos direitos humanos, ou seja, traduzir suas posições morais no campo jurídico; a terceira dimensão é que, ainda que contraintuitivo, o neoconservadorismo opera em contextos democráticos, uma vez que este setor também tem sido partícipe dos processos de transformações das democracias recentes, disputando os seus sentidos e os colocando em xeque; a quarta dimensão está ligada ao caráter transnacional do neoconservadorismo, em que a tradução de um termo, tal como “ideologia de gênero” ganha força enquanto retórica com experiências empíricas tanto regional, quando intercontinentalmente. Nesse sentido, os setores religiosos parecem conformar e se comprometer com agendas em linguagem comum.

Finalmente, a quinta dimensão que de fato consiste na relação entre neoconservadorismo e neoliberalismo. A aliança formada por esta quinta dimensão posiciona a família no centro da sociedade, a fim de tratá-la no âmbito da privatização e da mercantilização. A compreensão destas dimensões nos permite constatar que o neoconservadorismo e a matriz econômica neoliberal são setores centrais que, em confluência, vem construindo estratégias de reação às agendas de igualdade, ainda que isto implique em corroborar com o processo de erosão das democracias, uma vez que esta não parece ser uma preocupação destes setores. A preocupação se mantém no âmbito de se restaurar uma certa moralidade a partir da politização deste setor.

Como exemplo e resultado, obtemos, para a atualidade, as diversas figuras dos políticos cristãos (BIROLI; MACHADO; VAGGIONE, 2020).

Assim, pode-se concluir que os ataques, a violência política contra as mulheres, a violência política sexista, a violência política racista e/ou contra segmentos

LGBTQIA+ e outras políticas anti-gênero61, estão interconectados e são intencionais para o campo da aliança neoconservadora. Assim como Wendy Brown coloca (2019), a radicalização do capitalismo destruiu tanto a sociedade que os modos de vida como o comunitarismo e pertencimento que, em certa medida, impediam um certo tipo de violência, não existem mais. Essas serias as estratégias do neoliberalismo para tentar lidar com os efeitos de desproteção social, da precariedade e das inevitáveis desigualdades que surgem como resultado da adoção das políticas neoliberais e para manterem o espaço político como uma reserva cis masculina branca (MATOS, 2020).

O neoliberalismo tem um papel central na tradução restrita das agendas feministas e LGBTQIA+. Seu alinhamento com forças multifacetadas, formaram uma coalizão de direita, neoconservadora, que ganhou formato, sobretudo, após se estabelecer a partir de 2015. Para este contexto, derivaram-se pólos: um favorável ao impeachment de Dilma Rousseff e o pólo de apoio às políticas sociais petistas (BRINGEL; PLEYERS, 2015). Dentre as múltiplas demandas colocadas, começaram a se estabelecer, a partir da perspectiva de gênero, as investidas antifeministas e anti-gênero, instrumentos que têm tido um papel intenso e singular no atual processo de regressão democrática brasileiro.