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Da sua forma oculta, à branquitude e branquidade: os mecanismos

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 38-52)

1.2 As múltiplas faces do racismo no Brasil

1.2.1 Da sua forma oculta, à branquitude e branquidade: os mecanismos

Em seu estudo compartilhado sobre a face oculta do racismo na sociedade brasileira, Leoncio Camino, Patrícia da Silva, Aline Machado e Cícero Pereira (2001), indicaram que, devido ao combate promovido por militantes do movimento negro e pelo Estado contra o racismo aberto, as formas tradicionais de evidenciação desse fenômeno – através da discriminação e preconceito – estão sendo substituídas por novas formas, mais sutis. De acordo com os autores, apesar de diversos pesquisadores compreenderem a existência desse novo campo, muitos trabalhos ainda apresentam problemas de ordem metodológica e conceitual: apesar de apresentarem as novas formas de racismo, estão presos a processos metodológicos antigos para entendê-las. Ao não trabalharem nas escalas do contexto social e tratarem essas novas formas de uma maneira universal, diversos pesquisadores e pesquisadoras acabam depauperando o debate.

Taguieff (2002), ao discorrer sobre os limites da repressão legal ao racismo, aponta que,

Devemos [...] partir de um diagnóstico do racismo presente, ou antes dos racismos, dos modos de racização observáveis, identificar e analisar as novas formas argumentativas e prático-sociais de racismo, as quais não se manifestam sempre de um modo claro ao olhar ingênuo (naïf). Na verdade, antes de tudo, o racismo nunca aparece no estado puro, mas sempre no estado imbricado: o racismo, este ou aquele racismo, pode estar imbricado ou implicado no nacionalismo (esta ou aquela forma de nacionalismo), no imperialismo colonial, no etnismo, no eugenismo e nos seus campos conexos (a psicologia diferencial da inteligência), ou ainda no darwinismo social (isso é, o elitismo imoderado implicado pelo liberalismo econômico selvagem) etc. Aquilo a que temos direito de chamar racismo manifesta-se, portanto, apenas no termo de uma análise de uma decomposição da formação sincrética na qual ele entra na qualidade de ingrediente [...]

Encontramos assim o problema do racismo implícito. Este não se proporciona facilmente à denúncia sob a forma claramente reconhecível de condutas ou de teses que caem sob a alçada da lei. (TAGUIEFF, 2002, p.57-58)

No ponto de vista conceitual, Camino et alii. (2001) realçam que devido ao processo histórico da racialização das relações sociais, devemos tomar cuidado para não apresentar como se todas as formas de racismo tivessem origem em algum aspecto psicológico, apontando a necessidade de espraiar os aparelhos explicativos de forma a compreender como essas novas formas do racismo se manifestam na sociedade. À vista disso , os autores apontam que ao usarem os mesmos aparelhos conceituais e metodológicos dos utilizados para estudar as formas clássicas de racismo, muitos estudos não conseguem evidenciar o caráter multifacetado dos impactos desse novo racismo na sociedade atual. No trabalho citado, o argumento é de que é preciso construir uma leitura que possibilite analisar como essas novas formas do racismo se manifestam no contexto atual. Para tal, os autores também partem da compreensão de que apesar do racismo ter origem na modernidade, essa modernidade chegou a uma nova fase, a da globalização. Com isso, novas formas de racismo são engendradas, e novas escalas e formas de analisa-lo são necessárias.

Esse debate entra em consonância com o que sendo trabalhado na dissertação, e possibilita criar um caminho teórico-metodológico para compatibilizar o debate sobre o racismo na conformação do atual sistema-mundo e as formas de manifestação deste em diferentes aspectos da sociedade brasileira.

Com as novas formas do racismo se manifestar e, consequentemente, de analisa-lo, as leituras que o enxergam somente através da dimensão do preconceito e da discriminação passam a ser postas em cheque. Portanto, em uma sociedade

onde ser racista implica em uma coerção moral, o discurso de discriminação racial é substituído por "favoritismo racial", ou como será visto a seguir, “privilégios raciais”.

Esse favoritismo/privilégio não implica na desvalorização e/ou negação das contribuições dos outros grupos raciais para a formação da sociedade atual, mas na supervalorização e favorecimento do grupo racial branco. Apesar de valorizar o

“outro”, e compreender a existência do racismo na sociedade, esse “novo racismo”, não exerce um impacto negativo sobre a identidade branca, ao contrário, a potencializa como sinônimo de desenvolvimento, modernidade.

Nesse sentido,

O novo racismo ideológico reformulou-se progressivamente como um culturalismo e um diferencialismo, um e outro radicais, atacando assim pelo flanco a argumentação antirracista centrada na recusa do biologismo e do inigualitarismo, suposto constituírem as duas características fundamentais do racismo doutrinal, nos quais se acreditada ingenuamente poderem opor o relativismo cultural e o direito à diferença. O princípio da metamorfose ideológica recente do racismo reside precisamente na deslocação da desigualdade biológica entre as raças para a absolutização da diferença entre as culturas. (TAGUIEFF, 2002, p.60)

Como consequência, ao mesmo tempo, o débito negativo de todo o processo de hierarquização racial fica somente para a população negra, que apesar de serem atribuídos alguns aspectos positivos, convivem os aspectos negativos como constitutivos de suas identidades.

Desse modo, através de diversas pesquisas realizadas em países colonizadores, ou onde com o fim da colonização foram mantidas políticas oficiais de segregação racial, os autores citados apontam que atualmente existe uma nova forma de perpetuação do racismo. Assim, apesar de não existir uma diferença discrepante entre as características negativas atribuídas aos diversos grupos raciais, essas novas formas agem na atribuição de valores positivos ao grupo racial branco, e a negação dos mesmos ao negro.

Sobre esse ponto, é importante ressaltar que, apesar das normas antirracistas presentes nas diferentes sociedades, estas acabam por inibir algumas das formas clássicas de discriminação, mas isso não impede que essas novas formas perpetuem o racismo presente na sociedade (CAMINO et alii, 2001).

O neo-racismo, simbólico ou velado, é o racismo próprio da idade do antirracismo, isto é, um racismo adaptado à época pós-nazista caracterizada por um consenso de base sobre a rejeição do racismo. O neo-

racismo é, por conseguinte, estruturado de maneira a abalar os modos tradicionais de reconhecimento social do racismo (discursivo ou comportamental), e a contornar as barreiras simbólicas estabelecidas pelas legislações antirracistas. O que caracteriza é, portanto, em primeiro lugar o seu volta-face dos valores do relativismo cultural (deslocação da “raça” para a “cultura” e afirmação da incomensurabilidade radical das culturas); depois o seu abandono do tema inigualitário e a sua erecção da diferença cultural em absoluto, daí a condenação da mistura e a afirmação da não assimilabilidade mútua, irremediável, das “culturas”; por fim, o seu carácter simbólico, no que respeita às regras da aceitabilidade ideológica (daí uma certa complexidade retórica: trata-se de rejeitar os diferentes, celebrando ao mesmo temo a diferença). (TAGUIEFF, 2002, p.63-64)

Em uma sociedade como a brasileira, estruturada pelo Mito da Democracia Racial, e pela fábula das três raças – dimensão do mito da democracia racial que, devido à popularidade entre o senso comum, ganha corpo teórico próprio e se descola do mito propriamente dito –, as novas formas do racismo se manifestar e a forma de analisá-lo ganham contornos mais nebulosos.

Foi na busca por evidenciar essas novas formas do racismo que Camino et alii (2001) fizeram uma pesquisa com 120 estudantes da Universidade Federal da Paraíba da Área de Ciências Humanas. Apesar de ser uma amostragem pequena, com um público que já sofreu uma perversa clivagem social que é a disputa para entrar em uma universidade pública, os dados obtidos apresentam importantes considerações para entender como o racismo se apresenta atualmente na sociedade. Constataram, ao realizar a pesquisa nos mesmos moldes que foi feita nos outros países, que no Brasil, as pessoas tentem a operar com dois padrões de avaliação,

[...] um padrão mais concreto, destinado a avaliar a si mesmo, e provavelmente também a seus familiares e amigos, e um padrão mais abstrato e político, que visa à avaliação da sociedade brasileira. [...] estes dois padrões interligados permitem aos brasileiros sustentar os princípios modernos da igualdade racial, mesmo reconhecendo que no Brasil se está muito longe de viver esta igualdade. (CAMINO et alii, 2001, p. 24-25)

Através desses dois padrões apontados, 98% dos estudantes entrevistados apontaram que existe racismo na sociedade brasileira, mas ao responderem se os mesmos eram racistas, apenas 16% dos estudantes responderam que eram. Ou seja, esse padrão de avaliação faz com que permaneça todo um sistema de dominação, onde ninguém se enxerga como parte do sistema de hierarquização racial.

Numa pesquisa que atingiu todo o território nacional, Venturi e Paulino (1995) constataram que 89% dos brasileiros reconhecia a existência de preconceito racial no Brasil. Mas apesar da consciência da existência de um preconceito generalizado, 10% admitia ser pessoalmente preconceituosos. [...] Venturi e Paulino (op. cit.) constataram também que 87% dos brasileiros, apesar de não se reconhecerem como preconceituosos, revelavam, de forma indireta, algum tipo de preconceito.

Estes autores afirmam que “os brasileiros sabem haver, negam ter, mas demostram, em sua imensa maioria, preconceito contra os negros”.

Rodriguez (1995) denomina este fenômeno de “Racismo Cordial”, afirmando que esta atitude seria uma maneira de não ofender mais aquele que se discrimina. (Idem, ibidem, p. 21)

Continuando a contribuição, os autores acrescentam que,

[...] este racismo à brasileira não tem nada de cordial; muito pelo contrário, por ser mascarado, ele é não apenas terrivelmente eficiente em sua função de discriminar as pessoas de cor negra, mas é também, lamentavelmente, muito difícil de erradicar. Faz-se, pois, necessário conhecer as “novas cabeças” desta velha e horrorosa Hidra; faz-se necessário analisar as formas específicas que o racismo assume no Brasil. (Idem, ibidem, p .22)

Para compreender a forma de como o “novo racismo” aparece no discurso brasileiro, os pesquisadores utilizaram em seu estudo o modelo de lista de adjetivos (checklist). Junto a isso, visavam compreender qual a imagem que os indivíduos têm sobre os diferentes grupos raciais do Brasil. Nesse ponto, ao contrário dos indivíduos pesquisados em outros países, no Brasil as pessoas tenderam a atribuir um grande percentual de características positivas e um baixo percentual de negativas para a população negra. Contudo, a maior parte dos adjetivos girou em torno do negro alegre e do negro simpático; em contrapartida, quando perguntado o que os brasileiros acham dos negros, a maior parte apresentam o negro como desonestos e agressivos. Além disso, no que concerne a capacidade cognitiva como a inteligência, o adjetivo foi majoritariamente atribuído a indivíduos de pele branca.

Através disso, além de serem influenciadas pelas medidas antirracistas e pelas pressões sociais em torno dos discursos “politicamente corretos” (Idem, ibidem), compreende-se que o pensamento social brasileiro, em torno do incentivo a miscigenação, faz com que esse indivíduo que em algum grau também é miscigenado, se posicione dessa forma. Com tal característica, depreende-se que o conjunto desses diferentes fatores faz como que exista uma preocupação (maior do que em países onde houve segregação institucionalizada) em não mostrar o racismo presente nas suas relações interpessoais.

Contudo, esses dados deixam evidentes que o combate ao racismo no plano discursivo apresenta fortes impactos na hora de os brasileiros se posicionarem acerca do assunto. Visto isso, enfatiza-se que a negação da existência no plano discursivo não implica na inexistência no plano do cotidiano. Esse entendimento fica nítido ao observar o posicionamento dos entrevistados quando o foco da discussão mudou para a relação primeiro mundo versus terceiro mundo, ou desenvolvido versus subdesenvolvido. Ao fazer esse movimento, os estudantes acabaram atribuindo maiores características primeiro mundistas a pessoas do grupo racial branco. Acerca das características terceiro-mundistas, os dados mostram uma maior homogeneidade, com exceção do adjetivo pobre, que segundo os autores foi aplicado aos negros em 78% dos casos.

Com a mudança metodológica e conceitual de análise, para compreender o racismo em tempos de mundo globalizado, os pesquisadores conseguiram dados que evidenciam que, assim como nas análises realizadas em países onde a segregação tomou a forma de lei, existe uma maior quantidade de atribuições

“positivas” aos brancos e, predominantemente, se atribuem características majoritariamente negativas aos negros.

À vista desse movimento, Camino et alii (2001) apontam que,

[...] novas formas de categorização estão se desenvolvendo, formas que se destinam a substituir o conceito de raça pelo de modernismo, a cor branca sendo associada aos valores do primeiro mundo e a cor negra aos valores do terceiro mundo. Estas novas formas de categorização não se confrontam com as normas anti-racistas, o que facilita a conservação dos processos de exclusão. (Idem, ibidem, p. 32)

Para adensar e essa análise, compreendemos que esse novo racismo tem como principal componente a criação e posterior mobilização de uma identidade branca. Cabe ressaltar que, como grande parte das identidades presentes no atual sistema-mundo estão atreladas a um emaranhado conjunto de opressões, essa perspectiva nos ajuda a ampliar o escopo analítico-conceitual para compreender como essas novas formas de racismo aparecem na sociedade, com as discussões levantadas no início do capítulo10.

Sobre esse debate, Ruth Frankenberg (2004) aponta que:

10 Por ora, é importante lembrar que esse tema tem forte desdobramento na construção de leituras espaciais e é trabalhada na agenda do ensino de geografia, ou seja, não é só na mídia que se aprende essa leitura, mas também em sala, com a geografia.

[...] é crucial lembrar que, no contexto da colonização, os construtos identificados como “povo(s)”, “nações”, culturas” e “raças” passam a ter um entrelaçamento complexo. É por isso que, no presente, continuam a fundir- se uns com os outros em termos racistas, de tal modo que “norte- americano”, por exemplo, tende a ser entendido como o significado de

“branco”. (FRANKENBERG, 2004, p. 310)

Ao fazer a ponte entre as contribuições de Camino et alii (2001) e de Frankenberg (2004) verifica-se que existe um conjunto de práticas e mecanismos que não se enquadram nem no campo da discriminação e do preconceito, mas que dão lastro para reprodução do racismo na sociedade. Um deles é o que vem se chamando, na academia brasileira, de branquitude e branquidade. Estes dois conceitos, ajudam a fazer a ponte entre as formas tradicionalmente engendradas de hierarquização racial, e as novas formas apontadas por Camino et alii (2001).

Como indica Camila Jesus (2012), apesar de o termo branquitude aparecer pela primeira vez na obra de Gilberto Freyre11, é somente nos anos 2000 que o conceito se populariza na literatura acadêmica brasileira. Segundo Lourenço Cardoso (2014), esta palavra pode ser considerada uma atualização do termo

“brancura”, proposto por Guerreiro Ramos no começo da segunda metade do século XX, e vai se popularizar principalmente através das obras de Edith Piza12 ede Maria Aparecida Silva Bento13.

Segundo Cardoso (2014), para parte da academia brasileira, a conceituação de branquitude também pode ser considerado uma versão brasileira do conceito de língua inglesa whiteness. Contudo, como o próprio destaca, com o lançamento do livro “Branquidade – Identidade branca e multiculturalismo” de Vron Ware (2004) o conceito whiteness vai ser traduzido como branquidade.

Em virtude disso, Jesus (2012) indica que,

Embora o título do livro tenha sido traduzido para português como Branquidade e não Branquitude, nota-se nas publicações que a palavra branquidade deseja exprimir o mesmo conceito que pesquisadores aqui no Brasil estavam utilizando. (JESUS, 2012, p.6)

11 O termo é criticado pelo autor, uma vez que junto com o termo “negritude”, representavam um empecilho para a propagação da ideologia de democracia racial sob a base de um discurso de mestiçagem.

12 “Branco no Brasil? Ninguém sabe, ninguém viu” (2000) e “Porta de vidro: entrada para a branquitude” (2002).

13 “Branqueamento e Branquitude no Brasil” (2002), e na sua tese de doutorado “Pactos narcísicos no racismo: branquitude e poder nas organizações empresarias e no poder público” (2002).

Apesar disso, tanto a autora quanto Cardoso (2014) apontam que, com a emergência do termo branquidade, alguns pesquisadores e pesquisadoras estão caminhando no sentido da ressignificação do conceito de branquitude. É o caso de Edith Piza, que segundo Jesus (2012) ao cita-la apresenta que,

Ainda que necessite amadurecer em muito esta proposta, sugere-se aqui que branquitude seja pensada como uma identidade branca negativa, ou seja, um movimento de negação da supremacia branca enquanto expressão de humanidade. Em oposição à branquidade (termo que está ligado também a negridade, no que se refere aos negros), branquitude é um movimento de reflexão a partir e para fora de nossa própria experiência enquanto brancos. É o questionamento consciente do preconceito e da discriminação que pode levar a uma ação política antirracista (PIZA, 2005, p. 07 apud JESUS, 2012).

Em resumo, Cardoso (2014) apresenta que dentro dessa proposta de separação,

[...] A branquidade diria respeito à identidade racial do branco que não questiona seus privilégios raciais e a branquitude se refere aquele que questiona as vantagens raciais. (CARDOSO, 2014, p. 183)

Contudo, quanto a essa proposição, o referido autor faz uma crítica ao conceito de branquidade defendido por Piza (2005 apud JESUS, 2012) uma vez que:

[...] No contexto brasileiro, quem melhor se insere neste perfil é o pesquisador branco de branquitude. Ou mais concretamente, a própria Edith Piza. Isso significa que, a autora propõe um conceito para benefício próprio, para se diferenciar; situar-se num patamar hierárquico acima. Isto é, o branco com branquitude encontra-se num nível elevado superior ao branco com branquidade. Em virtude de que é autocrítico contra os privilégios raciais, enquanto o branco com branquidade não é. Porém, tanto branco com branquitude quanto com branquidade serão tratados da mesma forma pela sociedade. (CARDOSO, 2014, p. 183)

Apesar de concordar com a crítica feita pelo autor, a separação entre identidades e tomada de atitude contida “ocultamente” na proposta de Piza (apud JESUS, 2012) apresenta um profundo e espinhoso campo de discussão dentro do que seria a identidade racial do branco brasileiro e a função dessa identidade nas relações sociais brasileiras.

Não adentrando nessa seara, Cardoso (2014) opta por enxergar branquitude e branquidade enquanto sinônimos. Em movimento contrário a opção de Cardoso (2014), pretende-se aqui realizar algumas discussões de forma contribuir para o

debate sobre a identidade racial do branco brasileiro a partir dos conceitos de branquidade e branquitude.

Apesar de considerar que ambos os conceitos possuem uma forte ligação, também acredita-se que existem algumas diferenças no que tange à escala analítica e no processo histórico de formação dos mesmos. Esse entendimento parte do princípio de que, apesar de existir um processo de criação de uma branquidade em uma escala-mundo, esta ganhou contornos próprios nos diferentes países onde foi engendrada, fazendo com que diferentes indivíduos inculcassem diferentes formas de se enxergar e também se posicionar na sociedade.

Nesse sentido, compreende-se que a branquidade diz respeito a construção de um sistema de identidade que atingiu diversos países do mundo, construindo uma imagem do que seria o grupo racial branco ideal, da mesma forma que o processo de modernidade construiu uma identidade para os diversos grupos raciais, como ressaltamos da discussão sobre a construção da raça na conformação do sistema-mundo moderno colonial.

Através dessa discussão, entendemos que a branquidade, de maneira indireta, também é capaz de influenciar na visão de diversos indivíduos para além do grupamento branco. Já a branquitude, como diz Maria Aparecida Silva Bento (2002), pode ser entendida enquanto os “traços da identidade racial do branco brasileiro a partir das ideias sobre branqueamento” (BENTO, 2002, p. 25). Ao ressaltar a dimensão do branco brasileiro, entende-se que a branquitude vai agir somente sobre o grupo racial branco.

Através dessa perspectiva, concebe-se a branquitude como a inculcação do modus operandi do branco atuar em sociedade, engendrado pela construção da branquidade em escala mundo, e de mecanismos de homogeneização como a teoria de branqueamento. Ao fazer esse movimento, se como busca construção de uma leitura que possibilite enxergar esses termos como conceitos diferentes, mas complementares.

No entendimento que se orienta aqui neste trabalho, o portador de branquitude não tem a sua principal característica nem na atuação na luta antirracista, como busca conceituar Piza (2005, apud JESUS, 2010), muito menos no uso intencional do racismo para conseguir vantagens como aponta Cardoso (2014). Ao buscar evidenciar o entrelaçamento entre a teoria de branqueamento e

as ações mais palpáveis e práticas presente nas atitudes do grupo racial branco, por exemplo, Bento (op. cit.) indica que até nos estudos considerados mais progressistas para evidenciar o papel do racismo na construção de identidades na sociedade brasileira, existem traços dessa branquitude.

Essa perspectiva fica mais evidenciada na crítica realizada sobre as apropriações hegemonicamente feitas às obras de pensadores antirracistas, como Florestan Fernandes e Octavio Ianni. Sobre os trabalhos de Florestan Fernandes, em específico, Bento (op. cit.) elucida que, apesar do autor ter trabalhado outras perspectivas no decorrer da carreira, em suas obras mais citadas, o autor trabalhou com uma perspectiva que atribuía ao negro o problema envolvendo a questão racial.

Assim, a autora aponta que existe uma invisibilização acerca de como o processo secular de formação do racismo influenciou no significado de ser branco, ou apresentou essa influência sobre a identidade da população branca no país. Acerca da hegemônica utilização de uma perspectiva que coloca o negro sempre como o único atingindo pelo racismo, a autora entende que além disso,

Na descrição desse processo o branco pouco aparece, exceto como modelo universal de humanidade, alvo da inveja e do desejo dos outros grupos raciais não-brancos e, portanto, encarados como não tão humanos.

(BENTO, op. cit., p.25)

Ainda segundo a autora, outra estratégia para tentar invisibilizar essa discussão, é a realocação para o debate de classe social. Nesse sentido, mesmo sabendo que quando apresentados os números de exploração intra-classe, ou mesmo quando são estudados os resultados em números gerais da classe social, são os negros que estão na base da pirâmide social, os portadores de branquidade buscam criar estratégias para negar a discussão, a essas estratégias Bento (op. cit.) chamou de “acordo tácito”.

Simultaneamente a esse debate, para explicar a invisibilização dessa discussão dentro de diferentes organizações coletivas, a autora utiliza ainda os aportes teóricos de Denise Jodelet (1989 apud Bento, 2002). Segundo esta pesquisadora, a necessidade de pertencimento a um grupamento social, pode fazer com que invistamos nele a nossa própria identidade. Na tentativa de proteger intencionalmente (ou não) o que quer ser, acaba se negando as discussões que podem abalar os pilares dessa identidade coletiva.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 38-52)