A autora americana Frances HAGOPIAN (2009) afirma que, independentemente das coalizões que busquem construir, de qual eleitorado tentem conquistar, do que oferecem a seus eleitores em troca dos votos e de terem sua prática política baseada em clientelismo, patronagem e personalismo ou em performance administrativa ou em programas e ideologias, o fato é que os partidos políticos são os agentes mais importantes da representação política nas democracias modernas. Realmente, o desenho institucional da grande maioria das democracias atuais confere aos partidos políticos o papel de reunir, em torno de uma instituição, indivíduos que compactuam dos mesmos interesses e/ou das mesmas ideias para que representem estas demandas e atuem de forma coordenada em busca do poder político, respeitando as regras do Estado Democrático de Direito, respaldando o sistema representativo e submetendo-se ao processo eleitoral para que, consequentemente, possam atingir os interesses que perseguem e/ou aplicar, na forma de políticas públicas, as ideias que compartilham.
Embora existam na sociedade, e também na literatura sobre o tema dos partidos políticos, questionamentos sobre quais interesses estas agremiações de fato representam e sobre se realmente os partidos refletem as vontades dos cidadãos ou meramente atuam no sentido de conquistar o que é desejado pelos políticos, como afirma Aldrich, e mais especificamente por sua classe dirigente, que formam a oligarquia interna descrita por Michels, não há dúvidas de que os partidos políticos são ainda relevantes, necessários para o sistema político e fundamentais para a democracia, pois seu papel institucional não se confunde com os eventuais objetivos meramente individuais defendidos por seus membros na prática. A articulação e coordenação de interesses e ideais, a legitimação dos detentores do poder através do princípio da representação, a participação dos indivíduos e grupos no que tange às decisões dos governos e a formação de líderes políticos que coordenem os rumos da sociedade são intrinsecamente conectados à atuação dos partidos políticos e profundamente necessários para a sobrevivência do regime político institucionalizado e
baseado na democracia. Em suma, os partidos políticos configuram engrenagem sem a qual não funcionaria o maquinário democrático.
O avanço irrestrito da democracia nos últimos tempos supõe um processo triplo. A necessidade de articular regras de jogo assumidas pela maioria e que ao mesmo tempo compusessem espaços organizativos mínimos nos quais se realizasse a competição política.
A incorporação da mobilização social através de formas de participação e de representação, e, finalmente, a criação de canais de seleção de pessoal político que liderasse e gerisse a política cotidiana. Estas três faces se referem a temas recorrentes da literatura das ciências sociais e aludem, em uma terminologia mais técnica, à institucionalização do regime político, à intermediação entre as demandas da sociedade e o poder, e à profissionalização da política. [...] A personalização da política, a aparente verticalidade no processo de tomada de decisões partidárias e as denúncias de que os partidos são oligarquias que representam cada vez menos os cidadãos levaram muitos a desprezar a importância dos partidos como instrumentos do sistema político, pondo em dúvida a capacidade mobilizadora e de representação dessas agremiações.
Embora, em princípio, pareça que não há incentivos para que os partidos desenvolvam estratégias organizativas para forjar laços fortes com o eleitorado, nem tampouco estruturas que dêem sustentação aos dirigentes partidários, existem razões suficientes que ajudam a sustentar que os partidos continuam sendo instrumentos básicos do jogo político e estruturas de intermediação necessárias para o funcionamento do sistema. (ALCANTARA SAEZ &
FREIDENBERG, 2002, p.138)
O alemão WEBER (1982) afirma que diferentes motivações levam ao surgimento e à manutenção de um partido político e que as agremiações podem compreender e/ou representar grupos sociais bastante distintos, onde os envolvidos se aproximam por diferentes tipos de vínculo, podendo ser eles baseados tanto no interesse individual e/ou coletivo como na convergência de ideais. Nos parece importante esta contribuição de uma visão menos crítica dos partidos per se, sem se deixar levar pelas eventuais práticas pouco republicanas de uma determinada agremiação, visto que os partidos políticos interpretam relevante papel no sistema político no sentido de serem a interface entre os diferentes estratos da sociedade e o governo, defendendo e construindo proposições legislativas e políticas públicas que, implementadas pelo poder público, atendem às demandas das localidades e/ou grupos de interesse que constituem sua base de eleitores. Nesse sentido, os partidos políticos são peça fundamental do regime democrático representativo, ainda mais no caso específico brasileiro onde as legendas possuem o monopólio da representação, já que não existe permissão legal para o lançamento de
candidaturas independentes a cargos eletivos, ou seja, que não tenham a chancela de uma agremiação partidária.
Sendo assim, se é verdade que os partidos políticos são fundamentais para o funcionamento do sistema político e da democracia e que estes não apenas servem aos interesses dos políticos e dirigentes que os integram, sem dúvida se configura relevante, portanto, que estes também reflitam em seu desenho institucional interno e busquem na sua prática a persecução dos mesmos valores democráticos e representativos que fazem com que eles sejam engrenagens úteis para o sistema político e a sociedade em geral. Ou seja, se os partidos políticos mantêm sua importância a partir, entre outras razões, do fato de que são encarregados de levar as demandas dos eleitores que representam aos ouvidos dos governos, de expressar programas e ideologias e de coordenar as ações dos seus detentores de mandato, é interessante que eles, da mesma forma, escutem também as reivindicações de seus filiados a respeito dos seus rumos, espelhem em sua classe dirigente interna as diferentes correntes programáticas defendidas por seus militantes e simpatizantes, coordenem a mobilização destes e permitam a participação e a competição por postos de comando entre todos os interessados a partir de regras estabelecidas claras e previsíveis. Afinal, se o Estado Democrático de Direito se consolida quando existe previsibilidade do jogo político e respeito às regras previamente definidas para que se possa atingir o poder, também dentro dos partidos políticos nos parece importante que existam normas nítidas, que promovam a participação e a competição justa e, principalmente, que sejam respeitadas por todos.
Além disso, se a alternância de poder é basilar para a democracia e os partidos políticos de situação e oposição interpretam papel fundamental neste sistema de intercalação salutar de forças políticas decidindo as ações que serão empreendidas pelo Estado, também na intimidade destas agremiações nos parece saudável o desestímulo à perpetuação das mesmas lideranças e à perenidade da hierarquia estabelecida. Se é uma verdade irrefutável que uma organização sempre tenderá a se oligarquizar, como afirma Michels, que haja a substituição periódica e devidamente regulamentada dessas elites dirigentes, como explica Duverger, o que nada mais representa do que a aplicação do princípio democrático.
Em suma, se o sistema político se aperfeiçoa na medida em que se aperfeiçoam o regime democrático e as instituições, acreditamos que isso se dará em grande medida a partir da aplicação normativa das ideias e regras democráticas não apenas na competição interpartidária, mas também no interior da organização partidária. Resumindo, se existem normas, princípios, controles e incentivos que são fundamentais para o primado da democracia em uma sociedade, como podem os instrumentos maiores do regime democrático, os partidos políticos, não aplicarem estes elementos em seu cotidiano?
“Sendo instituiç es centrais para o funcionamento da democracia representativa, é de se supor que os partidos, no ato de sua constituição, busquem internalizar características que são imediatamente associadas à democracia, ou seja, imagine-se que os partidos norteiem seu funcionamento e sua estrutura básica de acordo com o que se espera em uma democracia. nesse contexto que surge a terminologia Democracia Intrapartidária (Internal Party Democracy ou Intra-Party Democracy – IPD –, na literatura em ingl s), que busca dar conta dessa dimensão democrática no interior dos partidos” (SANTOS, 2014, p. 24).
“La „democracia interna‟ supone la adopción de los principios del sistema democrático en el interior de la organización política, significando la inclusión de criterios de competencia, adopción de valores democráticos, tales como la libertad de expresión y la libertad de elección para sus miembros y, por tanto, utilizar mecanismos competitivos en el proceso de toma de decisiones, la participación del afiliado en la formación de la voluntad partidista y la existencia de canales que permitan el ejercicio del control político” (FREIDENBERG apud SANTOS, 2014, p. 24).
Vale também salientar que, se os partidos políticos são fundamentais para o funcionamento e a institucionalização do regime democrático, a democracia interna dessas agremiações interpretaria também importante papel com relação ao sistema político como um todo, ou seja, atuaria não apenas no aprofundamento da democracia a nível interior, mas também a nível exterior em direção à consolidação do regime democrático como um todo, principalmente em países com democracias mais recentes, como é o caso do Brasil e de praticamente toda a América Latina.
El creciente descrédito de los partidos ante la opinión p blica y las erráticas gestiones de muchos de ellos en contextos de crisis económicas profundas, han llevado a algunos a creer que la reforma de los partidos y su democratización interna son centrales para asegurar la estabilidad de la democracia y la gobernabilidad en la región. Sin partidos transparentes, incluyentes y responsables ante sus miembros (y ante la sociedad), la distancia entre organizaciones partidistas y ciudadanos se incrementa. Por ello, un reto indispensable para mejorar el rendimiento de los sistemas
democráticos está en mejorar el funcionamiento interno de los partidos y su manera de vincularse con las instituciones y con los ciudadanos. (FREIDENBERG apud SANTOS, 2014, p. 27).
A partir dessas premissas, compreendemos ser importante que os partidos políticos brasileiros sejam cada vez mais democráticos internamente e buscamos confirmar a hipótese de que existe, atualmente, uma relevante variação no nível de democracia interna dos partidos políticos brasileiros quando estes são analisados individualmente e não como o todo de um sistema partidário. Ou seja, alguns partidos seriam mais democráticos que outros no que concerne à organização interna e ao acesso ao topo das hierarquias partidárias locais e nacionais. Contudo, a comprovação da existência desta variação do grau de democracia intrapartidária, quando comparadas diferentes agremiações, necessita de instrumentos de mensuração para que se possa atribuir o nível de democracia de cada partido e confirmar ou não a hipótese de que estes níveis variam.
Para isso, utilizaremos o conceito de DAHL (1971) no que tange à definição do que seja democracia e à possibilidade de mensurar diferentes níveis de grau democrático. O autor apresenta a democracia como sendo na verdade uma espécie de ideal perseguido pelos regimes políticos. Nesse sentido, seria possível apenas aproximar-se da plenitude democrática, mas nunca atingí-la totalmente. De qualquer forma, regimes políticos poderiam, portanto, ser mais ou menos democráticos na medida em que se aproximam ou se distanciam de atingir todas as características que configurariam a democracia plena.
“Dahl trata o problema da democratização, definindo-a como um processo de progressiva ampliação da competição e da participação política. Esta identificação da democratização com avanços nestes dois eixos - competição e participação - tornou-se clássica porque, entre outras razões, ofereceu critérios claros e razoavelmente objetivos para uma classificação dos regimes políticos observados, permitindo definir sua maior ou menor proximidade do ideal democrático. Diante de um país qualquer, em um determinado ponto no tempo, é possível avaliá-lo de acordo com os dois eixos analíticos propostos e, com base nessa avaliação, classificá-lo como democrático ou não. Há limitações à competição política? Há parcelas expressivas da população às quais seja negado o direito de voto? Em caso de resposta afirmativa para qualquer das questões, o regime observado não é democrático” (LIMONGI, 2005, p.1)
O autor caracteriza como “poliárquicos” os regimes políticos que mais se aproximam de conter, com altos níveis de desenvolvimento e profundidade,
todos os mecanismos de contestação e participação entendidos como dimensões indispensáveis para a construção de uma democracia plena. Ele também traz definições acerca de regimes onde as instituições da sociedade não se encontram próximas do ideal democrático. Ele chama de “hegemonia fechada” os regimes sem oposição e sem participação, denomina como
“hegemonia inclusiva” os regimes com participação, mas sem oposição e intitula como “oligarquia competitiva” os regimes sem participação mas com oposição.
Figura 1 - Duas dimensões teóricas de democratização
Fonte: DAHL (1971, p. 25)
Figura 2 - Liberalização, inclusividade e democratização
Fonte: DAHL (1971, p. 50)
Em resumo, a democratização seria um processo de progressiva ampliação da competição (contestação) e da participação (direito de participar),
fornecendo portanto os critérios claros e objetivos para a classificação dos regimes políticos de que necessitamos.
Nesse diapasão, o modelo dahlsiano nos será muito útil na medida em que permite uma espécie de “quantificação do nível de democracia”, que é exatamente o que pretendemos fazer no que diz respeito a mensurar os níveis de democracia dos diferentes partidos investigados, analisando as estatísticas de cada um deles. Levando em consideração que, para Dahl, a democracia só existe na realidade de forma aproximada, à qual ele dá o nome de poliarquia, e que esta surge quando existem bons níveis de participação e contestação em um determinado regime político, aplicaremos estes critérios para analisar o regime interno de cada partido e, para isso, nos debruçaremos sobre o tema das comissões executivas partidárias provisórias, sobre as regras estatutárias das agremiações e sobre a alternância de poder na presidência nacional de cada partido analisado para traçar um diagnóstico útil sobre o grau de democracia intrapartidária de cada agremiação.
PANEBIANCO (2005) possui, assim como o presente trabalho, o entendimento de que é possível traçar paralelo entre a teoria democrática focada nos regimes políticos e o interior das agremiações partidárias. O autor defende que a ausência de organização interna e de burocratização facilita o arbítrio e o fortalecimento de decisões verticais advindas das lideranças partidárias. Pela ótica de Panebianco, o processo de institucionalização não significaria necessariamente uma oligarquização, o que de certa forma contraria a máxima de Michels, que enxerga a oligarquia como fruto indubitável da organização. Panebianco enxerga que, assim como no regime democrático, um sistema institucionalizado de controle, com freios e contrapesos, poderia interpretar papel democratizante no que diz respeito à organização partidária.
Portanto, traçando um paralelo entre os regimes políticos e os partidos e construindo uma interseção entre as contribuições dahlsianas e os dados coletados para a elaboração do presente trabalho, utilizaremos a instrumentalização da democracia realizada por Dahl para compreender a democracia intrapartidária e, à luz do conceito dahlsiano de democracia, analisar quais partidos políticos brasileiros, dentre os investigados, estão mais ou menos próximos de construir um ambiente interno democrático e, consequentemente, classificar as agremiações a partir da lógica de que quanto
mais competitivo e participativo for um determinado partido, mais próximo do ideal democrático e mais poliárquico ele será e quanto maior a limitação à contestação política e menor a participação, mais autoritário será o partido.