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5. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

5.4 Dificuldades

carinho e atenção, ao invés de possibilitar um manejo terapêutico e de reabilitação, também podendo atrapalhar o desenvolvimento de atividades mais específicas. Na publicação realizada pelo Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social de Curitiba (IPARDES, 2008) é explicitado que muitos dos idosos residentes em ILPIs sofrem de solidão, apatia, saudade e carência.

Infelizmente não são só facilidades que os psicólogos encontram na atuação em ILPIs, estes profissionais também se deparam com algumas barreiras e empecilhos, portanto na próxima categoria serão discutidas as dificuldades que estes profissionais encontram neste contexto.

Em resumo, as facilidades de atuação do psicólogo em ILPIs se dão devido ao programa oferecido pelo município, Idoso em foco; a compreensão que a Psicologia oferece em compreender a pessoa enquanto ser integral, cuidando da saúde emocional e psicológica; trabalhar com equipes interdisciplinares; o apoio da coordenação das instituições e a liberdade oferecida aos psicólogos para a realização das atividades; e a aceitação dos idosos e familiares em relação ao trabalho da Psicologia.

psicólogos trabalhando na região. O que demonstra a falta de conhecimento dos colegas de profissão a respeito de profissionais atuando nestes contextos.

De acordo com Neri (2005) existe pouco conhecimento a respeito do real fazer do psicólogo que trabalha com idosos, e do psicólogo que trabalha em ILPIs.

Ariel (P) pergunta: “Não sei pelas outras instituições que tu fosse, todas devem ter psicólogo né?”

Diante do exposto, se torna urgente o envolvimento de psicólogos em pesquisas sobre sua atuação em ILPIs, para clarificar a esses profissionais suas funções e seus fazeres, bem como desmistificar para a sociedade a atuação da Psicologia apenas em contextos clínicos. Indicando para os outros profissionais das instituições que o saber da Psicologia pode contribuir para um bom convívio entre funcionários e idosos e uma melhor qualidade de vida dos mesmos.

Duas entrevistadas relataram como dificuldade a falta de vínculo e integração entre os idosos da ILPI, embora também tenham apontado como uma atividade que gostariam de melhor explorar: Caliel (P): “A gente sente muita falta de integração entre eles”. Complementa Ariel (P): “Por mais que eles sentem ali no sofá, e eles fiquem um do lado do outro, geralmente eles não interagem”. A mesma entrevistada acrescenta ser importante estimular esta integração, pois segundo ela: “mesmo porque eles tem só eles próprios, a maioria dos familiares já não vem tanto, ou está sempre ocupado”.

Guidetti e Pereira (2008) pesquisaram a importância da comunicação na socialização de idosos institucionalizados, os dados revelados por este estudo apontaram que realmente com a institucionalização, os idosos tendem a se isolar e muitos deles, por mais que vivam juntos não se comunicam e não interagem, não havendo socialização e convivência participativa.

As autoras supracitadas informam a necessidade de realizar atividades em grupo com os idosos, baseadas na comunicação e no entretenimento, pois estas podem evitar a depressão, doenças físicas e mentais, a carência afetiva e emocional e o isolamento (GUIDETTI; PEREIRA, 2008).

Magesky, Modesto e Torres (2009) indicam que se as relações entre os idosos institucionalizados forem mais saudáveis, os mesmos terão uma

melhor saúde psicossocial. Para Brink (1983) relações de amizade podem evitar psicopatologias, e em particular a depressão.

Como relata Grosiman (1999) os asilos (ILPIs) desde o século XX já isolavam a velhice do “presente”, assumindo o modelo de instituições totais.

Ingressar neste ambiente representava um rompimento dos laços sociais, pois a instituição que passaria a mediar o contato dos idosos com o mundo externo.

Todos os entrevistados apresentaram a dificuldade emocional de cuidar de idosos institucionalizados, Elemiah (E) desabafa: “Tem que ser muito forte pra fazer um estágio dentro de um asilo (...) tem que ter estrutura emocional para estar lá dentro (..) eu fiquei o quanto foi suportável pra mim”. Rafael (E) relata: “Lidar com o idoso dentro do asilo não é fácil (...) é uma carga de estresse muito alta, não é qualquer um que agüenta, tem que gostar muito”.

A respeito da dificuldade emocional em lidar com idosos institucionalizados, Ariel (P) explica: “Não é muita gente que sabe lidar com isso. A maioria realmente não sabe. Tanto pro familiar como as pessoas que trabalham aqui, não é fácil eles terem esse convívio direto com a morte, com a doença também é difícil”.

O cuidar do outro é uma das tarefas humanas em que a culpa e a responsabilidade aparecem com maior evidencia. O cuidado humano radica no amor, e amar é estar presente e valorizar o outro. O cuidado é composto pela essência do amor e é também uma forma de promover a vida, demonstrando preocupação, ocupação, responsabilização, e envolvimento afetivo com o ser cuidado (FRAGOSO, 2008).

O funcionamento das ILPIs como instituição total apareceu no discurso de todos os entrevistados. Segundo Rafael (E) Quando eles estão dentro de uma instituição eles estão isolados. Porque a sociedade ia ate eles (...) mas era difícil ter o contrário, dos idosos saírem, deles se sentirem parte da sociedade”. Caliel (P) complementa: “Existe a necessidade do idoso sair do ambiente asilar (...) é uma necessidade pro idoso não ficar só naquele convívio. Ver o banco, a igreja, tudo o que eles estavam acostumados a fazer”.

Compreende-se aqui que as ILPIs constituem uma modalidade de instituição total por ser destinada a cuidar de pessoas idosas “incapazes e

inofensivas”. Neste sentido, Goffman (1996) define instituição total como um espaço físico fechado, simbolizado pela barreira a relação social com o mundo externo e por proibições a saídas, onde indivíduos com situações semelhantes, são separados da sociedade, levando uma vida fortemente administrada.

As ações que os sujeitos realizam dentro das instituições geralmente são realizadas no mesmo local, na companhia de um grupo de pessoas que são tratadas da mesma forma, sendo obrigadas a fazer as mesmas coisas em conjuntos, diariamente nos mesmos horários e sob uma única autoridade. O que acarreta no não respeito as individualidades e as singularidades de cada um (GOFFMAN, 1996).

As instituições totais são regidas pela hierarquia, o controle e o uso do poder, a partir de padrões uniformizados de atendimento e normas. Os idosos levam uma vida pautada em rotinas e horários preestabelecidos pela equipe dirigente, o que implica na perda de expressão da subjetividade e dos desejos dos residentes das instituições. Esta disciplina implica na distribuição dos indivíduos no espaço da ILPI, pautado por normas e leis (implícitas e explícitas) a serem seguidas, evidenciando um enclausuramento dos idosos (GOFFMAN, 1996).

De acordo com Junges, Meneghel e Pavan (2008), as ILPIs se assemelham a alojamentos e dificilmente apresentam propostas que incentivem a independência e a autonomia de seus usuários. Geralmente eles têm uma restrita possibilidade de vida social, afetiva e sexual. Esta situação é marcada por pouco prestígio social, o que acarreta em tristeza e isolamento para os idosos.

Analisando os efeitos da institucionalização nas pessoas idosas, alguns autores comparam a velhice com a infância (GROISMAN, 1999) e a condição institucional como uma situação de infantilização, pois os idosos são destituídos de sua própria voz (JUNGES; MENEGHEL; PAVAN, 2008). Essa infantilização, que pode ser chamada de segunda infância, está associada a situação de dependência física ou mental dos idosos institucionalizados, pois eles precisam de tantos cuidados e atenção como uma criança.

Uma das entrevistadas também mencionou esta relação, Caliel (P):

“Trabalhar com o idoso se assemelha a trabalhar com criança (...) uma por serem dependentes, pela teimosia, por eles não se autogovernarem,

então precisa de uma caminho, pra eles se direcionarem, eu acho que eles perdem a referência, eu acho não, eu tenho certeza, que eles perdem a referência quando entram num asilo”.

No entanto, segundo Groisman (1999) a dependência de uma criança é encarada pela sociedade de uma maneira bonita e aceitável, diferente de quando aspectos da vida adulta são considerados infantis, pois surge-se aí um sentido pejorativo e negativo. Por isso a importância de fazer da institucionalização uma decisão negociada, entre idoso, família e ILPI, para que a mesma não seja configurada como invasiva e um abuso de poder.

Outra dificuldade relacionada ao tema da instituição total, é a rotina, que foi lembrada por Rafael (E): “A rotina suja os olhos, suja o olhar a rotina, porque depois de um tempo você já banaliza, é tudo igual, é sempre a mesma coisa, a rotina é a mesma”.

Born (1996) explica que se os idosos não tiverem uma programação planejada, a ILPI tende a ser extremamente monótona e os mesmos passam a desenvolver uma passividade aprendida. Se não planejados, os dias passam a se resumir na repetição de cuidados pessoais, alimentação e repouso. Portanto a rotina esbarra cruelmente na autonomia e liberdade dos idosos, pois estes passam a seguir apenas o que é imposto pela instituição.

Amaral (s/d, p. 3) descreve o ambiente institucional: “é comum encontrarmos idosos em posição de total passividade, à espera de serem conduzidos dos seus aposentos para o refeitório e de lá para a sala de televisão e de novo para o refeitório e de volta para seus aposentos, numa rotina mortificante”.

Três entrevistados relataram acompanhar a piora de pacientes logo após a institucionalização. Como indica Caliel (P) “Eu percebi assim, que entrou uma senhora bem lúcida e aos poucos, em pouco tempo ela foi deprimindo”. Segundo Brink (1983) viver institucionalizado acarreta em tensões adicionais à psique do idoso, o que pode gerar novas patologias ou agravar as já existentes.

O autor supracitado indica que a saúde mental não depende somente do estado orgânico da pessoa, mas também de sua percepção sobre esse estado. Se o sujeito fisicamente incapacitado não se considerar como tal, ele terá menor probabilidade de comprometer-se mentalmente. Da mesma forma

que se os sujeitos com poucas debilidades acreditarem que tem grandes prejuízos, poderão desenvolver maiores distúrbios emocionais (BRINK, 1983).

A institucionalização asilar é uma situação estressante e desencadeadora de depressão nos idosos, pois estes se vêem isolados de seu convívio social e tem que adotar estilos de vida diferentes do que estavam acostumados. O isolamento social leva o idoso a perder sua identidade, sua liberdade e autoestima, o que pode acarretar na recusa da própria vida (CARVALHO; FERNANDEZ, 1996).

A depressão na velhice “está associada com uma perda da auto- estima, que resulta da incapacidade do idoso de satisfazer suas necessidades ou impulsos” (CARVALHO; FERNANDEZ, 1996, p. 160). Brink (1983) indica que os sentimentos de inferioridade são a principal dinâmica intrapsíquica da depressão.

Complementando, Rafael (E) conta a história de uma professora, que por uma questão de doença foi institucionalizada. “Ela olhou pra mim e falou:

’olha, não tem como eu ficar bem nesse lugar, olha a minha volta, só tem louco, só tem velho. Eu vou morrer aqui dentro’. Não deu outra, ela psicologicamente se entregou, depois de uma semana não conversava mais com ninguém, depois de um tempo ela parou de comer, ela começou a ficar muito mal e teve que ser internada”.

Conforme exposto, as dificuldades de atuação do psicólogo nas ILPIs apontadas nas entrevistas são: a falta de clareza sobre a atuação do psicólogo neste contexto; a dificuldade em encontrar psicólogos que trabalham em ILPIs;

a falta de vínculo e integração entre os idosos; a carga emocional e estressante de cuidar de idosos institucionalizados; o rigor e a rotina de instituição total; a semelhança do trabalho com idosos ao trabalho com crianças e o acompanhamento da piora de idosos. Por fim, serão apresentados os benefícios que a atuação do psicólogo traz para o contexto das ILPIs.

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