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DIREITO AO TRABALHO

No documento Revista de Direito (páginas 121-125)

Conforme estudo realizado por Cervo (2008), as Constituições brasileiras sofreram evolução quanto às garantias no Direito do Trabalho. A partir da Constituição de 1934 foi previsto pela primeira vez a política trabalhista, envolvendo a previsão de criação da Justiça

do Trabalho, consignando os direitos de segunda geração, quais sejam os direitos sociais, econômicos e culturais, dentre os quais se destaca os direitos trabalhistas.

2.1 ÂMBITO CONSTITUCIONAL

Delgado (2006) explica que desde a Constituição de 1934, até mesmo durante as constituições autocráticas, ficou caracterizado forte tendência do fenômeno da constitucionalização do Direito do Trabalho, que significa a elevação de normas anteriormente previstas apenas em legislação infraconstitucional ao status de norma constitucional, além de realizar uma releitura desses direitos através dos princípios e normas constitucionais.

A Constituição de 1937 tinha como característica intervenção na ordem social e econômica, representando retrocesso em alguns aspectos dos direitos trabalhistas. Tal Constituição consagrou o direito ao trabalho como um dever social.

Cervo (2008) explica, ainda, que a Constituição de 1946, considerada uma das mais avançadas para a época, retomou as garantias e direitos aos trabalhadores assegurados na Constituição de 1934, dando continuidade à preservação das conquistas dos direitos dos trabalhadores, inserindo-os no capítulo da Ordem Econômica e Social, havendo ampliações significativas na Constituição de 1967.

A constitucionalização do Direito do Trabalho pode ser visto, de acordo com Lenza (2010), sob dois enfoques, “ordem legislativa” e “ordem doutrinária e jurisprudencial”.

Ocorreu a constitucionalização do Direito do Trabalho no ordenamento jurídico, o que demonstra o grau de importância da matéria.

Em 1988, com a constituição cidadã o direito ao trabalho foi retirado do capítulo da Ordem Econômica e Social, e inserido nos “Dos direitos e garantias fundamentais”, sendo erigido à posição de direitos e garantias fundamentais.

De fato ocorreu, então, o fenômeno da constitucionalização do Direito do Trabalho no ordenamento jurídico brasileiro. Entretanto, não se pode esquecer que atual a Constituição Federal também trouxe aspectos negativos, sobretudo o da flexibilização das normas trabalhistas.

A Constituição, art. 1º, IV, afirma que a República Federativa do Brasil, “formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado

Democrático de Direito e tem como fundamentos a dignidade da pessoa humana e os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa”, dentre outros.

O art. 3º estabelece os objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil, traz o de “erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais”, além de promover o bem de todos, sem qualquer forma de discriminação. Ainda, o seu art. 5º, caput, fala da inviolabilidade do direito à vida, que deve ser assegurado a todos os brasileiros e estrangeiros residentes no Brasil.

Todos os dispositivos apresentados servem de suporte para a consagração do trabalho como elemento importante para garantir a vida digna, além de proporcionar ao indivíduo condições mínimas de sobrevivência, tendo em vista que o direito à vida consiste tanto na prerrogativa de se manter vivo (isto é, não ver retirada a vida de modo artificial) quanto na necessidade de se garantir um tratamento digno com elementos minimamente existenciais, conforme Lenza (2010).

A Constituição de 1988 traz a valorização do trabalho humano como fundamento da República Federativa do Brasil, como princípio-base da ordem econômica e da ordem social, além de sua consagração como direito fundamental, concluindo pelo alto grau de importância do direito ao trabalho.

2.1.1 DIREITO FUNDAMENTAL AO TRABALHO E DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA

O direito ao trabalho está previsto no art. 7º, da Constituição Federal, dentre os direitos sociais que devem ser assegurados pelo Estado. A doutrina, capitaneada por Holthe (2009), aponta uma divisão quanto ao direito do trabalho consagrado no texto constitucional, a saber:

direitos individuais dos trabalhadores previstos no art. 7º da Carta Magna; e direitos exercidos de forma coletiva pelos trabalhadores, consagrados nos arts. 8º ao 11, da Constituição Federal.

No que se refere aos direitos individuais dos trabalhadores, o rol apresentado no artigo supracitado é meramente exemplificativo, nada obstante que a legislação infraconstitucional amplie-o. “A Constituição ainda deixou bem claro que os direitos nela enumerados são destinados tanto aos trabalhadores urbanos, quanto aos rurais, prestigiando o principio da igualdade, base dos direitos sociais” (HOLTHE, 2009, p.363).

Cervo (2008, p.45), em sua tese de mestrado, baseando-se em Robert Alexy, apresenta o direito fundamental ao trabalho e suas várias dimensões, destacando-se: “direito

fundamental ao trabalho enquanto direito de defesa, direito de proteção, direito de organização e procedimento, direito de prestação em sentido estrito”.

A Constituição traz também a dignidade da pessoa humana como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil, juntamente com a valorização do trabalho.

Para Sarlet (2007, p. 61), a dignidade da pessoa humana:

É qualidade intrínseca e indissociável ao ser humano, não podendo ser alienada, tornando-se elemento que qualifica a pessoa humana como tal, deve ser promovida e protegida, não podendo, todavia, ser criada, concedida ou retirada, posto que inerente a todo ser humano.

Dignidade da pessoa humana é elemento intrínseco à própria condição de existência humana.

Assim procede Sarlet (2007, p. 62):

Temos por dignidade da pessoa humana a qualidade intrínseca e distintiva de cada ser humano que o faz merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade, implicando, neste sentido, um complexo de direitos e deveres fundamentais que asseguram a pessoa tanto contra todo e qualquer ato de cunho degradante e desumano, como venham a lhe garantir as condições existenciais mínimas para uma vida saudável, além de propiciar e promover sua participação ativa e co-responsável nos destinos da própria existência e da vida em comunhão com os demais seres humanos.

A dignidade deve estar diretamente associada a um conjunto de garantias que visem assegurar indivíduos uma condição existencial mínima.

Cervo (2008, p. 95), apesar da dignidade da pessoa humana apresentar diveros graus de eficácia jurídica, “o grau de realização da dignidade humana não pode ficar aquém das condições materiais mínimas, eis que o chamado mínimo existencial corresponde à uma fração nuclear da dignidade da pessoa humana à qual se deve reconhecer a eficácia jurídica”.

A dignidade da pessoa humana é um valor supremo que nao pode ser suprimido.

O trabalho é “elemento que concretiza a identidade social do homem, possibilitando autoconhecimento e plena socialização” (DELGADO, 2006, p. 26).

Cervo (2008, p. 43) argumenta:

A existência digna da pessoa humana tem substrato no desenvolvimento econômico centrado na valorização do trabalho e da livre iniciativa, ambos, na forma do art. 170 da Constituição, são princípios e fundamento da República. O que pretende o ordenamento constitucional, na verdade, é que ambos os princípios, pela importância social que têm, conciliem-se e tomem o mesmo rumo, visando uma sociedade livre, justa e solidária, com diminuição das desigualdades sociais e regionais e proteção dos economicamente pobres e carentes.

Assim, direito ao trabalho, livre iniciativa e desenvolvimento econômico devem andar sempre atrelados, de modo a atingir os seus fins.

A partir do momento que é assegurado efetivação do direito ao trabalho o próprio indivíduo passa a ter condições de proporcionar a si mesmos os demais direitos sociais previstos na constituição, como moradia, alimentação, saúde, e outros. O trabalho serve como promoção da justiça social e como elemento de concretização da dignidade da pessoa humana, tornando possível a garantia de um mínimo existencial.

No documento Revista de Direito (páginas 121-125)