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DIREITOS IRRENUNCIÁVEIS DO EMPREGADO

Um dos mais importantes princípios do Direito do Trabalho é o da irrenunciabilidade, no qual existe a impossibilidade jurídica do empregado privar-se, por vontade própria, de direitos concedidos pela legislação trabalhista em benefício próprio.113

Cumpre ressaltar inicialmente, que no Direito do Trabalho o princípio da proteção ao empregado, constitui ordem basilar que dá origem a todos os demais princípios vigentes, como o da norma mais favorável, da

111 SÜSSEKIND, Arnaldo; MARANHÃO, Délio; VIANA, Segadas; TEIXEIRA, Lima. Instituições de Direito do Trabalho. 21. ed. atual. São Paulo: LTr, 2003. p. 198-199.

112 SÜSSEKIND, Arnaldo; MARANHÃO, Délio; VIANA, Segadas; TEIXEIRA, Lima. Instituições de Direito do Trabalho. 21. ed. atual. São Paulo: LTr, 2003. p. 200.

113 RODRIGUES, Américo Plá. Curso de Derecho Laboral. 1º vol.. Montevideo: Acali Editorial, 1979, p. 48.

imperatividade das normas trabalhistas e o da indisponibilidade dos direitos trabalhistas.114

Referente ao principio da proteção, menciona Delgado115: O princípio tutelar influi em todos os segmentos do Direito Individual do Trabalho, influindo na própria perspectiva desse ramo ao construir-se, desenvolver-se e atuar como direito.

Efetivamente, há ampla predominância nesse ramo jurídico especializado de regras essencialmente protetivas, tutelares da vontade e interesse obreiros; seus princípios são fundamentalmente favoráveis ao trabalhador; suas presunções são elaboradas em vista do alcance da mesma vantagem jurídica retificadora da diferenciação social prática. Na verdade, pode-se afirmar que sem a idéia protetivo-retificadora, o Direito Individual do Trabalho não se justificaria histórica e cientificamente.

Necessário é distinguir os conceitos entre renúncia e transação, posto que aquela é caracterizada pelo ato ou vontade unilateral do empregado, ao passo que esta é ato bilateral e conjunto, envolvendo vantagens e desvantagens mútuas.116

Referente a esta distinção, nos ensina Delgado117:

As leis sobre jornada de trabalho são transacionáveis, mas são irrenunciáveis. O empregado não pode renunciar ao adicional de horas extras. Seria nula tal manifestação de vontade em face do disposto no art. 9º da CLT, que considera nulo todo ato destinado a desvirtuar impedir ou fraudar a aplicação dos dispositivos legais. Não poderia também o empregado abrir mão da proteção da limitação máxima legal. O campo da transação é aquele, em primeiro lugar, indicado pela lei, como a redução da jornada com a respectiva redução dos salários em face da conjuntura econômica da empresa. Em segundo lugar, é aquele que, mesmo não indicado expressamente pela lei, resulte dos critérios determinados pelo art. 444 da CTL.

114 DELGADO, Mauricio Godinho. Curso de direito do trabalho. 4. ed. São Paulo: LTr 2004.

p.196-211.

115 DELGADO, Mauricio Godinho. Curso de direito do trabalho. 4. ed. São Paulo: LTr 2004., p.

197-198.

116 NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Iniciação ao direito do trabalho. 30. ed. São Paulo: LTr, 2004. p.347.

117 NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Iniciação ao direito do trabalho. 30. ed. São Paulo: LTr, 2004. p.347.

Semelhante a esse conceito assim distingue Sussekind118 a transação da renuncia:

O ato unilateral da renúncia se distingue nitidamente do ato bilateral da transação, (...), a renúncia, no Direto do Trabalho, corresponde “ao ato voluntario do empregado (ou empregador), pelo qual desiste de um direito a ele assegurado pelas fontes criadoras de direitos dentro dos limites de atuação”. Já a transação “é um ato jurídico pelo qual as partes, fazendo-se concessões recíprocas, extinguem obrigações litigiosas ou duvidosas”. A renuncia (...) “é um ato unilateral, enquanto que o contrato e a transação são imprescindivelmente, bilaterais.

No entanto, no âmbito laboral nem todos os direitos são irrenunciáveis, logo, por exemplo, é licito ao empregado renunciar seu emprego, por se tratar este de Direito Comum. Contudo, são irrenunciáveis os direitos criados expressamente por lei ou por norma de ordem pública, ensejando a nulidade do ato que afrontar ao referido princípio da irrenunciabilidade.119

Os artigos 9º, 444 e 468, da CLT, estabelecem a indisponibilidade de direitos, em regra, no Direito Individual do Trabalho. Senão vejamos:

O artigo 9º, da CLT, estabelece:

Serão nulos de pleno direito os atos praticados com o objetivo de desvirtuar, impedir ou fraudar a aplicação dos preceitos trabalhistas.120

No entanto, o artigo 444, da CLT, dispõe que os contratos poderão ser estipulados livremente pelas partes, contudo, desde que não violem as regras que protegem o trabalho, as decisões de autoridades competentes e seus respectivos contratos coletivos.121

118 SÜSSEKIND, Arnaldo; MARANHÃO, Délio; VIANA, Segadas; TEIXEIRA, Lima. Instituições de Direito do Trabalho. 21. ed. atual. São Paulo: LTr, 2003. p. 205-206.

119SAAD, Eduardo Gabriel. Consolidação das Leis do Trabalho: comentada. 40. ed. atual. e rev. e ampl. São Paulo: LTr, 2007. p. 509.

120 BRASIL. Consolidação das Leis do Trabalho. Decreto Lei n. 5.452. Art. 9º. Presidência da Republica. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br>. Acesso em: 20 fevereiro 2009.

121 BRASIL. Consolidação das Leis do Trabalho. Decreto Lei n. 5.452. Art. 444º. Presidência da Republica. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br>. Acesso em: 20 fevereiro 2009.

Já o artigo 468 da CLT, dispõe que só será licita a alteração das condições de trabalho se for por mútuo consentimento e se esta alteração não resultar em prejuízos ao trabalhador, sob pena de nulidade se assim for.122

Pinto Martins menciona uma situação da qual o empregado poderá renunciar direitos, ou seja, se ele renunciar diante do juiz do trabalho, não poderá ser alegado que o mesmo tenha sido forçado a renunciar de tais direitos.123

Por sua vez, Godinho distingue a indisponibilidade de direitos trabalhistas em absoluta e relativa, na qual aquela é merecedora de tutela de interesse público em um patamar mínimo, firmado pela sociedade quando referir-se à dignidade da pessoa humana ou quando se tratar de direito protegido por norma da respectiva categoria (ex: salário mínimo, reconhecimento de vínculo). Por sua vez a indisponibilidade relativa traduz o interesse individual ou bilateral que não caracterize um patamar mínimo firmado pela sociedade, e que não signifique efetivamente prejuízo ao empregado (compensação de jornada, salário).124

Verificada a disponibilidade de alguns direitos do trabalhador, faz-se necessário verificar a forma com que é feita a referida transação, a qual seja livre de vícios que possam limitar a manifestação das vontades entre os contratantes. Sobre o tema manifesta-se Bismark125:

A transação supõe uma relação jurídica onde há incerteza quanto aos direitos e obrigações e a eliminação desta perplexidade mediante concessões recíprocas. Difere da Conciliação (Art. 764, 831 e 846 da CLT), porque desta se incumbe o Juiz, visando uma composição justa, aceita pelas partes.

122 BRASIL. Consolidação das Leis do Trabalho. Decreto Lei n. 5.452. Art. 468. Presidência da Republica. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br>. Acesso em: 20 fevereiro 2009.

123 MARTINS, Sergio Pinto. Direito do trabalho. 23. ed. São Paulo: Atlas, 2007.

124 DELGADO, Maurício Godinho. Curso de direito do trabalho. 6. ed. São Paulo: LTr, 2007.

125 DINIZ, Bismark Duarte. Direito do Trabalho em Sala de Aula. Cuiabá, Univag/Unicen 2000, p.35.

E segundo Süssekind:

Cumpre salientar que a legislação brasileira exige alguns pressupostos para a validade da renúncia e da transação nas relações individuais de trabalho, quais sejam: a) natureza do direito sobre o qual versam (será nulo o ato que tiver por fim obstar a aplicação de direito cogente (arts. 9º e 444 da CLT));

b) capacidade para renunciar ou transacionar (é nulo o ato jurídico praticado por pessoa absolutamente incapaz e anulável se tratar-se de incapacidade relativa (art. 166, I e art.171, I)); c) livre manifestação do agente (inexistência do vicio de consentimento); d) forma prescrita em lei (nulo se não prescrito em lei (art. 166 do CC)); e) ato explicito, de interpretação restritiva (em virtude dos princípios que norteiam o Direito do Trabalho, a renuncia e a transação de direitos devem ser admitidos como exceção).126

Por fim analisando os conceitos, conclui-se: se a transação consiste em reciprocidade de concessões, ordinariamente, envolve renúncia. E se grande parte dos direitos do empregado são irrenunciáveis, pode-se afirmar que a transação será aplicável se não implicar renúncia de direitos do empregado e, se implicar, válida será, se não forem ofendidos os dispositivos cogentes do direito do trabalho, em especial o art. 9º, art. 444 e art.

468 da CLT.127

2.5 A FLEXIBILIZAÇÃO DAS LEIS TRABALHISTAS FRENTE ÀS