5.3 Escrita cient´ıfica
5.3.2 Diretrizes gerais
Os ´ındices s ˜ao listas de palavras ou express ˜oes citadas no corpo do texto seguidas do n ´umero da p ´agina na qual ocorrem. ´E poss´ıvel, tamb ´em, criar um
´ındice para os autores citados. Os gloss ´arios apresentam as palavras (geral- mente termos t ´ecnicos) utilizadas no texto e suas respectivas definic¸ ˜oes. A or- dem adotada para os gloss ´arios ´e a alfab ´etica. As refer ˆencias bibliogr ´aficas s ˜ao descritas em detalhes na sec¸ ˜ao 5.3.9.
quando as ideias j ´a est ˜ao claramente definidas na mente do redator;
• Precis ˜ao – as ideias devem ser apresentadas por meio das palavras e termos adequados. Deve-se, portanto, deixar claro o sentido (sempre o concreto e objetivo e nunca o figurado) das palavras e termos no contexto do trabalho (CERVO et al., 2007);
• Concis ˜ao– ´e uma das qualidades mais importantes de um trabalho cient´ı- fico: expressar, em poucas palavras e com exatid ˜ao, o que se deseja;
• Imparcialidade – o trabalho deve transmitir os conhecimentos sobre um determinado tema sem fazer ju´ızo de valores;
• Originalidade– o “novo” pode esta presente tanto na forma de apresen- tac¸ ˜ao quando no conte ´udo apresentado;
• Objetividade – “aborda o que ´e v ´alido, pr ´atico, estritamente adequado
`as circunst ˆancias, evitando divagac¸ ˜oes” (MARCONI; LAKATOS, 2001, p.
176). Volpato (2007), com base nos m ´etodos l ´ogicos de deduc¸ ˜ao e induc¸ ˜ao, conclui que todas as premissas necess ´arias, e apenas elas, devem estar presentes na argumentac¸ ˜ao. Enquanto Cervo et al. (2007) acrescentam que as express ˜oes subjetivas comoeu penso ouparece ser, as quais n ˜ao se fundamentam em dados e fatos concretos, devem ser evitadas;
• Ordem– o conte ´udo deve ser estruturado em uma ordem l ´ogica que facilite o entendimento do leitor;
• Harmonia – da mesma maneira que o conte ´udo de cap´ıtulos e sec¸ ˜oes
´e organizado logicamente, as partes da monografia tamb ´em devem esta- belecer uma ordem harm ˆonica de apresentac¸ ˜ao;
• Acuidade– as observac¸ ˜oes devem ser cautelosas em termos de forma e conte ´udo.
As monografias tamb ´em se diferenciam quanto ao foco. As monografias produzidas para obtenc¸ ˜ao de um t´ıtulo (TCC, dissertac¸ ˜ao e tese, por exemplo) t ˆem um foco diferenciado dos artigos cient´ıficos publicados em congressos e peri ´odicos. As primeiras visam a apresentac¸ ˜ao detalhada e completa de toda uma pesquisa elaborada em meses e at ´e mesmo anos. ´E preciso, portanto, relatar trabalhos correlatos em profundidade, descrever premissas e hip ´oteses com todas as justificativas poss´ıveis e dissertar sobre todos os experimentos
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realizados e resultados obtidos. Um artigo cient´ıfico, por outro lado, ´e uma produc¸ ˜ao bibliogr ´afica mais focada e direcionada para a comprovac¸ ˜ao de uma
´unica hip ´otese, restrita a limites de espac¸o de algumas poucas p ´aginas (de 4 a 20), edeadlinesde submiss ˜ao a eventos e peri ´odicos.
Outro ponto importante a se considerar no momento da redac¸ ˜ao de uma monografia ´e o p ´ublico alvo. E necess ´ario ter em mente para qual tipo de´ leitor seu trabalho ´e escrito e com qual objetivo. As monografias escritas como requisito para obtenc¸ ˜ao de um t´ıtulo de graduac¸ ˜ao ou p ´os-graduac¸ ˜ao t ˆem, geral- mente, dois p ´ublicos: um especializado que tamb ´em desenvolve pesquisas (pro- vavelmente na mesma ´area do trabalho) e outro, possivelmente leigo, que n ˜ao possui conhecimento t ´ecnico aprofundado sobre o tema apresentado.
Quanto ao estilo da escrita cient´ıfica, deve-se adotar sempre a impessoa- lidade (CERVO et al., 2007). No portugu ˆes ´e usual utilizar a terceira pes- soa evitando-se pronomes como “eu” (desenvolvi, testei, conclu´ı), “meu” (tra- balho, m ´etodo, objetivo), “minha” (pesquisa, ideia, abordagem) ou suas equiva- lentes ou similares no plural. Algumas dicas para tornar o texto impessoal s ˜ao:
usar palavras gen ´ericas, como “presente” (trabalho, estudo) ou “esta” (tese, dissertac¸ ˜ao, pesquisa); fazer do objeto o sujeito da orac¸ ˜ao (por exemplo, “o sis- tema alcanc¸ou 100% de precis ˜ao”); ou ocultar o sujeito (por exemplo, “a partir do exposto, conclui-se que. . .”). O uso da voz passiva (por exemplo, “o trabalho foi desenvolvido”) tamb ´em ´e adotado, por ´em alguns autores recomendam seu uso com parcim ˆonia uma vez que dificultam o entendimento do texto. Essas considerac¸ ˜oes se aplicam, principalmente, ao portugu ˆes, j ´a que no ingl ˆes, por exemplo, a primeira pessoa e a voz ativa s ˜ao encontradas com mais frequ ˆencia nas publicac¸ ˜oes cient´ıficas.
Outra conduta de valor que o aluno-pesquisador-autor deve seguir ´e a da mod ´estia e cortesia (CERVO et al., 2007). Um bom trabalho de pesquisa ´e capaz de defender sozinho o valor que possui e n ˜ao precisa, portanto, de propa- gandas exageradas de seus resultados e suas contribuic¸ ˜oes. Como muito bem dito por Cervo et al. (2007, p. 110): a finalidade de um bom trabalho de pesquisa
´e “expressar, e n ˜ao impressionar”. Assim, tanto a supervalorizac¸ ˜ao do pr ´oprio trabalho como o rebaixamento de obras alheias s ˜ao vistos com maus olhos, ou seja, deve-se dar o devido valor que cada trabalho (seu ou de outros) possui;
nem mais, nem menos.
Para Wazlawick (2009), a escrita cient´ıfica deve moderar no uso de adv ´erbios 78
e n ˜ao usar piadas, ironias e brincadeiras para expressar as ideias. Tamb ´em n ˜ao
´e recomend ´avel usar express ˜oes de tempo como “hoje em dia”, uma vez que o documento escrito ´e atemporal. Deve-se ter cuidado com o uso de palavras que expressem uma abrang ˆencia que n ˜ao se pode comprovar como “todos” ou “ne- nhum”. Se essa abrang ˆencia for desejada, ent ˜ao a afirmac¸ ˜ao forte que a cont ´em deve ser respaldada por uma citac¸ ˜ao a estudo pr ´oprio ou de outro autor. Por fim, o autor acrescenta que se deve evitar o uso de palavras em l´ıngua estrangeira e mai ´usculas desnecess ´arias, bem como colocar as negac¸ ˜oes no in´ıcio da frase e dar prioridade `as afirmac¸ ˜oes em detrimento das negac¸ ˜oes.
Marconi e Lakatos (2001) apontam alguns pecados na escrita cient´ıfica, como: usar per´ıodos muito longos ou muito curtos (atenc¸ ˜ao para a estrutura sujeito-verbo-objeto), repetir palavras, escrever frases desconexas, usar g´ırias, express ˜oes vulgares e chav ˜oes. A esses pode-se acrescentar o maior de to- dos os pecados, que ´e o uso incorreto da l´ıngua (portugu ˆes, ingl ˆes ou outra).
Deve-se atentar para a concord ˆancia (“os resultados foram demonstrado”), o paralelismo, a conjugac¸ ˜ao e o uso da crase. As ferramentas de edic¸ ˜ao de texto, com seus corretores autom ´aticos embutidos, facilitam bastante o processo de revis ˜ao ortogr ´afica e gramatical, contudo, n ˜ao se pode confiar cegamente nes- sas ferramentas. Isso porque elas ainda apresentam falhas, seja na cobertura do vocabul ´ario ou gram ´atica do idioma em quest ˜ao, seja na estrat ´egia de detecc¸ ˜ao de erro que empregam. Por exemplo, cabe ao aluno-pesquisador-autor saber diferenciar formas corretas de palavras correlatas como “an ´alise” (substantivo) e
“analise” (verbo) para us ´a-las da maneira adequada uma vez que, nesse caso, provavelmente, o revisor autom ´atico n ˜ao acusar ´a o uso indevido.
Cervo et al. (2007) lembram, ainda, que o uso de abreviaturas e siglas deve ser controlado. Al ´em disso, sempre que uma abreviatura for usada pela primeira vez no texto, ela deve vir acompanhada de sua forma por extenso, por exemplo:
Traduc¸ ˜ao Autom ´atica (TA). Se a quantidade de abreviaturas e siglas for suficien- temente grande, as mesmas devem ser organizadas em uma lista a parte como descrito na sec¸ ˜ao 5.3.1.
Cervo et al. (2007, p. 113) organiza um quadro contrastando as exig ˆencias e deformac¸ ˜oes da linguagem cient´ıfica, o qual ´e reproduzido na Tabela 5.1.
Agora que diretrizes gerais sobre escrita cient´ıfica foram apresentadas, o restante dessa sec¸ ˜ao tratar ´a, especificamente, sobre cada uma das partes com conte ´udo indispens ´avel em um trabalho acad ˆemico e, portanto, sujeitas `a avalia-
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c¸ ˜ao por parte da banca. S ˜ao elas (WAZLAWICK, 2009):
1. Resumo 2. Introduc¸ ˜ao
3. Revis ˜ao Bibliogr ´afica 4. Desenvolvimento 5. Conclus ˜ao 6. Refer ˆencias
Tabela 5.1 Exig ˆencias e deformac¸ ˜oes da linguagem cient´ıfica.
Exig ˆencias Deformac¸ ˜oes
Impessoal Pessoal
Objetiva Subjetiva, amb´ıgua
Modesta e cort ˆes Arrogante, dogm ´atica Informativa Persuasiva, expressiva Clara e distinta Confusa, equ´ıvoca Pr ´opria ou concreta Figurada
T ´ecnica Comum
Frases simples e curtas Frases longas e complexas Fonte: CERVO et al. (2007, p. 113).
Sendo que Revis ˜ao Bibliogr ´afica e Desenvolvimento podem se estender por v ´arios cap´ıtulos, conforme a necessidade de organizac¸ ˜ao e a quantidade do conte ´udo apresentado.
Essa ordem de ocorr ˆencia usual do trabalho escrito ´e pensada para apre- sentar o assunto tratado e a abordagem adotada em uma sequ ˆencia l ´ogica e in- cremental, que garanta o entendimento por parte dos iniciantes. Por outro lado, especialistas no assunto (como os membros da banca avaliadora do trabalho) provavelmente n ˜ao seguem essa sequ ˆencia em suas leituras. Para eles, o pri- mordial ´e avaliar o aluno e a qualidade do trabalho escrito, deixando a aquisic¸ ˜ao de conhecimento sobre o assunto tratado para o segundo plano, j ´a que eles est ˜ao bastante familiarizados com o mesmo. Desse modo, a banca tem outro 80
olhar sobre a monografia e realiza sua leitura em busca do principal primeira- mente para, s ´o ent ˜ao, atentar-se aos detalhes. Uma poss´ıvel ordem de leitura da monografia por parte dos membros da banca seria, por exemplo: Resumo, Refer ˆencias, Introduc¸ ˜ao, Conclus ˜ao, Desenvolvimento e Revis ˜ao Bibliogr ´afica (WAZLAWICK, 2009).
A pr ´opria escrita da monografia n ˜ao se realiza na mesma ordem de apresen- tac¸ ˜ao de suas partes. Sugere-se que o documento seja escrito “de dentro para fora”, ou seja, partindo-se de uma vis ˜ao mais minuciosa presente nas partes mais centrais como o Desenvolvimento e a Revis ˜ao Bibliogr ´afica e caminhando- se em direc¸ ˜ao a uma vis ˜ao mais abrangente presente na Introduc¸ ˜ao e na Con- clus ˜ao. Contudo, o processo de escrita n ˜ao ´e sequencial e muitas idas e vindas ser ˜ao realizadas no texto at ´e que se feche uma vers ˜ao est ´avel.
Na pr ´atica, ´e muito usual iniciar a escrita pela Introduc¸ ˜ao, recuperando parte do conte ´udo usado na elaborac¸ ˜ao do Projeto de Pesquisa (veja sec¸ ˜ao 3.4 na Unidade 3). Essa vers ˜ao inicial da Introduc¸ ˜ao ainda precisar ´a ser revisada e finalizada quando as conclus ˜oes j ´a estiverem escritas. Em seguida, escreve- se sobre os experimentos realizados para o Desenvolvimento do trabalho, bem como os resultados obtidos. Em paralelo, os trabalhos relacionados e conceitos fundamentais podem j ´a serem descritos na Revis ˜ao Bibliogr ´afica totalmente ou apenas como um “lembrete” para aprofundamento posterior. A Conclus ˜ao vem logo ap ´os a escrita do Desenvolvimento, uma vez que ´e uma consequ ˆencia dos resultados apresentados nessa parte. Por fim, sugere-se aprofundar a escrita da Revis ˜ao Bibliogr ´afica de trabalhos e conceitos realmente relevantes para a pesquisa em quest ˜ao e finalizar a Introduc¸ ˜ao agora que todas as demais partes est ˜ao prontas. O Resumo, ´e claro, ser ´a a ´ultima parte a ser escrita enquanto as Refer ˆencias Bibliogr ´aficas devem ser produzidas durante toda a escrita sempre que uma nova citac¸ ˜ao for realizada.
As subsec¸ ˜oes a seguir explicam e exemplificam o que se espera em cada uma dessas partes, e outras tamb ´em relevantes, que constituem uma mono- grafia.